José Theotónio, CEO do Grupo Pestana: “Alojamento local é um saco onde cabe tudo”, até hotéis

O CEO do Grupo Pestana vê efeitos positivos do turismo na economia, mas defende regras para a nova realidade do alojamento local. Pede clarificação do conceito para não haver concorrência desleal.

Portugal está na moda. Há cada vez mais turistas a chegarem de todas as partes do mundo, alimentando a economia nacional. Mas o perfil típico de um turista já não é o mesmo: viaja em companhias áreas de baixo custo e procura cada vez mais o alojamento local, afirma José Theotónio em entrevista ao ECO24, uma parceria entre o ECO e a TVI24. O CEO do Grupo Pestana, apesar de reconhecer que é importante apostar em novos conceitos, considera que o crescimento deste tipo de alojamento deve ser limitado, pelo menos enquanto este conceito ainda não estiver claro.

“Primeiro tem de se saber o que é o alojamento local. O alojamento local é hoje um saco onde cabe tudo. Cabe a moradia mais cara da Quinta do Lago ou de Vale do Lobo, como também cabe o quarto que existe na casa de alguém que usa o Airbnb para alugá-lo”, refere José Theotónio. Contudo, para o CEO do Grupo Pestana, o mais preocupante é o facto de haver hoteleiros a construírem hotéis que ficam depois licenciados enquanto alojamento local. “Há também aqueles que aproveitaram a onda do alojamento para fazerem verdadeiros hotéis para o licenciamento ser mais fácil”, nota.

"Primeiro tem de se saber o que é o alojamento local. O alojamento local é hoje um saco onde cabe tudo. Cabe a moradia mais cara da Quinta do Lago ou de Vale do Lobo, como também cabe o quarto que existe na casa de alguém que usa o Airbnb para alugá-lo.”

José Theotónio

CEO do Grupo Pestana

Estamos a falar de concorrência desleal? “Se foram verdadeiros hotéis, sim”, defende José Theotónio. Se escaparam a “todos os regulamentos, licenciamento e fiscalizações a que os hoteleiros estão obrigados, então existe”, reforça, acrescentando que “há a necessidade de impor algumas regras em função dos diferentes tipos de alojamento local que existem”.

Regras para travar a concorrência, mas também para evitar que o turismo passe de ser um fator dinamizador da economia, que as pessoas reconhecem como tal, para algo com um efeito nefasto. A ausência de regulação dos fluxos de turistas faz com que o “turismo deixe de ser um amigo do desenvolvimento económico e as pessoas passem a sentir-se prejudicadas por esse crescimento muito grande”.

Turista low cost… mas só nos aviões

As mudanças não se sentem apenas no tipo de alojamento escolhido por quem visita o país, mas também na forma escolhida para viajar. Os voos oferecidos pelas companhias áreas low cost são cada vez mais procurados. Mas isso não implica que quem os compra queira gastar pouco no destino. “O transporte aéreo passou a ser uma commodity. O turista prefere pagar pouco e depois chegar ao destino e gastar o dinheiro no hotel e restaurantes”, afirma José Theotónio.

Mas os gastos médios por turista continuam a ficar aquém em relação aos outros países. Isto apesar, diz o CEO do Pestana, de Portugal ter conseguido nos últimos dos anos “quebrar um bocadinho a diferença de preços”. “Não temos no mesmo nível de preço, mas antes a diferença era de menos de 50%. Agora estamos a 75% ou 80%” dos valores praticados noutros destinos.

Ainda assim, o mercado não é tão atrativo como outros, o que não chama para o país as grandes cadeias internacionais. “Em Portugal, os hoteleiros ainda investem, compram terrenos, exploram… as cadeias internacionais não”, refere. “As cadeias internacionais não é isso que fazem. Seguiram a estratégia de não ter ativos. Só fazem a gestão. E, agora, nem isso fazem. Alguém faz a gestão e eles põem a marca em franshising”

Há, diz, uma alteração do modelo de negócio com a entrada de plataformas como o Booking. “A grande força das marcas internacionais era atrair. Estas plataformas retiraram grande parte do que era o poder das marcas“. De qualquer maneira, não é a ausência de grandes marcas internacionais em Portugal que impede que se continuem a atrair turistas que venham realmente gastar. “Há hotéis e destinos onde se consegue atingir esse tipo de turistas [que gastam mais]. Há hotéis no Algarve, Lisboa, Porto e na Madeira que fazem parte dessa franja que gasta muito dinheiro”.

Turismo bate recordes. Mas a concorrência está a “voltar fortíssima”

O crescimento do turismo não para de bater recordes. Há cada vez mais turistas a chegarem aos aeroportos de Lisboa, Porto ou Faro todos os dias. E graças, sobretudo, ao aumento das ligações das companhias de baixo custo. “Foram feitas algumas estratégias, nomeadamente a abertura dos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro às low cost, que fizeram ligações ponto a ponto”, o que “explica muito o aumento dos fluxos turístico para as cidades portuguesas”, nota o CEO do Grupo Pestana.

Mas será que este boom é sustentável? Para José Theotónio, isto depende dos destinos. Se estamos de Lisboa, o aeroporto “está no limite e não há uma decisão para resolver o problema no curto prazo”. É por isso “premente tomar já esta decisão e arranjar forma rápida de o fazer”, refere. “Se a questão do aeroporto de Lisboa não for resolvida num curtíssimo espaço de tempo então passará a haver um constrangimento.”

Apesar de o turismo continuar a assistir a um crescimento expressivo, o principal mercado do Grupo Pestana está a retrair-se: há menos turistas britânicos. E tudo por causa da desvalorização da libra, uma consequência do Brexit. “Mesmo que os hoteleiros portugueses não aumentem os preços, o destino está 15% mais caro para o nosso principal mercado”, o que acaba por beneficiar outros destinos que eram até agora menos procurados, nomeadamente Turquia, Tunísia e Egito. “A concorrência está a voltar e está a voltar fortíssima”, reconhece.

“Temos de ter flexibilidade” na lei laboral

A saída do Reino Unido da União Europeia não é o único constrangimento para a cadeia de hotéis. Vêm aí alterações à legislação laboral que podem vir a ter impacto no Grupo. “Penso que em setores como o do turismo, em que se trabalham 24 horas durante os sete dias da semana, tem de haver alguma especificidade. Temos de ter mercado com alguma flexibilidade”, admite o CEO do Pestana.

No entanto, José Theotónio mostra-se tranquilo. “Felizmente temos muito pouca conflitualidade laboral”, mesmo depois de o Grupo ter passado quatro anos em que não foi possível aumentar os salários. Hoje em dia, “trabalhamos com salários mínimos de 620 euros, um valor que ainda não revimos este ano”. E os colaboradores participam nos resultados. Como houve lucros, no ano passado cada um recebeu um prémio de “mais de um salário”.

Investimentos à vista… cá dentro e lá fora

O Grupo Pestana vai continuar a investir e apostar, não só cá dentro como também lá fora. “Temos projetos que estão a avançar e temos a ambição de crescer lá fora. Percebemos que para grupos com esta dimensão é importante não pôr os ovos todos no mesmo cesto”, refere José Theotónio.

"Temos projetos que estão a avançar e temos a ambição de crescer lá fora. Percebemos que para grupos com esta dimensão é importante não pôr os ovos todos no mesmo cesto.”

José Theotónio

CEO do Grupo Pestana

“Cerca de 75% da nossa atividade é focada em Portugal, mas diversificada por destinos. Gostaríamos de crescer mais na Europa” e, para isso, o Grupo está a construir dois hotéis em Madrid, abriu em Amesterdão e está a apostar nos EUA. “Mas não abdicamos de Portugal”, remata.

  • Rita Atalaia
  • Redatora
  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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