Industriais do calçado esperam “normalização” das exportações para os EUA em 2026

Apesar do recuo de 12,3% com as tarifas, mercado americano “continua a ser aposta estratégica” no calçado. Paulo Gonçalves descreve período “difícil” para as empresas, mas com ganhos à concorrência.

Depois de dois anos de quebra no valor das vendas ao exterior, a indústria portuguesa do calçado conseguiu inverter essa tendência e fechar 2025 com um ligeiro crescimento de 0,8% para 1.718 milhões de euros, através da comercialização de 68 milhões de pares de calçado no estrangeiro.

O ano foi “atípico” por causa da guerra comercial, entretanto ‘ilegalizada’ pelo Supremo Tribunal, e afundou as exportações para os EUA, mas o diretor executivo da associação patronal (APICCAPS) antecipa uma “normalização” em 2026.

Com os olhos desta indústria focados por estes dias em Milão, onde começou no domingo e termina esta terça-feira a mais importante feira do setor a nível mundial, em entrevista ao ECO, Paulo Gonçalves, diretor executivo da associação patronal deste setor (APICCAPS), fala de um setor que já exporta mais de 90% da produção para 172 países e que, por via do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, está a colocar o Brasil “pela primeira vez no radar, sobretudo para segmentos de gama alta”.

O ligeiro crescimento das exportações em 2025 foi sustentado sobretudo pelo desempenho nos mercados europeus, que cresceram 3,3%. Mais em concreto, quais foram os países que puxaram pelo setor?

Em 2025, o setor do calçado exportou 60 milhões de pares para o espaço europeu, no valor de 1.420 milhões de euros. Registaram‑se crescimentos na Alemanha (+8,4%, para 416 milhões de euros), França (+1%, para 342 milhões de euros), Espanha (+10,3%, para 183 milhões de euros) e Suécia (+6,2%, para 50 milhões de euros).

Por outro lado, houve quebras nos Países Baixos (‑3,2%, para 192 milhões de euros) e na Dinamarca (‑7,2%, para 65 milhões de euros). Foi um ano difícil para as nossas empresas, mas terminámos com registo positivo e a ganhar quota aos nossos concorrentes.

As vendas para os EUA recuaram 12,3% para 84 milhões de euros em 2025, interrompendo uma trajetória de crescimento naquele que era o sexto maior mercado da indústria e onde as vendas tinham subido 25% nos três anos anteriores. Tinham dito que não iam desistir dos EUA, mesmo com Trump. Depois destes resultados, qual é o sentimento entre os industriais?

O ano de 2025 foi atípico. A indefinição sobre novas políticas comerciais penalizou o setor e o próprio mercado norte‑americano recuou. Ainda assim, os EUA continuam a ser uma aposta estratégica do calçado português. Acreditamos que é um mercado onde teremos crescimento sustentado nas próximas décadas.

Foi um ano difícil para as nossas empresas, mas terminámos com registo positivo e a ganhar quota aos nossos concorrentes.

Preveem que este ano os EUA ainda continuem a diminuir as compras de calçado a Portugal?

Esperamos que 2026 seja um ano de normalização. O novo acordo comercial tende a favorecer Portugal em relação a muitos grandes players [o acordo aduaneiro entre a União Europeia e os EUA prevê uma tarifa de 15% sobre os produtos europeus vs. Brasil 50%, China 30% ou Índia e Vietname ambos com mais de 20%] e queremos aproveitar essa oportunidade.

Além desse fator das tarifas e das perdas nos EUA, quais são as outras maiores ameaças à indústria portuguesa?

O desempenho do setor está condicionado pela atividade económica global. Vivemos um período conjuntural complexo, com crescimentos modestos, e os mercados de referência, especialmente na Europa, apresentam um desempenho débil, o que nos preocupa.

Paulo Gonçalves, diretor executivo da associação empresarial do calçado (APICCAPS)

Pelo contrário, onde vislumbram nesta fase as maiores oportunidades, que possam até compensar as perdas nos EUA?

O setor já exporta mais de 90% da sua produção para 172 países. Estratégica e comercialmente, Europa e América do Norte continuam centrais, pois concentram grande parte da procura por calçado de qualidade. Além disso, mercados como Colômbia, Coreia do Sul e Japão merecem atenção imediata pela sua dinâmica e poder de compra.

Se dizem que o acordo comercial entre a União Europeia e a Índia é “perigoso” para as empresas nacionais, no entendimento com o Mercosul abrem‑se boas perspetivas para atacar o mercado brasileiro, que tem atualmente direitos aduaneiros a rondar os 35%. Que potencial tem e em que segmentos?

Devido às elevadas tarifas, o Brasil tem sido historicamente pouco acessível para as empresas portuguesas. O acordo com o Mercosul abre portas, mas a liberalização será gradual e podem mesmo passar décadas até se consolidar. Não é ainda um mercado prioritário, mas surge agora pela primeira vez no nosso radar, sobretudo para segmentos de gama alta.

O Brasil não é ainda um mercado prioritário, mas surge agora pela primeira vez no nosso radar, sobretudo para segmentos de gama alta.

Apesar do crescimento das exportações portuguesas em 2025 ter sido curto, compara com contrações nos principais competidores, como Itália (-1%) e Espanha (-3%), e em grandes produtores como a China (-11%), Turquia (-13%) ou Brasil (-2%). Que fatores contribuíram para este ganho de quota da indústria nacional, em particular face aos italianos e espanhóis?

O mercado evolui rapidamente. Portugal diferencia‑se pelo investimento contínuo nas empresas, na flexibilidade produtiva e na sustentabilidade, o que reforça a capacidade de resposta. Ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o setor do calçado investiu mais de 100 milhões de euros nos últimos anos, uma prova inequívoca de confiança para os mercados.

Ora, passámos a alargar o mercado e a abordar novos clientes na área da defesa, da saúde ou no calçado profissional. Esse é um caminho que vamos aprofundar.

Como é que o preço médio do par de sapatos portugueses na exportação compara com o italiano, que é o mais valorizado a nível mundial?

Ainda não temos todos os dados finais de 2025 comparáveis com outros países. Historicamente, o calçado português figura entre os preços médios de exportação mais elevados, apresentando mesmo o segundo maior preço médio entre os principais produtores à escala internacional [segundo dados publicados no World Footwear Yearbook].

Em 2024, o preço médio de Itália foi de 68,14 dólares por par e o de Portugal de 27,57 dólares por par. Ainda temos muito caminho para percorrer. Ainda assim, à medida que Portugal aposta em materiais alternativos ao couro, essa diferença poderá aumentar. Vivemos bem com isso.

 

(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos)

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