Ricardo Araújo, social-democrata que conquistou a "cidade berço" ao PS, cumpriu 100 dias à frente da autarquia. Em entrevista ao ECO/Local Online aponta o rumo da economia, pelouro que chamou a si.
Ricardo Araújo conquistou a Câmara de Guimarães numa das grandes surpresas da noite eleitoral de 12 de outubro, remetendo para a oposição o PS, governado nos 12 anos anteriores pelo socialista Domingos Bragança, num longo reinado socialista de 36 anos. Em entrevista ao ECO/Local Online por ocasião dos 100 dias de governação, o social-democrata que abandonou o Parlamento — onde estava desde o primeiro Governo de Luís Montenegro — para se candidatar à sua terra natal anuncia a sua estratégia económica, que inclui uma agência de desenvolvimento, não escondendo a proximidade à vizinha Braga Invest.
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“Vamos criar um instrumento de trabalho para operacionalizar esse plano estratégico, que há-de ser uma agência para o desenvolvimento económico”, diz. “Precisamos de diversificar o nosso tecido económico para áreas com forte valor acrescentado, centros tecnológicos, e que possam, por isso, ter melhores remunerações”.
Considerando que chama a si os pelouros do desenvolvimento económico e dos fundos comunitários, que temos agora um novo quadro comunitário, o que é que tenciona fazer para recuperar o atraso de Guimarães?
O desenvolvimento económico é um dos três pilares [da estratégia de governação] e, por isso, decidi ficar com essa responsabilidade diretamente. Guimarães é um concelho com uma fortíssima tradição industrial em setores como o têxtil, o calçado, as cutelarias, a metalomecânica, mas que precisa rapidamente de diversificar o seu tecido económico-empresarial. Temos como desígnio melhorar a qualidade de vida, fazer de Guimarães uma referência de qualidade de vida na Europa e para isso, uma das componentes é também elevarmos o salário médio.
Precisamos de diversificar o nosso tecido económico para áreas com forte valor acrescentado, centros tecnológicos, e que possam, por isso, ter melhores remunerações. Precisamos de complementar isso com uma fortíssima aposta na inovação. Só assim vamos, no prazo de uma década, conseguir elevar o salário médio.
Tendo a Invest Braga, aqui ao lado, como exemplo?
Acredito que é a aplicação da investigação, do conhecimento e da ciência na economia real que produz o valor acrescentado nos diferentes setores da atividade económica, seja nos produtos, seja nos processos. Permite aumentar o valor acrescentado e tornar as empresas mais competitivas e, portanto, mais rentáveis. Sendo mais rentáveis, podem distribuir a remuneração da sua atividade empresarial.
A par disto, temos competências endógenas extraordinariamente favoráveis para que isso aconteça. Por um lado, uma competência que advém da nossa tradição histórica industrial. Não somos uma cidade de serviços, somos uma cidade com uma competência familiar, se quiser, porque cada uma das nossas famílias, ou o mais velho ou o mais novo, está lá sempre alguém que tem esta competência industrial, de fábrica, de indústria, de produção, de processos produtivos. Temos competências endógenas que podem ser alavancadas para novas áreas de maior rentabilidade.
Temos uma segunda competência endógena, os centros de conhecimento, como a própria Universidade do Minho em áreas de ponta. Nas engenharias de materiais, dos polímeros, da aeroespacial, áreas de ponta tecnológica, áreas de ponta de investigação mundial, de economia de futuro.
Não tenho problema em copiar os bons exemplos. Temos é que ter proatividade.
Temos de pegar nestas competências endógenas e fazer este interface com a economia real. É por isso que digo que temos de diversificar a economia. Precisamos agora de um instrumento para fazer esta ligação entre universidades, empresas, captar investimento externo. Pegar nisto e comunicar para o exterior, para que o os investidores possam olhar para Guimarães como um concelho onde vale a pena investir. Para isso, estamos a fazer duas coisas em concreto: um plano estratégico para o desenvolvimento económico de Guimarães — está em curso a sua elaboração — e, na sequência desse plano, vamos criar um instrumento de trabalho para operacionalizar esse plano estratégico, que há-de ser uma agência para o desenvolvimento económico, enfim, para captação de investimento, um instrumento que permita fazer a alavancagem de um programa claro de fortalecimento da política económica municipal. Um plano de desenvolvimento económico e uma agência para a sua implementação.
Falta uma terceira dimensão, a promoção do empreendedorismo e o apoio a esse empreendedorismo, e criar essas condições para que haja essa experimentação empresarial.
[Braga] é a evidência de que um bom plano bem executado com os instrumentos à disposição traz resultados. Agora, não precisamos de copiar tudo igual. Eles fazem um plano num determinado sentido, nós podemos fazer um plano noutro.
Uma Invest Guimarães e uma Startup Guimarães, como tem Braga?
É um bom exemplo, o trabalho que fizeram. Não tenho problema em copiar os bons exemplos. Temos é que ter proatividade. O fundamental é ter a estratégia bem definida.
Já tem os nomes para liderar essas estruturas?
Não quero falar sobre isso neste momento. Tenho várias pessoas da minha cabeça.
A Invest Braga, que faz 12 anos, e a Startup Braga, têm captado investimento. Só para startups, anunciam qualquer coisa como 500 milhões de euros.
É a evidência de que um bom plano bem executado com os instrumentos à disposição traz resultados. Agora, não precisamos de copiar tudo igual. Eles fazem um plano num determinado sentido, nós podemos fazer noutro.
Precisamos de nos tornar competitivos e atrativos
“Temos um contexto dos quatro grandes concelhos do Minho serem liderados por quatro presidentes sociais-democratas. […] é uma oportunidade para consertar uma agenda política comum de desenvolvimento regional”, assegura Ricardo Araújo, presidente da Câmara Municipal de Guimarães, em entrevista ao ECO/Local Online.
É possível unir esforços entre concelhos e CIM?
Acho que tem de haver articulação, e deve haver. Acho normal que, neste momento, cada concelho crie os seus instrumentos de competitividade, afirmação e atratividade. As cidades também competem entre si, isso é saudável. Devem é articular esses instrumentos entre si. Guimarães pode definir determinados setores de atividade económica que podem ser âncora, podem ser o seu target, e Braga pode ter outros. Podem ser as duas cidades — e Famalicão e Barcelos –, podem ser competitivas e não atuarem necessariamente de forma concorrencial. Podem ser complementares.
O que acho, olhando para Guimarães, é que precisamos de nos tornar competitivos e atrativos, e depois promover essa articulação também regional.
Pensando agora numa futura Área Metropolitana de Braga.
Área Metropolitana de Braga, acho difícil. Área Metropolitana do Minho, acho possível.
Temos de ser capazes de olhar para uma dimensão supramunicipal, regional, e fazer esta região, que é uma zona populosa com fortíssima pujança económica, exportadora, ter uma voz ativa a nível nacional de reivindicação dos investimentos que são necessários.
Que papel terá Guimarães nessa área metropolitana?
Tem que ser um papel forte, de coliderança regional, que é disso que eu gosto de falar. Não contam comigo para essas lutas históricas, que dá para nos divertirmos um bocadinho. O que me interessa é que Guimarães tenha uma agenda forte, e se tiver uma agenda política forte, vai ter sempre um papel de liderança. É compatível com Braga, com Famalicão, com estes grandes centros. Temos é de nos unir para que a região seja cada vez mais forte. Hoje, temos uma grande oportunidade pela frente. Temos um contexto dos quatro grandes concelhos do Minho serem liderados por quatro presidentes sociais-democratas, que, além do mais, se conhecem e se dão todos bem e, portanto, isso é uma oportunidade para consertar uma agenda política comum de desenvolvimento regional, e respeito por cada um dos nossos concelhos.
Não é Guimarães à frente de Braga, Famalicão… isso faz parte da competitividade e da concorrência saudável. Mas temos de ser capazes de olhar para uma dimensão supramunicipal, regional, e fazer esta região, que é uma zona populosa com fortíssima pujança económica, exportadora, ter uma voz ativa a nível nacional de reivindicação dos investimentos que são necessários. Na área metropolitana, sou favorável a que possamos dar passos no sentido da progressiva aproximação e articulação da CIM do Ave com a CIM do Cávado, e isso pode vir a resultar numa área metropolitana. Estou disponível para trabalhar com os colegas das duas CIM nesse sentido. Não tenho nenhum problema, pelo contrário, acho que pode ser importante porque há problemas que são comuns e o ganho de escala pode permitir alavancar alguns investimentos de forma clara.
Os vimaranenses quiseram demonstrar claramente que o ciclo do Partido Socialista na governação estava desgastado e em tempo de terminar, mas ao mesmo tempo confiaram no projeto que lhes foi apresentado e liderado por mim.
Para que os quatro municípios coincidam na governação a cargo do PSD faltava Guimarães. O que fez o PS de errado neste concelho para passar de uma governação de 36 anos para a oposição? E logo com o PSD em maioria absoluta.
O PS é que tem de fazer a sua a autoavaliação. É um problema do Partido Socialista, não me compete a mim fazê-lo. Compete-me ser capaz de interpretar o sinal dado pelos vimaranenses de forma clara. Os vimaranenses quiseram demonstrar claramente que o ciclo do Partido Socialista na governação estava desgastado e em tempo de terminar, mas ao mesmo tempo confiaram no projeto que lhes foi apresentado, liderado por mim.
Estas eleições em Guimarães serviram para desmistificar e contrariar teses, muito pouco científicas, de que o poder só se perde, de que os eleitores não sabem escolher e são muito tradicionais no voto, que não mudam. Em Guimarães, os eleitores deram um sinal de grande maturidade democrática.
Em retrospetiva, ao fim de 100 dias, como observa a sua vitória?
Eu tive uma maioria absoluta para a Câmara, ganhámos com maioria relativa a Assembleia Municipal e o Partido Socialista teve o maior número de votos para as assembleias de freguesia. Portanto, os eleitores em Guimarães diferenciaram claramente o voto na freguesia, na Assembleia Municipal, na Câmara Municipal, um sinal de maturidade democrática de quem sabe o que está a escolher.
Dá uma mostra de confiança na alternativa que se lhes apresentou, em que eles foram claros na escolha, porque tinham várias opções, e a verdade é que deram uma maioria absoluta à coligação liderada por mim, a coligação Juntos por Guimarães. Foi um voto de confiança que interpreto como um sinal acrescido de responsabilidade a maioria absoluta que me foi confiada na Câmara.
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Guimarães vai ter agência de investimento à imagem da Invest Braga. “Não tenho problema em copiar os bons exemplos”
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