“Não vejo renascimento nenhum da Europa”

Para Vítor Bento, a Europa continua presa numa visão idealista que a continua a deixar numa posição comparativa desfavorável.

Vítor Bento nunca foi federalista, na discussão sobre o modelo europeu, mas os anos e a situação internacional têm vindo a mudar, de certa forma, essa perspetiva. “Sempre fui antifederalista. Mas hoje reconheço que a Europa, se quiser ter alguma relevância como grande potência mundial, só o conseguirá ter e só conseguirá evitar um decaimento significativo se federalizar mais funções”, afirma em entrevista ao ECO, por ocasião dos IRGAwards, iniciativa da Deloitte que tem o responsável como presidente do júri.

Alerta para os potenciais perigos, a prazo, de ter vários exércitos europeus poderosos, face ao modelo de um único e comum a nível continental, e manifesta algum desencanto com as intenções da Europa em reconstruir-se como um bloco capaz de rivalizar com Estados Unidos e China.

Há um ano falávamos de coisas de que ainda falamos, embora na altura estávamos muito focados na guerra tarifária, agora falamos de guerra a sério. Falamos de crise energética, falamos de inflação. O presente é feito de permanentes mudanças. Isto vai ser sempre assim, ou acha que um dia vamos voltar à velocidade de cruzeiro?

Acho que criamos uma ilusão sobre o que é normal. Provavelmente esta situação é mais normal do que aquilo que uma determinada geração se habituou. Digo uma determinada geração porque já fiz uma travessia mais longa, já vi períodos de instabilidade tão grande ou maior do que vivemos atualmente. E, portanto, o que vivemos atualmente não me surpreende. Talvez aquele período que se viveu desde o final da Guerra Fria até há pouco tempo, isso é que constitui talvez uma anormalidade. Mas a geração que o viveu de uma forma ativa, para essa geração, isso constitui a percepção do normal.

É o que conhece, não é?

Exatamente. Mas se tivermos uma visão histórica mais longa, o normal foi sempre um período de instabilidade, sempre um período de conflitualidade, umas vezes com guerras mais quentes, outras com guerras mais frias. Recordo, por exemplo, que a Guerra Fria, que foi um período muito importante, só foi fria graças à importância que as armas atómicas tinham, porque toda a gente tinha consciência que uma guerra quente seria destrutiva. E isso funcionou como um elemento de contenção. E, portanto, a conflitualidade teve menos erupções de violência clara, de guerra quente, do que, enfim, do que seria de esperar, com o grau de conflitualidade latente que existiu nessa altura.

Lembro-me dos anos 70, tivemos terrorismo na Europa. As pessoas já se esqueceram, tínhamos aqui em Espanha a ETA que matava gente a torto e a direito, na Irlanda aquilo era praticamente um clima de guerra civil, tivemos na Itália as Brigadas Vermelhas que raptaram e mataram um ex-primeiro-ministro. Tivemos na Alemanha o Baden Meinhof, que destruiu imensas coisas e que matou o presidente do Deutsche Bank da altura. Portanto, tivemos um período muito violento no seio da Europa, que entretanto, felizmente, amainou. Nós, a própria capacidade política, de certa forma, conseguiu, durante muito tempo, ir dirimindo a conflitualidade mais na base da discussão e dentro do processo democrático.

Os Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, têm estado praticamente sempre em guerra em qualquer parte do mundo.

Vítor Bento

Presidente do júri dos IRGAwards

Isso hoje também se está um pouco a reverter, enfim, esperemos que, apesar de tudo, seja controlável. Ainda voltando aos anos 70, houve a guerra do Vietname. Aliás, se vir bem, os Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, têm estado praticamente sempre em guerra em qualquer parte do mundo.

Não de uma forma totalmente contínua, enfim, com algumas intercalações pelo meio. Isso ajudou também a ser a máquina de guerra poderosa que é, porque tem experiência prática, coisa que outras potências não têm, nomeadamente a China, não tem experiência prática de combate.

Vítor Bento, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Agora que já passou algum tempo desde que começámos a ter esta discussão, como é que vê este proclamado renascimento europeu em algumas áreas? Falamos de indústria, da defesa, de tecnologia. Este renascimento está a acontecer ou foi, mais uma vez, conversa, intenções, mas que foi sendo travado por paus na engrenagem?

Não quero ser demasiado pessimista, mas não vejo renascimento nenhum, para além do campo declaratório. Para além disso, obviamente, há conversas muito diferentes, mas em termos de ação concreta, não vejo. E algumas das coisas que vejo julgo que são preocupantes.

Em grande parte esse Estado Social foi financiado com o desinvestimento na defesa, e agora vamos ter de investir na defesa. De onde é que vai vir esse dinheiro? Provavelmente vai ter de haver maior sacrifício do Estado Social, mas isto tem de ser explicado às pessoas.

Vítor Bento

Presidente do júri dos IRGAwards

Por exemplo, sem dúvida nenhuma, que a Europa precisa de reforçar a sua capacidade de defesa própria. A Europa habituou-se a viver debaixo da proteção da asa dos Estados Unidos e deixou estiolar o seu potencial de defesa, o que em si é uma coisa má. É claro que isso permitiu-lhe poupar dinheiro para criar um Estado Social que depois gosta de esfregar na cara dos Estados Unidos como sendo uma coisa mais valiosa, e obviamente que é muito valiosa, mas em grande parte esse Estado Social foi financiado com o desinvestimento na defesa, e agora vamos ter de investir na defesa. De onde é que vai vir esse dinheiro? Provavelmente vai ter de haver maior sacrifício do Estado Social, mas isto tem de ser explicado às pessoas, as pessoas têm que perceber isso.

Portanto, ponto 1, esses trade-offs têm que ser diretamente assumidos. E segundo, vejo com preocupação que a Europa esteja tranquilamente a aceitar que o reforço da capacidade militar europeia se faça ao nível dos estados nacionais, ou seja, que se voltem a reforçar o potencial dos estados nacionais com toda a experiência histórica por detrás.

Pode não correr bem, a prazo.

Exatamente, porque há uma lei geral, a lei de Murphy generalizada, que diz que tudo o que pode acontecer acabará por acontecer, não é só as coisas más, mas tudo o que pode acontecer, acabará por acontecer. E, portanto, o facto de os Estados nacionais passarem a dispor de uma capacidade militar própria e de grande intensidade, obviamente que isso vai suscitar uma série de outros sentimentos a que nós não estávamos habituados. E depois começam a emergir o chamado dilema de segurança. Se há um estado nacional que se reforça muito, o seu vizinho vai pensar que “Bom, mas também vou ter de… enfim, eles são meus amigos hoje, mas no passado não foram. Ninguém me garante que daqui por 20 anos ou 30 anos continuem a ser”. E, portanto, gostaria mais de ver o assumir dessa capacidade de defesa europeia mais ao nível pan-europeu.

Mas quando se fala, muitas vezes, da ideia de um exército europeu, há muita gente que não gosta de todo dessa linguagem, sequer.

Pois, porque isso depois tem a ver com outra contradição, é que ou queremos uma Europa, ou queremos um conjunto de Estados nacionais, que conversam à mesa de vez em quando. É isso que temos de escolher de um momento para o outro. Por exemplo, sempre fui antifederalista. Mas hoje reconheço que a Europa, se quiser ter alguma relevância como grande potência mundial, só o conseguirá ter e só conseguirá evitar um decaimento significativo se federalizar mais funções.

De outra forma, não vai conseguir ter essa capacidade. Politicamente isso vai ser possível? Se calhar não vai. Mas então temos de assumir as consequências que a Europa vai decair inevitavelmente na comparação com as grandes potências, quer os Estados Unidos, potência existente, quer a emergente, a China.

E esse seu pessimismo, falámos de defesa, mas também na área da indústria, também estamos a falar muito e a fazer pouco, ou se calhar já nem estamos a falar muito, já falámos.

Mas apesar de tudo, a conversa está a mudar e essa é uma coisa boa. A natureza da conversa está a mudar e é uma coisa boa. A Europa sempre foi, sobretudo a partir de determinada altura, demasiado idealista. Funciona na base de muitos ideais e muitas vezes esses ideais elevam-se tanto que perdem a base da realidade, saem os pés do chão.

E um dos campos onde acho que a Europa foi excessiva e isso teve como contrapartida aquilo que hoje muito lamentam, que é a chamada perda de autonomia estratégica, foi a política de concorrência. A política de concorrência europeia foi baseada naquilo que chamo de economia de manual. E, portanto, a economia funciona como nos manuais, de uma forma ideal. Mas os manuais não representam a economia. Os manuais são uma abstração simplificadora da economia. A economia funciona em contextos político-sociais muito concretos, com as impurezas que os contextos político-sociais têm. Não com a pureza que os manuais da economia possuem. E a política de concorrência europeia impediu a criação de grandes empresas europeias com capacidade de concorrer nos mercados mundiais a custos marginais, como concorrem as grandes empresas americanas ou as grandes empresas chinesas.

Isso vai levar muito tempo a dar a volta, enfim, mas acredito que apesar de tudo, hoje há consciência dessa perda. Recuando um pouco, até há pouco tempo, um projeto igual ao Airbus seria impossível na Europa. O Airbus foi criado num contexto ideológico diferente, mas no contexto que prevaleceu até há pouco tempo um projeto como o Airbus não seria possível.

Um dos mitos que existe na Europa é a existência de um mercado único. Isso não existe, é um mito. Os mercados são fragmentados. E o principal instrumento de fragmentação dos mercados europeus é a existência de autoridades de concorrência nacionais.

Vítor Bento

Presidente do júri dos IRGAwards

E, aliás, há vários exemplos onde não se deixaram crescer as economias europeias. E, se quiser — e esta afirmação admito que seja polémica — um dos mitos que existe na Europa é a existência de um mercado único. Isso não existe, é um mito. Os mercados são fragmentados. E o principal instrumento de fragmentação dos mercados europeus é a existência de autoridades de concorrência nacionais.

O principal objetivo de qualquer organização é assegurar a sua existência e a sua sobrevivência. E o que é que assegura a necessidade e a sobrevivência das autoridades de concorrência? É afirmar a diferenciação do seu mercado. Portanto, para as autoridades de concorrência nacional é fundamental conseguirem afirmar que o seu mercado é diferente dos outros e, por isso, precisa de uma atenção especial. Ora bem, isto é um instrumento irrecusável de fragmentação.

Aliás, essa é aquela visão de nós, nós Portugal, mas como outros países, vermos a concorrência numa lógica nacional, da mesma forma que a Europa estava preocupada é se havia um player muito dominante em termos europeus, esquecendo que a concorrência é no mundo, não é?

Mas isto, ao fragmentar o mercado europeu, significa que as autoridades de concorrência nacional estão preocupadas a não deixar emergir empresas grandes no seu território, porque rapidamente são acusadas de ter posição dominante, e se não as deixam crescer, elas nunca conseguem atingir uma dimensão internacional.

Enquanto que nos Estados Unidos não há empresas da Califórnia, não há empresas do Massachusetts, há empresas americanas.

 

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