Autarca de Gaia começa a ter dúvidas se a alta velocidade avança em Gaia, face à polémica instalada em torno da localização. Garante preferir o percurso Porto-Vigo.
Descontente com o chumbo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) à relocalização da estação da linha de alta velocidade Porto-Lisboa para Vilar do Paraíso, e à superfície, o autarca de Gaia põe os pontos nos “i”. E vem a público denunciar que “não há nenhum estudo de segurança feito e de evacuação das pessoas, se houver um problema a 80 metros de profundidade” na estação de Santo Ovídio, que ficará enterrada.
Luís Filipe Menezes, que conta com o apoio do seu homólogo do outro lado da margem do rio Douro, Pedro Duarte, descortina o impacto que esta localização vai gerar na cidade e nos munícipes. Assegura mesmo que vê mais vantagens na linha de alta velocidade que vai ligar o Porto a Vigo.
Em dezembro de 2025, a APA travou a relocalização da estação de Santo Ovídio para Vilar do Paraíso, assim como o aumento do número de demolições de casas e a construção de duas pontes entre Gaia e Porto em vez de uma. Em que ponto está este dossiê da linha de alta velocidade?
Está tudo, digamos, em banho-maria. Vai haver novamente um debate público sobre novas soluções. A Câmara já criou um grupo de trabalho, reuniu com os cidadãos e os autarcas, e em Gaia houve um consenso de 90% — PSD, PS, Iniciativa Liberal, Chega, CDS. Dos 24 presidentes de Junta e dos cidadãos das freguesias que eram atravessadas pela alta velocidade, posso dizer que 95% deles chegaram a acordo com a Câmara sobre a solução final.
E qual é essa solução?
Passa pelo comboio de alta velocidade ser enterrado em cinco das sete freguesias, quando inicialmente vinha à superfície em quase todas. Portanto, poupámos cinco freguesias de ter o comboio à superfície. E também houve consenso em relação à localização da estação em Vilar do Paraíso.
Mas a APA rejeitou essa solução…
O comunicado da APA, com sinceridade, dá-me vontade de rir, porque diz textualmente, que receberam 190 respostas no debate público. Estamos a brincar, não? 190 respostas quando Porto e Gaia têm 700 mil habitantes? Mais, as duas respostas mais importantes deveriam ser as das câmaras de Gaia e do Porto, que estão de acordo com a localização da estação em Vilar do Paraíso.
Sabe o que significa a estação em Santo Ovídio? É por isso que eu acho que, se calhar, não vai haver TGV nenhum em Gaia, porque a APA vai ter de se pronunciar sobre a estação em Santo Ovídio, que não passa de um apeadeiro. Em Santo Ovídio não cabe lá uma caixa de fósforos, quanto mais uma estação de alta velocidade. Os cidadãos não sabem e devem saber o porquê de não concordarmos com a estação em Santo Ovídio. E a APA também não sabe, e quando souber, se calhar vai reprovar essa localização.
Quais são os principais motivos que os munícipes desconhecem?
As obras vão implicar fechar o tráfego em Santo Ovídio durante quatro anos. O que significa que o principal acesso ao hospital de Gaia, no centro da cidade, fica interrompido; que os comerciantes daquela zona, e principalmente da Rua de Soares dos Reis, que já foram bastante traumatizados com as obras do metro, vão ter de fechar a porta. Além de algumas dezenas de casas que irão abaixo na Rua Conceição Fernandes, que ainda ninguém disse. Significa ainda que perfurar a 80 metros de profundidade são 200 camiões de terra por dia, durante quatro anos, a atravessar a cidade.

Há um desenho, uma roda vermelha, mas não se diz quem paga. E onde está o projeto, que não existe, de um centro de conexão rodoferroviária, ou seja, de ligação para as pessoas que vão para o comboio poderem estacionar? Está lá desenhada a perspetiva de poder ser construído, mas não há projeto, não há localização precisa, não há financiamento.
Também não há nenhum estudo de segurança feito e de evacuação das pessoas se houver um problema a 80 metros de profundidade. Acrescem ainda os 20 mil veículos por dia a mais, que serão orientados para a Ponte da Arrábida, porque não poderão circular naquela passagem. E por isso é que o Porto também se pronunciou a favor de Vilar do Paraíso. Portanto, quando se for analisar estas questões, e nós iremos apontá-las, quero ver o que realmente a APA vai dizer.
Só queremos a ponte ferroviária. E, no entanto, querem-nos impingir uma ponte rodoviária.
Mas a APA já reprovou a relocalização da estação à superfície em Vilar do Paraíso.
Sim, a APA reprovou essa localização, mas ainda não aprovou a estação de Santo Ovídio.
Neste momento o que falta para o projeto avançar?
Provavelmente, o consórcio vai ser obrigado a fazer retificações, entre elas da própria localização da estação, e será reaberto novo debate público. Nessa altura, a APA não pode dizer que desconhece os 200 camiões de terra por dia, que não há estudo de segurança para meter os cidadãos a 80 metros de profundidade, e que vai lançar mais 20 mil automóveis na Ponte Arrábida.
Então os prazos que estão previstos para a linha funcionar vão derrapar?
Há financiamentos que, se não houver rapidamente uma aprovação do ambiente e da APA, porventura pode cair o concurso. Podemos ter de voltar ao princípio.
E a construção das duas pontes entre o Porto e Gaia?
É outra asneira. Estavam previstas duas pontes que eu e o Pedro Duarte [autarca do Porto] não queremos. Só queremos a ponte ferroviária. E, no entanto, querem-nos impingir uma ponte rodoviária. Mas a Gaia não vão impingir.
A ponte rodoviária é à cota baixa, ou seja será uma ponte em cima da outra. Custa 40 milhões de euros levar aquela ponte à cota baixa até à Via de Cintura Interna (VCI). Ora, o município de Gaia não tem 40 milhões. O Estado também não deve ter. Portanto, talvez a APA tenha. Mas talvez as coisas se resolvam, porque a agência tem uma pessoa séria e com um sentido de responsabilidade, que é o presidente. E que é um homem sério, consciente. Mas depois há para lá umas senhoras que conhecem Gaia pelo Google Earth.
Às tantas a linha de alta velocidade Porto-Vigo era mais importante do que a de Lisboa-Porto. Talvez seja uma heresia para alguns…
Como vê o anúncio feito pela TAP de novas rotas e o investimento de 20 milhões num hub de manutenção com 200 empregos em Pedras Rubras?
O aeroporto Sá Carneiro é uma peça estratégica da região, porque foi o grande impulsionador do boom turístico e até do boom empresarial dos últimos anos. Hoje temos grupos empresariais importantes a investir em Gaia, desde israelitas, árabes, belgas até franceses. Mantemos todo o interesse em que a qualidade do aeroporto se consolide e que as relações com a principal companhia aérea portuguesa, a TAP, também evoluam de forma positiva. Mas não podemos perder de vista, do ponto de vista estratégico, a ligação à Galiza.
Refere-se à linha de alta velocidade Porto-Vigo?
Às tantas, a linha de alta velocidade Porto-Vigo era mais importante do que a de Lisboa-Porto. Talvez seja uma heresia para alguns… Mas não podemos perder o mercado da Galiza, principalmente agora que há o comboio de alta velocidade da Galiza para Madrid. É fundamental que o nosso aeroporto se afirme definitivamente como o aeroporto do Noroeste Peninsular.
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Luís Filipe Menezes duvida da passagem da alta velocidade em Gaia. “Se calhar, não vai haver”
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