Presidente do ISEG diz que Mário Centeno é "bem-vindo, porque fazia parte da casa". Sobre eleições académicas, afirma que reitores sem cátedra podem correr risco de ficar "reféns" dos cargos de topo.
O economista e professor académico João Duque, presidente do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG), considera que a candidatura a reitor da universidade por “categorias profissionais mais baixas” pode comprometer o poder de liderança das instituições de ensino superior e deixá-los “reféns” dos catedráticos.
Em entrevista ao ECO, à margem de uma visita a Frankfurt com os alunos do mestrado em Finanças do ISEG, João Duque falou ainda sobre a consolidação internacional da escola durante o seu mandato, que está prestes a terminar, e garantiu que Mário Centeno, que saiu do Banco de Portugal por reforma, vai ficar mais disponível para iniciativas do ISEG, onde é “bem-vindo porque fazia parte da casa”.
O mestrado em Finanças do ISEG inclui, desde 2012, uma viagem a Frankfurt. Porque é que continua a fazer sentido manter esta tradição?
É importante, porque permite que os alunos sejam expostos a grandes instituições financeiras da Europa. Frankfurt transformou-se na capital financeira da Europa. Londres perdeu a hegemonia e Frankfurt ganhou-a. Aqui estão os principais agentes monetários e do mercado de capitais, reguladores da banca e seguros, grandes instituições privadas alemãs, a bolsa… Em dois dias úteis conseguimos falar com muitas pessoas e expor os alunos a esta realidade. Transformar a sala de aula em algo mais palpável, porque passamos bastante tempo a falar em modelos ou temas mais abstratos nos reguladores e aqui eles vêm falar com quem faz do seu dia-a-dia o que eles estão a aprender. Ouvem os seus discursos, as suas preocupações… Conseguem descodificar. Há uma diferença colossal entre quando entram no primeiro ano do mestrado em Finanças e quando acabam, nas conversas que têm e nos termos que utilizam ou no entendimento que têm quando alguém os utiliza. É conceptualizar as consequências fora das aulas em vez do “imaginemos que”. Esta semana [na reunião do BCE a partir de quarta-feira] vai haver uma decisão importante sobre as taxas de juro, que terá consequências quer se mantenham ou não, e eles viram a sala onde onde tudo se passará. Conhecem o mundo grande e real das finanças e veem outra coisa: como alguns portugueses, no caso dos portugueses, ou italianos se forem italianos, com origens em periferias estão em organismos muito importantes ou lugares de decisão importantes. Isso não exclui ninguém, porque a Europa é assim.
Qual a mais-valia estratégica para a instituição?
Não é comum termos grupos que vão [viajar] com praticamente tudo incluído, fazendo parte dos seus fees. Isto para nós não é uma opção, faz parte do programa, portanto espero que seja valorizado na escolha [do mestrado] ceteris paribus – com tudo o resto igual – como preferiria. No futuro, alguns vão estar no Commerzbank, na Bolsa [Deutsche Börse Frankfurt], no Banco Central Europeu… E, mesmo que não sejam eles, terão colegas que estão. E não é só uma questão do acesso às instituições financeiras, mas também o desenvolvimento de relações de network. Quando se sai de Portugal, a força centrífuga do grupo aumenta. O facto de o ambiente ser todo desconhecido para todos une. Antigamente, os cursos tinham cinco anos e as pessoas faziam amizades que duravam para a vida toda. Nestes costumam fazer um ano e a seguir arrancam para Erasmus.
A internacionalização, depois de ser consolidada durante a presidência de Clara Raposo, agora vice-governadora do Banco de Portugal, tornou-se uma das suas bandeiras nos últimos quatro anos. Nos mestrados, qual a percentagem de alunos estrangeiros?
Nos mestrados a percentagem é muito maior [do que nas licenciaturas]. À volta de um terço, na generalidade, cerca de 35% ou 40%. Por termos muitos alunos internacionais, pode-se dizer “então têm menos espaço para os nacionais”. Não é muito verdade. Não sinto que os nacionais deixem de entrar no ISEG por falta de espaço internacional. Não é por aí que alunos portugueses, que tenham boa preparação e façam candidatura ao ISEG, não fiquem escolhidos por falta de lugar. Cada vez mais, as atividades económicas são internacionais. Vou exagerar, mas não há “nenhuma” empresa portuguesa que não tenha pelo menos um estrangeiro. As organizações são confrontadas com culturas diferentes, o país integra mais mão-de-obra imigrante, portanto, do ponto de vista da cidadania e da Europa, temos de saber integrar estas diferenças. Quando se criam mestrados e se abre a escola à internacionalização, está-se a educar os jovens para um futuro multicultural e, nesse sentido, de maior aceitação e compreensão e convivência com a diferença.
Fora do âmbito dos alunos, como tem sido o processo com os docentes?
O segundo nível de internacionalização, o do corpo docente, é que é um passo muito significativo. Nós fizemo-lo, conscientes de que teria consequências, custos. Temos uma visão de que o corpo docente deve ser comedidamente internacional senão pode advir uma certa desvantagem e perder-se a ligação do corpo docente à sociedade local e o seu dever perante essa sociedade, de lhe oferecer soluções e intervenção crítica, independente e qualificada.
Deixarem de ser interventivos por não terem o fator de proximidade?
Nem mais. Um docente chinês que vem para Portugal dificilmente está a comentar a política económica local. Uma coisa é descrevê-la outra coisa é tomar posição ou partido – chamemos-lhes mesmo partido – porque é mais complicado. Também já vivi três anos fora e senti isso. Aliás, nesse período até tinha mais participação ativa em Portugal com comentários sobre o país onde não vivia. Portanto, temos um objetivo estratégico de um corpo docente internacional mais robusto do que o que temos, mas com um predomínio muito significativo de portugueses, porque é uma escola financiada pelo Estado e o Estado tem o direito de pedir apoio crítico, os comentários e a reflexão sobre o país.
Mário Centeno é bem-vindo, porque fazia parte da casa. No passado, recusámos, como docentes, políticos que não tinham este perfil. Acabaram os cargos e apareceram com “quero dar aulas aqui” e o que dissemos que não. As pessoas que estão ligadas à escola, vão fazer um percurso político de serviço do país e depois querem voltar, podem.
Como é que delimitam a autonomia universitária em todo esse contexto e, ao mesmo tempo, evitam ser um “armário” de antigos governantes ou até de ex-governadores?
Tem de se ter cuidado. Normalmente, os ex-governantes e governadores não fazem parte do quadro de carreira. São pessoas convidadas. É uma percentagem pequena. O exemplo típico que está agora em cima da mesa é o de Mário Centeno, que é um professor convidado. Olhe, vão ocorrer eleições em breve. Mário Centeno vai ter um voto, enquanto os professores de carreira, que estão a 100%, têm cinco votos. Só para perceber qual é a diferença de participação. São pessoas que, estando com os professores, trazem uma visão interessante de fora, mas tem de se ter algum cuidado, a meu ver. O cuidado que nós temos normalmente é este. Não quer dizer que não haja alguma exceção, mas as pessoas que estão na escola depois de terem ações políticas já estavam antes. Já no passado recusámos, como docentes, políticos que não tinham este perfil. Acabaram os cargos e apareceram com “quero dar aulas aqui na escola” e o que nós dissemos que não. Agora, as pessoas que estão ligadas à escola, vão fazer um percurso político de serviço do país e depois querem voltar, nós achamos que podem, porque até vêm com mais valor e competências muito fortes. Político por político, temos de ter cuidado e desaconselho.
O que não é o caso do Mário Centeno, que pertencia ao ISEG.
O caso do Mário Centeno é voltar. Já cá estava e como está mais disponível pode dar mais umas aulas e ter mais iniciativas aqui. É bem-vindo, porque fazia parte da casa.
E pode vir a ser o próximo presidente do ISEG com a sua saída?
Não. De acordo com os nossos estatutos, tem de ser professor de carreira, portanto está excluído.

Acha que o modelo de eleição dos deans e reitores em Portugal está adequado aos tempos? Nos últimos dias tivemos o caso da Universidade Nova que acabou nos tribunais.
Compreendo bem a precaução da Universidade Nova ao tentar limitar um bocadinho a candidatura de reitores de pessoas com categorias profissionais mais baixas, porque, para lhe ser muito franco, na universidade a liberdade de um professor consegue-se com a cátedra. A partir de ser catedrático, deixa de estar na dependência de alguém para progredir. Chegou ao topo da carreira e tem uma independência máxima. Ora, se deixarmos o acesso ao cargo de reitor a professores de nível auxiliar ou até associado, corremos o risco de essas pessoas ficarem reféns de terceiros. O problema da liberdade não se põe na questão da eleição, mas da ação.
O seu poder executivo ficaria comprometido?
Pode ficar. Um professor auxiliar que é eleito pode depois ficar refém – não estou a dizer que fique – do seu interesse em progredir no futuro e do poder que outros vão ter sobre ele de avaliação e promoção. A menos que tenha 63 ou 64 anos de idade, é professor auxiliar, vai fazer o mandato de reitor e depois vai-se embora. Aí é livre, mas estou a pensar num professor auxiliar na casa dos 40 ou 50 anos. De facto, podemos dar acesso, em liberdade, a todos concorrerem, mas depois o exercício pode não ser livre.
Nome em inglês é um ‘não assunto’. O ISEG chama-se Instituto Superior de Economia e Gestão. Distinguimos claramente o que é a assinatura de um contrato formal entre duas instituições.
A academia atravessa um período de transformação no acesso, no corpo de alunos e docentes, no currículo… As hierarquias, como estão, continuam a fazer sentido?
Acho que sim, hoje. Daqui a cinco anos, não quero responder. Nós podemos modificar as regras, mas estão tão assentes na academia… Não é só em Portugal. As categorias que existem em Portugal têm equivalências nos outros países. Este tipo de carreiras está mais ou menos consensual. Pode-se dizer que o futuro vai pôr em causa um modelo de ensino ou de investigação com a inteligência artificial, mas eu não sei o que é que vai acontecer.
Se acontecesse algo semelhante no ISEG, o que é que aconteceria?
Estatutariamente, o lugar de presidente é restrito aos professores catedráticos. Se aparecer um professor auxiliar a querer candidatar-se e se lhe é vetado pelos estatutos pode-se litigar. Nunca aconteceu assim. Houve presidentes anteriores como professores associados, que se chamavam presidentes do conselho diretivo, e lembro-me de se comentar que não tinha a liberdade que teria se fosse catedrático, precisamente porque ainda queria chegar a catedrático.
Enquanto Lisbon School of Economics and Management, já sentiram alguma pressão por parte da Universidade de Lisboa para alteração, como a ‘declaração de guerra’ da Nova ao nome em inglês das escolas?
Nunca. Não há razão nenhuma, acho eu. Não sinto qualquer problema. Os nossos contratos formais estão em português. Distinguimos claramente o que é a assinatura de um contrato formal entre duas instituições. Por exemplo, uma escola chinesa manda-me um agreement e vem com os caracteres chineses com o nome. Eu não exijo ao chinês mudar o nome da escola. Pode vir com caracteres chineses, eu escrevo o título da escola em português, assinamos e estamos vinculados. O ISEG chama-se Instituto Superior de Economia e Gestão. A nossa marca internacional é ISEG – Lisbon School of Economics and Management. Não é o nome oficial da escola, mas uma marca internacional que usamos, também, no mercado português. Para mim, é um ‘não assunto’.
O Governo avançou com a reposição do acesso ao ensino superior com apenas um exame de ingresso. Haverá alterações no ISEG? Marcelo Rebelo de Sousa, a poucos dias de deixar Belém, promulgou esta mudança, mas alertou para “um sentido minimalista e facilitista”. Há esse risco?
Já decidimos quais são os pares. Os alunos podem entrar com uma ou com duas disciplinas. Era o que tínhamos antes. Não é uma questão de facilitismo, até porque a maior parte dos nossos alunos entram só com a prova de matemática. Às vezes, matemática e mais qualquer coisa. Para nós, o que é crítico é a dificuldade da prova de matemática. Não somos nós que definimos. O ensino secundário é que define a facilidade ou não de entrada no ensino superior ao facilitar, mais ou menos, através dos exames e dos programas o ensino da matemática. A questão levantada pelo senhor ex-Presidente da República, para mim, tem a ver com um alerta para os exames e quem faz os programas do ensino secundário.
*A jornalista viajou até Frankfurt a convite do ISEG
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“No passado recusámos, como docentes, políticos que não tinham esse perfil. O caso do Mário Centeno é voltar”
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