A autoestrada em construção há 20 anos, a ferrovia que tarda, a habitação que falta e a escola lotada. Com quatro anos para Sines se adaptar à nova realidade, Álvaro Beijinha teme pelo futuro próximo
“Já reuni com todos estes grandes investidores que aqui estão. Estão todos preocupados. Vão ter que trazer mão-de-obra de fora. Onde é que estas pessoas vão dormir, residir? Quando quiserem trazer os filhos, onde é que os vão pôr na escola? Quando tiverem um problema de saúde, como é que resolvem?”. As perguntas do autarca Álvaro Beijinha, em entrevista ao ECO/Local Online, surgem num contexto onde viver em Sines já é mais caro do que em boa parte das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, incluindo nas duas maiores cidades do país.
Para Sines já há anúncios de investimentos que somam mais de 20 mil milhões de euros e fala-se em 7.000 trabalhadores a chegarem aqui até 2030. O que significa isto em ordenamento de um município?
Toda a gente quer investimento nos seus territórios e nós aqui em Sines também, naturalmente. Se há terra que está a ter investimento é Sines. Paradoxalmente, isto está a ter um efeito perverso na comunidade local, naqueles que já cá vivem, porque no preço da habitação estamos a falar de valores das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, se calhar a restauração também tem vindo a subir significativamente e até os supermercados, e naturalmente que uma coisa que aparentemente seria muito boa acaba por ter como consequência impactos a este nível.
Sabendo-se que o investimento que se perspetiva trará muita gente, já o seu antecessor alertava para a necessidade de habitação. Como está a comunidade a encarar a escassez?
Vivemos num município que praticamente tem emprego pleno, talvez numa outra área, nas áreas sociais, possa eventualmente terem mais dificuldade de ter emprego, mas a esmagadora maioria das pessoas só não trabalha se não que quiser. Nestes projetos em curso e naqueles que se perspetivam que venham a efetivar-se no curto e médio prazo, estamos a falar de uma necessidade de mão-de-obra brutal e que naturalmente vai ter que vir de fora. Hoje já temos um problema, com mercado de arrendamento na ordem dos 2.000 euros e mais, e preço do metro quadrado absolutamente astronómico. Por exemplo, se for um apartamento numa zona mais generosa aqui em Sines, já estamos a falar na ordem dos 5.000 euros por metro quadrado.

"Sines até tem dados estatísticos de que é dos concelhos do país onde as pessoas ganham mais, mas o que é certo é que o vencimento a mais não consegue comportar os valores que nós estamos aqui a falar.”
Este é um problema gravíssimo, que não é de hoje. Como referiu, o meu antecessor também já o tinha colocado, mas estamos a falar de projetos que não são importantes para Sines, são importantes para o país, e vão ajudar o país a crescer economicamente. Vão ajudar o PIB, as exportações, e por isso, o que tenho dito e lamentado é que não tenha havido uma visão, nomeadamente por parte do Governo central.
Há 50 anos construiu-se uma cidade. Quando falamos do bairro da Petrogal, do bairro da EDP, eram empresas públicas que fizeram esse investimento.
Os privados também. Veja-se a CUF no Barreiro.
As Minas. Havia bairros de mineiros em todas as minas. Mas estas empresas também querem investir na habitação. Aliás, a CALB em Santiago comprou um terreno para construção de um hotel com 700 quartos, em Santo André. Neste caso, em direito de superfície. E comprou um terreno, não diretamente, através de uma empresa imobiliária que está a trabalhar com eles, em hasta pública, para mais construção de 70 e tal fogos – vivendas. Acho que estão a pensar nos quadros. Os chineses têm uma mentalidade de uma forma muito diferente.
Mas mesmo se falarmos com outras grandes empresas, a Start Campus, todos eles estão muito preocupados e sei que também andam a tentar encontrar soluções para a construção de alguma habitação. Eles percebem que se não for assim, vão ter uma dificuldade tremenda em conseguir trazer para aqui mão-de-obra.
Já reuni com todos estes grandes investidores que aqui estão. Estão todos preocupados. Vão ter que trazer mão-de-obra de fora. Onde é que estas pessoas vão dormir, residir?
Considera que as empresas que aqui se instalam deveriam participar neste esforço?
O Governo, este ou até o anterior, ao fixar estes grandes investimentos… naturalmente que há um processo de negociação e, entre outras coisas, o país dá-lhes alguma coisa. O que o Governo lhes deu foi benefícios fiscais. Segundo tenho conhecimento – não tenho números oficiais, mas pelo que toda a gente mais ou menos tem falado – só o projeto da CALB estamos a falar de benefícios fiscais na ordem dos 300 e tal milhões de euros. Uma percentagem desses benefícios não deveria ter ficado alocada localmente? Negociado com a empresa e dizer que em vez de terem benefícios de 350 milhões, têm só de 300 e esses 50 milhões são para reforçar os serviços públicos à população, o que vai beneficiar os vossos trabalhadores?
Já transmitiu essas críticas aos governantes que por aqui têm passado?
Não estou a falar sobre este Governo, estou a falar também dos governos pelo menos dos últimos sete, oito anos. Toda a gente já estava a perceber que isso ia acontecer. Estes projetos foram anunciados várias vezes, o anterior primeiro-ministro [António Costa] veio a Sines algumas vezes anunciar projetos, os ministros da Economia, o atual Governo também, mas até ao momento, tirando agora bem recentemente, nada se fez, nada se planeou, nada se criou para ajudar a resolver este problema.

Mesmo o que se tem planeado neste século demora a sair do papel. A autoestrada foi adjudicada por José Sócrates, já lá vão 19 anos.
Eu sei, fui presidente de câmara em Santiago [do Cacém], 12 anos, mais oito como vereador, acompanhei isso tudo. Já não é para Beja, é para Grândola Norte. Isto revela bem a falta de visão dos sucessivos governos ao longo de 50 anos. Efetivamente, construiu-se por todo o lado e aqui, que é estratégico para o país, não se criou a acessibilidade necessária. Nós recebemos investidores estrangeiros e não conseguem compreender isto.
Sines já perdeu investimentos por falta de acessibilidades?
Não estou aqui há tempo suficiente. Sei de alguns relatos. O que sei é que há uma preocupação enorme dos investidores que já estão em Sines. Dou-lhe um exemplo: a Repsol, que está cá há muitos anos, e que está agora com este projeto Alba numa fase muito final. Recordo-me perfeitamente, quando eles estavam a querer avançar com o projeto — eu ainda na qualidade de presidente em Santiago do Cacém — de o diretor da fábrica nos consciencializar para que fizéssemos pressão junto do governo central para a necessidade urgente de esta via passar a autoestrada, fazer uma ligação a Lisboa e também para a questão da ferrovia, que era importante, que só agora está a ser terminada, ou está terminada, que é outra coisa que o país abandonou durante estes anos todos.
Estes projetos foram anunciados várias vezes, o anterior primeiro-ministro veio a Sines algumas vezes anunciar projetos, os ministros da Economia, o atual Governo também, mas até ao momento, tirando agora bem recentemente, nada se fez, nada se planeou, nada se criou para ajudar a resolver este problema.
Mas isso foi pelo país todo. Acha necessária uma ligação para passageiros?
Sines, até 1990, 1991, tinha comboio de passageiros, e perdeu-os. Passados 35 ou 36 anos, continuamos a não ter comboio de passageiros. A linha estava ali, desativaram-na. Isto é de uma falta de visão! Como é que se desinveste num local que tem as infraestruturas mais importantes para o país? No caso dos passageiros, desinvestiu-se, retirou-se a capacidade de haver mais mobilidade às pessoas. Se tivéssemos aqui uma linha ferroviária de passageiros com uma ligação relativamente célere à margem sul, as pessoas não precisavam de viver aqui. A nós, que representamos as populações, custa-nos muito ver isto.
Qual o volume de investimento necessário para habitação?
Fizemos aqui um exercício: se estivemos a falar de uma necessidade de construção de 5.000 casas – estamos a falar da criação de, no mínimo 7.000 postos de trabalho, é aquilo que todos os estudos nos dizem –, são mil milhões de euros. E não estou a falar para os 5.000 euros o metro quadrado, mas do valor de 200 mil euros, que é mais ou menos o valor da habitação a custos controlados.
Que participação pode a autarquia ter aqui?
A Câmara Municipal de Sines, no orçamento de 2026, tem para investimento total 12 milhões de euros. Um orçamento de quase 41 milhões de euros, mas para investimento tem 12 milhões, desde comprar uma caneta, um carro, uma máquina para cortar a relva, comprar água. Por isso a Câmara, nem de perto, nem de longe, tem capacidade para resolver o problema.
Se tivéssemos aqui uma linha ferroviária de passageiros com uma ligação relativamente célere à margem sul, as pessoas não precisavam de viver aqui.
E noutras infraestruturas, educação, por exemplo?
A escola pública está completamente cheia. A secundária, nos últimos oito, nove anos, praticamente duplicou o número de alunos. Tinha quase 400 e neste momento tem 700 e tal.
E essa competência é agora da autarquia.
E agora é uma competência nossa… por isso, se o Governo não nos ajudar, temos aqui um problema gravíssimo. É certo que agora a comunicação social também nos tem ajudado, deram eco à câmara. Desde que cheguei, tenho sido uma voz permanente a chamar a atenção sobre estes aspetos.
E o que vos diz o Governo?
Já tivemos uma conversa com uma reunião com o secretário de Estado do Planeamento e Desenvolvimento, Hélder Reis, que nos transmitiu uma mensagem de que o Governo está sensibilizado. Aliás, houve o primeiro contacto com o ministro da Economia.
Já reuni com todos estes grandes investidores que aqui estão. Estão todos preocupados. Vão ter que trazer mão-de-obra de fora. Onde é que estas pessoas vão dormir, residir?
Quando quiserem trazer os filhos, onde é que os vão pôr na escola? Quando tiverem um problema de saúde, como é que resolvem?
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“Há uma preocupação enorme dos investidores em Sines” com a falta de habitação e de infraestruturas
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