O INESC-ID, presidido por Inês Lynce, lidera um novo projeto de inteligência artificial que pretende aproximar os doutorados das empresas e levar a ciência "até ao fim da cadeia".
Portugal deu um “salto brutal” no número de doutorados nos últimos anos, mas esse crescimento foi “abrupto”, não existindo “expectativas” de que a academia os absorva todos. Por isso, este filão de talento deveria ser mais aproveitado pelas empresas, defende Inês Lynce, presidente do INESC-ID, instituto que lidera um projeto que acaba de conquistar um apoio de 27,2 milhões de euros do fundo Horizonte Europa, focado em levar a ciência “até ao fim da cadeia”.
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No sétimo episódio do Podcast .IA, Inês Lynce explica o que é o SAIL-Sustainable Artificial Intelligence Laboratory, que terá quatro grandes vertentes: criação de valor económico, formação avançada, transferência de tecnologia e resposta aos desafios éticos, sociais, regulatórios e ambientais da inteligência artificial. O projeto conta ainda com dois parceiros alemães: o Max Planck Institute for Software Systems e o DFKI, Instituto Alemão para a Inteligência Artificial.
Mais do que um projeto de investigação, o SAIL é apresentado como um “projeto de capacitação”, explica a investigadora nesta entrevista. A missão é ampla, mas passa por formar doutorados e engenheiros, aproximar a ciência das empresas, atrair talento para Portugal e criar condições para que novas soluções de inteligência artificial (IA) cheguem ao mercado. Para a professora catedrática, o projeto deverá marcar “um antes e um depois” na capacidade nacional de desenvolver e transferir IA.
Temos um número de doutorados muito elevado, o que é muito positivo, mas não temos expectativas de que a academia vá absorver esses doutorados todos. E o que pode fazer a diferença é esses doutorados irem para as empresas.
O INESC-ID conquistou um financiamento de 27,2 milhões de euros do Fundo Horizonte Europa, para um projeto chamado SAIL – Sustainable Artificial Intelligence Laboratory. Em que é que consiste?
O projeto consiste na construção de um laboratório na área de inteligência artificial com uma visão de sustentabilidade, e tem quatro vertentes. Uma é a criação de valor a nível nacional, embora tenhamos dois parceiros internacionais, o Max Planck Institute for Software Systems, que é uma instituição muito reputada na Alemanha a nível de investigação, e o DFKI, que é o Instituto Alemão para a Inteligência Artificial. Vai desde a formação de alunos de doutoramento até à capacitação de empresas. Hoje em dia a inteligência artificial tem muito a ver também com a produtividade e a criação de novas empresas, nomeadamente de startups.
Depois, temos toda a parte ética e social da inteligência artificial, do impacto que tem, e o próprio desenvolvimento científico hoje em dia está muito direcionado para isso. Não é só desenvolver modelos, mas é modelos que sejam responsáveis, que sejam explicáveis. Temos também a parte regulatória, em que a nossa preocupação vai ser a de haver um enquadramento legal, naturalmente com pessoas de Direito que nos ajudem. Por fim, a parte ambiental, por causa da pegada de carbono e de todo o impacto que a tecnologia tem atualmente.
É um projeto muito particular dentro do financiamento do Horizonte da Europa, porque exige um cofinanciamento a nível nacional. Não é só o dinheiro que vem da Europa, há um compromisso das entidades nacionais para aquele tema, e para nós é uma grande responsabilidade.
O que podemos esperar que resulte do SAIL? Serão spin-offs? Novas empresas? Formação avançada de pessoas?
Muitas vezes os projetos do Horizonte Europa são para desenvolver algum conceito ou na área da investigação, e também na área da inovação. E muitos destes projetos são também colaborativos, muitas vezes com empresas. O SAIL é aquilo a que se chama um projeto de capacitação. Ou seja, pega-se numa entidade, e vamos fazer o upgrade dessa entidade, ou criar uma entidade ali ao lado, focada.
Portanto, olhando para o nosso instituto, é uma oportunidade única, pelo financiamento que tem, de termos um impacto a nível nacional e internacional que seja diferente. É sobretudo um projeto de capacitação que tem muita contratação de pessoas, porque sem pessoas não se consegue fazer nada. E a nível de empresas e da comunidade em geral, o que nós temos é a criação daquilo que se chamam Living Labs e Transfer Labs.
O que são esses labs?
Os Living Labs é onde se vê a ciência e a tecnologia em ação. Nós tivemos a oportunidade de visitar os parceiros, ainda antes de o projeto ser aceite, para perceber o apoio que iríamos ter. E, no DFKI, por exemplo, têm um laboratório cheio de sensores que tanto pode ser usado por alunos de doutoramento como por empresas que têm algum projeto naquela área, como por alguém da sociedade civil que possa ter interesse em desenvolver algum tipo de produto, ou ideia, ou o que for.
Os Transfer Labs são laboratórios de transferência de tecnologia. Há aqui uma preocupação muito grande para que seja uma ciência que chega ao fim da cadeia. Não é só formar alunos de doutoramento. Também temos a preocupação de criar uma carreira de engenharia. Muitas vezes quem é cientista tem o gosto por fazer ciência e esquece-se da continuidade. Pois os engenheiros têm que fazer essa ponte. Temos também que captar as empresas. Mostrar-lhes qual é a mais-valia de ter ali alguém que produz ciência e que a possa transferir.

Não há o risco de algumas dessas pessoas, ou de muitas dessas pessoas, que serão capacitadas e formadas pelo SAIL, serem absorvidas depois pelas empresas do costume, nomeadamente as grandes tecnológicas americanas?
Bem, se for nas tecnológicas americanas pode preocupar mais. Nós atualmente, também como professores, temos a noção de que há de facto uma atração muito grande internacional. Com este projeto, temos a possibilidade também de atrair pessoas pelo projeto em si, porque é um grande projeto, tem a duração de seis anos, e eventualmente pode ser mais competitivo nos salários que são oferecidos.
Há experiência internacional e isso é valorizado, mas não quer dizer que toda a gente se queira ir embora. Há um ir e há um voltar. Tipicamente, é preciso criar condições, e nós agora queremos atrair pessoas que, eventualmente, estejam no estrangeiro e que venham trabalhar.
Muito importante também é que nós temos um número de doutorados muito elevado, o que é muito positivo, mas não temos expectativas de que a academia vá absorver esses doutorados todos. Será uma pequena percentagem. E o que pode fazer a diferença é esses doutorados irem para as empresas. O que é pena é às vezes essas empresas não terem a capacidade de os atrair.
As empresas pelo menos interesse têm. Tanto quanto oiço dos nossos empresários, há esse interesse de aproximar as empresas da academia.
Existe. Mas nós temos que ter a noção de que efetivamente em Portugal temos uma produção muito significativa de doutorados. Foi um salto brutal que demos, olhando para o passado, mas foi de alguma maneira abrupto. Portanto, de experiência pessoal, a diferença grande é quando a empresa começa a ter doutorados que vão buscar outros. Até há empresas que são criadas por doutorados. Caso contrário, pode não ser perfeitamente claro qual é a capacidade que um doutorado tem numa empresa, e que vai muito além de ter estudado uma coisa muito focada.
E isso eu acho que é um aspeto a melhorar nas nossas empresas, não só em relação aos doutorados, como em relação a tudo. Ou seja, às vezes há a tendência de pensar a formação que eu tenho é o trabalho que vou fazer. Não, a formação está-me a dar formação. No ponto de vista amplo, eu posso ter formação em ciências sociais e ir trabalhar numa empresa de tecnologia e ter a capacidade de me adaptar e ter uma visão diferenciada porque foi isso.
Algumas empresas começam a valorizar muito a diversidade. Eu valorizo muito e já trabalhei com pessoas de ciência política, de sociologia, e consigo perceber que, integradas numa equipa, essas pessoas têm uma capacidade de diferenciação que é muito interessante.
Aliás, um requisito da inovação é haver essa diversidade. Falou da contratação de pessoas. O SAIL vai ter então os seus próprios trabalhadores? De quantas pessoas é que estamos a falar?
Temos uma lista de pessoas que, a partir de janeiro, que é quando começa o projeto, temos que ter. E, para se ter uma ideia, temos logo umas dez pessoas. Depois vamos ter alunos de doutoramento ao longo do projeto. Esses alunos vão começando na base dos dez por ano e vão fazer uma formação também na Alemanha — portanto, tem um duplo grau entre Portugal e a Alemanha.
Quando digo dez pessoas, é para começar. Uma das apostas que nós temos são quatro cátedras, que são pessoas já estabelecidas na sua carreira científica e, a partir dessas quatro cátedras, também teremos depois um conjunto de post-docs e um conjunto de alunos de doutoramento. Portanto, há de haver uma estrutura, e tudo à volta da área de inteligência artificial.
E vai ter instalações físicas?
Deu-se aqui uma feliz coincidência: o INESC-ID, neste momento, está a dar início a novas instalações que já estavam previstas antes de obtermos este financiamento. Portanto, vamos ter efetivamente novas instalações, mas não necessariamente por causa deste projeto.
Portanto, vão estar inseridos nessas novas instalações?
Vamos estar inseridos e vamos renovar aquelas que temos atualmente, também para, no fundo, ter este potencial de albergar novas startups que possam começar e de ter esta relação com as empresas.
E pretendem também provar que a inteligência artificial, no final, apesar de todo o consumo de recursos, pode ser sustentável. Será também um dos objetivos?
É um dos desafios, e já há trabalho científico nesta área, mas que é uma preocupação nossa. Aqui, a sustentabilidade tem polivalência, que é, por um lado, a sustentabilidade da inteligência artificial hoje em dia, que é uma preocupação natural que todos temos; e, depois, também a sustentabilidade deste projeto. No fundo, há de haver um antes e um depois do SAIL, em que temos uma capacidade diferente, seja de atrair pessoas do estrangeiro, seja de produzir ciência e a transferir para as empresas. Depois, o barco começa a navegar e avança, partiu.
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“Há um número muito elevado de doutorados. E o que pode fazer a diferença é irem para as empresas”
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