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“Na Visabeira já tentámos comprar um robô humanóide”

No Podcast .IA, Paulo Soeiro Ferreira aborda a implementação de soluções de IA nas fábricas da Visabeira. O grupo também está a dar passos nos 'digital twins' e até tentou comprar um robô humanóide.

Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation da Visabeira, é o mais recente convidado do Podcast .IA. Numa entrevista focada na indústria, o responsável revela que o grupo já tentou comprar um robô humanóide (e explica porque é que falhou). “Estamos a falar de robôs que hoje conseguem realizar tarefas delicadas e tarefas de alta potência ao mesmo tempo. Conseguem, por exemplo, pegar num ovo e, ao mesmo tempo, levantar um baú de 100 quilos”, disse, sobre a mais recente coqueluche do universo tecnológico.

O responsável contou também como o grupo está adotar IA ao nível industrial e quais são, atualmente, as principais prioridades estratégicas da empresa: “Neste momento, estamos a centrar-nos plenamente nas partes de chão de fábrica. A parte de chão de fábrica é algo que conseguimos resolver. Temos um grupo de pessoas a desenvolver sistemas próprios. Já tivemos experiências externas, que correram melhor em alguns casos e menos bem em outros.”

Como é que a Visabeira pega no potencial da IA e dos LLM e o aplica na fábrica, em contexto industrial?

Temos uma camada menos comum e talvez menos física, mas ligada a todas as outras, que é toda a parte de conhecermos o mercado que compra os nossos produtos. Aqui, o que nós estamos a fazer é trabalhar intensivamente para perceber quais são as tendências de compra e de utilização das novas gerações e adaptar os nossos produtos para atingir esses segmentos do mercado. A ideia é que não se produza tanto para stock mas que se produza mais para uma injeção direta no mercado e para a compra pelo público adquirente. Se o produto é adequado, nós conseguimos ter possivelmente uma fabricação dentro do tempo e com o menor stock em fábrica possível. O stock é, de certa forma, negativo para as fábricas. É capital empatado.

Numa segunda camada, temos os orquestradores de produção. O orquestrador de produção é um LLM aplicado a um digital twin. Trata-se de uma representação digital da fábrica, modelada em 3D, mas que não é estática. Recebe inputs de uma coisa chamada MES (Manufacturing Execution System), que é basicamente o sistema de gestão de toda a automação da fábrica. Quer dizer que o que nós temos é uma representação 3D da fábrica que se move e executa tarefas no mundo digital exatamente ao mesmo tempo que as máquinas as executam na camada física.

Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation – Visabeira, em entrevista ao podcast do ECO “.IA”Hugo Amaral/ECO

É quase como se fosse uma simulação de um jogo ter a fábrica numa versão digital?

Sim, é precisamente isso. Ou seja, o que nós temos aqui é uma espécie de jogo digital que, em vez de receber inputs pré-programados da gestão do jogo ou do jogador, recebe inputs diretamente da gestão fabril que está a atuar sobre as máquinas físicas que produzem os produtos.

A Visabeira já tem digital twins das suas fábricas?

Estamos a trabalhar nisso.

E o que é que esperam que seja possível retirar desse tipo de tecnologia, quando estiver implementada?

Aquilo que nós vamos conseguir retirar é uma orquestração total, de ponta a ponta, sendo que essa ponta ultrapassa os limites físicos da fábrica. Estamos a falar desde o mercado até à nossa cadeia de fornecedores, com a fábrica no meio do processo. Isto vai trazer um sistema em cascata, que terá essa camada de IA aplicada ao perfil do cliente, à conceção e ao desenvolvimento de novos produtos.

Portanto, temos marketing, orquestrador e, por fim, em baixo, a IA no mundo físico. Estamos a falar de inspeção automática de qualidade, de manutenção preditiva e de ‘lot size one’, que é outro conceito, mas sobre o qual não vale a pena alongar muito — trata-se da customização.

Quando cruzamos um digital twin funcional com tecnologias como o 5G e a robótica avançada, o que conseguimos obter ao juntar todas estas tecnologias?

Com o 5G na indústria — e estamos neste momento a implementar o 5G nas nossas fábricas — conseguimos uma desmaterialização total dos dados. Durante muitos anos, a principal barreira à adoção de tecnologias digitais nas fábricas foi precisamente isso: uma fábrica é, normalmente, um processo produtivo em cascata, com várias transformações, primeira transformação, segunda, terceira, até se obter o produto acabado. Os fabricantes de cada um desses equipamentos são normalmente diferentes. Podemos ter fabricantes franceses, alemães, ingleses, e quando o produto passa pela fábrica, passa também por máquinas de diferentes origens, com filosofias e tecnologias distintas…

Não são interoperáveis.

Não. Esse é o grande problema. Nunca conseguimos extrair toda a informação que está nessas máquinas e colocá-la, por exemplo, num data center ou na nuvem. O desafio é colocar os dados de forma a podermos modelá-los e retirar insights, porque dados não são informação. Podemos recolher muitos dados, mas depois é preciso transformá-los numa informação agregada.

A nova tecnologia do 5G industrial vai permitir exatamente isso. Homogeneizar a forma como se retiram os dados dessas várias máquinas, que, mais uma vez, são de diferentes gerações, fabricantes e tecnologias. No entanto, todas elas produzem dados. Com o 5G, vamos conseguir extrair esses dados de forma homogénea e colocá-los na nuvem de dados da fábrica.

É aí que depois entra a inteligência artificial.

Aí entra a IA, que vai possibilitar o funcionamento em tempo real do digital twin e a adoção de tecnologias futuras.

Um robô humanóide pode operar as mesmas máquinas que um operador humano, sentar-se nas mesmas cadeiras que nós usamos, operar computadores, trazendo uma flexibilidade na automação que antes era impossível.

Paulo Soeiro Ferreira

Head of Engineering and Innovation da Visabeira

Como por exemplo?

Penso que ainda há pouca consciência sobre isto, mas os robôs humanóides estão a evoluir a um ritmo gigante na Ásia, principalmente na China. Estamos a falar de robôs que hoje conseguem realizar tarefas delicadas e tarefas de alta potência ao mesmo tempo. Conseguem, por exemplo, pegar num ovo e, ao mesmo tempo, levantar um baú de 100 quilos.

O grande desafio antes eram os motores dos braços e pernas dos robôs: ou conseguiam fazer tarefas delicadas, como pegar num ovo, ou tarefas pesadas, como levantar um baú. Agora, esses robôs conseguem fazer ambas as tarefas, e estão em pleno desenvolvimento na China. Obviamente, nós temos fábricas com máquinas de produção muito antigas, algumas com 50 anos, e que ainda vão durar várias décadas. A introdução do robô humanóide tem um propósito específico: não criar robôs com um único propósito, que só cortam ou executam uma única tarefa.

O robô humanóide é, na prática, uma automação flexível. Ele pode operar as mesmas máquinas que um operador humano, sentar-se nas mesmas cadeiras que nós usamos, operar computadores, trazendo uma flexibilidade na automação que antes era impossível. E o que é que isto vai trazer? Uma evolução muito rápida. Comercialmente, podemos ver produtos no mercado daqui a cerca de um ano.

Este vai ser um ano determinante para a robótica humanóide?

Determinante. Não só para nós, que estamos na indústria, mas também para muitos outros campos, como a tecnologia militar. Na Ásia a adoção é muito grande, o que baixa radicalmente o preço desses produtos e torna o ROI (retorno sobre o investimento) possível.

Há cerca de dois anos, havia duas abordagens diferentes a esta tecnologia. Uma era a célula de trabalho: o robô atuava dentro de uma célula, mas a inteligência que o controlava ficava fora, num sistema de edge computing. Os robôs mais recentes, com os novos sistemas operativos, nomeadamente da Google e da Nvidia, já têm a IA plenamente on-board. Isso dá-lhes flexibilidade. Não estão confinados a uma célula de trabalho e podem operar em várias funções diferentes na fábrica.

Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation – Visabeira, em entrevista ao podcast do ECO “.IA”Hugo Amaral/ECO

E qual é a vossa expectativa de retorno de todas estas coisas que estivemos aqui a falar e que estão a ser implementadas?

A nossa expectativa de retorno está muito ligada à eficiência, obviamente. Uma coisa que também me orgulho muito na Visabeira é a responsabilidade social. Quando falamos de adoção de automação, nunca falamos em despedir ninguém. Ou seja, não há substituição do operador humano por um operador sintético. Há complementaridade. Estas máquinas vão chegar com, digamos, 97% de fiabilidade nas operações. Isso significa que, durante o dia, ainda vão precisar de assistência humana várias vezes para continuar a funcionar; não são máquinas com autonomia total.

Portanto, o que vamos fazer é uma introdução progressiva destas novas tecnologias, onde faz sentido para nós e para as nossas pessoas. E, obviamente, haverá retreino e reskilling das equipas, porque, mais uma vez, acreditamos que, no prazo de dez anos, estes sistemas não serão totalmente autónomos e ainda precisarão de operadores. Intuitivamente, comparando, uma alucinação do ChatGPT terá um impacto muito mais limitado do que uma alucinação de uma máquina industrial.

Quando falamos de adoção de automação, nunca falamos em despedir ninguém.

Paulo Soeiro Ferreira

Head of Engineering and Innovation da Visabeira

Como é que a Visabeira avalia e mitiga esse risco de haver, por exemplo, uma alucinação no robô humanóide?

Não conheço ainda a fundo o tema do robô humanóide, mas já tentámos comprar um.

Porquê que falhou?

Falhou porque a empresa que importa certa marca acha que o negócio deles é outro, não aquele negócio.

O negócio dos robôs tem um total ‘addressable market’ muito superior ao dos carros. A nossa aproximação é multinível. Uma coisa que vemos claramente é que não vai haver um LLM com capacidade de alucinação, devido à complexidade da contextualização que uma máquina digital dessas precisa de fazer no mundo físico.

A nossa estratégia é quase como uma romã: muitos glóbulos lá dentro, representando pequenas SLM (Small Language Models) de nicho muito estreito. Estamos a falar de um LLM para o equilíbrio, outro para a manipulação do braço esquerdo, e outro para o braço direito. A nossa abordagem não é criar uma máquina hipercomplexa, mas sim com múltiplas inteligências pequenas, que reduzem significativamente a margem de erro ao trabalhar com LLM.

Mas é um problema que preocupa a gestão da Visabeira?

Não. A mim preocupa-me porque eu sou responsável pelas coisas que hão de vir.

Em termos estratégicos este ano, para onde é que vão canalizar os vossos esforços de investimento em IA?

Neste momento, estamos a centrar-nos plenamente nas partes de chão de fábrica. A parte de chão de fábrica é algo que conseguimos resolver, a IA no mundo físico conseguimos integrá-la dentro do enquadramento mais normalizado da ciência disponível.

Temos um grupo de pessoas a desenvolver sistemas próprios. Já tivemos experiências externas, que correram melhor em alguns casos e menos bem em outros. Não houve um fit total, e a administração decidiu criar uma equipa própria para garantir alinhamento completo no desenvolvimento e no roadmap do que se desenvolve para nós. É uma decisão muitíssimo acertada, que eu suporto totalmente e com a qual estou completamente alinhado. O nosso esforço atual é resolver as dificuldades do chão de fábrica com esta equipa.

O nosso horizonte também passa por experimentar o orquestrador, de ponta a ponta, desde a matéria-prima e logística até ao cliente final, ainda este ano. No próximo ano, começaremos a olhar com atenção para a parte do direcionamento do produto ao cliente, que é, aliás, a melhor mitigação possível às alterações climáticas.

Se fizermos coisas que as pessoas realmente desejem e que queiram ter nas suas vidas, evitaremos desperdício e a moda de “comprar e deitar fora”. Vamos tentar criar produtos mais duráveis, orientados para os consumidores, de forma a garantir um ciclo de vida longo e eficiente.

Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation – Visabeira, em entrevista ao podcast do ECO “.IA”Hugo Amaral/ECO

A Visabeira adquiriu já um supercomputador, e Portugal está a apostar forte na atração da gigafábrica. A Visabeira está, de alguma forma, envolvida no consórcio que tenta atrair a gigafábrica para Portugal?

Nós estamos bastante alinhados com os objetivos e a ambição que o CEO do Banco Português de Fomento, Gonçalo Regalado, tem demonstrado.

Confiamos na visão que ele tem transmitido ao grupo de trabalho que temos. Temos 60 parceiros da gigafábrica. Seríamos claramente clientes dessas gigafábrica.

Há aqui algo importante a dizer: até agora, tudo o que se fez esteve muito focado em investigação, em termos de computação nacional, e, mesmo para LLM, esteve muito voltado para o desenvolvimento dos LLM. Pela primeira vez, as fábricas de IA vêm orientadas para as empresas. São sistemas de computação orientados à produção, permitindo que tenhamos as nossas aplicações e dados residentes, e que o nosso negócio seja feito na gigafábrica para os nossos utilizadores.

A alternativa anterior foi a mesma que tivemos na Visabeira, que foi olhar para as nossas necessidades e ambições e decidir investir em computação acelerada e paralelizada. Os GPU que se usam nas grandes fábricas, como as do Elon Musk ou da Meta, são do mesmo tipo. Tivemos um centro de computação desse género na Visabeira, que estamos a utilizar para os nossos fins e necessidades, até porque acreditamos fortemente que os nossos dados têm de nos pertencer. É uma conversa que tive há relativamente pouco tempo com o nosso CEO, e o acionista também acredita, que os nossos dados têm de estar nas nossas instalações.

Dá-vos vantagem competitiva?

Quando falamos que os dados estão na cloud, isso basicamente quer dizer que os nossos dados estão no data center de outra pessoa.

Em janeiro, o Governo anunciou o teor da Agenda Nacional de IA. Com vistos mais rápidos para imigrantes especialistas em IA, esta medida funcionaria, de certa forma, como uma via verde para a contratação de profissionais altamente qualificados em IA. Esta iniciativa poderia ser vantajosa para a Visabeira?

Ajudará a Portugal, certamente. O nosso grupo de IA é um grupo inteiramente composto por portugueses. Portanto, temos pessoas que terminaram agora aqui o curso, há pouco tempo, no Instituto Superior Técnico (IST). Temos outras pessoas que vêm de empresas belgas e que voltaram a Portugal, nomeadamente a Viseu, que vêm carregadas de conhecimento. Estamos a falar de pessoas com 30 anos, e que vêm carregadas de conhecimento. Fazem coisas que eu admiro e não esperava ser possível ver tão rapidamente na Visabeira. Na nossa perspetiva, há aqui um investimento interno muito grande em determinados tipos de perfis. No momento em que nós virmos que necessitamos de um irlandês, de um francês, ou outro que tenha uma componente muito específica, obviamente que os vistos nos vão ajudar. Achamos que é uma excelente medida, principalmente para Portugal.

Portugal pode realmente ambicionar ser líder em algum tema de IA, como defende o ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias?

Eu acredito muito no Gonçalo Matias, já o ouvi falar várias vezes. Penso que ele tem a visão certa. Temos que ter essa ambição. A ambição é um motor de energia que impulsiona as nossas pessoas para diante e a primeira parte é realmente essa ambição. A Visabeira tem essa ambição. Estamos em 11 países com 36 empresas. Este ano, possivelmente, vamos chegar aos três mil milhões de euros de faturação. Portanto, isto vem de toda a grande ambição que o nosso fundador, acionista e estrutura têm, e que temos conseguido materializar. Penso que a ambição é, aqui, a palavra-chave e o elemento central em torno destas grandes realizações que temos conseguido.

Veja aqui a versão em vídeo do podcast (na íntegra):

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