Miguel Maya aplaude a venda do concorrente mas continua a contestar a fatura que ainda cabe ao sistema, e que no caso do BCP já vai em 600 milhões de euros.
O Novobanco encontrou um novo dono, os franceses do BPCE, e isso diz bem da atratividade do setor financeiro português. Mas nem tudo são rosas, uma vez que continua a haver uma conta por pagar do Fundo de Resolução – suportado pelos bancos do sistema – devido às injeções feitas no passado no antigo BES. No caso do BCP, esse valor já atinge os 600 milhões de euros, e Miguel Maya continua inconformado.
“Não entendo mesmo e tenho muita dificuldade em aceitar: a fatura que os outros bancos, nomeadamente o Banco Comercial Português, suporta relativamente a essa matéria e vai suportar nas próximas décadas”, afirma em entrevista ao ECO, no âmbito dos IRGAwards deste ano.
Para o responsável, nomeado na categoria CEO destes prémios, a solução que vigora em Portugal para este dossier é contraditória com a União Bancária e devia ser alterada. Para Miguel Maya, há um consenso em relação à necessidade de mudar o modelo, mas teme que tudo fique na mesma: “ninguém quer: não mexe, não respira, não mexe, não respira, como se fosse uma radiografia. Mas isto não é uma radiografia, o paciente está vivo”.
Miguel Maya é candidato ao prémio CEO dos IRGAwards, iniciativa da Deloitte, juntamente com Cláudia Azevedo (Sonae), Paulo Macedo (CGD), João Bento (CTT) e Pedro Castro e Almeida (Santander).
Acabámos de ter o negócio do Novobanco, foi um dos maiores negócios de aquisições de banca transfronteiriços na Europa nos últimos anos. O que é que isto diz acerca da atratividade do nosso setor financeiro?
Diz várias coisas. A primeira é que diz que a economia portuguesa tem potencial, porque o balanço de um banco tem, em primeiro lugar, a ver com a qualidade da economia, porque o nosso ativo é o crédito que concedemos à economia. Portanto, isso é o primeiro sinal de confiança no país.
A segunda coisa que me diz é que a banca passou de uma situação das bancas mais vulneráveis da Europa para um setor que teve a coragem de fazer a transformação e que hoje é um setor que está equilibrado, está rentável, está sólido do ponto de vista de capital, passa com distinção nos stress tests, portanto, é um setor onde se justifica investir.
Acho que são duas boas razões e, portanto, fico satisfeito que haja apetite pela banca portuguesa, nesse sentido, porque traduz confiança no país e traduz confiança nos bancos portugueses.
Eu tenho muita dificuldade em aceitar que, no caso do BCP, já foram 600 milhões de euros e que, ao longo das próximas décadas, não se encontre um modelo de suportar desse custo
Agora que ficou fechado o processo, podemos fazer um balanço positivo depois do tão conturbado que foi este processo, até nomeadamente pelo envolvimento dos outros bancos, que ainda têm uma fatura por pagar?
Eu acho que os balanços devem ser feitos com distanciamento. Eu sou protagonista, vivi esse período na banca, não sou a pessoa indicada para o fazer, acho que é um balanço que vai ter que ser feito dentro de alguns anos.
E o balanço é contra outras opções. O balanço é sempre contra outras opções. E nesta matéria há dois ou três temas que eu gostaria de destacar.
Primeiro, é com enorme satisfação que vejo um banco que tinha um franchise muito forte, sobretudo na área de empresas, que seria uma pena desaparecer, ter conseguido encontrar uma solução. Mérito dos seus trabalhadores, mérito da gestão, E, portanto, vejo isso com entusiasmo. É um concorrente forte, é verdade, é um concorrente forte, mas eu gosto de concorrência e, portanto, acho que é bom para o sistema, acho que é bom para o país e, nesse sentido, essa parte eu vejo como francamente positiva.
O que é que eu não vejo? E que tenho bastante dificuldade em entender, aliás, melhor, não entendo mesmo e tenho muita dificuldade em aceitar: é a fatura que os outros bancos, nomeadamente o Banco Comercial Português, suporta relativamente a essa matéria e vai suportar nas próximas décadas.
Isto é que eu acho verdadeiramente inaceitável, porque todas as decisões que são erradas ou que se venham a revelar erradas em todo ou em parte, quem vem a seguir, a obrigação não é, “olha, não fui eu, deixa andar”. A obrigação de quem vem a seguir é corrigir. Portanto, é isso que temos que fazer. E o que nós estamos a criar é que nós não podemos ter um discurso em que temos uma União Bancária, e que queremos uma União Bancária e, simultaneamente, impor a alguns dos concorrentes condições absolutamente despropositadas que lhes condiciona a capacidade de competir na União Bancária.
Portanto, eu tenho muita dificuldade em aceitar que, no caso do BCP, já foram 600 milhões de euros e que, ao longo das próximas décadas, não se encontre um modelo de suportar desse custo.
Não é pelos contribuintes portugueses, porque os únicos contribuintes que estão a suportar isso são os bancos. É todos os operadores do setor financeiro que comercializam produtos bancários a contribuintes portugueses.
Porque senão não estamos dentro das mesmas condições. E eu não consigo compreender como, passados estes anos todos, isto continua assim e não tenho dúvidas que no dia em que se fizer o balanço do que se passou, que o balanço não vai ser positivo para as pessoas que não tiveram a coragem de mudar uma coisa que estava manifestamente mal. Portanto a minha expectativa é que venham a mudá-la e que tenham a coragem de a mudar e sobretudo eu acho que há um consenso relativamente a isso. A única coisa que eu entendo que justifica é que ninguém quer: não mexe, não respira, não mexe, não respira, como se fosse uma radiografia. Mas isto não é uma radiografia, o paciente está vivo.

E acha que ainda há espaço para, nos próximos tempos, se vai falar de consolidação no setor, em Portugal, ou até transfronteiriça?
Deixa-me brincar. Vai-se falar de certeza, porque só na Caixa de Crédito Agrícola temos 62, que vão consolidar. Nos próximos 10 anos, seguramente que vai haver.
Há espaço para a consolidação a nível da União Bancária. Eu não consigo, sinceramente, fazer o exercício desse passo nacional.
Continuamos a falar num mundo que já não existe. Hoje o meu espaço de competição é a União Bancária e, portanto, ao nível da União Bancária acho que vai haver consolidação, mas que é preciso fazer progressos ao nível daquilo que é a União Europeia para que haja ganhos de consolidação. Hoje o tema da escala por escala já não é o que era no passado, até pode ser um impeditivo. Quer dizer, se eu tiver que escalar, mas tiver que adaptar a diferentes sistemas fiscais, diferentes legislações, diferentes mecanismos de proteção do consumidor, etc., esta escala é um entrave, não é uma vantagem, porque aquele tema do custo da tecnologia hoje não é o tema principal. Na medida em que a União se vá desenvolvendo, a União Bancária e a União Europeia vá estando mais integrada, acho que haverá seguramente oportunidades de consolidação.
Aí, quando estiver completa e realmente harmonizada a União Bancária, aí sim podem abrir-se os portões, porque aí fará sentido. Até lá tem esses riscos todos que disse, não é?
Até lá pode haver oportunidades, mas não vai ser um tema central, nem vai ser um tema que vai mudar substancialmente aquilo que é importante, porque o que nós estamos a falar, no limite, isto faz sentido se resultar melhor para os clientes. Só faz sentido fazermos isto se isto se traduzir-se em melhor oferta, melhor serviço, melhor qualidade de atendimento aos clientes e melhor rendibilidade.
Caso contrário, é o maior por um maior. Isso no campeonato empresarial não tem relevância nenhuma.
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“Não entendo e tenho muita dificuldade em aceitar” a fatura do Novobanco
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