O chairman da Menzies está confiante que a empresa britânica vai conseguir as novas licenças para operar nos aeroportos portugueses e gostava de ficar com negócio dos lounges e parques de combustível.
Hassan El-Houry, chairman da Menzies Aviation, a empresa britânica que tem a maioria do capital da antiga Groundforce, está confiante de que vai ficar com as novas licenças nos aeroportos portugueses e está de olho em novos negócios. O conflito no Médio Oriente já está a ter impacto financeiro.
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O consórcio espanhol composto pela Clece e a South ficou em primeiro lugar no concurso lançado pela ANAC, mas o regulador iniciou um processo de exclusão por não terem sido apresentados todos os documentos exigidos. Caso se confirme a exclusão, a Menzies, o segundo classificado, poderá manter as licenças para operar nos próximos sete anos nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro.
“Estou confiante de que as instituições que existem neste país acabarão por fazer o que é melhor para o país. Acreditamos, obviamente, que somos os melhores para Portugal”, reage Hassan El-Houry.
O responsável fala sobre os investimentos previstos para Portugal, diz que espera paz laboral na empresa, e vê oportunidades nos lounges e parques de combustível. A crise no Médio Oriente está a ter impacto negativo na empresa, que está presente em 347 aeroportos e teve receitas de 3.000 milhões de euros em 2025. O chairman está preocupado com o fornecimento de jet fuel: “A minha preocupação neste momento é a disponibilidade de combustível para aviões e de como isso pode afetar os volumes de muitas companhias aéreas”.
A Autoridade Nacional da Aviação Civil decidiu dar início a um processo de exclusão do consórcio Clece/South no concurso das licenças, por não ter entregue toda a documentação exigida. Ainda pode haver contestação, mas acredita que com este desenvolvimento as licenças vão acabar por ser atribuídas à Menzies Aviation Portugal?
Eu tenho plena confiança na independência e no profissionalismo da ANAC, que é a entidade reguladora da aviação civil em Portugal. E estou confiante de que farão o que for melhor para o setor da aviação do país, para as companhias aéreas que operam neste país e para os passageiros que voam para dentro e para fora do país.
Não teme que mesmo que o consórcio seja excluído e possa recorrer a tribunal para contestar essa decisão e que este processo se arraste nos tribunais durante meses ou mesmo anos?
Portugal é um país com um Estado de direito e o sistema judicial existe para garantir que o processo devido é sempre seguido. Essa é uma das razões pelas quais investimos em Portugal: gostamos do facto de este país ter um Estado de direito e um sistema judicial independente. Se alguma das partes considerar que as leis não foram aplicadas, ou não foram aplicadas de forma justa, pode sempre recorrer ao sistema judicial.
Estou preocupado? Estou confiante de que as instituições que existem neste país acabarão por fazer o que é melhor para o país. Acreditamos, obviamente, que somos os melhores para Portugal. Ao longo dos últimos três anos demonstrámos o nosso compromisso para com os trabalhadores do país, para com as companhias aéreas do país, para com os aeroportos do país. Por isso, estou confiante de que, em última análise o regulador…

Irá atribuir as licenças à Menzies.
Fará o que é melhor para o país, sim.
Que é?
Acreditamos firmemente que somos o mais conveniente e o melhor fornecedor de serviços de aviação do país, a 100%.
Mas a Menzies também deu entrada com uma providência cautelar e uma ação judicial principal para contestar o concurso. Disse que tinha confiança no regulador, porquê então ir para tribunal?
Não quero fazer comentários sobre um processo judicial em curso.
De acordo com as regras do concurso, a Clece/South é obrigada a apresentar uma lista dos milhares de trabalhadores contratados para prestar serviços de handling nos aeroportos portugueses, incluindo informação sobre salários e comprovativos de inscrição na Segurança Social. Isto aplica-se à Clece/South ou a qualquer outra parte que participe no concurso. Mas os trabalhadores de handling em Portugal trabalham para a Menzies ou para a Portway. Isto não torna impossível a um concorrente cumprir os requisitos do concurso, fazendo com que só possa haver um vencedor, que é o operador incumbente?
O concurso foi redigido pela ANAC. Por isso, acho que essa pergunta é mais adequada para ANAC do que para mim. A Menzies não existia em Portugal há cinco anos. No entanto, aqui estamos hoje com 3.500 trabalhadores que são devidamente formados, que são devidamente compensados e temos um ambiente de trabalho construtivo com todos os 11 sindicatos que trabalham na nossa empresa. Por isso, não acho que nada seja impossível. As coisas são possíveis. Mas penso que, no que diz respeito às especificidades do concurso, deveria dirigir a pergunta à ANAC e não a mim.
O Governo prorrogou as actuais licenças até outubro. Considera que será necessária uma nova prorrogação?
Espero que não seja necessário um novo atraso. Mas isso, mais uma vez, é algo que cabe à ANAC decidir e ao Governo decidir, não a mim.
Mas olhando para o processo, tem uma opinião. A estabilidade da operação é importante.
Mas não se trata da minha opinião. A estabilidade é importante porque há muitas mudanças a acontecer no setor da aviação portuguesa. Há uma privatização da transportadora nacional, que representa 80% do volume do país. Há um novo aeroporto, esperemos, que está a ser planeado e avançado. Atualmente, os aeroportos portugueses movimentam cerca de 75 milhões de passageiros, se não mais. Há cinco anos era muito, muito menos. Portugal é um dos países da Europa com maior crescimento no setor da aviação. Está muita coisa a acontecer.

E isso requer estabilidade.
E isso requer estabilidade. E o nosso papel, como a principal empresa de serviços de aviação e de assistência em escala em Portugal, é trazer essa estabilidade ao aeroporto. É muito importante também para os trabalhadores. Nós empregamos 3.500 trabalhadores que querem estabilidade no seu emprego, nas suas carreiras. Eles merecem estabilidade e progressão na carreira e nós damos-lhes isso.
Reuniram-se com o Governo português relativamente a este concurso de licenças?
Estamos a manter conversações com os organismos reguladores necessários do governo português.
Em que temas?
Há tanta mudança a acontecer a toda a hora, que ninguém pode trabalhar isoladamente. Quer dizer, se eu trabalhar isolado da TAP ou se eu trabalhar isolado da ANAC ou da ANA ou do Ministério das Infraestruturas, não vou conseguir e eles não vão conseguir. Todos nós temos de estar constantemente em diálogo uns com os outros para manter a dinâmica que temos no setor da aviação.
Quando a Menzies assumir 100% do capital da operação portuguesa, a SPdH, que investimento vão fazer?
Comprometemo-nos a investir 15 milhões de euros em equipamentos para o aeroporto, dois milhões para o terminal de carga, mais dois milhões para sistemas de teconologia, formação e condições de trabalho.
Houve queixas sobre a forma como a operação de carga está a decorrer no aeroporto de Lisboa por parte de um sindicato e de uma associação empresarial. Este ano há um ligeiro decréscimo no movimento de carga, de 1,4%, de janeiro a março, de acordo com dados do INE. O que vai ser feito?
Não conheço a diminuição dos volumes, mas estamos a comprometer-nos com dois milhões de euros para melhorar as infraestruturas do terminal de carga. Estamos totalmente empenhados nisso. E pensamos que é importante investir na carga porque é a tábua de salvação das mercadorias e da economia de Portugal. Essa parte do aeroporto precisa de ser atualizada a melhorada. Já agora, a carga no aeroporto do Porto também é muito importante.
Falando ainda dos trabalhadores, logo após o acordo para a entrada da Menzies no capital da antiga Groundforce, foi feito um acordo em 2023 com todos os sindicatos. Pouco depois dois deles avançaram com uma greve parcial que durou mais de um ano. Assinou recentemente um novo acordo com os sindicatos. Espera agora ter paz social?
Uma das complexidades que temos é o facto de termos 11 sindicatos na SPdH em Portugal. É muito difícil agradar a 11 sindicatos. É difícil agradar a dois sindicatos, quanto mais a 11. Acredito firmemente que, nas nossas negociações para os acordos coletivos de trabalho com os sindicatos, estamos a fazer o que é melhor para a empresa, para o setor da aviação em Portugal e para os trabalhadores, coletivamente. Agora, se um sindicato considerar que o que estamos a fazer não é do seu interesse específico, esse ónus de responsabilidade recai sobre ele. Temos de agir no melhor interesse coletivo dos trabalhadores e não de um sindicato específico. Estou confiante de que os sindicatos farão o que for melhor para os interesses da empresa e dos seus trabalhadores. Chegámos a acordos de boa-fé. E espero que percebam que, quando fazem greve, isso prejudica mais o aeroporto, os passageiros, o país e a economia do país do que qualquer outra coisa.
Como é que o conflito no Médio Oriente está a afetar a operação da Menzies, não só em Portugal, mas a nível mundial?
Operamos em vários países do Médio Oriente. Muitas dessas operações foram completamente interrompidas ou houve uma redução significativa dos voos. Servimos muitas transportadoras do Médio Oriente, na Austrália, nos Estados Unidos, na Europa, no Reino Unido, em África e até na América do Sul. Em março e abril fomos muito afetados. A minha preocupação neste momento é a disponibilidade de combustível para aviões e de como isso pode afetar os volumes de muitas companhias aéreas. Estamos a acompanhar isso de muito perto.
Que dados é que a Menzies tem sobre a disponibilidade de combustível?
O problema é que não é uniforme e não é claro. Há alguns países que são completamente autossuficientes em termos de combustível para a aviação. E há alguns países que são completamente dependentes do combustível do Médio Oriente para o seu combustível de aviação. A complexidade acrescida é que, mesmo que se seja autossuficiente, os mercados de combustíveis a nível mundial estão todos interligados. Assim, um aumento do preço num país ou numa região significa que o preço aumentou na outra região, mesmo que se seja autossuficiente.
Isso vai ter impacto nos resultados financeiros?
100%. Já anunciámos que teve um impacto financeiro na nossa empresa. E penso que todas as empresas de serviços de aviação de assistência em escala estão a sofrer um impacto negativo do Médio Oriente. E todas em Portugal.

Sabe como está a disponibilidade do jet fuel em Portugal?
Não me quero pronunciar porque não sou propriamente um especialista em combustíveis de aviação em Portugal. Penso que deve perguntar à TAP e à empresa de refinação.
A Menzies está em Portugal a longo prazo?
Sem dúvida. Pessoalmente, estou em Portugal a longo prazo e a Menzies também está em Portugal a longo prazo. Tivemos três anos ótimos. Tivemos os nossos desafios, mas tivemos três anos fantásticos e esperamos ter mais sete anos e ainda mais no futuro.
A empresa em Portugal já foi rentável em 2025?
A SPDH é uma empresa rentável, sim.
Em relação aos aeroportos que gere em Portugal, gostaria de acrescentar outras linhas de negócio?
Como disse anteriormente, estamos empenhados no setor da aviação em Portugal e em duas linhas de serviços que fazem parte do nosso portfólio, que atualmente não oferecemos em Portugal, mas que oferecemos noutros aeroportos. O primeiro é o abastecimento de combustível para aviões e a gestão de parques de combustível. A Menzies é a maior empresa independente de abastecimento de combustível para aviação do mundo. Não somos donos do combustível, mas gerimos parques de abastecimento de combustível em aeroportos e fazemos abastecimento para aviões. A segunda é a construção e gestão de lounges de classe executiva e VIP nos aeroportos. Se houver a oportunidade de oferecermos estes serviços em Portugal, e como estamos empenhados neste setor no país, seria uma honra para nós prestarmos esses serviços aos clientes das nossas companhias aéreas.
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