Responsável pela estratégia da JPMorgan AM para a Europa reconhece que há uma tempestade, mas confia num acordo para terminar guerra e que o petróleo pode voltar rapidamente aos 90 dólares por barril.

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A guerra no Irão criou uma “tempestade” na economia global, cujo impacto dependerá dos níveis até onde o petróleo vai subir, admite Karen Ward, responsável pela estratégia de investimento da JPMorgan Asset Management para a Europa. Embora continue confiante numa resolução do conflito no curto prazo — “não há incentivos para os EUA ou o Irão desejarem um conflito prolongado”, a responsável admite que “se continuarmos por semanas e semanas e ainda não houver um acordo, os mercados vão cair“.
Em sentido contrário àquilo que são as projeções do mercado, a estratega-chefe da JP Morgan Asset Management para a Europa afasta um movimento de várias subidas de juros na Europa, apontando para “uma ou duas” mexidas nas taxas por parte do Banco Central Europeu, adiantou em entrevista ao ECO, em Londres, à margem de uma conferência onde a gestora apresentou as suas perspetivas para os mercados.
Com a escalada dos preços da energia a afetar a economia europeia e a confiança das empresas e famílias, Karen Ward fala numa “pausa” no otimismo para a região e diz que quando os navios voltarem a passar pelo Estreito de Ormuz, os preços do petróleo poderão “bastante rapidamente” voltar a negociar em torno de 90 ou 80 dólares por barril. E a Europa poderá voltar ao radar. “As expectativas são muito baixas para a Europa, mas esquecemo-nos dos anos 2000, quando a Europa cresceu mais rápido do que os EUA, produziu mais resultados e teve mais retornos no mercado de ações do que os EUA. Esquecemo-nos do que somos capazes”.
Há um ano disse que os mercados são um mecanismo de orientação para os políticos. Acredita que se as negociações de paz entre os EUA e o Irão falharem, arrastando as bolsas, Donald Trump vai mudar de estratégia?
Os mercados — e isto não é apenas sobre o Trump — são um bom indicador para os políticos sobre se as suas decisões são boas para a economia. E isso é uma ferramenta muito útil para os políticos. Na situação atual, os mercados acreditam que será alcançado um acordo. Se continuarmos por semanas e semanas e ainda não houver um acordo, então, sem dúvida, os mercados cairão.
Temos de lembrar-nos que a decisão [para um acordo] não está apenas no lado do presidente dos EUA, mas também do lado iraniano. Mas é aí que eu ainda estou confiante que um acordo será alcançado, porque temos de pensar nos incentivos iranianos para um conflito prolongado. Se a economia mundial entrar numa recessão global, porque o Estreito de Ormuz está fechado, a maior parte dessa dor económica será sentida na Ásia. E a opinião da China sobre o conflito ficaria um pouco mais clara. Então os mercados acreditam que o Estreito será reaberto e eu acho que os mercados têm o direito de acreditarem que o Estreito vai voltar a abrir, porque não consigo ver os incentivos de ambos os lados — EUA ou o Irão — desejarem um conflito prolongado.
Agora que o Irão percebeu o poder que tem na mão, com o controlo do Estreito de Ormuz, pode usar isso a seu favor nas negociações?
Os acordos são sempre sobre ambos os lados a tentarem extrair o melhor acordo, mas em qualquer acordo não se pode levar as coisas muito longe. O que é importante para o Irão é uma estatística, 80% da energia que é transportado pelo Estreito vai para a Ásia. Em termos de quem é que o Irão está a punir, por prolongar [o conflito], por extrair mais concessões do acordo, está a punir a Índia, o Paquistão, África, está a punir a China. Esta é a linha na qual o Irão vai tentar extrair a melhor situação para si mesmo, mas há limites para jogar este jogo.

Mesmo que o conflito termine em breve, a guerra já está a ter um impacto nas expectativas de crescimento para a economia. Como antecipa que a economia se comporte?
Em primeiro lugar, não é bom para o consumidor. Todos sabemos o que estamos a gastar a mais para encher o depósito do carro, ou aquecer as casas. E isso também significa que os bancos centrais não podem reduzir as taxas de juro. Agora, não acho que os bancos centrais vão aumentar as taxas de juro de forma significativa. Não estou preocupada com esse impacto no crescimento. Mas definitivamente há uma tempestade [na economia]. Agora, em termos de quão grande essa tempestade é e quanto tempo vai durar, depende dos níveis até onde o petróleo vai subir.
E até onde podem ir os preços do petróleo?
Não sabemos. No início do ano, antes do conflito, uma das grandes histórias para este ano era o excesso de petróleo no mercado, que a Arábia Saudita estava disposta a produzir mais e que o Qatar tinha toda essa capacidade adicional para produzir gás natural. Começamos o ano a falar de todo esse excesso de energia. Agora, não há dúvida de que, mesmo quando os navios puderem sair, vai demorar muito tempo [a normalizar a oferta] e perdemos um grau de produção deste ano. Os preços de petróleo não vão voltar para os 50 dólares, mas vão voltar para 90, ou 80 dólares? Poderiam, bastante rapidamente. O meu cenário base é que no final do ano o preço do petróleo esteja nos 90 dólares ou abaixo disso.
Os preços de petróleo não vão voltar para os 50 dólares, mas [se houver acordo] vão voltar para 90, ou 80 dólares? Poderiam, bastante rapidamente. O meu cenário base é que no final do ano o preço do petróleo esteja nos 90 dólares ou abaixo disso.
Mesmo que isso aconteça, neste momento temos o petróleo a negociar acima dos 100 dólares e a AIE a alertar para riscos de rutura no abastecimento de jet fuel. Com o verão à porta, podemos assistir a um travão no turismo, com impacto na economia de muitos países que dependem do setor, como é o caso de Portugal?
A maioria das grandes petrolíferas, a maioria das companhias aéreas, tanto quanto é do meu conhecimento, disseram que o verão está coberto, que têm reservas suficientes de jet fuel para o verão. Não estou preocupada com os aviões não conseguirem chegar a Portugal e Espanha ao longo do verão. Se a situação se prolongar além do verão, é uma situação diferente e as coisas vão tornar-se mais problemáticas. Não acho que vai ser um problema para a região neste verão.
Em relação à Europa, estava muito otimista para a região no início do ano. A guerra fê-la reavaliar essas perspetivas?
É uma pausa no meu otimismo, não o fim. A Europa tem duas coisas. Uma é que há uma perceção que a Europa é estruturalmente incapaz de crescer e isso não é correto. A política fiscal e regulatória na Europa têm sido muito anti-crescimento, nos últimos dez anos. E o enquadramento da política na Europa está fundamentalmente a mudar. Há uma urgência para gerar crescimento que não vi por muito tempo. Esse é um aspeto, que é mais estrutural.
Agora, ciclicamente, temos uma quantidade enorme de poupanças na Europa. Os EUA estão a gastar o seu dinheiro. Nós temos e não gastamos. Esta situação mais recente não vai ajudar, porque as pessoas estão a sentir-se inseguras sobre o futuro, as suas dívidas estão a aumentar. Mas, se eu estiver certa, os preços do petróleo vão voltar a descer no final do ano e no próximo ano vamos voltar para preços de energia mais baixos, e aí o consumo vai começar a surgir. Então é uma pausa na minha positividade.

Os governos vão ter um papel fundamental?
Há apenas dois grandes drivers em jogo. Temos todo esse ruído político, mas há políticas de investimento enormes no mundo. Quanto mais loucas as coisas se tornam, mais isso acontece. Não sei quanto ao consumo das famílias, mas sei que há esse investimento enorme da tecnologia em todo o mundo. Os governos estão realmente focados na resiliência e na pressão para gastarem mais no setor militar, energia, tecnologia, materiais básicos. Tudo isto é muito claro. Essa parte da história é garantida, quase. Isso cria uma resiliência para esses problemas de curto prazo que estamos a enfrentar.
Nos EUA, as grandes tecnológicas estão a investir valores recorde. Na Europa vê espaço para as cotadas aumentarem os investimentos?
Se pensarmos na tecnologia, cria-se tecnologia e depois usa-se, deslocam-se as tecnologias. A Europa não criou as tecnologias. Não temos uma Microsoft e Amazon. Não criamos essas grandes empresas de tecnologia. Mas quando olhamos para os dados mais recentes sobre o uso, deslocação, a Europa tem superado os EUA ao tentar usar essas tecnologias. É isso que acho que vai ser muito interessante, porque não há razão para a Europa não ser um grande beneficiário da IA, mesmo se não criarmos as tecnologias. Isso vai ser interessante também. Quando as empresas europeias começam a investir para usar essas novas tecnologias — e estamos a assistir a isso — e esse é outro suporte para o crescimento.
A história da tecnologia para mim agora não é sobre os hyperscalers. A história da tecnologia para mim agora é sobre os utilizadores, sobre todas as outras empresas no mundo e como vão criar a sua produtividade, a sua rentabilidade, usando essas tecnologias.
E onde vê essas oportunidades? Na Europa?
Vai ser global, mas na Europa paga-se 14 vezes pelos lucros e nos EUA paga 21 vezes. E isso volta ao meu otimismo fundamental para a Europa. Há apenas essa perceção de que somos estruturalmente menos capazes de entregar resultados. Com a mudança do enquadramento da política, o movimento para o desenvolvimento global de tecnologia, onde, nos mercados globais, podemos surpreender-nos? Onde podemos aprender? Onde podemos descobrir que algo está a acontecer que é melhor ou pior do que o que já pensávamos? É aí que a Europa é entusiasmante para mim, porque as expectativas são muito baixas. Mas, esquecemo-nos dos anos 2000. Eu digo aos mais jovens, lembram-se que nos anos 2000 a Europa cresceu mais rápido do que os EUA, a Europa produziu mais resultados do que os EUA, e a Europa teve mais retornos do mercado de ações do que os EUA. E olham para mim e dizem que isso não está certo. E eu tenho que mostrar-lhes os gráficos, porque esquecemo-nos do que somos capazes.
O que aconteceu nos últimos 15 anos foi muito bem intencionado, muitas das nossas políticas regulatórias foram muito bem intencionadas, tentando implementar políticas ambientais para garantir que as empresas tivessem planos de emissões zero, a Alemanha a tentar reduzir a dívida do governo, forçando outros na região a reduzir a dívida do Estado. Tudo isso foi bem intencionado. Mas os chineses não estão a fazer isso e os americanos não estão a fazer isso. Fazer crescimento foi feito muito mais difícil aqui na Europa por causa de políticas bem intencionadas.
Há a realização no espaço da política que há um equilíbrio para ser colocado entre tentar fazer o que acreditamos, mas ao mesmo tempo ter mais crescimento, porque, no final, precisamos de crescimento.
É por isso que a Europa está a dar um passo atrás na regulação?
Sim, é olhar para alguns dos desenvolvimentos que aconteceram nos últimos anos, como o fundo de recuperação da União Europeia e o SAFE, o programa de defesa. O momento da União dos Mercados Capitais, há 4 ou 5 anos não poderia ter acontecido, agora há há um reconhecimento que tem que acontecer. Há um sentimento diferente em Bruxelas e uma nova urgência que eu realmente gosto.
As expectativas são muito baixas para a Europa, mas esquecemo-nos dos anos 2000, quando a Europa cresceu mais rápido do que os EUA, produziu mais resultados e teve mais retornos no mercado de ações do que os EUA. Esquecemo-nos do que somos capazes.
Em termos de investimento, as ações têm melhores oportunidades?
É preciso ter cuidado. Tem de se olhar para as partes do mundo onde ainda podem haver surpresas positivas. Embora os índices acionistas estejam relativamente altos, isso não significa que o mercado não está preocupado com o Irão, porque se olharmos para as companhias aéreas, setor automóvel, empresas cíclicas de consumo, na verdade, estes setores caíram.
Se houver uma resolução para a guerra no Irão, como eu acredito que haverá, ainda há potencial de subida no mercado, quando essas ações ajustarem. É realmente pensar [neste momento] como uma pausa, ao invés da morte da minha narrativa, pensando em termos de alocação geográfica, ainda há oportunidades na Europa, com certeza.
Mas é também preciso pensar em alternativas, porque nós vamos encontrar mais inflação. Ter mais proteção contra a inflação no portefólio é um tema estrutural e a maioria das boas opções estão nos investimentos alternativos, como infraestruturas, madeira e transportes.
Temos assistido a um sell-off no mercado da dívida. Quais são as suas perspetivas para as obrigações?
Os governos na maioria das partes do mundo estão a planear gastar e ter grandes défices, mas também estão a pagar você pelo privilégio. É realmente uma questão de olhar para o mundo e dizer, estou a ser compensado o suficiente pelo que este governo está a fazer? Há muitas partes do mundo onde, com estas taxas de juro, estamos a ser compensados o suficiente. Há certas partes em que, se eu não gostar do que o governo está a fazer, como estão a falar ao seu eleitorado sobre o quão fáceis são as escolhas, essas são as partes do mercado de renda fixa que se quer evitar, porque o mercado de obrigações vai ter que lhes dizer que não.
Pode dar alguns exemplos?
As treasuries nos EUA estão a negociar em 4,5%. As taxas de juro no curto prazo no mercado de obrigações estão a descontar que os bancos centrais vão aumentar as taxas de interesse múltiplas vezes. Não acho que isso vai acontecer. Então, acho que há muitas oportunidades em taxas de juro de curto prazo na Europa. Acho que a ECB pode fazer uma, possivelmente duas [descidas de juro], definitivamente não quatro, como o mercado está a descontar. As melhores oportunidades estão, no momento, no curto prazo, mas, mesmo no longo prazo, há ainda muitas partes do mercado de dívida onde estão a pagar o suficiente.
*A jornalista viajou a Londres a convite da JPMorgan AM
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