Licenciamento do Benfica District sai até ao verão, antecipa CFO da Benfica SAD

O megaprojeto do clube da Luz está a despertar apetite internacional, revela Nuno Catarino, mas o CFO da Benfica SAD salienta que ainda está numa etapa bastante preliminar e dependente da autarquia.

O Benfica District é, neste momento, o projeto mais ambicioso da história do clube da Luz e, segundo Nuno Catarino, também o mais apetecível para os investidores internacionais.

O responsável financeiro da Benfica SAD revela, nesta segunda parte da sua entrevista ao ECO (leia aqui a primeira parte da entrevista), que o interesse no megaprojeto avaliado em mais de 220 milhões de euros “superou as suas melhores expectativas”, e garante que o financiamento é, paradoxalmente, a sua menor preocupação.

“No futebol europeu há apenas dez marcas verdadeiramente relevantes e o Benfica estará sempre nesse grupo”, afirma, explicando como a junção de uma marca de topo, uma cidade em ascensão e o horizonte do Mundial de 2030 tornam o District irresistível para quem investe neste tipo de projetos em todo o mundo. Mas nem tudo está fechado. O licenciamento camarário, que Nuno Catarino promete “até ao verão”, é ainda o obstáculo mais imediato antes de o projeto poder ser apresentado formalmente ao mercado.

Benfica District, o projeto de renovação do estádio e infraestruturas da área envolvente

Nesta segunda parte da entrevista com o CFO da Benfica SAD há ainda espaço para um tema que une emoção e pragmatismo: o regresso da venda de álcool nos estádios. Para Nuno Catarino, não é apenas uma questão de experiência, mas uma necessidade estratégica.

“Não há qualquer correlação entre o consumo de álcool e os incidentes que ocorrem nos estádios, desde que seja feito com moderação”, defende, revelando que o Benfica está a trabalhar ativamente com outros clubes para viabilizar esta mudança. Uma solução que, garante, “chegará nos próximos anos.”

A Bloomberg noticiou em janeiro que o Benfica estava em negociações com bancos norte-americanos, nomeadamente o JPMorgan, para financiar o Benfica District, estimado em mais de 220 milhões de euros. Confirma essas negociações? Em que fase estão? Qual é a estrutura de project finance definida e qual o calendário para o início da construção?

Temos mantido conversas com vários financiadores internacionais, mas para efeitos de financiamento estamos ainda numa fase bastante preliminar. O que importa fazer neste momento é compreender o que esses interlocutores procuram na estrutura que lhes vamos propor e não o contrário, para chegarmos ao mercado nas melhores condições. Ainda é cedo para ter um dossier de project finance consolidado. Dispomos de um documento interno de trabalho e estamos em permanente contacto com bancos para acompanhar a evolução do mercado e fazer os ajustamentos necessários.

Está, portanto, ainda numa fase muito inicial?

Tivemos um passo muito importante, que foi a aprovação do projeto em Assembleia Geral pelos sócios, em dezembro. Na sequência desse anúncio, submetemos o pedido de informação prévia na Câmara Municipal de Lisboa — o chamado PIP (Pedido de Informação Prévia) –, para conseguir licenciar os trabalhos. Trata-se de um processo que envolve negociações com vários departamentos camarários, dada a dimensão e complexidade do projeto. Gostaríamos, como a própria Câmara, de já ter avançado mais, mas estamos dentro dos prazos do processo. O próximo passo determinante é o licenciamento.

O financiamento [do Benfica District] é a parte que menos me preocupa nesta fase. As prioridades imediatas são o licenciamento e a concretização do projeto nas melhores condições.

Qual é a previsão para o licenciamento?

Será em breve. Até ao verão teremos necessariamente o licenciamento definido. É o prazo que temos internamente e é o que temos de cumprir.

Só com o licenciamento garantido é que conseguem apresentar o projeto a investidores, ou podem fazê-lo antes?

Antes disso não temos necessidade de o fazer. O interesse que tem existido no projeto superou mesmo as minhas melhores expectativas quando iniciei este processo.

O que significa isso, concretamente?

Existe uma tendência mundial muito forte para a criação de núcleos de entretenimento ligados ao desporto, com particular dinamismo por parte de investidores americanos, mas também canadianos e britânicos. A procura e as receitas destes destinos têm evoluído de forma surpreendentemente positiva em todos os casos, o que gera um grande interesse neste tipo de projetos. A isso acresce o facto de, no futebol europeu, haver apenas dez marcas verdadeiramente relevantes e o Benfica estará sempre nesse grupo.

Conseguimos uma junção quase perfeita: uma tendência que se afirma com solidez, uma marca muito forte e uma cidade com momento, que é Lisboa. Juntas, estas três componentes, associadas ao Mundial de 2030 — que é o nosso objetivo de conclusão do District –, o projeto ganha ainda uma previsibilidade temporal que o torna muito apelativo para os investidores.

Não teme que possam surgir dificuldades do lado do financiamento?

Não. Precisamente por se tratar de um projeto muito apelativo, o financiamento é a parte que menos me preocupa nesta fase. As prioridades imediatas são o licenciamento e a concretização do projeto nas melhores condições. Após o licenciamento haverá, naturalmente, ajustamentos ao projeto inicial, que terá de ser detalhado antes de ser levado ao mercado.

Nuno Catarino, CFO da Benfica SAD, admite que o interesse de investidores internacionais no Benfica District superou as suas expectativas, mas o projeto enfrenta ainda obstáculos concretos. O licenciamento camarário está por fechar e a estrutura de financiamento do empreendimento de 220 milhões de euros encontra-se numa fase que o próprio classifica como "bastante preliminar". Henrique Casinhas/ECO

No plano estratégico que apresentou, o Benfica District deve contribuir com 38 milhões de euros de receita anual. Qual é o calendário realista para que esse valor comece a materializar-se nas contas?

Os 38 milhões de euros de receita bruta do projeto só são exequíveis com o projeto plenamente operacional, tipicamente seis meses a um ano após o seu fecho. Se estamos a falar de 2030 como data de conclusão, a receita começará a materializar-se em 2031. É aí que o projeto passará a funcionar na sua plenitude.

Em janeiro, um grupo de empresários sauditas visitou Portugal à procura de oportunidades de investimento, tendo no calendário uma visita ao Benfica — depois de passarem pela Federação Portuguesa de Futebol e pelo Grupo Valouro, cujo presidente José António dos Santos detém 16,38% do capital da Benfica SAD e tem demonstrado interesse em vender a sua participação.

Esse grupo não esteve no Benfica.

A agenda divulgada refere que visitaram o clube e assistiram ao jogo contra o Estrela da Amadora.

Não se reuniram comigo, nem com a SAD. Não estiveram cá.

Mas, como disse, tem havido muito interesse de investidores no Benfica District. Esse interesse inclui investidores sauditas?

Quando lançámos este projeto fizemos um levantamento exaustivo dos investidores presentes neste tipo de projetos e concluímos que a liderança tem sido claramente norte-americana. É um facto que, em muitos casos, os investidores americanos surgem associados a capital do Médio Oriente, mas a liderança — quem estrutura a operação — são os bancos norte-americanos, que depois têm acesso a esse capital.

Imagino que outros clubes tenham tido uma componente de 20% a 30% de capital oriundo do Médio Oriente. Em alguns casos na Europa, quando a via de mercado habitual não é a mais acessível, tem-se ido diretamente a investidores da Arábia Saudita e de outros mercados. Mas essa não é a nossa expectativa. Se nos tivesse sido solicitada uma reunião, teríamos recebido esses investidores sem qualquer reserva. Simplesmente, tal não aconteceu.

Os lugares de época e a bilhética já não são as variáveis mais importantes, há outras de maior peso, e o natural é que essas continuem a crescer. Por isso queremos melhorar a oferta corporativa para expandir o valor, e queremos igualmente internalizar para dentro do estádio consumos que hoje se fazem fora.

Em outubro anunciaram um plano de recompra de ações próprias. As ações estão hoje a negociar nos seis euros, cerca de 17% abaixo do máximo histórico de 7,2 euros registado há menos de um mês. Com esta correção significativa, vão avançar com o plano nos próximos três meses? Qual é o plano até ao final do ano?

Em virtude do processo da emissão obrigacionista em curso, limito-me ao que está divulgado publicamente. Durante o período desta emissão, não realizaremos qualquer operação nesse sentido.

Mas este ano haverá operações de recompra?

Não posso confirmar nem desmentir. Se considerar oportuno, haverá. Caso contrário, não.

Com as ações a cotar nos seis euros, é este um bom momento para arrancar com o programa de recompra?

O “bom momento” é sempre uma questão relativa. Há sempre uma combinação entre o excedente de resultado e a oportunidade. É o que temos explicado consistentemente aos acionistas.

O resultado do primeiro semestre foi positivo em 40,6 milhões de euros, mas o Benfica foi eliminado da Champions League pelo Real Madrid no playoff, da Taça de Portugal, perdeu a Taça da Liga e está em terceiro lugar na Liga, com treinador e presidente a reconhecer que o título de campeão é hoje um objetivo muito difícil. Qual é a expectativa para o resultado do exercício completo 2025/26? O segundo semestre terá 17,5 milhões de euros adicionais em prémios UEFA, mas sem os oitavos de final que tinham no ano passado. Conseguem garantir o equilíbrio económico anual?

Em virtude da emissão obrigacionista em curso, não me é possível comentar previsões.

É fundamental ter álcool dentro do estádio ou dentro dos perímetros em que o Benfica opera. É uma das nossas iniciativas (…) Esta é uma medida que vai beneficiar todo o futebol português.

Relativamente ao plano de atingir os 40 euros de gasto médio por adepto em dia de jogo face aos atuais 22 euros, haverá uma atualização dos preços dos Red Pass na próxima época?

Pela mesma razão – os efeitos de forecasting associados à emissão obrigacionista -, não posso comentar esta matéria neste momento.

Mas esse objetivo é, em qualquer caso, um plano de médio prazo.

Sim. E é, aliás, a melhor métrica de comparação entre clubes, precisamente porque é muito abrangente, combinando a receita corporativa com a receita de retalho (lugares de época e bilhética), bem como um conjunto de ações possíveis dentro do próprio estádio, como restauração e food and beverage. É uma métrica com muitos indicadores.

No caso do Benfica, os lugares de época e a bilhética já não são as variáveis mais importantes, há outras de maior peso, e o natural é que essas continuem a crescer. Por isso queremos melhorar a oferta corporativa para expandir o valor, e queremos igualmente internalizar para dentro do estádio consumos que hoje se fazem fora. É um plano mais abrangente, que visa transformar um jogo de futebol numa experiência mais completa, em que muitos adeptos possam beneficiar de chegar duas horas antes do pontapé de saída.

Estádio do Sport Lisboa e Benfica Henrique Casinhas/ECO

Essa transformação será já visível na próxima época desportiva?

Não. É uma questão de médio e longo prazo. Teremos melhorias pontuais de serviço, mas sem as obras do Benfica District e a renovação do estádio será difícil atingir essa meta.

E para alcançar esta métrica é fundamental recuperar a permissão de consumo de álcool dentro dos estádios?

É fundamental ter álcool dentro do estádio ou dentro dos perímetros em que o Benfica opera. É uma das nossas iniciativas. Não existem impedimentos legais nessa matéria, mas tem havido condicionamentos decorrentes da interpretação das normas, algo em que temos trabalhado com outros clubes, existindo abertura dos intervenientes para que tal seja possível. Tanto mais que não há qualquer correlação entre o consumo de álcool e os incidentes que ocorrem nos estádios, desde que esse consumo seja feito com moderação, ao abrigo de regulamentos claros.

Esta é uma medida que vai beneficiar todo o futebol português, especialmente tendo em conta que, na segunda divisão, já existe hoje alguma permissividade nesse sentido, criando uma assimetria em desfavor dos grandes clubes. Já estivemos perto de uma solução e acreditamos que a alcançaremos nos próximos anos.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Licenciamento do Benfica District sai até ao verão, antecipa CFO da Benfica SAD

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião