Miguel Ferreira, professor e Vice-Dean da Nova SBE, está à frente de um programa que quer levar formação a 50 mil pessoas, agora também junto das PME e no interior do País.
Miguel Ferreira, Vice Dean for Faculty and Research da Nova SBE, tem dedicado muita da sua atenção aos temas da literacia financeira, criando um programa para melhorar as qualificações de adultos nesta área. Agora, recebeu uma prestigiada bolsa europeia para escalar esse modelo, que vai fazer chegar às PME e a todo o território nacional. O programa Finanças para Todos chegou a perto de 6 mil pessoas, mas a ambição agora é chegar a 50 mil, com a ajuda do financiamento da União Europeia.
O professor e líder do projeto manifesta-se otimista com o progresso futuro da literacia financeira dos portugueses, até porque as gerações mais novas são mais informadas e vão beneficiar da introdução destes conteúdos, de forma obrigatória, nos currículos escolares. Falta chegar aos mais velhos, até porque há uma camada da população que se tornou mais vulnerável com a digitalização de muitos serviços.
Nesta conversa, Miguel Ferreira aborda o caminho que, enquanto País, ainda temos de fazer, quais as áreas essenciais e o papel das universidades na ligação com as comunidades e a sociedade em geral.
Começando pelo princípio: de que é que estamos a falar quando falamos de literacia financeira?
Quando falamos de literacia financeira falamos de as pessoas terem conhecimentos financeiros básicos e a confiança necessária para tomarem boas decisões, quer em orçamento familiar, poupança, investimentos financeiros ou decisões de crédito. Também como gerir situações de sobreendividamento, evitar fraude financeira — hoje muito relevante — e utilizar meios de pagamento digitais. É um conjunto de temas que importa dominar para que as pessoas, informadas, tenham a confiança necessária para tomar boas decisões e melhorar o seu bem-estar financeiro.
Estamos a falar quase de um kit de ferramentas básicas. Mas não é isso que ensina aos seus alunos, que presumivelmente já têm maior sofisticação e precisam de coisas mais elaboradas. Aqui falamos da necessidade básica que todos, enquanto cidadãos — qualquer que seja a profissão ou o grau académico —, temos de ter, não é?
Sim, este tipo de conhecimentos é importante para toda a gente. E um desafio na sociedade portuguesa é que os níveis médios de literacia financeira são baixos no contexto europeu. Mesmo na União Europeia os níveis são baixos, em média: os estudos mais recentes apontam que apenas uma em cada duas pessoas tem conhecimentos financeiros básicos. E quando digo básicos refiro-me a perceber o que é a inflação, o cálculo e a capitalização de juros, ou a importância de diversificar investimentos. Em Portugal, os resultados ficam abaixo desta média: cerca de 40% dos cidadãos têm estes conhecimentos. Não estamos a falar de nada sofisticado — são conceitos fundamentais para o bem-estar financeiro.
O problema é que há desconhecimento até em coisas mais simples. Por exemplo, a leitura de um contrato, ou um documento de crédito. Mesmo aí ainda há muito a fazer, não?
Há. E, se formos mais atrás, a raiz do problema é ainda mais profunda. Saiu esta semana um estudo da OCDE que mostra que cerca de 50% dos portugueses apenas conseguem compreender textos relativamente curtos. Há falta de literacia em geral — falta de educação — que vem de trás. Tem melhorado nos anos recentes: olhando para quem tem menos de 35 anos o panorama já é muito diferente, estamos próximos dos níveis europeus de escolaridade. Mas, olhando para o acumulado de dificuldades do sistema de educação, há falta de literacia em geral e de literacia matemática — e isso tem implicações na literacia financeira, para além dos temas específicos desta área.
Esses dados da OCDE colocavam-nos, num dos indicadores, como o segundo pior país, a seguir ao Chile, certo?
Sim. E a OCDE nem é o melhor grupo de comparação porque inclui muitos países em desenvolvimento. No Eurobarómetro mais recente, éramos o segundo pior dentro da União Europeia em conhecimentos financeiros básicos.
Como é que começou a tratar destes temas? Por que decidiu dar-lhes tanta atenção e entregar-se a esta causa?
Por duas razões. Primeiro, porque comecei a ver estudos que mostravam tratar-se de um problema grave em Portugal. Eu sou professor de Finanças e ensino estes temas na licenciatura da Nova SBE, a alunos jovens. Entre estudantes de Economia, o nível de conhecimento é melhor — temos cadeiras sobre estes temas —, mas a constatação era clara: o desempenho médio do País era fraco. Depois surgiu a oportunidade de uma parceria com a Fidelidade que, por responsabilidade social, nos abordou para criarmos um programa gratuito de literacia financeira — o “Finanças para Todos” — aberto a qualquer pessoa com mais de 18 anos. Focámo-nos em adultos porque já há muitas iniciativas para jovens e, para darmos o salto, não podíamos esperar décadas: era importante atacar as lacunas na população adulta. Criámos então um programa de cerca de 10 horas, aberto a qualquer interessado, cobrindo os vários temas da literacia financeira.
As pessoas mais velhas estão hoje mais vulneráveis, com a sofisticação dos métodos de pagamento e dos serviços?
Estão, por várias tendências. A digitalização dos serviços bancários dificulta o acesso a aconselhamento personalizado — houve encerramento de agências e a relação é mais distante, muitas vezes digital. Cada vez mais é fundamental as pessoas assumirem a sua gestão financeira e planearem a reforma. Prevê-se que, nos próximos 20–30 anos, a chamada taxa de substituição baixe para menos de 50% — hoje está perto de 70%. A taxa de substituição é a pensão face ao último salário; em Portugal ainda é relativamente elevada, mas deverá cair para menos de 50% em 25–30 anos. É fundamental começar a planear a reforma, fazer poupanças e investimentos para esse objetivo. Esta responsabilidade individual torna ainda mais importantes os conhecimentos financeiros.
E temos um problema adicional: poupamos mais do que investimos e muitas vezes em produtos sem rentabilidade. A riqueza está muito concentrada em ativos ilíquidos — como a habitação — de que precisamos quando nos reformarmos.
Sim. Para muitas famílias, a maior fatia da riqueza é a casa. Isso coloca dificuldades porque é um investimento pouco líquido: não é fácil convertê-lo em dinheiro no momento da reforma, quando precisamos de liquidez — e continuamos a precisar de casa. Infelizmente, no mercado português não há oferta de produtos bancários que permitam converter habitação em liquidez durante a reforma.
É possível que venha a aparecer.
Creio que sim. Já ouvi que alguns bancos ponderam lançar esse tipo de produto, que se tornará cada vez mais importante.
No “Finanças para Todos”, a última informação que li é que chegaram a mais de 6.000 pessoas. É isso?
Sim. Realizámos três edições anuais e formámos cerca de 6.000 pessoas. A procura é muito grande: todos os anos temos cerca de 10.000 candidatos e só podemos aceitar cerca de 2.500. Vamos agora começar a quarta edição, novamente com cerca de 2.500 participantes. É motivador ver que as pessoas vão às cinco sessões e que, pela avaliação de impacto que fazemos, os conhecimentos e os comportamentos financeiros melhoram face ao ponto de partida.
Deve ser uma experiência interessante contactar com essa realidade. Sendo professor, lida com muitos alunos; mas nessa faixa um pouco mais velha haverá experiências muito diversas que chegam ao programa.
Como é um público adulto, a idade média ronda os 40 anos — temos participantes de 18 a 65. Em média é um público jovem, mas já com experiência de vida e situações reais que trazem para a sala. Isso enriquece a experiência para todos: aprendem uns com os outros e, para quem dá a formação, essa partilha é muito valiosa — é uma mais-valia do programa.
Com o financiamento da Comissão Europeia, o objetivo é levar programas de literacia por todo o país — incluindo regiões do interior — a trabalhadores de PME, onde encontraremos níveis mais baixos de literacia e rendimentos e escolaridade mais baixos
Recebeu recentemente uma bolsa prestigiada — a ERC Advanced Grant, do European Research Council. No fundo, para lançar ou “aditivar” o projeto “Finance for All”. Assenta no “Finanças para Todos”, escala o que existe, é algo novo?
Assenta no programa atual. Um facto que observámos é que quem procura o programa já tem, em média, literacia relativamente elevada para a realidade portuguesa — 70% têm curso superior. Sentem necessidade, mas partem de uma base acima da média. Em termos de literacia, estão ao nível dos melhores países europeus — os escandinavos. Ainda assim, vemos impacto positivo nos conhecimentos. Mas há uma lacuna: não estamos a chegar a quem tem défices maiores. É aí que o efeito pode ser mais significativo. Por isso, lançámos o projeto para chegar às pessoas através das pequenas e médias empresas. Com o financiamento da Comissão Europeia, o objetivo é levar programas de literacia por todo o país — incluindo regiões do interior — a trabalhadores de PME, onde encontraremos níveis mais baixos de literacia e rendimentos e escolaridade mais baixos. Acreditamos que o programa pode ter um efeito ainda mais significativo no bem-estar financeiro.
Isso também é riqueza para o país: pessoas mais estáveis financeiramente criam riqueza para todos.
Sim, e há estudos que mostram que países com melhores níveis de literacia financeira são mais desenvolvidos economicamente.
Há também um efeito indireto: com mais conhecimento, entende-se melhor um Orçamento do Estado, decisões políticas e a alocação de recursos — e podemos ser mais exigentes.
Exato. Percebem melhor decisões políticas e comunicações do Banco Central Europeu, que têm impacto direto na vida das pessoas. Quando o BCE muda as taxas de juro, isso afeta quase diretamente as prestações do crédito à habitação e o orçamento familiar.
A quantas pessoas preveem chegar? Qual é o prazo? E como vai funcionar — não será o Miguel a andar de terra em terra com uma mala às costas a dar formações…
O projeto dura cinco anos e terá uma equipa grande de gestores e formadores a percorrer o país. O objetivo é formar 48.000 pessoas em cinco anos, envolvendo cerca de 6.500 empresas. Faremos avaliação de impacto: verificar se os conhecimentos melhoram e se as decisões financeiras são melhores — orçamento, poupança, investimentos, crédito —, se é menos provável haver sobreendividamento, se conseguem poupar mais. E medir efeitos para as empresas: com menos stress financeiro, as pessoas são mais produtivas; e alguns conhecimentos aprendidos podem ser úteis no trabalho. Queremos, com isto, promover o desenvolvimento das empresas em cada município onde o programa for oferecido.
E até perceber melhor decisões de gestão — ou dar sugestões — porque quem tem mais conhecimento sente mais confiança para o fazer. Isso também enriquece.
Sim, é um efeito interessante: com melhores níveis de literacia, os trabalhadores percebem melhor as decisões dos gestores. Isso ajuda a ter uma força de trabalho mais motivada e envolvida e facilita a retenção, porque se compreendem melhor as decisões da empresa.
Como será feita a medição de impacto?
De duas formas. Primeiro, com um grupo que recebe formação e um grupo de controlo que não recebe de imediato — só dois anos depois. Durante esses dois anos comparamos os grupos. Segundo, acompanhamos as pessoas após a formação, pelo menos durante dois anos, para ver se mantêm os conhecimentos e se tomam melhores decisões face ao ponto de partida. Faremos questionários antes e depois da formação, e ao longo desses dois anos.
Este tema não é novo nem de nicho. Não devíamos, coletivamente, fazer mais? O que podemos fazer, enquanto sociedade, para atacar isto em larga escala?
Tem de partir dos jovens, das escolas. Foi tomada uma decisão muito importante: incluir a literacia financeira como conteúdo obrigatório na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Antes não era obrigatório e muitas vezes não era lecionado. Com a revisão do currículo, passa a estar em todos os anos, do 1.º ao 12.º. É um passo fundamental para termos melhores níveis no futuro — está demonstrado que é preciso começar cedo. Quanto mais cedo se começar, melhores serão os níveis quando os jovens chegarem à idade adulta.
Ficam incutidos os conceitos e depois constrói-se em cima deles.
Exatamente. Indiretamente, pode melhorar a literacia financeira dos pais: os jovens levam para casa o que aprenderam e falam sobre isso, gerando um efeito de contágio positivo.
Nesta interação com a sociedade — universidades abertas à comunidade para atacar problemas concretos — temos em Portugal essa escola e esse espírito?
No passado — e ainda hoje — há pouca interação, mas tem melhorado. Vemos mais iniciativas, mais projetos comuns entre empresas e universidades e também dos cidadãos com as universidades. O “Finanças para Todos” é um bom exemplo: tem impacto direto na vida das pessoas. Mas é preciso chegar a todos. A avaliação de impacto permite saber se o programa funciona e atinge os objetivos e, com isso, formar políticas públicas para levar o programa, com apoio do Estado, a ainda mais pessoas.
No fundo: “estudámos, estivemos no terreno, temos dados — está comprovado. Peguem no modelo e massifiquem”.
Exato. É uma solução eficaz, com custos relativamente baixos face a alternativas. Funciona — peguem nela e alarguem-na. Aí será importante o apoio do Estado, mas também de outras entidades da sociedade civil, fundações, etc.
O problema não está na vontade das universidades, mas na falta de meios para fazer mais do que dar aulas?
Não teríamos o programa dos últimos três anos sem o apoio da companhia de seguros. Exige equipa e formadores — tem custos. E não chegaríamos a 48.000 pessoas sem a bolsa de investigação da Comissão Europeia.
Voltando ao início: acredita que nos conseguimos aproximar dos melhores, nos próximos anos?
Sim. Acho que, daqui a 10 anos, o panorama será diferente. Por um lado, há muitas iniciativas com jovens, culminando agora no conteúdo obrigatório nas escolas — terá um grande efeito e, em 10–15 anos, começaremos a vê-lo. Por outro, o nosso programa contribui na faixa adulta. E espero que este projeto em larga escala com trabalhadores de PME possa depois ser alargado a ainda mais pessoas, com apoio do Estado e da sociedade civil, para seguirmos esse caminho e ficarmos acima de onde estamos hoje.
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“Não estamos a chegar a quem tem défices maiores de literacia financeira”
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