“O aluno não tem de aprender sempre da mesma maneira”. Nova SBE lança centro dedicado à inovação no ensino

Nova SBE inaugura esta quarta-feira novo centro dedicado à inovação pedagógica e excelência no ensino. Diretora explica ao ECO que objetivo é ser referência a nível mundial.

Aprender de caderno e caneta na mão com um professor que se limita a preencher um quadro de ardósia é, cada vez mais, um cenário do passado. Hoje, há mesmo quem transforme a matéria num verdadeiro jogo, com equipas concorrentes e pontos a conquistar a cada aula, já que “todos aprendemos de modo diferentes” e apostar na diversidade de métodos de ensino é torná-lo “muito mais inclusivo”. Quem o diz é Patrícia Xufre, professora e diretora do novo Centro de Excelência e Inovação do Ensino que a NOVA School of Business and Economics (Nova SBE) apresenta esta quarta-feira.

Em entrevista ao ECO, a responsável explica que este centro servirá, nomeadamente, para apoiar os professores que queiram experimentar novas metodologias de ensino, beneficiando da experiência e conhecimento já acumulados.

E apesar de nascer no seio da Nova SBE, este centro estará em “colaboração estreita” com a reitoria da Universidade Nova de Lisboa, bem como com as universidades internacionais (nomeadamente, nos Estados Unidos e em Inglaterra) com as quais já foram estabelecidas pontos. “Para nos conseguirmos posicionar como uma referência na área da inovação pedagógica“, sublinha Patrícia Xufre.

Há sempre quem queira experimentar, e acabamos por contagiar outros, quando se consegue demonstrar que as novas metodologias que se pode utilizar em sala de aula traduzem-se em impacto nas aprendizagens que os alunos têm.

Que avaliação faz da capacidade de inovação pedagógica do ensino superior público português?

O ensino superior está a atravessar um período de alguma complexidade, nomeadamente por causa da tecnologia. Os professores têm um papel acrescido: não é só o dominar os conteúdos, mas também explorar novas formas de ensino e de captar a atenção dos alunos. Felizmente, é uma discussão que está na ordem do dia. Em quase todas as universidades vai-se discutindo a inovação pedagógica.

Discutindo e experimentando? Ou fica-se apenas pelas palavras?

Há sempre quem queira experimentar, e acabamos por contagiar outros, quando se consegue demonstrar que as novas metodologias que se pode utilizar em sala de aula traduzem-se em impacto nas aprendizagens que os alunos têm. Não é algo que estudaram para o exame e de que se esquecem, mas algo que fica para o resto da vida. Há também uma série de competências que são trabalhadas [num modelo mais inovador] que num ensino mais expositivo não são. Por exemplo, o trabalho em equipa e a empatia.

Patrícia Xufre, professora associada de Métodos Quantitativos da Nova SBE, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Diz que a inovação é contagiante…

…Eu, pelo menos, sinto-me contagiada.

Que experiências têm sido feitas na Nova SBE, quanto a métodos alternativos de ensino?

Por exemplo, eu e a minha colega Maria João [Quintão Braga] implementámos uma “gamificação” em Cálculo I, à qual demos o nome de Calculus of Thrones, inspirado na série Guerra dos Tronos. Os alunos são organizados em grupos, que são as houses, e todas as semanas têm um desafio para completar. Em cada desafio, há um dos alunos que tem um papel um bocadinho mais relevante: é o mensageiro, aquele que vai aprender a matéria e, depois, tem como responsabilidade transmiti-la ao seu grupo. Os alunos fazem os desafios em sala de aula com o nosso feedback. Um aluno aprende muito mais se conseguir ter este feedback imediato para poder corrigir aquilo que está a fazer menos bem e, ao mesmo tempo, eles estão entusiasmados porque querem que a casa deles tenha mais pontos do que as outras.

Esse desafio conta para a nota final?

Decidimos que nada disto interferia na nota final. Os alunos não se sentem pressionados para terem um bom desempenho na resolução dos exercícios. São pressionados, e isso sim é que conta para a nota final, quanto às atitudes que têm face ao desafio. Se são curiosos para perceber como é que o podem resolver, se são empáticos na forma de ajudar os colegas, se são estratégicos. Não queremos alunos em sala de aula que estejam sentados na cadeira simplesmente a passar o que no quadro.

Não tem de ser sempre uma aprendizagem mais ativa. Podemos ter momentos de aprendizagem através de um método expositivo, mas, de vez em quando, temos de ir intercalando com estes momentos em que os pomos a pensar por eles.

Qual tem sido a reação dos alunos perante estes métodos inovadores?

São alunos do primeiro ano, no primeiro semestre. Estão acabadinhos de chegar. Para eles, tudo é uma novidade. Claro que a alternativa é não participar. Têm sempre a oportunidade de fazer o exame a valer 100%, mas incentivamos muito [a adesão a esta “gamificação”], porque, se trabalharem de forma contínua, vão, de certa forma, como a galinha, enchendo o papo e construindo a sua nota final.

Disse que, nesta cadeira, não quer alunos que estejam sentados na cadeira simplesmente, ou seja, obrigam o aluno, de certa forma, a serem mais ativos. Isso choca de alguma forma com a bagagem que os alunos trazem, nomeadamente no ensino secundário?

Antes, tínhamos um aluno que vinha com o seu caderno e uma caneta, e queria que o professor resolvesse o máximo de exercícios possíveis para que, no final, pudesse sentir-se seguro no domínio da matéria. Na verdade, a única coisa que esse aluno fez foi copiar a matéria. Não foi enfrentar o problema em si. Não quer dizer que o método expositivo esteja errado. Há sempre diferentes circunstâncias. Não tem de ser sempre uma aprendizagem mais ativa. Podemos ter momentos de aprendizagem através de um método expositivo, mas, de vez em quando, temos de ir intercalando com estes momentos em que os pomos a pensar por eles.

A inovação é tão contagiante que a Nova SBE decidiu lançar agora todo um centro dedicado às novas metodologias pedagógicas. Que trabalho fará este centro?

Começámos com um benchmarking, a ver o que é que outras escolas internacionais estavam a fazer. Falámos com os nossos professores, fizemos um inquérito a mais de 100 professores sobre que métodos diferentes usavam em sala de aula. Uma das coisas que percebemos foi que criar comunidades de prática é fundamental para fazer inovação pedagógica. É o tal contágio.

Patrícia Xufre, professora associada de Métodos Quantitativos da Nova SBE, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Portanto, o novo centro servirá para a partilha de experiências entre docentes?

O colega que decide tentar implementar algo de novo na sua disciplina já vai com uma ideia do que poderá correr não tão bem. Não começa do zero, mas beneficia da aprendizagem que outros já fizeram. O objetivo é ajudar os docentes na construção de novos métodos pedagógicos dentro das suas disciplinas. Não vamos impor uma metodologia. Haver diversidade nas várias metodologias é sempre uma força. O aluno não tem de aprender sempre da mesma maneira. Aliás, todos nós aprendemos de formas diferentes. Com essa diversidade, temos um ensino muito mais inclusivo. O que queremos é providenciar a estes colegas uma estrutura em que tenham esse apoio, em que tenham os recursos já, de certa forma, testados e avaliados por nós, para que possam começar com alguma ajuda a implementar estas metodologias em sala de aula.

Outro dos pilares deste centro é o envolvimento dos alunos nessa inovação pedagógica. De que modo o farão?

A nossa ideia é termos todos os stakeholders do ensino: os alunos, os docentes, as instituições de ensino superior, e também os nossos parceiros no mercado de trabalho. Quando falamos em avaliar o impacto, não é só nas avaliações académicas, mas também na forma como os alunos percecionam como aprenderam. Portanto, teremos sempre o feedback deles nesse aspeto e são sempre convidados a fazer parte dos encontros para discussão de como veem o ensino.

Estamos dentro da Universidade Nova de Lisboa, que também tem uma grande preocupação com a inovação pedagógica. Iremos colaborar com a nossa reitoria de forma estreita.

Disse instituições de ensino superior. Usou o plural. Além da Nova SBE, mais instituições vão estar envolvidas neste centro?

Estamos dentro da Universidade Nova de Lisboa, que também tem uma grande preocupação com a inovação pedagógica. Iremos colaborar com a nossa reitoria de forma estreita. Mas também com outras pontes que fizemos com universidades que estão nos Estados Unidos, em Inglaterra, que estão espalhados pelo mundo, para nos conseguirmos posicionar como uma referência na área da inovação pedagógica.

Disse que o ensino atravessa um período complexo, nomeadamente por causa da tecnologia. Um grupo de professores do ensino superior assinou há pouco um manifesto contra o uso da Inteligência Artificial no ensino. Qual a sua posição?

É usá-la e ensinar os alunos a usá-la de forma crítica, com comportamentos éticos.

Mas entende os receios?

Entendo os receios, mas só temos de os ter se continuarmos a avaliar como avaliávamos antes. O processo de avaliação será talvez um dos que vai ter de ser mais modificado para que possamos integrar a Inteligência Artificial no ensino.

De que modo?

Se o que estamos a testar é se houve memorização, obviamente que a Inteligência Artificial vai dar as respostas aos alunos, que não vão sequer questionar. Temos é de os levar a outros níveis cognitivos, que são os da reflexão e análise. É não só estimular esses níveis cognitivos, mas, em termos de avaliação, ser coerentes com esses níveis cognitivos. A Inteligência Artificial vai estar no mercado de trabalho quando os nossos alunos forem para lá. Portanto, eles têm de saber usar.

Patrícia Xufre, professora associada de Métodos Quantitativos da Nova SBE, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Os professores que são contra o uso da Inteligência Artificial no ensino dão como exemplo os smartphones. Primeiro, foram entendidos como uma ferramenta útil. Agora, há países a proibir o seu uso no contexto escolar. Entende essa comparação?

Na Austrália, não há muito tempo, estavam a proibir o acesso às redes sociais por parte dos jovens com menos de 16 anos. Os pais desses miúdos estão agora a criar contas para eles. Proibir não é resposta. Não vale a pena lutar contra. Temos de nos adaptar e fazer parte desta nova realidade, e não perder muito tempo com estas discussões.

Com a IA no ensino superior, que papel restará ao professor humano?

Resta tudo. As relações humanas nunca vão ser substituídas. O professor tem um papel fundamental no crescimento enquanto pessoa. É talvez das coisas mais bonitas que a profissão de professor tem, que é podermos influenciar, de certa forma, os alunos que temos à nossa frente. O professor não é só um mero transmissor de conhecimento. É de atitudes, de relações, de como resolver dificuldades que apareçam.

Que risco correm as escolas e as universidades que não inovarem na sua pedagogia?

Se há algum tempo olhávamos para as universidades e víamos a sua qualidade apenas baseada no que era feito em termos de investigação, acho que agora começou-se a olhar também para a qualidade de ensino. As que não inovarem, em particular com a inteligência artificial, correm o risco de ficar para trás. Portanto, quando um aluno tem de selecionar a escola para onde quer prosseguir os seus estudos universitários, obviamente essa vai ser uma dimensão que vai ter em atenção.

Veja abaixo a entrevista na íntegra em vídeo:

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