Camille Grand, secretário-geral da ASD, reconhece na indústria de defesa portuguesa um ecossistema "dinâmico" para potencialmente integrar a cadeia de fornecimento de grandes players internacionais.
A Europa tem de tomar as rédeas da sua defesa. “Precisamos reconhecer que nossos aliados americanos nem sempre têm condições ou estão dispostos a fornecer o equipamento de que precisamos”, resume Camille Grand, secretário-geral da ASD, associação europeia que representa mais de quatro mil empresas, em 21 mercados, do setor da defesa, espaço e aeronáutica, e que esta semana realiza, a sua convenção em Portugal, em parceria com a AED Cluster.
O atual clima geopolítico assim o obriga e Camille Brand não vê sinais que mude nos próximos tempos. Por isso, acredita que “na próxima década ou mais, haverá necessidade de um investimento contínuo em defesa”, disse em conversa com o ECO/eRadar.
Uma oportunidade para a indústria europeia, mas também para a portuguesa. “Existe em Portugal um ecossistema bastante dinâmico de PME e empresas de média dimensão muito interessadas em fazer parte da cadeia de fornecimento e que procuravam posicionar-se como fornecedoras de algumas das maiores empresas do setor”, diz Camille Brand. “Num momento em que o aumento da produção de defesa é absolutamente necessário em todo o continente, creio que muitas das principais empresas do setor ficariam muito satisfeitas por ter uma base de fornecimento mais ampla em todo o continente e estão extremamente interessadas em encontrar empresas desse tipo”, refere.
“Conheço algumas empresas portuguesas, como a Tekever, mas existem outras, realmente ativas e já reconhecidas como parceiros importantes pela indústria em geral, na Europa e em outros continentes“, diz.
Tem havido um grande impulso para o rearmamento da Europa com foco em compra de equipamento militar produzido na região. A indústria europeia de defesa tem capacidade de resposta ou continuamos muito dependentes dos EUA para responder às necessidades de defesa dos Estados-membros?
Em primeiro lugar, penso que há algumas condições que precisam de ser cumpridas e algumas delas já o foram. Precisávamos de gastar mais e temos tido um reinvestimento em defesa muito significativo em toda a Europa, com os orçamentos de defesa, na maioria dos casos, a duplicar em poucos anos e, em alguns casos, a triplicar. A segunda condição é, dominamos a tecnologia necessária para atender às nossas necessidades de defesa? E a resposta é sim, em todos os aspetos. Diria que 98% das tecnologias relevantes para a defesa existem na Europa.
Depois temos muitas parcerias com os americanos. A maioria dos países europeus compra equipamentos americanos, uma parcela significativa, quando não os adquirem internamente. Isso não vai desaparecer da noite para o dia e não é essa a intenção dos governos. Dito isto, hoje o desafio é que precisamos aumentar a produção de defesa para responder a essa procura, não apenas porque o temos que fazer, tendo em conta o atual contexto geopolítico, mas também porque precisamos reconhecer que nossos aliados americanos nem sempre têm condições ou estão dispostos a fornecer o equipamento de que precisamos.
Recentemente foi notícia que estavam a atrasar entregas de material militar já encomendado a países europeus.
De facto. Mas, mesmo deixando de lado toda a política em torno desse debate, temos uma situação em que a indústria americana estará mais focada na recapitalização de equipamentos nos EUA por alguns anos, podendo também se concentrar mais na região Indo-Pacífica ou no Médio Oriente. Portanto, para os europeus, é mais uma razão para comprar na Europa, produzir na Europa, porque é aqui que podemos satisfazer as nossas necessidades.
Precisamos aumentar a produção de defesa para responder a essa procura, não apenas porque o temos que fazer, tendo em conta o atual contexto geopolítico, mas também porque precisamos reconhecer que nossos aliados americanos nem sempre têm condições ou estão dispostos a fornecer o equipamento de que precisamos.
O desafio, da nossa perspetiva, é realmente garantir que a indústria é capaz de responder a essa procura. Em certos setores, isso já acontece. Tem havido um aumento expressivo na produção de artilharia, de munições e mísseis; é algo realmente evidente. Em outros setores, que exigem mais tempo, também vemos um aumento na produção, inclusive de equipamentos muito complexos. Estou muito confiante de que a indústria europeia consegue entregar, tanto em termos de tecnologia como em termos de produção industrial. Há dois anos falávamos da falta munições de 55 mm para a Ucrânia, hoje as principais empresas europeias superam a produção dos Estados Unidos.
Em termos de produção de equipamento quais são então os principais desafios? Produção de caças?
Quanto mais complexo o equipamento, mais exigente é o projeto. O que temos são duas coisas. Temos alguns estrangulamentos que precisamos resolver. Podem estar relacionados com a cadeia de fornecimento, garantir que temos as matérias-primas, os componentes e também assegurar que toda a cadeia de fornecimento, os fornecedores de segundo e terceiro nível, as pequenas empresas que fabricam peças de metal ou componentes eletrónicos integrados nas plataformas construídas pelas grandes empresas, consigam acompanhar o aumento do volume de produção. Temos de resolver cada um dos estrangulamentos, pois não basta aumentar a capacidade de produção de mísseis ou caças se houver um estrangulamento em termos de matéria-prima, de eletrónica ou mecânica. Esse é um dos desafios.
Depois, há o desafio de alguns equipamentos complexos, geralmente considerados críticos, como os sistemas de armas que os EUA tradicionalmente forneciam em grande quantidade. Temos uma responsabilidade coletiva de encontrar uma maneira de produzir rapidamente esse equipamento. Em alguns casos, a opção europeia existia, mas apenas no papel. Então, como podemos fazer com que isso se torne uma realidade, passando de algumas poucas plataformas para uma cadeia de produção real que possa responder à procura por vários países na Europa?
Na Europa, na defesa, há ‘campeões nacionais’, havia dificuldade em um país adotar a tecnologia de outro. Como é que essa fragmentação pode ser endereçada?
Em primeiro lugar, temos algo muito importante que garante a nossa capacidade de operar em conjunto: as normas desenvolvidas principalmente pela NATO, que asseguram a interoperabilidade dos nossos sistemas e das nossas plataformas. Às vezes, refere-se que os europeus operam muitos caças, muitos tanques… A realidade não é tão má quanto parece, porque nesses números geralmente incluímos muitos sistemas históricos a ser desativados, muito antigos e, realmente, não estão mais em serviço. É um pouco injusto… Se olhar para os caças, existem três em produção na Europa.
Mas veja-se a situação entre a França e Alemanha em torno do caça de nova geração. Há um diferendo sobre que tipo de caça construir. A Alemanha não precisa de caças com capacidades nucleares como a França, diz Merz.
É, provavelmente, a cooperação mais complexa que possa imaginar. É muito dinheiro. É muita cooperação. Envolve algumas das maiores empresas da Europa [Airbus Defence e Dassault Aviation, por exemplo] que estão a debater como se organizar, como gerir a propriedade intelectual ao longo do projeto. No Future Combat Air System (FACS) temos três pilares, dois deles — a ‘combat cloud‘ e os sistemas não tripulados — estão a funcionar relativamente bem e há este debate sobre o tipo de caça que queremos. Na geração anterior, acabamos por ter três tipos de aeronaves. Não sei se conseguiremos chegar a um consenso, mas denoto que a ‘nuvem de combate’ e os sistemas não tripulados já existem, e ouço mensagens dos governos e da indústria de que estão dispostos em encontrar um caminho. É uma questão delicada, e não surpreende, visto tratar-se de um grande projeto.
Em paralelo, há outro projeto liderado pelo Reino Unido e pela Itália.
Ao qual o Canadá quer juntar-se.
Ainda não sei onde essa conversa vai parar. Para mim, mais importante é que continuemos a conversar, que estejamos à procura de soluções, que preservamos a interoperabilidade [dos sistemas] e a capacidade de cooperação. Este é um caso típico de algo extremamente delicado do ponto de vista político, do ponto de vista da indústria. E as empresas, todas elas membros da ASD, chegam com suas próprias expectativas e questões. Isso não deve esconder o fato de que, em muitos outros assuntos, inclusive no próprio programa FCAS, a cooperação existe, funciona e produz resultados diariamente.
Não tenho certeza se quero apenas um fabricante de caças militares na Europa. Acho saudável alguma concorrência, que as capacidades de várias empresas estejam envolvidas — existem quatro ou cinco empresas na Europa com capacidades relevantes para construir um caça —, que compitam entre si. Para mim, não é um grande problema, desde que entreguemos a capacidade e isso não atrase muito o programa.
Por exemplo, no reabastecimento aéreo, uma capacidade crítica que essencialmente os americanos forneciam, agora temos um avião-tanque europeu em operação, operando inclusive numa configuração multinacional por oito nações, sob o Comando Europeu de Transporte Aéreo; vemos programas no setor do espaço, em sistemas marítimos e terrestres. Vemos, por exemplo, uma empresa de mísseis transfronteiriços muito bem-sucedida, a operar na Europa e que é uma campeã global. Portanto, muita coisa está a acontecer e acho que há cooperação. A cooperação nem sempre é fácil, é sempre delicada, mas quando acontece, requer tanto vontade política quanto vontade industrial, e na definição de regras existem atritos. Esperamos que possam ser resolvidos.
Não tenho certeza se quero apenas um fabricante de caças militares na Europa. Acho saudável alguma concorrência, que as capacidades de várias empresas estejam envolvidas — existem quatro ou cinco empresas na Europa com capacidades relevantes para construir um caça —, que compitam entre si. Para mim, não é um grande problema, desde que entreguemos a capacidade e isso não atrase muito o programa.
O tempo aqui é essencial.
Sim. Mas neste programa específico, estamos a falar de algo para o horizonte de 2040. O que importa agora é entregar as capacidades que poderemos precisar nos próximos cinco a dez anos. E essas já existem, essencialmente.
O atual clima geopolítico poderá impulsionar a consolidação de empresas no setor de defesa, tanto a nível interno, como transfronteiriço ou sendo este um setor tradicionalmente mais ‘protegido’, regulado…
Existem duas tendências paralelas. Uma delas aponta para uma ‘renacionalização’ das aquisições de defesa. Os países gastam muito mais em defesa e os parlamentos, os governos, a população, mas muitas vezes esperam, que haja alguns benefícios económicos internos. Isso cria uma tendência para uma maior renacionalização, porque muitos países europeus querem que suas indústrias locais beneficiem das aquisições de defesa, seja como fornecedores diretos ou como parte da cadeia de fornecimento.
Ao mesmo tempo, também existe uma forma de consolidação em que as principais empresas do setor fazem parcerias ou adquirem alguns dos seus concorrentes, sendo que muitas das maiores empresas europeias já operam em vários países. Leonardo, Thales, Airbus, Rheinmetall, todas essas empresas têm uma presença multinacional muito clara.
Será interessante observar nos próximos anos como conseguiremos responder às expectativas dos governos, parlamentos e população para que vejam alguns dos benefícios do aumento dos gastos com defesa — é justo reconhecer que isso pode ajudar a sustentar o esforço [de investimento em defesa], portanto não devemos ser ingénuos a esse respeito — e, por outro lado, como podemos tornar tudo isso o mais economicamente viável. É aqui que entram em ação os instrumentos da União Europeia, incentivando a cooperação e a aquisição de um sistema único em grande quantidade.
Será interessante observar no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia se o nível de ambição que vemos na área da defesa será confirmado pelas rubricas orçamentais, se os Estados-Membros e a Comissão encontrarão uma boa governança para conseguirem realizar essas ações em conjunto.
Nesse sentido, o programa de empréstimo SAFE é um bom instrumento?
É um bom instrumento porque ajuda especialmente os países com restrições orçamentais a comprar mais rapidamente e, eventualmente, a optar por soluções europeias. Nenhum dos instrumentos da UE são uma ‘silver bullet’, não resolvem tudo, mas cada um desempenha um papel e, juntos, começam a moldar a forma como a indústria de defesa europeia se está a organizar.
Será interessante observar no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia se o nível de ambição que vemos na área da defesa será confirmado pelas rubricas orçamentais, se os Estados-Membros e a Comissão encontrarão uma boa governança para conseguirem realizar essas ações em conjunto, visto que o cliente final continuará a ser os ministérios de Defesa; há muito poucos programas que serão adquiridos multinacionalmente, porque as forças armadas permanecem essencialmente nacionais. Mas para áreas críticas, espaço, vigilância aérea, reabastecimento em voo, inteligência, vigilância e capacidades de reconhecimento, podem optar por soluções coletivas mais robustas. Mas temos que tomar as decisões cedo, agir com rapidez, e em poucos anos, na maioria dos casos, conseguimos entregar essa capacidade.
Ainda há algumas incertezas. Porque, sejamos justos, há governos que esperam que a pressão para gastar mais [em defesa] de alguma forma desapareça. Sinceramente, acho que é um pouco de otimismo da parte deles. Acredito que, na próxima década ou mais, haverá necessidade de um investimento contínuo em defesa.

Já disse que nenhum instrumento é uma ‘bala de prata’, mas um SAFE 2 faria sentido? Chegou a falar-se dessa possibilidade.
Acho que faz sentido, porque o programa SAFE, obviamente, tinha recursos limitados. Era o fim do ciclo orçamental da União Europeia (UE) e a UE percebeu que tinham mais pedidos do que o pacote inicial. Faz sentido que a União Europeia possa oferecer dinheiro adicional na forma de empréstimos aos Estados-Membros. O SAFE é uma ferramenta um pouco específica porque beneficia principalmente os países que não têm acesso fácil aos mercados financeiros, porque é um mecanismo de empréstimo. Porque é que a Alemanha, Holanda ou Dinamarca não estão interessados [no SAFE]? Porque conseguem empréstimos com boas taxas. Se for a Polónia…
Portugal…
Hungria, Itália, Grécia ou França, há interesse em usar o SAFE porque tem acesso a uma taxa de juro melhor. Acredito que continuará sendo muito atrativo para cerca de dois terços da União Europeia. Isso inclui países que não fazem parte da Zona Euro e países da Zona Euro que beneficiam dessas taxas de juros reduzidas. É a combinação de todas as ferramentas que é mais relevante, de uma perspetiva da indústria, em vez de uma única ferramenta.
Há governos que esperam que a pressão para gastar mais [em defesa] de alguma forma desapareça. Sinceramente, acho que é um pouco de otimismo da parte deles. Acredito que, na próxima década ou mais, haverá necessidade de um investimento contínuo em defesa.
Como é que um país como Portugal, que não tem uma indústria de defesa assim tão grande, pode posicionar-se de modo a se tornar relevante para a indústria?
Percebi que existe em Portugal um ecossistema bastante dinâmico de PME e empresas de média dimensão muito interessadas em fazer parte da cadeia de fornecimento e que procuravam posicionar-se como fornecedoras de algumas das maiores empresas do setor. Num momento em que o aumento da produção de defesa é absolutamente necessário em todo o continente, creio que muitas das principais empresas do setor ficariam muito satisfeitas por ter uma base de fornecimento mais ampla em todo o continente e estão extremamente interessadas em encontrar empresas desse tipo. Esse é, portanto, um dos interesses da nossa presença em Portugal, com convenção da ASD e para a nossa parceria com o cluster português.
Em segundo lugar, existem algumas empresas muito inovadoras que identificam nichos onde podem criar uma solução disruptiva e inovadora, sem precisar de ser uma empresa gigantesca para oferecê-la e se posicionar como parte integrante do panorama geral da cibersegurança e dos sistemas não tripulados, contribuindo significativamente para essa discussão. Conheço algumas empresas portuguesas, como a Tekever, mas existem outras, realmente ativas e já reconhecidas como parceiros importantes pela indústria em geral, na Europa e em outros continentes.
A realidade na Europa é que não existem tantos países com grandes indústrias de defesa — talvez seis ou sete com empresas nacionais líderes que atuam nos mercados globais —, mas existe um enorme ecossistema de empresas em toda a Europa. Na ASD representamos cerca de 4.000 empresas, nem todas estão localizadas na França, Alemanha e Reino Unido. Muitas estão presentes em todo o continente e são de pequena ou média dimensão.
Essas empresas, provavelmente, também serão grandes beneficiárias do ambiente atual, porque têm mais oportunidades. Estamos num ambiente em que aqueles que são dinâmicos, que oferecem algo um pouco disruptivo do ponto de vista tecnológico, aqueles que são inteligentes ao se inserirem na cadeia de fornecimento, serão potencialmente muito recompensados, não apenas através de parcerias com empresas europeias, mas, em alguns casos, através de parcerias mais globais com alguns de nossos parceiros e aliados do outro lado do Atlântico, seja Canadá, Estados Unidos ou Brasil, na área de aeronáutica civil.
A Ucrânia e agora o Irão mostraram que enfrentamos novas ameaças ao nível de defesa. A indústria tem flexibilidade para se adaptar a essas novas ameaças ou ainda está muito focada em produzir munições, ou seja, ‘na velha guerra’?
O desafio é que temos que fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Temos que ser muito inovadores, mas também resolver todos os problemas relacionados com stocks de munição, de peças de reposição… Precisamos fazer muitas coisas do século XX e, ao mesmo tempo, muitas coisas do século XXI. A boa notícia é que, na maioria das áreas, estamos a aprender, e a aprender rapidamente, com os ucranianos, e somos capazes de encontrar soluções. Existem muitas startups europeias ou unicórnios na área de defesa muito dinâmicos. Portanto, não estou preocupado do ponto de vista tecnológico.
Assistimos a duas tendências. Uma delas são as grandes empresas, que não são antiquadas, não ‘martelam metal ‘, são extremamente intensivas em tecnologia, que fazem parcerias com alguns dos recém-chegados para introduzir inteligência artificial mais rápida e sistemas não tripulados. Parcerias com empresas ucranianas, com outras empresas europeias. O ecossistema está a evoluir, e a evoluir bastante rápido. O desafio é como encontrar soluções economicamente viáveis para combater, por exemplo, as ameaças de baixo custo dos drones iranianos.
Os europeus têm tradição de serem bastante eficientes em termos de custos, pois estavam sob enorme pressão orçamental. Agora, precisam usar essa capacidade num ambiente onde, além disso, têm que entregar soluções inteligentes em grande volume. Trata-se de um esforço conjunto entre governos, indústria e, possivelmente, com o apoio da UE, para definir: ‘Qual a solução que devemos adotar em termos de inovação?’. Dou o exemplo dos drones. Não basta ter um protótipo de um drone perfeito. O que importa é ter a capacidade de produzi-lo em massa. E essa é uma forma ligeiramente diferente de contratar entre governos e indústria.
Estamos a aprender, mais uma vez, que num mercado altamente globalizado, os choques externos podem ter um impacto. As empresas tornaram-se mais resilientes desde a COVID, diversificaram as suas cadeias de fornecimento, mas um conflito de grandes proporções numa região que é, ao mesmo tempo, um importante mercado consumidor e parte da cadeia de abastecimento não é algo que deva ser encarado com leviandade.
O conflito no Irão tem gerado escassez de combustível para aviação, há companhias a cortar voos, teme-se que afete a época alta. Poderá impactar as encomendas de novas aeronaves?
Ainda não, porque somos um setor de ciclos longos. As empresas encomendam aeronaves que serão entregues daqui a 10 anos. O impacto não é tão imediato quanto o impacto nos preços do petróleo. Como sempre, quando há grandes tensões internacionais, que afetem as viagens aéreas, as companhias aéreas são mais cautelosas em seus pedidos até que tenham uma forte convicção [sobre a evolução]. Foi o que como aconteceu durante todas as crises, sendo a da COVID o ponto mais visível. O desafio para a indústria é manter a sua capacidade de responder a um mercado que continua a expandir-se extremamente rápido em muitas áreas, inclusive fora do Médio Oriente, embora esteja ciente de que existem riscos nas cadeias de fornecimento.
E a indústria tem sentido esse impacto na cadeia de fornecimento?
Existem algumas matérias-primas da metalurgia que vêm do Golfo e, claro, a crise no Golfo também impacta indiretamente as cadeias de fornecimento globais. De momento, pelo que entendi conversando com as empresas, o impacto ainda é limitado. Mas acredito que, se a crise se prolongar, alguns elementos específicos da cadeia de fornecimento poderão começar a ser afetados e causar atrasos. Ainda não estamos lá. Tudo depende da duração da crise.
Estamos a aprender, mais uma vez, que num mercado altamente globalizado, os choques externos podem ter um impacto. As empresas tornaram-se mais resilientes desde a COVID, diversificaram as suas cadeias de fornecimento, mas um conflito de grandes proporções numa região que é, ao mesmo tempo, um importante mercado consumidor e parte da cadeia de abastecimento não é algo que deva ser encarado com leviandade.
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