Na corrida aos radares, Indra ‘acena’ com “programa industrial” envolvendo empresas nacionais

A Indra está disposta a avançar com um "programa industrial" caso Portugal opte pelos radares da companhia. Já existem contactos com a Força Aérea, adianta Helder Alves, diretor de defesa e segurança.

Há cerca de 30 anos em Portugal, a Indra está atenta aos investimentos no setor da defesa e, em particular, em radares previstos na Lei de Programação Militar, uma das áreas onde a empresa, que em Portugal já conta com 1.000 trabalhadores, atua. Para isso, a Indra está disposta a avançar com um “programa industrial” caso Portugal opte pela compra de radares à companhia. Com Espanha, país onde está a casa-mãe, mesmo ao lado de Portugal, e partilhando os dois países das mesmas preocupações de defesa e ameaças, a Indra fala da possibilidade de acordos Estado-a-Estado para a compra de radares de vigilância área ou espacial.

Quando falamos de ameaças aéreas ou vindas do espaço, Portugal e Espanha estarem lado a lado, partilham das mesmas ameaças e preocupações. De maneira que vemos que estas alianças entre Estados só podem trazer valor acrescentado“, considera Helder Alves, diretor de defesa e segurança da Indra em Portugal, em entrevista ao ECO/eRadar.

“Naturalmente, que isto são situações para serem tratadas a nível político e a nível militar, mas estamos em condições de oferecer ao Estado português e à Força Aérea um programa de colaboração industrial nacional, onde mais uma vez a capacidade portuguesa pode ter um nível de participação que pode chegar à ordem dos 50%“, destaca.

Detida a 28% pelo Estado espanhol, a Indra em Portugal trabalha com 700 empresas nacionais e só no ano passado adjudicou trabalho a 250, num total de mais de 50 milhões de euros de investimento.

Helder Alves, diretor de Defesa e Segurança da Indra em Portugal, em entrevista ao ECO/eRadar Hugo Amaral/ECO

O Ministério da Defesa deu OK para a compra este ano, de um radar de longo alcance, de até 22,2 milhões de euros. A Indra tem histórico nos radares com as Forças Armadas, o radar na Madeira é da Indra, e há anos que se fala de um novo para os Açores. Já estão em contacto ou foram contactados pela Força Aérea?

Estamos em contacto com a Força Aérea permanentemente, porque o radar da Madeira usa engenharia e é mantido pela Indra para a Força Aérea. Efetivamente, houve uma autorização da despesa nesse montante e o que posso adiantar, não entrando em muitos detalhes, é que temos estado em contacto com a Força Aérea e a Força Aérea connosco sobre essa matéria.

Ainda não temos nada concluído, mas é natural que ainda não tivesse acontecido, porque ainda estamos na fase de definição de alguns requisitos. A Força Aérea, com certeza, está a fazer as suas diligências, as suas consultas, as suas análises relativamente a esse processo.

Na estrutura da Força Aérea houve também algumas alterações. O Chefe de Estado-Maior da Força Aérea [Cartaxo Alves] assumiu funções como Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, o que implicou também algumas alterações dentro da estrutura.

Só para clarificar, houve uma abordagem da parte da Força Aérea para apresentarem uma proposta?

Houve uma consulta por parte da Força Aérea, efetivamente, à qual respondemos.

A Thales, com presença em Portugal, atua também nos radares e, segundo o Expresso quer colocar um radar nos Açores. Como é que vê essa concorrência?

O radar mais recente operado pela Força Aérea é um radar nosso, é o que está na estação de radar número 4 [na Madeira]. Só posso falar acerca dos nossos produtos, sobre os da concorrência falará a nossa concorrência, como é evidente. Compete à Força Aérea fazer as consultas que entende dever fazer e tomar as decisões que entende mais adequadas para as suas necessidades.

O radar na Madeira tem alguns anos. Faria sentido a sua renovação ou a instalação de um radar nos Açores? As responsabilidades de defesa e de segurança de Portugal, no âmbito NATO, ficariam asseguradas?

À Força Aérea cabe decidir se os equipamentos estão aptos ou se cumprem a missão da Força Aérea. Daquilo que é o nosso conhecimento do mercado e da tecnologia neste momento disponível, o radar da Madeira é um radar cuja tecnologia é atual. Não significa que não existam outras tecnologias a emergir que possam oferecer outro tipo de serviço, mas compete à Força Aérea tomar essas decisões. O que é perfeitamente claro é que das estações de radar operadas pela Força Aérea em território nacional, a mais recente é da Indra e, como é evidente, não faria sentido que fosse uma tecnologia que já estivesse obsoleta.

Em Portugal acabamos por ter uma rede de parceiros que já vai em mais de 700 empresas homologadas em Portugal. Em 2025, dentro desse universo de empresas homologadas, fizemos adjudicações a mais de 250 empresas, num montante que ultrapassou os 50 milhões de euros.

Tem-se debatido muito o impacto destes investimentos na defesa para a economia. Nesse sentido, o que é que uma compra, neste caso à Indra, poderia trazer em termos de investimento para Portugal, de criação de emprego? Ou seja, o que é que a Indra pode fazer por Portugal?

A Indra pode fazer muito por Portugal. A Indra estabeleceu-se em Portugal em 1997. Curiosamente, o primeiro contrato que tivemos, um pouco antes e daí termos aberto a empresa, foi com a Força Aérea, com os simuladores para o A7 e para o F-16. Uma área muito forte dentro da nossa companhia é a área da simulação, com duplo uso, civil e militar.

Nestes anos todos em Portugal, não trabalhamos só em defesa, trabalhamos também no mundo civil, em tecnologias de informação, desenvolvendo, implementando e mantendo sistemas de informação em vários setores. Desde logo o setor público, administração central, setor público empresarial, saúde — muitos dos hospitais em Portugal, públicos e privados, são clientes —, transportes, distribuição, na transformação de equipamentos.

Toda essa rede de clientes dá-nos uma robustez que nos simplifica a implementação de soluções em Portugal porque acabamos por ter uma rede de parceiros que já vai em mais de 700 empresas homologadas em Portugal.

Helder Alves, diretor de Defesa e Segurança da Indra em Portugal, em entrevista ao ECO/eRadar Hugo Amaral/ECO

Em 2025, dentro desse universo de empresas homologadas, fizemos adjudicações a mais de 250 empresas, num montante que ultrapassou os 50 milhões de euros. E estamos munidos de um grupo interno, que já ultrapassa as mil pessoas, muito capacitado. A esmagadora maioria tem formação superior ao nível de licenciatura, mestrados, alguns doutoramentos, dividindo-se entre cerca de um terço na área da gestão e da Economia, e cerca de dois terços da área de Engenharia, com uma forte tendência para telecomunicações, eletrónica, informática e, curiosamente, muito de engenharia aeroespacial. Talvez só a Força Aérea Portuguesa tenha um grupo de engenheiros de aeroespacial superior ao da Indra. Empregamos mais de 70 pessoas licenciadas em engenharia aeroespacial.

Se considerarmos que a casa-mãe da Indra, em Espanha, está mesmo aqui ao lado, que Espanha partilha muitos dos nossos problemas, muitas das nossas inquietações enquanto país, aliado ao facto de Espanha ser um país da União Europeia, com a mesma moeda, com as fronteiras abertas connosco, um país que, do ponto de vista militar partilha dos mesmos compromissos que Portugal, porque faz parte da NATO, juntando todos esses aspetos, conseguimos ter um conjunto de soluções no mundo civil, no militar, mas também no espacial, e estamos convictos que temos uma capacidade e um compromisso com o país, em termos de companhia, fortíssimo.

Talvez Portugal não seja o nosso principal mercado fora de Espanha para os drones. Existem empresas de drones em Portugal com bastante sucesso. O que nos move é ter a melhor e mais estreita relação com essas empresas nacionais de drones e partilhar a nossa experiência de anti-drone.

Esses contactos [com empresas de drones portuguesas] existem. Tenho mais uma reunião mais com uma das empresas de origem portuguesa que trabalham na parte dos drones e estamos com contactos frequentes.

Mas esse “compromisso fortíssimo”, como diz, poderá traduzir-se em investimento no país? Em Espanha, estão a investir na área de drones. Faria sentido para Portugal? Ou outro tipo de investimentos?

Volto ao mesmo: compete às Forças Armadas tomar decisões acerca das suas necessidades. No seio da NATO, existem compromissos dos vários Estados-membros acerca do que deve ser o contributo de cada um.

No que se refere à Indra, em Portugal, tentamos estar mais próximos dos nossos clientes, perceber as necessidades e adequar as nossas soluções, mas não temos a ideia de que tudo o que fabricamos vamos conseguir transportar para os nossos clientes.

Dito isto, a Indra em Portugal está a apostar muito nas soluções de anti-drone. São complexas porque não são um produto. São uma solução que se compõe por vários equipamentos. No anti-drone temos a parte do soft-kill — o inibidor de comunicação — e do hard-kill, ou seja, o abater o drone, com um parceiro em Espanha, a Escribano Mechanical and Engineering.

Talvez Portugal não seja o nosso principal mercado fora de Espanha para os drones. Existem empresas de drones em Portugal com bastante sucesso. O que nos move é ter a melhor e mais estreita relação com essas empresas nacionais de drones e partilhar a nossa experiência de anti-drone.

Já existem contactos com essas empresas de drones nacionais?

Esses contactos existem. Tenho mais uma reunião mais com uma das empresas de origem portuguesa que trabalham na parte dos drones e estamos com contactos frequentes. Estamos a crer que os próximos tempos serão anos onde surgirão bastantes oportunidades de colaboração e que essa colaboração, efetivamente, se traduza em valor acrescentado de capacidade para as Forças Armadas portuguesas e para o Estado português.

Disse que só no ano passado adjudicaram trabalho a mais de 250 empresas nacionais, num montante que ultrapassou 50 milhões de euros. Compras como a de radares, no que poderia resultar de aumento de investimento, de maior envolvimento da indústria portuguesa?

Temos uma situação da qual partimos, que é a quantidade de radares que Portugal pode necessitar. E, mais uma vez, isso compete à Força Aérea identificar essa quantidade e a disponibilidade financeira para os adquirir.

Não é obrigatório comprar todos os radares — e quem diz radares diz outros equipamentos — de uma assentada, mas para a indústria, para as empresas, era importante ter um planeamento, porque com um programa conseguimos ser mais eficientes e distribuir mais trabalho.

No programa de radarização que propomos, é absolutamente possível [fazer isso] com empresas nacionais com as quais temos colaboração ou com as quais estudamos essas possíveis colaborações. E a quantidade de trabalho envolvida nestes programas é bastante. Podemos estar a falar de um programa de fornecimento e implementação de sistemas de serviço de radares e de comando e controlo, em que a incorporação de capacidade de empresas portuguesas, pode atingir facilmente os 50%.

No caso dos radares, estamos a ver o que podem ser as decisões da Força Aérea, no sentido de definirem em pormenor um programa de colaboração industrial. Desde logo, importa ver se o Estado português, com o Estado espanhol, poderiam chegar a algum acordo de governo em termos de colaboração industrial. Isso seria muito importante e ajudaria bastante.

Poderíamos, eventualmente, dessa forma, ter um programa de investimento na radarização e tudo o que daí deriva, porque além de radares e sensores, temos de ter sistemas de comando e controlo para recolher os dados repetidos pelos radares, tratá-los e criar uma capacidade operacional.

A parte de comando e controlo é essencialmente software. Em Portugal, temos colaborações com a indústria nacional, ao nível, por exemplo, da engenharia. No programa de radarização que propomos, é absolutamente possível [fazer isso] com empresas nacionais com as quais temos colaboração ou com as quais estudamos essas possíveis colaborações.

E a quantidade de trabalho envolvida nestes programas é bastante. Podemos estar a falar de um programa de fornecimento e implementação de sistemas de serviço de radares e de comando e controlo, em que a incorporação de capacidade de empresas portuguesas pode atingir facilmente os 50%.

Quando fala de um “programa da radarização”, qual a dimensão de rede que estamos a falar?

Não posso adiantar muito porque isso competirá à Força Aérea, mas, algumas das estações de radar em Portugal, dentro de algum tempo, eventualmente, poderão sofrer alguma evolução tecnológica. Está previsto na Lei de Programação Militar investimento em radares em Portugal.

Pensamos que possa, nos próximos anos, talvez no horizonte de 2030-2035, haver a possibilidade de implementação de alguns radares novos em Portugal. Radares novos em locais onde não existem, mas também a substituição, eventualmente, de alguns existentes.

Helder Alves, diretor de Defesa e Segurança da Indra em Portugal, em entrevista ao ECO/eRadar Hugo Amaral/ECO

 

Tem-se debatido sobre o contributo que Portugal pode dar à Europa ao nível de soberania espacial, da segurança através do espaço. Também produzem radares espaciais, já houve conversas com a Força Aérea sobre esse tipo de equipamentos?

Já houve vários contactos com a Força Aérea, porque a engenharia e a construção e a disponibilização de um radar de vigilância espacial é uma autêntica Fórmula 1, particularmente na Europa. E a Indra é das muito, muito poucas empresas que construiu e tem em operação um radar espacial, que está numa base aérea no sul de Espanha.

A Força Aérea, naturalmente, sabe disso, porque tem as suas articulações com as suas entidades congéneres, sobretudo a nível europeu e dentro da NATO. Portanto, já houve, efetivamente, alguns contactos entre a Força Aérea e a Indra.

A nossa preocupação é mostrar à Força Aérea as nossas capacidades. Estarmos ao lado de Espanha coloca-nos, eventualmente, numa situação interessante. Uma eventual instalação de um radar espacial em Portugal, baseado num acordo governo a governo e entre militares sobre essa matéria, poderia dar muito mais capacidade, amplitude de observação e de monitorização do espaço a ambos os Estados.

Naturalmente, que isto são situações para serem tratadas a nível político e a nível militar, mas estamos em condições de oferecer ao Estado português e à Força Aérea um programa de colaboração industrial nacional, onde mais uma vez a capacidade portuguesa pode ter um nível de participação que pode chegar na ordem dos 50%.

Nesta matéria de vigilância espacial, a Indra tem em Portugal um grupo muito capacitado, como já disse talvez só a Força Aérea tenha um grupo de engenheiros aeroespaciais maior que o da Indra em Portugal.

De maneira que existem contactos comerciais, técnicos, e a nossa expectativa é, efetivamente, assim o Estado português o venha a entender — eventualmente, por via, de um acordo entre Estados —, contribuir com a nossa tecnologia num programa industrial com alguns parceiros locais em Portugal, para proporcionarmos à nossa Força Aérea uma capacidade de vigilância aérea e espacial integrada, com uma capacidade de comando e controlo também para ambos os sistemas, tanto de vigilância aérea como de vigilância espacial.

Temos de registado da Força Aérea bastante interesse [no tema radares espaciais]. Mas são temas com uma complexidade tecnológica forte, além de outras, que têm que ser devidamente analisados. Ficamos com a ideia que a Força Aérea tem na sua agenda o estudo destas possibilidades, mas, mais uma vez, competirá à Força Aérea tomar decisões.

Quando fala de acordos entre os Estados, significa que esse poderia ser eventualmente um investimento via um futuro SAFE, falamos de uma dimensão de investimento que não pode ser coberta pela Lei de Programação Militar?

Não tenho condições para, neste momento, sugerir a melhor forma. Temos claro, na Indra, que um acordo Estado a Estado é importante, pois teria valor acrescentado para ambos os países. Quando falamos de ameaças aéreas ou vindas do espaço, Portugal e Espanha estarem lado a lado, partilham das mesmas ameaças e preocupações. De maneira que vemos que estas alianças entre Estados só podem trazer valor acrescentado.

Acerca do financiamento, não o tenho totalmente claro. Temos que ver que na parte dos radares espaciais há uma componente civil também muito forte, não sei se o SAFE seria o instrumento adequado. A nossa preocupação tem residido em mostrar à Força Aérea a capacidade para em Portugal se montar um programa de vigilância aérea e espacial que traga valor a ambos os Estados.

Helder Alves, diretor de Defesa e Segurança da Indra em Portugal, em entrevista ao ECO/eRadar Hugo Amaral/ECO

E qual tem sido a recetividade da Força Aérea?

Temos registado da Força Aérea bastante interesse. Mas são temas com uma complexidade tecnológica forte, além de outras, que têm que ser devidamente analisados. Ficamos com a ideia que a Força Aérea tem na sua agenda o estudo destas possibilidades, mas, mais uma vez, competirá à Força Aérea tomar decisões.

Concretizando-se, estão dispostos a avançar com um “programa industrial”, envolvendo até 50% de empresas nacionais, é isso?

Depende do âmbito que se queira dar. Uma coisa é um programa para montar um radar, como foi há vários anos, na Madeira. Outra é ter um programa de industrialização de vários radares de vigilância aérea, colocá-los em funcionamento, tendo um sistema de comando e controlo que possa apoiar a sua operacionalização.

Outra coisa ainda é montar um radar de vigilância espacial, também com o respetivo sistema de comando e controlo. Será um programa muito mais ambicioso e, quanto mais ambicioso, mais valor com certeza trará e maior a participação da indústria nacional.

Temos um programa de colaboração a nível industrial, não dentro de um espírito como havia antes das contrapartidas. Na indústria da defesa, neste momento, há muita coisa para fazer. A Europa tem muita coisa para fazer, tem muitas situações para atender e é muito importante a colaboração.

Portugal e as empresas portuguesas têm uma capacidade de engenharia, de colocação em serviço, muito importante, diria até determinante. Interessa-nos ter um programa de colaboração industrial em que nós aportamos a nossa tecnologia e, com algumas empresas que conhecemos em Portugal partilhá-la, dentro de um espírito não apenas ibérico, mas europeu. É nesse sentido que conseguimos uma colaboração que diria quase 50-50.

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