O ISCAL ainda é "o prédio" no centro de Lisboa, mas está em obras de modernização enquanto aguarda a prometida (e aprovada) mudança para junto dos outros politécnicos. Até lá, formará docentes em IA.
O Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (ISCAL) quer ser uma instituição de ensino superior com mais “portas abertas” para o mercado e preparada para o efeito da inteligência artificial (IA) nas profissões ligadas às contas. O presidente Pedro Pinheiro, recém-nomeado após ser o único candidato a um segundo e último mandato, considera que os professores têm de passar de transmissores de conhecimento para curadores da aprendizagem, a qual se faz hoje entre algoritmos e chatbots.
Nos próximos quatro anos, Pedro Pinheiro tem três objetivos estratégicos: manter uma relação “sem barreiras” com as empresas, adaptar o ensino à nova geração de alunos – e futuros auditores, contabilistas e fiscalistas – e reforçar a capacidade para atrair estudantes internacionais, dentro do limite das paredes do “prédio” da Avenida Miguel Bombarda, em Lisboa.
Em entrevista ao ECO/EContas, o presidente do ISCAL explica ainda que está a investir, com o apoio do PRR, cerca de um milhão de euros em obras para modernizar o edifício, enquanto não ocorre a mudança para o campus do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL), um plano com 30 anos que está estagnado desde a pandemia, porque os custos de construção vão subindo “exponencialmente”. A estimativa é que a construção seja de 24 a 25 milhões de euros, mas faltam “10 a 12 milhões” do Estado.
Manter-se-á a liderar o ISCAL até 2030. No discurso da tomada de posse, em março, referiu “vontade de continuar o trabalho iniciado no mandato anterior”. O que ficou por fazer?
Uma instituição de ensino superior é sempre um projeto em construção, porque a nossa sociedade evolui cada vez mais rápido, o que nos obriga a estar sempre aqui. Se nos queremos manter atualizados, a dar uma resposta efetiva ao que a sociedade espera, terá que ser sempre um projeto inacabado. Acho que poderia fazer mais um, dois ou três mandatos (não posso, mas caso pudesse) e ia sempre encontrar desafios novos. Quando comecei a falar de temas como a IA, era uma miragem e hoje é uma realidade em cima da mesa.
Portanto, há coisas que ficaram por fazer, mas mais do que ficar por fazer, é aquilo que apareceu que nos leva a olhar para a realidade de uma forma diferente. Esta geração (os estudantes que nos chegam hoje) é diferente, o que nos obriga, do ponto de vista de metodologias de ensino, a trabalhar de uma forma diferente. O que o mercado espera deles é diferente, o que nos obriga a reequacionar o que lhes damos enquanto estão cá. O que se espera de uma instituição de ensino superior é diferente do que era há 10 anos e, se calhar, do que no [meu] primeiro mandato. Agora, há de facto aqui um projeto grande que ficou por concretizar… O do edifício.
O que está a travar a mudança do edifício?
Questões meramente financeiras, de natureza orçamental. É um projeto que já passou por vários presidentes. Já se arrasta há três décadas, por aí. Houve vários momentos que fizeram com que o preço do custo de construção aumentasse exponencialmente. Em primeira instância, a invasão da Ucrânia, mais recentemente todas estas questões [da guerra do Médio Oriente] que temos vindo a viver, o que faz com que o fosso entre o que o ISCAL ou IPL têm para investir e o custo real para a construção do edifício seja cada vez maior. Estamos sempre dependentes do apoio do Orçamento do Estado para suprir esse diferencial. Por n razões, não tem sido uma tarefa possível de concretizar.
À data, de quando precisavam para construir e passar o ISCAL para o campus do IPL?
Para construir, de acordo com o projeto que temos e a última atualização que fizemos de preços, com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística para este tipo de construção, está na casa dos 24 a 25 milhões. O que nos faltará, neste momento, será 10 a 12 milhões. Ou há um compromisso claro do Estado, no sentido de assumir que é prioritário investir no ensino superior e na requalificação das instalações do ISCAL, ou então será sempre muito difícil, porque o valor das propinas tem-se mantido praticamente inalterado ao longo dos últimos anos. Não é fácil uma instituição como esta, sozinha, resolver este problema. Achamos que já é altura de a tutela olhar para este problema e dizer “precisamos de ajudar”.
Já tiveram oportunidade de fazer novos contactos com o Governo nesse sentido?
Já tivemos. Da parte do Ministério da Educação, a abertura é total. A questão que levantam é que não depende deles a questão financeira/orçamental, portanto, temos um caminho que ainda é preciso percorrer para chegar aí. Também consigo perceber que há timings melhores e piores. Infelizmente, Portugal foi assolado pelas tempestades, e o foco é – e tem de ser – outro, porque há uma necessidade premente de apoio para aquelas comunidades. Estamos à espera de uma janela de oportunidade.
Em abril de 2021, o Governo autorizou o IPL a avançar com o contrato de empreitada da construção das novas instalações do ISCAL, junto à Estrada de Benfica. A despesa prevista de 2021 a 2024 era de 13,2 milhões de euros.
Depois das tempestades, o ataque ao Irão. Ainda espera uma janela de oportunidade com toda esta volatilidade internacional?
Sou otimista por natureza. Acho e quero acreditar que existe uma preocupação genuína com o interesse de 3.500 estudantes e da comunidade com mais cerca de 250 trabalhadores. Estamos há 30 anos à espera de instalações, e durante 30 anos continuámos a cumprir a nossa missão: formar para o mercado de trabalho. Temos uma taxa de emprego de cerca de 100%. Quero acreditar que um dia teremos o retorno deste investimento feito diariamente, porque há aqui uma ginástica muito grande para conseguir manter esta máquina a funcionar. As salas são mais pequenas do que deviam, os espaços de trabalho são insuficientes, para não dizer inexistentes. [Gora] a expectativa dos próprios estudantes quando vêm para o ensino superior do ponto de vista de formação e experiência académica. Tentamos fazer o máximo possível, mas há aqui uma limitação da infraestrutura.

Há muitas desistências por esse motivo? Um aluno que vem ao Open Day e depois fica desapontado com as infraestruturas?
Desistências não. O ISCAL tem um traço interessante: estranhamente, as pessoas quando entram apaixonam-se e não saem. O prédio em si tem uma mística e é histórico. Para os estudantes, é o prédio. Nós podemos criticar o prédio, mas muitas vezes não aceitamos da mesma forma que outros o critiquem. Se um edifício diferente traria uma atratividade ainda maior à instituição? Sem dúvida. Se já a temos, com outro tipo de condições, o potencial seria muito maior, até de crescimento. Aqui o espaço é exíguo. Porque é que não há mais licenciaturas ou mestrados? Não temos espaço.
Sente que não estão em pé de igualdade com outras instituições?
Do ponto de vista da infraestrutura, sim. No comparativo, é injusto, porque pedem-nos que façamos exatamente o mesmo que qualquer instituição de ensino superior com os recursos que temos para trabalhar.

Neste compasso de espera da construção, decorrem obras. Vão estar concluídas a tempo do início do próximo ano letivo? De quanto é o investimento?
Espero que sim. Neste momento, o total será para cima de um milhão de euros que serão investidos. Ainda ao abrigo do PRR, foi substituído e repensado o sistema de iluminação e de climatização, para ser energeticamente eficiente e ter as condições adequadas ao contexto de sala de aula. Para que a iluminação tenha por base um estudo prévio. A climatização também foi alargada a todos os espaços do ISCAL. No verão, vamos reestruturar o espaço que temos na cave, onde está a zona de trabalho dos estudantes, cantina, bar e afins. Transformá-lo num espaço de estar, que seja agradável e atrativo para trabalharem e estabelecerem relações. Durante o tempo em que aqui estão, os nossos estudantes têm de ter a capacidade de construir experiências e de criar memórias do tempo que passam aqui. As memórias de um estudante e as experiências que devem levar do ensino superior têm de ser mais do que as que se passam dentro da sala de aula. Depois, vamos requalificar todos os pisos, pintando, substituindo a sinalética, deixando o espaço mais clean, com menos poluição visual.
No verão, vamos reestruturar o espaço que temos na cave, onde está a zona de trabalho dos estudantes, cantina, bar e afins. Transformá-lo num espaço de estar, que seja agradável e atrativo para trabalharem e estabelecerem relações.
É algo que os estudantes estrangeiros valorizem? Como se estão a posicionar na internacionalização?
Sim, quando percecionam a centralidade das instalações face à cidade, no contexto que muitos vêm, de instituições de fora da cidade ou com um conceito de centralidade completamente diferente do nosso. Hoje em dia, toda a gente espera que as instituições tenham uma dimensão internacional. Neste momento, vemos um aumento no número de estudantes internacionais matriculados e alunos de Erasmus que vamos recebendo. No ano letivo 2025/2026, são 157 e 115, respetivamente.
Se nós pensarmos em Londres, quando alguém diz que mora a uma hora de distância ninguém estranha. Quando perguntamos aos estudantes de Erasmus qual a experiência que privilegiam, tirando o desenvolvimento técnico-científico, dizem a centralidade. O ISCAL tem uma localização altamente privilegiada. A cidade é o nosso campus. As valências estão para além destas paredes, mas na freguesia das Avenidas Novas, nas freguesias limítrofes, no espaço ao ar livre da Gulbenkian, a cinco minutos a pé. Vamos tentar integrar esta visão.

No Linkedin identificam-se como Lisbon Accounting and Business School. Face às recentes problemáticas com os nomes em inglês de outras universidades públicas, identificam-se com as preocupações de alguma das partes? Já sentiram pressão do IPL para evitar essa ‘tradução’?
Não. Nós comunicamos o Lisbon Accounting and Business School apenas para fora, e cá dentro mantemos sempre o ISCAL e depois o descodificado em português. Nunca sentimos a necessidade de mudar. Também devo dizer que não tenho nada contra – muito pelo contrário – aos nomes em inglês. Acho que cada escola deve ter o seu projeto próprio e o que faz sentido no seu posicionamento. No nosso, ainda não fez sentido equacionar esse tópico. A marca reconhecida no mercado é ISCAL, independentemente da descodificação. Até admito que existam pessoas que conheçam só por ISCAL, sem saber descodificar [a sigla].
Então, não têm diretrizes sobre os nomes?
Não, o IPL dá completa abertura a cada escola para gerir essa questão da forma como entender.
Vemos um aumento no número de estudantes internacionais matriculados e alunos de Erasmus que vamos recebendo. No ano letivo 2025/2026, são 157 e 115, respetivamente.
Enquanto aqui estamos, avizinha-se uma nova eleição do reitor da Universidade Nova de Lisboa, que se arrasta desde o ano passado. Acha que estes revezes eleitorais mancham a imagem de coesão do ensino superior português?
Eu não sei se mancha, mas era preferível que não existissem. Partindo do pressuposto de que as instituições têm órgãos que são democraticamente eleitos, a partir do momento em que o são, têm alguma legitimidade para tomarem as suas decisões. Agora se, de facto, existem problemas ou constrangimentos legais na base da eleição, aí pode fazer algum sentido que sejam discutidos, até para bem da transparência do processo. Todas as discussões que visem robustecer o processo democrático dentro das instituições de ensino são bem-vindas, para que não exista nenhum tipo de sombra, nenhum tipo de dúvida sobre a forma como as instituições funcionam.
A IA, como mencionou inicialmente, está a alterar o trabalho dos auditores e fiscalistas. O seu corpo docente está preparado para dar resposta ao impacto desta tecnologia e conseguir preparar o Contabilista 3.0 de que a Ordem tanto fala, por exemplo?
Se os professores estão preparados? Uns estarão mais e outros menos. Agora, também compete à instituição – e no limite compete-me a mim – criar programas que permitam ajudar nesta transição. A ideia é definir primeiro onde queremos chegar do ponto de vista das alterações metodológicas, e depois ajudar, através de formação e de fóruns de discussão. Na minha opinião, [a IA] vem a alterar completamente o paradigma da relação que existia entre professor e aluno. Hoje, o estudante tem um conjunto de meios que, em muitos casos, não vou dizer que substitui o professor, mas que o obriga a ter um papel diferente neste processo de desenvolvimento de competências. O professor vai passar a ter que ser mais quase um curador do processo de aquisição de competências, porque vai tentar reunir um conjunto de ferramentas, conjugá-las com aquelas metodologias mais tradicionais que temos, e apresentar ao aluno todo um processo que lhe permite transformar uma disciplina numa experiência de aprendizagem. É importante que as instituições olhem para este paradigma, sob pena (e o ISCAL incluído) de, a muito curto prazo, podermos correr o risco de que a perceção dos alunos seja de que as aulas que damos não têm interesse para si ou não são o que estão à procura.
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“Faltará 10 a 12 milhões” do Estado para mudar ISCAL para campus de Benfica
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