“Não é apenas um nome”, mas polémica na Universidade Nova de Lisboa “foi exagerada”

Diretora da Nova School of Law admite que despacho que obriga unidades orgânicas a ter também nome em português "gerou grande sensação de insegurança". Mas atira que polémica foi exagerada.

Não, o que está a acontecer no seio da Universidade Nova de Lisboa não é apenas uma “guerra” de nomes. Em entrevista ao ECO, a diretora da Nova School of Law explica que o despacho do reitor que obriga as unidades orgânicas a terem também uma designação portuguesa — embora juridicamente não resulte em “grandes alterações” — gerou uma “grande sensação de insegurança“. Ainda assim, Margarida Lima Rego avisa que há quem tenha “aproveitado” o debate para “empolar” a questão e provocar uma aparência de divisão.

O problema principal do despacho é o gesto, é o sinal“, frisa a responsável, que defende que a designação de uma escola “não é apenas um nome“. Ao ECO, Margarida Lima Rego garante ainda que “este episódio” acabou por demonstrar a união e coesão na Nova de Lisboa, dizendo-se perplexa face às vozes que sugerem que a School of Business and Economics deveria, em reação, retirar-se do universo desta universidade.

Em entrevista, a diretora defende, por outro lado, a crescente oferta formativa lecionada em inglês, na medida em que é preciso preparar o talento para carreiras nacionais e internacionais. “Não queremos cortar as pernas a ninguém”, sublinha.

Um despacho do reitor da Universidade Nova de Lisboa está a gerar grande polémica por determinar que todas as unidades orgânicas têm de ter uma denominação oficial em língua portuguesa em documentos, plataformas digitais, suportes físicos e administrativos. Como é que a Nova School of Law recebeu este despacho?

Temos vindo a discutir este tema ao longo dos últimos anos. O despacho, se olharmos com rigor, não traz grande novidade. Todas as unidades orgânicas têm uma denominação em português. Relativamente ao teor do despacho, não há nada de muito significativo que tenhamos de mudar relativamente àquela que já é a nossa prática, porque utilizamos conjuntamente as denominações em português e em inglês.

A propósito, consegue indicar quando começaram a usar uma designação bilíngue?

Na Nova, o processo de internacionalização ocorreu a diversas velocidades. A grande pioneira foi a nova SBE, que há cerca de 20 anos começou a usar progressivamente a língua inglesa e a identificar-se como Nova School of Business and Economics. Oficialmente, nos estatutos da Universidade Nova de Lisboa, as denominações em inglês passaram a constar, conjuntamente com as denominações em português, a partir de 2017. Desde então, houve um processo de rebranding, que aconteceu em diversos tempos e de diversas formas nas várias unidades orgânicas. Mas, se olharmos hoje para os nossos logótipos, aquilo que se vê é uma grande coesão na forma de comunicar. Curiosamente, as denominações oficiais em português são faculdade de, mas as denominações oficiais em inglês têm todas a palavra Nova em grande destaque. Foi o resultado de um sentimento de pertença que se queria fomentar.

O efeito do despacho não é obrigar a mudar muito do que já fazemos, mas, do ponto de vista comunicacional, o despacho não foi bem recebido.

Falou num processo de rebranding.

Sentimo-nos profundamente e, cada vez mais, Nova School of Law. Somos Faculdade de Direito, mas faculdades de Direito há muitas. Não renegamos. É isso que somos em língua portuguesa, mas todas as faculdades de Direito são faculdades de Direito. É um genérico.

Diz que se sentem, cada vez mais, Nova School of Law, mas afirma também que o despacho não vai produzir grande consequência por obrigar a uma designação bilíngue.

Precisamente no sentido em que o despacho ressalva a utilização gráfica dos logótipos com termos em inglês. O despacho acaba por descrever muito daquilo que já acontece. O efeito do despacho não é obrigar a mudar muito do que já fazemos, mas, do ponto de vista comunicacional, o despacho não foi bem recebido.

Confirma que, enquanto diretora da Nova School of Law, foi ouvida pelo reitor antes de ter sido emitido este despacho?

Sim.

E não se fazia adivinhar esta polémica?

Claro que se fazia adivinhar esta polémica. Olhando para o despacho, acho que reflete também um pouco do resultado dessa audição, do resultado de quem ouviu e procurou fazer o melhor num certo equilíbrio.

Margarida Lima Rego, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Por que é que diz que já se fazia adivinhar?

Porque já ando aqui há alguns anos e percebemos que haveria quem quisesse aproveitar a ocasião para empolar a questão e provocar, pelo menos, uma aparência de divisão ou de discussão onde ela, na verdade, não existia.

Acha que esta polémica foi exagerada, e exagerada por uma razão.

Sim, sim. Não tenho dúvidas de que houve aqui um aproveitamento de uma questão que, na verdade, não é propriamente um drama, com objetivos de aparecer, de discutir, de criar ruído, de perturbar.

E em que medida é que notou a adaptação do despacho àquilo que os diretores sinalizaram na reunião com o reitor?

O próprio despacho ressalva aquilo que seria mais importante e acaba por descrever uma situação que não difere no essencial daquilo que já acontece. O problema principal do despacho é o gesto, é o sinal, não é a questão jurídica. Juridicamente, o despacho não determina grandes alterações. Politicamente, é um sinal.

Não é apenas um nome. Não sou especialista em marketing, mas acho que não é apenas um nome, é uma identidade. Somos Nova.

Um sinal de quê?

É um sinal de um certo… Gerou em quem recebeu a notícia uma grande sensação de insegurança. Pensamos numa instituição que há cerca de 20 anos está, embora a diversas velocidades, num enorme processo de internacionalização progressiva. Temos muitos docentes de fora do país, que mudaram as suas vidas, aprenderam uma língua nova, vieram trabalhar para Lisboa para a Nova. Temos imensos estudantes de todas as partes do mundo. Temos todo um mundo de alumni que sentem que têm um grau e que no currículo querem manter o nome da instituição tal qual o identificam. Isso [o despacho] causou uma sensação de insegurança, que se calhar seria desnecessária.

Mas em insegurança porquê? Não é apenas um nome?

Não é apenas um nome. Não sou especialista em marketing, mas acho que não é apenas um nome, é uma identidade. Somos Nova. A Nova SBE foi a primeira a integrar o nome Nova na sua marca e as restantes seguiram os passos. Temos hashtags, t-shirts… Literalmente vestimos a camisola. Acho muito difícil, mesmo enquanto leiga, que se argumente que um nome é só um nome.

Entre as várias vozes que se levantaram, há aquelas que entendem que esta é uma “guerra” em torno do nome. Há outras que entendem como o prenúncio de algo maior.

Acho que não é um prenúncio. Aliás, há já quem rasgue as vestes e vejo algumas vozes a dizer que a Nova SBE vai sair da Nova. Causa-me perplexidade, desde logo porque não sei o que é que isso significa. O que é isso de sair da Nova? É algo que manifestamente não está em cima da mesa. Não estamos a discutir esse tema, mas claro que, em abstrato, seria possível ocorrer uma cisão na Nova. Há fusões, cisões, incorporações. Agora, se isso eventualmente acontecesse – o que me parece que não será o caso – a ideia da Nova SBE sair da Nova… A Nova faz parte da identidade da Nova SBE, como faz parte da de todos nós. Esse sentido de coesão, de solidariedade, de pertença a uma mesma instituição, existe e é muito forte. Se houver um dia uma cisão na Nova, parece-me extremamente improvável que a SBE ficasse de um lado e as outras do outro.

Margarida Lima Rego, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Saindo a SBE, saíram, então, mais unidades orgânicas em solidariedade? Sairiam todas? A Universidade Nova acabaria?

O que é que significa sair todas e ficar um conjunto vazio? Nada. Portanto, essa é uma discussão que acho que não faz grande sentido. Tem havido, a propósito desta discussão, muitas manifestações de solidariedade internamente e, portanto, não estou a ver que isto seja um prenúncio de algo mais forte, a não ser de que, olhando pela positiva, este episódio no fundo acabou por demonstrar o quão unidos e coesos já somos enquanto Nova.

Não receia que este despacho seja o prenúncio de a intenção do reitor reduzir a autonomia das unidades orgânicas?

A Nova nasceu há cerca de 50 anos como uma espécie de federação de instituições. Temos faculdades ou unidades orgânicas da Nova com mais de 100 anos. Temos instituições de diversa natureza. A minha é a mais recente. Ainda não fizemos 30 anos. Somos muito variados, mas essa diversidade é uma das nossas maiores riquezas. Tendo em conta esse nosso ADN, acredito que isso não seja algo que possa estar no horizonte. Existem mecanismos diversos que impediriam esse quase harakiri coletivo. Não tenho nada contra as instituições que existem, que são muito mais centralizadas, mas não somos nós.

Portanto, para a Nova School of Law é preciso manter os níveis de autonomia, nunca reduzi-los. E aumentar?

Não é uma prioridade. Acho que é muito importante que a autonomia exista e não seja boicotada. Se a autonomia que já existe for respeitada, como imagino que seja, acho que temos tudo ao nosso alcance para sermos bem-sucedidos.

Somos pequenos, mas nem por isso deixamos de poder ter voz e exercer a nossa cidadania, a nossa profissão, o que seja, no plano global. Para isso, temos uma oferta crescente em língua inglesa para não só preparar os nossos, mas a receber cá dentro estudantes de todas as partes do mundo.

Outro dos receios em relação a este despacho é que esta mudança para uma designação bilíngue acabe por prejudicar a internacionalização. No caso da School of Law, tem esse receio?

Acreditamos que isso não vai acontecer. Não vemos indícios de que isso vai acontecer. Enquanto escola de Direito, temos uma situação que não é exatamente a mesma que a de outras escolas. Cumprimos a missão de preparar as futuras gerações de juristas também para o país. Temos uma licenciatura que, na sua grande maioria, ainda é lecionada em língua portuguesa. Obviamente, que os conteúdos de direito português são todos eles lecionados em língua portuguesa. Mas, ao mesmo tempo, temos de perceber que, num mundo crescentemente globalizado, os principais desafios que enfrentamos enquanto sociedade não se resolvem apenas dentro das fronteiras. Queremos preparar os juristas de hoje e de amanhã para terem voz nessas discussões [além fronteiras]. Somos pequenos, mas nem por isso deixamos de poder ter voz e exercer a nossa cidadania, a nossa profissão, o que seja, no plano global. Para isso, temos uma oferta crescente em língua inglesa para não só preparar os nossos, mas a receber cá dentro estudantes de todas as partes do mundo.

Ter cursos em inglês não afasta os nacionais, o que pode ser considerado grave, segundo algumas vozes, numa universidade que é pública e, portanto, que é financiada pelo Orçamento de Estado?

De todas as vezes que alterámos a língua de um mestrado ou doutoramento do português para o inglês, a procura aumentou, incluindo em Portugal. Nos dias abertos em que recebemos estudantes que querem saber o que é que temos para oferecer, uma das perguntas que mais ouvimos é se podem, na nossa faculdade, ter aulas em inglês, e se a nossa faculdade lhes permite prepararem-se para carreiras internacionais. Temos todo o orgulho de responder afirmativamente.

Portanto, discorda do argumento de que é inadmissível haver universidades públicas com cursos lecionados em inglês.

Somos membros da União Europeia, somos membros de tantas organizações internacionais. Hoje, o direito vigente em Portugal não é o direito português apenas, é também muito o direito europeu. Precisamos de preparar as nossas pessoas para carreiras nacionais ou internacionais, deixando-lhes a escolha. Não queremos cortar as pernas a ninguém. Há muitos lugares que poderíamos estar a ocupar nas instâncias europeias e não o fazemos por falta de candidatos habilitados. Tanto que isto tem levado sucessivos governos a aprovar e implementar planos estratégicos para aumentar esses números. É óbvio que no dia em que Portugal deixe de ter oferta em língua portuguesa, então aí estamos mal, mas não há esse perigo.

Margarida Lima Rego, diretora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Voltando à polémica em torno das designações. Não acha que o ministro da Educação já deveria ter tomado uma posição e feito uma declaração?

Devo dizer que não podemos defender acerrimamente a nossa autonomia e, depois, vir gritar ao paizinho quando alguma coisa acontece. É muito importante que saibamos resolver os nossos problemas.

O reitor da Universidade Nova de Lisboa, numa entrevista recente ao ECO, indicou a intenção de criar um centro de serviços partilhados. O que é que vos parece este centro?

Ainda é cedo. A ideia abstrata da existência de serviços partilhados é boa. Como escola relativamente pequena no universo Nova, vemos com bons olhos a possível maior eficiência de partilha de certos recursos relativamente aos quais não temos dimensão para todas termos pessoas dedicadas aos mais variados temas. Em abstrato, acho que a ideia tem algum acolhimento, embora não seja unânime. O problema está no concreto. Como se costuma dizer, o diabo está nos detalhes. Ainda não sabemos qual é o modelo, quais os serviços, e como é que vão funcionar. A verdade é que aqui há alguma cautela, porque já nos queimámos, e gato escaldado de água fria tem medo. Nos últimos anos temos tido alguns flops de serviços partilhados.

Por exemplo?

Os sistemas de gestão académica centralizados têm diversos problemas de funcionamento e de falta de resposta dos prestadores. A proposta do centro de serviços partilhados em si pode ser muito boa, indiferente ou péssima. É cedo para sabermos exatamente. Mas estamos expectantes e com abertura de espírito para colaborar e ver se conseguimos em conjunto encontrar o melhor modelo.

Já têm ideia de que serviços gostariam de manter na vossa esfera e que outros serviços estariam abertos a ter nesse centro.

Não estamos propriamente interessados em abdicar de serviços. A nossa ideia é que aqueles que já temos, já temos. Mas há uma série de facilidades que gostaríamos de ter enquanto escola pequena. Por exemplo, tudo o que seja campanhas de presença em feiras internacionais. Não temos condições de organizar presenças, só nós, em feiras internacionais. Esse é um excelente exemplo de algo que pode e deve ser centralizado.

Não tenho dúvidas ao afirmar que, neste plano das relações institucionais entre diretores e entre pessoas com funções de coordenação, essa coesão existe e é muito forte. E o sentimento de solidariedade de sentido nestes últimos tempos acho que o demonstra.

Mencionou várias vezes haver coesão na Nova. O reitor, na entrevista que deu ao ECO, disse que a coesão é algo em que é preciso ainda trabalhar nesta universidade.

Podemos sempre melhorar. Mas discordo do diagnóstico de que nos falte coesão. Se calhar a minha visão é um pouco distinta, porque, enquanto diretora, acabo por ter muito contacto com as outras escolas e com os diretores das outras escolas. Não tenho dúvidas ao afirmar que, neste plano das relações institucionais entre diretores e entre pessoas com funções de coordenação, essa coesão existe e é muito forte. E o sentimento de solidariedade sentido nestes últimos tempos acho que o demonstra.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

“Não é apenas um nome”, mas polémica na Universidade Nova de Lisboa “foi exagerada”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião