“Limitação da contabilidade é ser difícil prestar serviços fora de Portugal”

CEO do grupo Your, Pedro Flores, defende que uniformização das normas contabilísticas e de auditoria na Europa seja transposta também para a fiscalidade para pôr fim a "limitações de crescimento".

O recém-nomeado CEO do grupo Your considera que o negócio da contabilidade deve evoluir para consultoria fiscal, mas não pode partir puramente da tecnologia, como está a fazer a concorrência que entra no mercado. Em entrevista ao ECO/EContas, Pedro Flores revela que, depois de uma fase de aquisições, o crescimento da empresa portuguesa passará pela partilha de receita, pela referenciação (o passa palavra) e por parcerias.

O sucessor de Sara do Ó e a Filipa Xavier de Basto na liderança da Your defende ainda que uniformização das normas contabilísticas e de auditoria na Europa seja transposta também para a fiscalidade para pôr fim a “limitações de crescimento”.

Que cunho pessoal quer dar ao grupo Your enquanto presidente executivo?

O meu grande desejo é que o grupo Your seja alicerçado em três grandes pilares: clientes, pessoas, e tecnologia. Ao nível profissional, sempre fui vendo as promoções como algo que resulta de um processo. Nunca promovi ninguém porque sim e poucas vezes promovi alguém por via externa para dentro da empresa. Acreditei sempre que o percurso se faz dentro da empresa e que se começa de baixo, caminhando até acima.

No grupo Your, a minha ascensão veio, inicialmente, de uma integração de uma carteira. Eu era dono – e trabalhei durante muitos anos – numa empresa que era a B.Time e a Sara [do Ó] e a Filipa [Xavier de Basto] vieram convidar-me para integrar o grupo e adquirirem a carteira de clientes. Ao fim de meia dúzia de conversas, perceberam que, mais do que propriamente a carteira da B.Time, queriam-me dentro do grupo. Como comecei a coliderar com ambas, a transição foi feita de uma forma muito normal e tranquila. Não houve propriamente um dia em que cortámos uma fita e em que a coisa se deu.

A empresa tem estado a passar por um processo de reorganização, não só com novo CEO, mas também acionista e equipas. Quais os objetivos desta reforma?

Começámos por criar uma equipa de digitalização. Hoje em dia continua-se a falar de digitalização, mas a digitalização é uma agulha no palheiro e apenas uma ínfima parte do processo global e geral de transformação digital. Não trabalhamos em papel desde 2024. Mesmo os clientes que ainda enviam documentos em formato físico, passam por um departamento onde digitalizamos tudo para os contabilistas. A seguir, passámos a ter arquivo digital, a disponibilizar no portal de clientes a sua informação contabilística e os outputs do nosso trabalho, desde uma declaração de IVA, um balancete, reporting até uma certidão de não dívida. É como se trabalhássemos dentro do escritório deles. É uma mudança de paradigma grande no outsourcing, que não tinha este acesso à informação e processos que temos hoje. Criar planos de contas e rubricas de payroll [folhas de pagamento] uniformes, homogeneizar procedimentos… Foi a base do que deu resultados – e ainda virá a dar mais.

Pedro Flores, CEO do Grupo Your, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

As vossas soluções digitais são desenvolvidas internamente? Quanto é que investem em I&D ou engenharia informática?

Tudo feito internamente, dentro de casa, com o know-how das nossas pessoas. Temos alguns softwares externos, que servem de base para todas as soluções. Trabalhamos com a Cegid. O investimento é uma informação que não partilhamos.

Um dos entraves nesta matéria do digital foi o duplo fator de autenticação (2FA) nos portais da Segurança Social e das Finanças. Como é que está a correr com os vossos clientes?

Está resolvido. Foi, efetivamente, mais um desafio, dentro de muitos, que a nossa operação atravessa diariamente, mas está resolvido. Neste momento, já temos uma solução que foi feita em parceria com a Cegid que vai ultrapassar esta situação em ambas.

Cada vez mais, acreditamos que a transformação digital vem mudar por completo o paradigma da função da profissão: de contabilista a consultor. A IA consegue produzir, mas não dá o passo da consultadoria.

Na semana passada, assistimos à entrada no mercado de uma startup de contabilidade, pouco tempo depois de outra estrangeira ter entrado em Portugal. Como é que lidam com este género de concorrência, sobretudo num setor tão fragmentado?

Muito bem. Acho que é o normal no mercado. Estranho seria se não existissem outros players a andar atrás do grupo Your na inovação. Sabemos que, por estarmos muito à frente em termos de tecnologia e componente de inteligência artificial [IA], é normal existirem players a tentar fazer o nosso caminho. Acho que o grupo Your se distancia dos concorrentes que estão neste momento a dar os primeiros passos na revolução digital. Nascemos como contabilistas, ao contrário de muitos que nasceram como tecnologia – e isso vai fazer sempre a diferença. Vamos continuar a ser contabilistas com acesso à transformação digital e não o contrário.

Acha que as empresas confiam mais em alguém com génese de contabilista em vez de líder da Uber?

Não quero falar de concorrentes em particular, mas diria que, como cliente, confiaria sempre mais num contabilista que tivesse acesso às melhores ferramentas digitais e não a uma pessoa de IT que estivesse a aprender contabilidade. Também não fomos nós, como contabilistas, que desenvolvemos os robôs e agentes de IA que temos. Alicerçámos em pessoas e em empresas que sabem. Desvirtuar e querer transformar a profissão contabilística única e exclusivamente em agentes de IA ou no IT… Deixamos de saber o que estamos a fazer, porque a relação humana e capacidade de ler os números vem da nossa génese. Não pode vir do IT. A diferença será deixar de lançar contas manualmente e transformar isso em tempo dedicado aos clientes para analisar reportings, dar-lhes informação sobre os próximos passos a dar na condução do negócio, mediante o que a IA consegue produzir. Efetivamente, produz. Só não dá o passo da consultadoria, que é essencial e envolve conhecer o cliente, as suas instalações, o que fazem.

Pedro Flores, CEO do Grupo Your, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Apresentaram recentemente uma divisão de formação. Como é que estão a organizar a Your Academy? Está mesmo aberta a todas as empresas, mesmo que não sejam clientes?

Sim. Vamos trazer empresários para sala e dar-lhes noções, pelo menos básicas, para conduzirem o seu negócio. Está direcionado para os clientes, mas também para novos empresários. Não podemos “mudar o mundo” para trás, mas queremos começar a mudá-lo para a frente. Todas as novas empresas criadas em Portugal vão ser contactadas por nós para ingressarem nestes cursos. Acreditamos que a formação é transformadora e que pode fazer a diferença para terem melhores resultados. Temos previsto começar já em abril com diversos formatos, presencial e online.

Quanto é que esperam encaixar com esta nova área de negócio?

Acima de tudo, é uma área de negócio complementar ao nosso foco: contabilidade, payroll e serviços administrativos. Não temos expectativas financeiras para esta área. Temos expectativas de, com isto, poder prestar um serviço melhor e conseguir desenvolver negócio dentro da área de finance. Não há uma ambição de faturação, mas acreditamos que conseguiremos mais clientes porque temos mais posicionamento de advisory (consultores) e formadores.

A compra da Travemestra, de Castelo Branco, foi a última aquisição anunciada. Irá prosseguir com M&A?

Não está previsto, no nosso plano estratégico para os próximos três anos, fazer nenhuma aquisição, o que não significa que não possa existir, mas não é este o caminho. O caminho das aquisições de empresas dentro do grupo Your tinha um objetivo claro: termos uma dimensão suficiente para podermos ter sinergias e fazer investimento em tecnologia. Se fizéssemos este investimento em tecnologia com uma dimensão muito menor, não iríamos conseguir criar as sinergias suficientes para ser business case e ser interessante. Já atingimos a dimensão que queríamos por esta via (aquisição de carteiras).

A partir de agora, acreditamos no crescimento a dois níveis diferentes: referenciação e revenue share. A estratégia de marketing para este ano tem diversos pilares, desde a referenciação – das mais importantes – até um conjunto de parcerias com algumas empresas de referência complementares à nossa. Lamento, mas ainda não podemos dizer nomes. Saber-se-ão muito em breve, durante o primeiro semestre. Serão empresas cujos nossos clientes também recorrem, certamente, no âmbito da sua atividade empresarial.

Vamos fazer parcerias com empresas complementares. Serão empresas cujos nossos clientes também recorrem, certamente, no âmbito da sua atividade empresarial. Durante o primeiro semestre saberão os nomes.

Num contexto de multidisciplinaridade?

Num contexto de multidisciplinaridade, sim. São sempre empresas que não vão concorrer connosco e têm um serviço ou um produto paralelo que servirá o cliente numa visão maior, de 360 graus. Vamos desenvolver o negócio de forma orgânica.

As sociedades de private equity têm optado por uma estratégia de aquisição de carteiras até para aliviar empresas que se querem concentrar num determinado grupo de clientes que lhes compense mais. Quais os planos da Explorer Investments?

A nossa equipa de liderança tem uma relação muitíssimo próxima com todos os nossos três acionistas. Mensalmente, reunimos, semanalmente falamos diversas vezes e temos um contacto direto com eles. Por isso, toda a nossa estratégia está validada e aprovada pelos acionistas. Não veio propriamente de uma ação deles. Acho que, acima de tudo, vem de uma clareza da equipa sobre o futuro. Acreditamos muito pouco em ter aquisições de carteira só por si. Não considero isso um valor se não a integrarmos devidamente no nosso ecossistema de grupo.

Disse que tinha uma “relação muitíssimo próxima” com os acionistas. E eles têm uma “relação muitíssimo próxima” entre si?

Sim. A relação é ótima entre nós.

Pedro Flores, CEO do Grupo Your, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Na área da auditoria, a União Europeia caminha para uma maior harmonização das regras de supervisão. Bruxelas prepara-se até para lançar uma consulta pública sobre o tema. O que deveria ser feito?

Tudo o que tem a ver com estarmos cada vez mais perto dos padrões, de uniformizações e melhores práticas, acho que é bom para todas as áreas. Por exemplo, uma das limitações de crescimento que temos na área de contabilidade é, dificilmente, conseguirmos prestar o nosso serviço fora de Portugal. A nível contabilístico já existe uma harmonização, mas a nível fiscal, como a especificidade de cada país é grande, não nos permite prestar o serviço – que é, se calhar 50% contabilístico e 50% de fiscal – lá fora.

Deveria haver maior estandardização, não só de normas contabilísticas e de auditoria, mas também transpor isto para a parte fiscal. Como a Irlanda, que foi um player fiscal, Portugal ainda tem um caminho grande a fazer aí. Não têm noção da importância que é a estabilidade e o facto de, em dois anos seguidos de Orçamentos do Estado, termos tido poucas alterações a nível fiscal. Apesar de a nossa taxa de IRC não ser efetivamente muito competitiva (já o é mais a esta descida deste ano), o maior entrave tinha a ver com as alterações constantes. Não vamos investir num país em que as regras hoje são umas, amanhã outras e depois de amanhã outras. Como é que é possível fazer um business case a cinco ou a 10 anos?

E o grupo Your, planeia fazer investimento na expansão internacional?

Teremos expansão internacional na agenda quando tivermos esta homogeneização a nível fiscal. Até lá, não.

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