“Não vejo um Portugal capaz de crescer de uma forma sustentável acima dos 2%”

Para Miguel Maya, Portugal deve ter mais ambição para tirar partido das suas vantagens competitivas, que poderiam trazer muito mais prosperidade, essencial para uma proteção social mais robusta.

Miguel Maya não vê nenhuma crise na economia portuguesa no horizonte, mas isso não o deixa tranquilo. Considera que estamos muito aquém do nosso grande potencial e o País mostra pouca capacidade de ter mais ambições para que possa crescer mais, de forma sustentada.

“Estamo-nos a autolimitar por via da pouca ambição que temos de apanhar e reconcretizar esse potencial. Portanto, eu estou preocupado no sentido em que, como ambiciono mais, estou decepcionado com aquilo que estamos a conseguir“, afirma em entrevista ao ECO, no âmbito dos IRGAwards 2026.

As características distintivas de Portugal e dos trabalhadores portugueses, juntamente com uma economia mundial cada vez mais digital são oportunidades na visão do gestor, mas pede que haja mais ambição para o conseguirmos atingir. Ou, nas palavras do próprio, “Isto vive-se, mas não é ambição para ninguém. Não mudamos o mundo para melhor se continuarmos nesta direção”.

Miguel Maya é candidato ao prémio CEO dos IRGAwards, iniciativa da Deloitte, juntamente com Cláudia Azevedo (Sonae), Paulo Macedo (CGD), João Bento (CTT) e Pedro Castro e Almeida (Santander).

Estamos a crescer à volta de 2%, acima da média europeia, mas tivemos há pouco tempo uma revisão em baixa das perspetivas de crescimento. Tivemos também os custos de financiamento, por exemplo, da República, em valores mais elevados e que já não víamos há algum tempo. Num banco que tem naturalmente exposição ao ciclo económico, como é que vê este cocktail? Preocupa-o?

Se acharmos que ficar na média é razoável, se ficarmos satisfeitos com o que temos, estamos no quente, não estamos no frio. Isto vive-se, mas não é ambição para ninguém. Não mudamos o mundo para melhor se continuarmos nesta direção. Nesse sentido, acho que temos que ter claramente outro patamar de ambição.

Há dois temas que mudaram muito – e agora vou olhar para aquilo que está feito – mudaram muito Portugal na última década. E, para mim, se tivesse que escolher esses dois temas, um tem a ver, em resultado da crise financeira e da crise das dívidas soberanas, a capacidade empresarial de inventar modelos de negócio, de sair para fora, de não desistir perante a adversidade.

E esta capacidade foi notável, e foi notável porque tivemos muito mais gente qualificada nas PME. O exclusivo do talento não era um exclusivo das grandes empresas. Nós hoje temos gente com imenso talento, mesmo em pequenas e médias empresas, e isso mudou. A capacidade de adaptação da economia portuguesa foi, na minha opinião, brilhante. Méritos dos empresários e dos gestores.

E o segundo pilar foi a preocupação com as contas públicas. Isto já passou a não ser um tema do partido A ou B, há um consenso nacional de que nós temos que viver dentro das nossas possibilidades, nós temos que evitar o desperdício, nós temos que evitar os custos e nós temos que investir mais. Este braço do investimento não conseguimos fazê-lo. Conseguimos todos os outros, a parte do investimento acho que ainda não estamos lá.

Portanto, estes dois grandes pilares transformaram profundamente a economia portuguesa. Eu hoje olho e vejo um Portugal muito mais robusto.

Agora, há quem não goste da palavra resiliente – eu por acaso até gosto da palavra de resiliência – eu vejo um Portugal mais resiliente. Mas não vejo um Portugal capaz de crescer de uma forma sustentável acima dos 2%. Está bem, vivemos com isto.

Se compararmos com os outros, não estamos nada mal. Em termos mundiais, isto não é mau. Há momentos na Europa que até estamos bem. Mas é isto que queremos? É este nível de salários que queremos? Eu acho que não.

Miguel Maya

CEO do BCP

Se compararmos com os outros, não estamos nada mal. Em termos mundiais, isto não é mau. Há momentos na Europa que até estamos bem. Mas é isto que queremos? É este nível de salários que queremos? Eu acho que não. Hoje, sobretudo numa economia global, numa economia muito mais digital, a nossa localização, o nosso clima, a preparação das nossas pessoas, o facto de os portugueses falarem várias línguas, terem facilidade para as línguas, somos afáveis, tudo isto são vantagens competitivas.

A estabilidade, a segurança, tudo isto são vantagens competitivas que, num contexto de uma economia global em que o digital tem peso muito grande, em que não é o mercado dos 10 milhões e que nada nos impede de estar num mercado europeu em primeiro lugar, mas num mercado mundial como um todo, o nosso nível de ambição não pode ser outra vez o Portugal dos 10 milhões de pessoas.

E estamo-nos a autolimitar por via da pouca ambição que temos de apanhar e reconcretizar esse potencial. Portanto, eu estou preocupado no sentido em que, como ambiciono mais, estou dececionado com aquilo que estamos a conseguir, mas não estou numa situação de desconforto.

Isto não é para mim, é para as próximas gerações, é para a rede social, é para as pessoas que precisam do apoio da sociedade portuguesa como um todo, porque nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades, pode-se dizer o que quiser, mas eu prefiro ter uma visão muito realista das coisas. E Portugal, se conseguir realizar o seu potencial económico, este potencial económico vai-se traduzir, seguramente, em redes sociais muito mais coesas.

Miguel Maya

CEO do BCP

É não realizarmos o nosso potencial.

É não realizarmos o nosso potencial. É um bocadinho chegar ao final do dia e dizer que “podia ter ido além, podia ter mudado o mundo para melhor. E limitei-me a ficar numa zona que me é mais confortável.”

Isto não é para mim, é para as próximas gerações, é para a rede social, é para as pessoas que precisam do apoio da sociedade portuguesa como um todo, porque nem todas as pessoas têm as mesmas oportunidades, pode-se dizer o que quiser, mas eu prefiro ter uma visão muito realista das coisas. E Portugal, se conseguir realizar o seu potencial económico, este potencial económico vai-se traduzir, seguramente, em redes sociais muito mais coesas. Ninguém gosta, eu não acredito que ninguém goste de ver as pessoas desprotegidas.

E, portanto, se nós conseguimos ter essa economia mais pujante, mais competitiva, seguramente que vamos ter mais receita e, ao ter mais receita, vamos ter a capacidade de distribuir e vamos ter a capacidade não só de distribuir melhor, mas, sobretudo, de distribuir mais. Tudo isto anda ligado.

Miguel Maya, CEO do Millennium BCP, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Acredita naquela teoria de que nós só conseguimos reformar-nos quando somos obrigados, ou seja, quando realmente temos a espada sobre a nossa cabeça?

Não, não acredito. Não acredito porque conheço inúmeros casos de pessoas.

Cada um de nós, ao longo da nossa vida, há momentos em que toma decisões que são decisões transformadoras. Cada um de nós, ao longo da nossa vida, se avaliar esses momentos, percebe que teve que fazer escolhas. E que provavelmente aquilo que nos mudou a vida para melhor não foi o mais fácil. Raramente foi o mais fácil. E teve um custo. Não lhe chamo um custo, teve um investimento. Ou seja, teve que se deixar de fazer alguma coisa para fazer outra coisa. E provavelmente o que tinha maior retorno no momento não foi aquilo que a gente fez.

E, portanto, acho que as pessoas mudam quando se convencem que têm que mudar. Não quando são obrigados. Quando são obrigadas, aí…

É “o que tem que ser, tem muita força”.

Mas o mérito é pouco. Se só mudamos quando não temos outra alternativa, se só há um caminho, qual é o mérito da escolha que saberia que tive de ter para poder seguir aquele caminho? Nulo.

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