“Há coesão muito rarefeita” na Nova de Lisboa, mas reitor descarta reduzir autonomia das faculdades

Reitor da Universidade Nova de Lisboa garante que receios de que tenciona reduzir autonomia das diferentes faculdades são infundados, mas avisa que há trabalho a fazer para melhorar coesão.

Os receios de que o novo reitor da Universidade Nova de Lisboa pretende reduzir a autonomia das faculdades são “completamente infundados“, garante o próprio em entrevista ao ECO. Ainda assim, Paulo Pereira reconhece que há trabalho a fazer na promoção da coesão entre as várias unidades orgânicas.

Mal estaria eu se achasse que esta cultura de maior proximidade, partilha e coesão se resolve com atos administrativos que retiram a autonomia. Ao retirar a autonomia, as pessoas ficariam inseguras, descontentes, e isso não aproxima ninguém. Só divide”, sublinha o responsável.

Paulo Pereira defende que, por exemplo, o centro de serviço partilhados que está agora a ser criado não visa retirar autonomia à unidades orgânicas, mas gerar poupanças e ganhos de eficiência, assegurando que o modelo exato será decidido em conjunto com as várias escolas.

Esta é uma de duas partes da entrevista do reitor da Universidade Nova de Lisboa ao ECO. Na outra (que pode ler e ver aqui), Paulo Pereira explica a polémica em torno da designação em português das faculdades e deixa um recado à School of Business and Economics.

Tomou posse enquanto reitor da Universidade Nova de Lisboa no início de outubro. Que balanço faz destes primeiros cinco meses no cargo?

Os primeiros meses são sempre um tempo de adaptação e de conhecer melhor a Universidade. Iniciámos já um conjunto de atividades, que, aliás, estavam previstas no meu plano de ação. O balanço que faço é bastante positivo. Somos uma grande universidade e nem sempre conseguimos mostrar tão bem aquilo que somos e a qualidade que temos nas mais diversas áreas.

Chegou a dizer que se fez reitor por “frustração” e “impaciência”. Quer detalhar o que é que fez nestes primeiros cinco meses para dar resposta a esses sentimentos que o levaram a candidatar-se?

Antes de ser reitor, estava na Faculdade de Ciências Médicas e era também membro do conselho geral da Universidade [Nova de Lisboa]. A minha frustração nasceu de uma perceção de que conseguíamos fazer pouco. As coisas não aconteciam. Há pessoas que comparam a universidade – esta e todas em geral – a corpos com grande inércia, como barcos, que são difíceis, às vezes, de manobrar, porque são grandes e complexos. O que também queria dizer com essa afirmação é que isto não faz parte de nenhum plano de desenvolvimento de carreira. E talvez por isso olhe com tanto entusiasmo ainda e otimismo para aquilo que estamos a fazer ali para a universidade.

Estamos a tentar criar modelos de partilha de serviços dentro da universidade, porque somos compostos, neste momento, por nove unidades orgânicas e, muitas vezes, em resultado da maneira como evoluíram e do contexto histórico em que foram integradas na própria universidade, trouxeram os seus próprios procedimentos e as suas próprias estruturas de governo e de gestão.

Mas o que tem que tem feito para desbloquear esses entraves que identificou? O que tem feito para que se consiga fazer mais?

Começámos já a tomar um conjunto de medidas em diversas áreas. De forma mais lenta do que aquilo que gostaria, mas há um conjunto de medidas que tinha proposto e que já estamos a realizar.

Por exemplo?

Coisas que vão da inovação pedagógica, a tentar repensar a estratégia geral da universidade na área da ciência e da investigação, a procurar definir áreas de excelência e áreas emergentes com oportunidades futuras. No contexto interno, fizemos também algumas alterações: mudámos um bocadinho a orgânica dos serviços e criámos um gabinete de conformidade e integridade institucional para garantir que tudo o que fazemos respeita não apenas a lei, mas os padrões éticos, acautelando potenciais conflitos de interesse. Estamos a tentar criar modelos de partilha de serviços dentro da universidade, porque somos compostos, neste momento, por nove unidades orgânicas e, muitas vezes, em resultado da maneira como evoluíram e do contexto histórico em que foram integradas na própria universidade, trouxeram os seus próprios procedimentos e as suas próprias estruturas de governo e de gestão. Estamos a tentar partilhar coisas para ganharmos mais eficácia, darmos respostas mais ágeis e olharmos de forma estratégica para os recursos.

Que serviços serão concentrados nesse centro?

Não estão a ser concentrados. Temos muitos serviços que funcionam muitas vezes sobre plataformas tecnológicas e informáticas distintas. Estamos a iniciar um processo com a ajuda de uma empresa externa para mapear quais são as áreas que podem ser partilhadas para podermos ver de que maneira é que podemos otimizar o seu funcionamento. Por exemplo, nas compras. Se fizermos as compras em conjunto para toda a universidade, em vez de cada uma das unidades orgânicas fazer por si, conseguimos ganhos muito significativos. O mesmo se dirá, por exemplo, em relação a serviços jurídicos. Algumas unidades orgânicas têm bons recursos na área jurídica, outras têm menos e outras não têm de todo. Se criarmos um único grupo de serviços jurídicos e partilharmos esses serviços, temos vantagem para todos.

Paulo Pereira, reitor da Universidade NOVA de Lisboa (UNL), em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

A ideia é trazer o melhor talento – por exemplo, nos serviços jurídicos – para um centro de serviços partilhados e deixar ir embora os recursos redundantes?

Ainda não sabemos exatamente o que é que vai ser, mas a ideia é evitar redundâncias. Se conseguirmos partilhar os mesmos serviços, utilizando os recursos que já existem… Olhando para a universidade como um todo, como é que podemos partilhar alguns destes serviços entre as diferentes unidades orgânicas. Vai ser uma decisão que vamos tomar em conjunto com as unidades orgânicas e vamos ter que discutir qual é que é o modelo. Nem me passa pela cabeça centralizar coisas na reitoria. Quero que a reitoria e as unidades orgânicas tenham todos acesso a serviços que são partilhados por todos.

Não é uma forma de tirar autonomia às unidades orgânicas?

Acho que não. Estamos a falar só de alguns serviços administrativos. As unidades orgânicas têm toda a autonomia que precisam para desempenhar a sua função e continuarão a tê-la. Isso parece-me ser um equívoco. As unidades orgânicas têm autonomia científica, pedagógica e também financeira e administrativa. Vão continuar a tê-la. Isso é uma coisa estatutária. Agora, se pudermos partilhar coisas e, se em o resultado dessa partilha, conseguirmos acrescentar mais especialização, mais diferenciação e reduzir custos, é para benefício de toda a universidade. Essas poupanças não ficarão na reitoria, serão distribuídas. Há coisas que serão sempre diferenciadas e especializadas. As escolas utilizam, por exemplo, estratégias de recrutamento de estudantes muito diversas e acho que está bem assim e deve ser assim.

Essa estratégia de recrutamento vai manter-se descentralizada?

A gestão é completamente descentralizada. Este centro de serviços comuns presta serviços a todas as unidades orgânicas, incluindo a reitoria. Era uma proposta que tinha no meu plano de ação. Os moldes exatos em que isto vai funcionar não sei ainda. Não tenho nenhuma posição de princípio, nem ideológica, nem política, de centralizar coisas só pelo capricho. Estou convencido de que partilhando algumas coisas que são comuns podemos ter grandes ganhos de eficácia e poupanças.

Não tenho nenhuma posição de princípio, nem ideológica, nem política, de centralizar coisas só pelo capricho. Estou convencido de que partilhando algumas coisas que são comuns podemos ter grandes ganhos de eficácia e poupanças.

Um técnico ou um especialista que são hoje contratados por uma unidade orgânica têm um vínculo direto com essa unidade orgânica? Ou seja, para que haja essa partilha, o vínculo terá de passar a ser com a reitoria ou a universidade em si.

A personalidade jurídica é única. Somos uma fundação, só temos um número de contribuinte. Dentro da universidade, as pessoas trabalham em diversas unidades orgânicas e são recrutadas por elas. Esse modelo e esse nível de detalhe, não sei como faremos. É uma coisa que tem de ser discutida com os diretores, e chegaremos certamente a algum entendimento. Há vários modelos possíveis.

Disse que o recrutamento de alunos difere muito entre as várias unidades orgânicas. Outro ponto de divergência é a colocação em rankings internacionais. As equipas que fazem o trabalho de recolha e reporte desses dados vão continuar separadas ou a ideia é centralizar? Por exemplo, a Nova IMS e a Nova SBE têm, creio, equipas próprias que fazem esse trabalho. Vão continuar a ter?

Continuarão a ter. Saberão melhor qual a forma de trabalharem e de que maneira é que isso se traduz depois em posições no ranking. Nós, na universidade, já temos essa informação, que é recolhida pelas unidades orgânicas, mas, depois, também a reitoria reporta.

Paulo Pereira, reitor da Universidade NOVA de Lisboa (UNL), em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Segundo foi noticiado, há várias vozes que temem que o despacho que determina que as unidades orgânicas têm de ter uma designação em português não se fique por aqui, pela questão do nome, e seja um prenúncio de uma vontade de reduzir a autonomia das unidades orgânicas. Consegue descartar essa intenção de reduzir a autonomia das unidades orgânicas, nomeadamente em termos salariais?

Não tem nenhum cabimento. É um receio completamente infundado. Por que é que eu faria isso?

Por exemplo, no seu plano de ação, a propósito da atração de professores internacionais, diz que existem assimetrias nos salários e que é “essencial que não se comprometa a coesão institucional”. O que é que isto quer dizer?

As unidades orgânicas naquilo que é a sua política de recrutamento e retenção de talento devem usar toda a margem e toda a liberdade que o estatuto fundacional que temos lhes oferece. Há mercados onde, para sermos competitivos, temos de recrutar externamente e competir quer com privados, quer com outras universidades de referência. A preocupação maior da universidade deve ser a qualidade e para isso temos de pagar às pessoas aquilo que é adequado. Melhor do que qualquer outra pessoa, são as unidades orgânicas, os seus diretores, os seus corpos colegiais, que sabem, na sua área, qual é a melhor estratégia de recrutamento, que, entre outras coisas, pode passar por terem que pagar salários mais altos. Não vejo qualquer problema a esse respeito. Essa frase que acabou agora de citar refere-se a uma situação dentro de cada uma das unidades orgânicas, e às vezes funcionários de apoio à gestão.

Não pondera, portanto, uma harmonização dos salários de professores?

Não, acho que seria uma péssima ideia fazê-lo.

De certa forma, poderia colocar em causa a capacidade de atrair esse talento.

Claro, e não queremos isso. Queremos o contrário disso. Queremos dar liberdade às pessoas, dentro daquilo que são as suas possibilidades, de poderem criar incentivos para as pessoas virem trabalhar para cá.

Esses temores são completamente infundados. O mesmo não é dizer que eu estou satisfeito com a universidade que temos e com uma certa cultura de falta de coesão. Há uma coesão muito rarefeita entre as diversas unidades orgânicas e acho que devemos trabalhar nisso.

De forma clara, o que é que diria a essas vozes que temem que este despacho relativamente ao nome seja um prenúncio de algo maior, para lá da designação?

Diria que esses temores são completamente infundados. O mesmo não é dizer que eu estou satisfeito com a universidade que temos e com uma certa cultura de falta de coesão. Há uma coesão muito rarefeita entre as diversas unidades orgânicas e acho que devemos trabalhar nisso.

De que modo?

Há várias medidas. Não podemos nunca esquecer que a Nova é uma universidade composta por várias unidades orgânicas, cada uma delas com a sua autonomia e temos diferentes níveis de pertença. Precisamos de nos conhecer melhor. Mal estaria eu se achasse que esta cultura de maior proximidade, partilha e coesão se resolve com atos administrativos que retiram a autonomia. Ao retirar a autonomia, as pessoas ficariam inseguras, descontentes, e isso não aproxima ninguém. Só divide.

A intenção, para sermos completamente claros, não é retirar ou diminuir a autonomia, face aos atuais níveis?

Não. A lei consagra a autonomia que existe. É também importante não esquecer – para não haver nenhum equívoco – que em algumas medidas, sejam elas administrativas ou outras, o facto de sermos uma fundação com um único número de contribuinte foi uma opção feita em 2017 pela Universidade Nova. A universidade é uma fundação. E isso é importante que não se esqueça também.

Paulo Pereira, reitor da Universidade NOVA de Lisboa (UNL), em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Confirma que fez uma proposta de revisão dos estatutos da Universidade Nova de Lisboa? O que é que prevê?

Fiz uma proposta. Não me lembro agora das coisas todas que previa, mas previa, por exemplo, o alargamento dos órgãos de representação. Uma das coisas que eu propus na minha candidatura é a criação de um senado académico. Temos um colégio de diretores e entendi que haveria vantagem em alargar mais esse órgão para termos mais participação, porque me pareceu que essa era uma maneira de aproximar mais a universidade ou a reitoria e o reitor de outros órgãos da universidade. Podíamos ter presidentes dos conselhos científicos e pessoas também que pudessem ser eleitas diretamente pela comunidade e não apenas pessoas que estariam no órgão por inerência. O conselho geral rejeitou.

Não teria feito sentido, também nesta matéria, esperar pela revisão do Regime jurídico das instituições de ensino superior (RJIES)?

Já ouvimos falar da revisão do RJIES há muitos anos. São duas coisas separadas. O conselho geral iniciou estes trabalhos há dois ou mais anos. Foi um processo que demorou demasiado tempo. O conselho geral fez a sua proposta e acho que tem de seguir o seu caminho. Não podemos fazer depender uma coisa da outra.

Já estão marcadas as eleições para o conselho geral da Universidade Nova de Lisboa? Já deviam estar agendadas, correto?

Não, não estão marcadas. Há uma reunião do conselho geral esta semana e há um ponto sobre isso. Mas isso é uma iniciativa do conselho geral. O conselho geral é que organiza o processo eleitoral, não o reitor.

Não é por capricho ou porque tenha um fetichismo com as comunidades ou com o sentido de pertença. É porque acho que é muito mais fácil contribuirmos para a transformação que queremos deixar no mundo se trabalharmos em conjunto.

No final deste mandato, qual espera que seja o seu legado?

Certamente que espero que não sejam estas parangonas de quando o reitor cumpra a lei. Não sei qual vai ser o meu legado. Tenho alguma ambição. Um dos pontos importantes é garantir que a Universidade Nova lidera em áreas-chave no país e é uma referência na Europa e no mundo. Somos já uma grande universidade. Temos de saber levar isto agora a um outro nível. E que, simultaneamente, consigamos fazer isto de uma forma coesa, com um sentido de identidade e pertença à Nova. Não é por capricho ou porque tenha um fetichismo com as comunidades ou com o sentido de pertença. É porque acho que é muito mais fácil contribuirmos para a transformação que queremos deixar no mundo se trabalharmos em conjunto.

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