“Financiamento do Estado pode ser reduzido a metade” na Transtejo

Um "hop on hop off" entre as duas margens, ginásio e supermercado nos terminais, táxis no rio e estacionamento pago são parte do plano de rentabilização para a Transtejo, anuncia o seu presidente.

Rui Rei, presidente da transportadora pública do Tejo, quer reduzir o défice da Transtejo-Soflusa para metade, o que significa retirar na mesma proporção a necessidade de injeção de capital feita pelo Estado. Desde logo, remodelar o terminal do Barreiro para lhe dar vida comercial, bem como vender bilhetes integrados para turistas, entre o Cais do Sodré e o topo do Cristo Rei.

A nossa operação, no total, custa 35, 40 milhões. Nós temos um défice de 20 e poucos milhões, portanto, metade da operação não se paga”, explica Rui Rei, numa entrevista feita no terminal do Cais do Sodré, com o Tejo sobranceiro ao escritório e a buzina dos barcos a zarpar em permanência.

O turismo é, precisamente, uma das estratégias decididas nestes quase seis meses desde que assumiu funções a 13 de outubro. O ex-presidente da Parques Tejo partilha, agora, com o ECO/Local Online, o plano traçado para trazer novas receitas a uma empresa pública cronicamente deficitária.

No aniversário da empresa, na viagem inaugural do vosso décimo navio elétrico, aludiu a uma eventual operação turística. Quando e como vai isso acontecer?

Temos três cacilheiros, dois operacionais e um em reparação, e vamos retornar o navio São Paulus, que era operado pela Carristur. Estamos à procura de fechar o acordo com a Carristur e passarmos a ser nós a fazer a operação do Tejo. Queremos voltar a dar serviço ao São Paulus, um navio lindíssimo. Enquanto não temos o São Paulus operacional, temos de fazer com os nossos cacilheiros.

Que percurso vão fazer?

Cais do Sodré – Belém – Trafaria – Porto Brandão – Cacilhas – Cais do Sodré. Fazer esta circulação regular, tal como se faz circulações regulares em Terra.

Navio São Paulus - foto do site Carristur
A Transtejo-Soflusa quer recuperar o navio São Paulus, um ex-cacilheiro que esteve durante anos a navegar em operações turísticas sob a chancela da CarristurCarristur

Uma espécie de “hop-on hop-off” como temos em autocarros em Lisboa e pelo mundo fora?

O turista, se quiser, compra um bilhete e faz esta viagem. Depois, podemos fazer outras que se encontrem como necessárias. Por exemplo, não temos nenhuma ligação entre o Parque das Nações e o Terreiro do Paço.

A operação turística pode ser feita com os atuais barcos?

Pode. Ou, então, com embarcações mais pequenas, os chamados táxis no Tejo. Inclusive, privados podem fazer isso. Os nossos terminais, com exceção de Belém, são exclusivamente de transporte público. Do nosso ponto de vista, não devem ser. Devem ter transporte público e transporte privado.

No Barreiro faturo 4,1 milhões de euros em ocasionais, em Cacilhas faturo 4,6 milhões. Só que o Barreiro transporta 11 milhões, Cacilhas transporta sete milhões, mas produz mais […] Mais de 80% das minhas passagens aqui são de turismo.

Olhando a operação regular, onde faturam mais?

No Barreiro faturo 4,1 milhões de euros em ocasionais, em Cacilhas faturo 4,6 milhões. Só que o Barreiro transporta 11 milhões, Cacilhas transporta sete milhões, mas produz mais. Eu transporto mais pessoas com um passe daquele lado e com ocasional, mas em termos de rendimento por cidadão, o valor aqui [Cais do Sodré – Cacilhas] é superior, porque mais de 80% das minhas passagens aqui são de turismo.

E esse turista vai a Cacilhas fazer o quê? Já estudaram esse fluxo?

Vai para o Cristo Rei. A meio da manhã, fazem, às vezes, fila para apanhar a embarcação para o outro lado. Aí, vamos passar a vender o bilhete único, que é Cais do Sodré, Cacilhas, 1301, que é o autocarro, e o passe para entrar no Cristo Rei. O turista o que precisa é de facilidade e previsibilidade, não precisa de desconto.

Outra coisa que temos de fazer é transformar os nossos terminais, como ativos. Têm de ser polos de atração comercial para que os nossos cidadãos e os outros possam fazer aqui as suas compras, tirar partido dos serviços e, ao mesmo tempo, a empresa ter outro tipo de receitas.

Ter, por exemplo, um supermercado, como há aqui ao lado na estação da CP, e que há anos se vê com elevada afluência.

Exatamente. Aquele supermercado é talvez dos mais pequenos que o Pingo Doce tem. Temos de olhar para isso. E os presidentes de Câmara estão alinhados connosco. Os presidentes da Câmara do Seixal e do Montijo têm uma visão muito adequada, ‘temos aqui esta estação, este terminal tem de ser mais do que isto’. O que impede aquele terminal de ter um supermercado, um conjunto de lojas e atratividade que hoje não tem? No Barreiro, o nosso terminal tem um ou outro café. Os nossos clientes não têm um serviço como deveriam ter no Barreiro. Já temos um pré-estudo para o terminal do Barreiro, para dar conforto aos clientes e serviço ao terminal.

Rui Rei, presidente do Conselho de Administração da TTSL – Transtejo Soflusa, em entrevista ao ECO/Local Online Hugo Amaral/ECO

Quando o vão implementar?

Estão ali umas pessoas à minha espera [para uma reunião numa sala ao lado daquela onde decorreu a entrevista], para ver se há interessados neste investimento. Tal como aqui no Cais do Sodré. Vamos ter novidades aqui, dentro dos próximos dois, três meses.

Por exemplo…

Eventualmente ginásio, algo ligado às comidas, às bebidas, coisas que as pessoas sentem como necessidade. Não ser só de passagem. As pessoas vão de volta para casa, podem levar o que têm que levar… e quando vêm de manhã, podem passar e levar. Para as pessoas que vivem aqui à volta, este terminal [Cais do Sodré] pode ser uma centralidade, mais do que é hoje. Este terminal movimenta todos os anos dez milhões de pessoas, mais coisa, menos coisa. Tem de ter mais. Eu sou um defensor de um serviço público prestado por uma empresa pública, agora, para isso nós temos que fazer pela vida.

Qual é o atual défice da operação da empresa?

De 20 e poucos milhões [de euros] por ano. A nossa operação, no total, custa 35, 40 milhões. Nós temos um défice de 20 e poucos milhões, portanto, metade da operação não se paga. Não se paga porque nós operamos a 1,60 euros o bilhete aqui em Cacilhas. Não é só dizer que a empresa é ineficiente. Não, o serviço público não gera dinheiro. Se a empresa de autocarros só for gerida ao preço do bilhete, não se paga. Por isso é que tem as compensações no Estado. Faz sentido que um turista, para passar nesta ligação, pague 1,60 euros?

Na nossa passagem aqui [Cais do Sodré – Cacilhas], durante o dia, mais de 90% durante o dia são turistas. Com a mudança que estamos a fazer na bilhética, podemos vir a fazer discriminações positivas aos cidadãos nacionais e aos cidadãos de Lisboa e das outras margens.

Aqui há uns anos, a Carris aumentou em grande medida o bilhete de bordo do elétrico, alegando que os turistas, com bilhete comprado a bordo, atrasavam bastante a operação. A verdade é que os turistas não pararam de afluir aos elétricos com tarifa de bordo, o que deve significar um bom aumento de verbas.

Na nossa passagem aqui [Cais do Sodré – Cacilhas], durante o dia, mais de 90% durante o dia são turistas. Com a mudança que estamos a fazer na bilhética, podemos vir a fazer discriminações positivas aos cidadãos nacionais e aos cidadãos de Lisboa e das outras margens.

Isso é permitido pela lei?

Eu diria que é, mas essa é uma opinião que me vincula a mim. Temos isso em muitas outras áreas em que discriminamos positivamente os cidadãos nacionais em detrimento de outros.

Se olharmos o estacionamento em Oeiras, que era a sua área, na Parques Tejo, os habitantes do concelho têm estacionamento gratuito.

Discriminávamos positivamente os munícipes em detrimento de outros cidadãos que não eram munícipes. Tem 120 minutos por dia de estacionamento gratuito para escolher em toda a região. Neste caso, era em Oeiras, mas há outros municípios, Cascais, e outros, onde isso se faz. Digitalmente, podemos fazer isso de forma mais simples. O que não podemos dizer é que o serviço público, ou bilhete a preço subsidiado, tem de ser para todos. Não é possível.

Que contributo espera alcançar com o turismo?

Nós podíamos reduzir a metade do financiamento do Estado. O financiamento do Estado pode ser reduzido a metade nesta empresa. Estamos a trabalhar para isso.

A liberalização do transporte fluvial no Tejo tem vários defensores. Nas autárquicas de outubro e nas legislativas de há um ano, a Iniciativa Liberal colocou-o mesmo no programa eleitoral. A Transtejo-Soflusa está preparada?

Não tenho nenhum problema em que o Estado queira fazer um contrato com a Transtejo semelhante ao que faz com os privados. Aliás, isso é um tema que já falámos com os sindicatos variadíssimas vezes. Eu não sou a favor do capitalismo sem capital. Agora, o que eu não posso ser a favor é dos capitalistas que se sentam à sombra do Estado.

Se digo ‘as empresas públicas são más, são tudo más’, mas depois uma boa parte do setor privado só avança com o dinheiro do Estado… veja-se o que aconteceu com as autoestradas. Grandes capitalistas, grandes capitalistas, mas o risco fica todo do lado do Estado.

Uma responsabilidade de quem assinou pelo Estado, não?

Obviamente. Mas isso não é ser um empresário. Ser um empresário em que o risco está todo do outro lado, eu também quero! Põe lá dinheiro, que na maior parte dos casos nem é seu, é da banca, é de acionistas, nem é seu, é de terceiros. O problema, se vier, é sempre de alguém, que não nosso. Assim, também quero.

Mas repito a pergunta: a empresa está preparada para enfrentar um operador forte que se apresente numa eventual liberalização?

Não tem problema. Então, mas porque é que ainda não se instalaram? A que custo opera o transportador do Sado? Não vende bilhetes a 1,60 euros, pois não? Quanto é que lhe custa a passagem de carro no Sado?

Um casal de turistas observa a chegada de um navio de passageiros, no Terreiro do Paço, em Lisboa.ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Na passagem de Setúbal para Troia paguei no final de dezembro cerca de 25 euros num carro, com passageiro.

Sabe quanto é que paga aqui em Belém? [para Trafaria] Paga 3,30 euros, se não estou enganado, mais um passageiro, 1,50 ou 1,60 euros. É uma grande diferença, não é? Àqueles preços também eu quero.

E o que vos limita a aumentar?

O serviço público tem de ser prestado. Eu sou um profundo defensor da iniciativa privada, mas da iniciativa privada por mérito. Não sou a favor daqueles que querem substituir o setor público com monopólios do setor privado. Isso não faz sentido. Querem-se instalar aqui no Tejo para operar, perfeito, cinco estrelas, não temos nada contra. Enquanto administrador público, não tenho medo nenhum disso, têm é que me permitir as mesmas condições.

"Qual é o administrador privado que paga com os seus bens pessoais? O administrador da Brisa paga com os seus bens pessoais? Não paga. O administrador da Fertagus paga com os seus bens pessoais? O administrador da Brisa tem lá o Ministério Público a verificar quantas vezes almoça e janta? Não tem. Tem de justificar os seus investimentos e de pedir autorização ao Ministério das Finanças? Não tem. Ele sabe com o que conta a cada ano e, eventualmente, a dois e a três anos. Nós, muitas vezes, não sabemos, porque o Estado não tem condições.”

Nós temos uma preocupação com o serviço público e quanto custa o serviço público, por isso digo que temos de rentabilizar os espaços.

Além do turismo, onde há potencial de faturação por aproveitar?

Publicidade, por exemplo. Vamos lançar agora um concurso para a concessão da publicidade, mas enquanto não tenho esse concurso, que terminou, estamos a fazer publicidade ao pé dos navios, nos pontões, estilo aeroporto. Se não estou enganado, estamos a receber 3.000 euros por mês. O que estamos a fazer é gerir a empresa prestando o serviço público, e no resto maximizar.

Diria que só em publicidade tínhamos de ter mais de um milhão de euros por ano.

Os vossos navios são um grande outdoor, como os autocarros.

Já lançámos esse desafio, e no concurso vai lá estar a publicidade. Já temos um navio ‘vinilado’ com a Coca-Cola e queremos que algum operador pegue nos navios elétricos. É uma montra tremenda. Vamos entregar a concessão do estacionamento do Barreiro, vamos criar oportunidades aqui à frente desta estação [Cais do Sodré].

Vão tarifar estacionamento aqui no Cais do Sodré?

Claro. Isto não pode estar aqui sem gerar retorno à empresa, e é uma despesa.

Devia ter parquímetros, por exemplo?

Do meu ponto de vista, devia, é a zona nobre da cidade.

O transporte fluvial, noutros países, faz-se também com táxis. Na sua opinião, há aí potencial para a empresa?

Se for um táxi com muita flexibilidade, pode ter cinco, dez lugares, 20 lugares. Há uma oferta muito interessante em Copenhaga, que a embarcação é pequena, tem 50, 60 lugares, dois tripulantes e atraca de proa.

É verdade que é, um rio, parece um lago. O Tejo, nesta zona, não é bem um rio, tem uma grande influência do mar, e tem muitos dias aqui com grandes problemas de amarração e de atracar. Os nossos maiores problemas com os navios a atracar aqui nem foram durante as tempestades. Já fora das tempestades, tivemos um problema durante uma quinta e uma sexta-feira, de ventos e correntes como nunca tínhamos tido aqui. Aquele navio que está ali a atracar demorava às vezes 15 minutos para atracar. Do lado de lá, atracava com facilidade, mas demorava dez minutos a sair. Nessa mesma noite, na sexta-feira, já de madrugada, tivemos um navio destes na nossa doca que o vento lhe pegou e o mandou contra a muralha de fora da Doca 13.

Às vezes estou aqui, fico um bocado a olhar, e vejo a dificuldade que eles [mestres] têm em fazer este trabalho. Com os navios anteriores era um bocadinho mais fácil, porque são em alumínio e ferro, estes navios são fibra de vidro. Se batermos muito, parte. É preciso algum cuidado.

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