Exclusivo “O objetivo a curto-médio prazo é ter satélites pequenos a serem produzidos em Portugal”

Colocar Portugal na rota das missões cis-lunares e a produção de pequenos satélites são dois dos planos da Thales, avança Miguel Boavida, desde abril o head of Space & Ground Segments da Thales.

Há quase duas décadas que a ilha de Santa Maria, nos Açores, faz monitorização de missões de lançamento de foguetões, vigilância marítima ou recolhe dados para informação meteorológica através de antenas instaladas no Teleporto, infraestrutura a ser gerida pela Thales. Capacidades no setor do espaço que a companhia quer reforçar.

A partir de Santa Maria, a empresa quer contribuir para missões cis-lunares colocando a antena de 15 metros numa rede privada, tirando partido da sua capacidade. Mas não só. A empresa, que gere o Teleporto onde está instalada a antena da Agência Europeia Espacial (ESA), quer estar envolvida no projeto Space Rider, o veículo orbital reutilizável da ESA, que tem aterragem prevista em Santa Maria.

Os planos para o setor espacial não se ficam por aqui. A empresa quer ainda avançar para a produção de pequenos satélites (CubeSats) tirando partido do conhecimento adquirido no consórcio AEROS que lançou o segundo satélite português, revela Miguel Boavida, head of Space & Ground Segments da Thales Portugal, ao ECO/eRadar.

“O objetivo a curto-médio prazo é ter satélites CubeSats, nanoSats, satélites pequenos, a serem produzidos e construídos em Portugal”, adianta. “Estamos a trabalhar nisto em consórcio com uma empresa portuguesa que tem a parte toda de produção em hardware, um projeto liderado pela Agência Espacial Portuguesa para a Agência Espacial Europeia”, diz. “Não querendo ser muito ambicioso, provavelmente, em 2030 esperamos estar em produção”, diz Miguel Boavida, desde abril o novo responsável da área de espaço da Thales em Portugal.

Santa Maria está a constituir-se como um hub Atlântico para servir o setor espacial. Como é que vêm essa concentração de esforços na ilha e que sinergias é que podem manter com os projetos que se estão a instalar?

A ilha é pequena, o país é pequeno, a ambição é gigante, diria eu. Santa Maria tornou-se, pela sua posição geográfica, uma localização bastante importante na área de espaço e em que Portugal tem investido bastante. Ao invés de estar a espalhar este tipo de infraestruturas em várias zonas, está a fazer uma coisa que eu considero muito bem pensada que é concentrar na mesma área este tipo de projetos para tentar tirar mais-valias de sinergias dos vários sistemas. Nenhum destes sistemas opera sozinho, todos casam uns com os outros e há poupanças entre as várias infraestruturas. Basicamente, fazer valer todos os investimentos que têm sido feitos ao longo dos anos e propagar esses investimentos para o futuro.

Na Thales, nós vemos este investimento em Santa Maria, estes projetos todos, numa vertente nacional em que consideramos que são altamente importantes para marcar Portugal como uma nação espacial e apoiamos todos os projetos que possam ir para Santa Maria nesta área, especialmente porque é também a nossa área de atuação. Neste momento aqui para Santa Maria está em vista um projeto bastante importantes: o Space Rider, um veículo de retorno à Terra da Agência Espacial Europeia (ESA) que tem uma importância, uma bandeira para Portugal.

A aterragem é em Santa Maria.

Havia duas localizações possíveis, a concorrer para este landing site, uma era Kourou [Guiana Francesa] e a outra era Santa Maria, e conseguiu-se que Santa Maria fosse selecionada.

O futuro Space Hub terá um investimento de 15 milhões de euros.

Haverá outros investimentos que terão que vir também do privado, que foi o que aconteceu aqui com estas infraestruturas [do Teleporto].

E qual é a vossa ligação a esse projeto?

Todos estes projetos espaciais requerem comunicação. Eles não podem operar por si e tem que haver sempre um link à Terra, ao ser humano, feito através de infraestruturas como Teleportos. É necessário haver um Teleporto, uma antena, uma cadeia de processamento a receber e a enviar sinais para todos estes projetos. O Space Rider não é diferente. É um veículo autónomo, mas precisa de comunicar com um centro de controlo. É ai que nós entramos. Toda a infraestrutura aqui, no caso da antena de 15 metros, em que já houve um investimento, toda a infraestrutura de substituição da antena de 5,5 metros [usada pela ESA para monitorizar missões de lançamento de foguetões a partir de Kourou, por exemplo] para tirar sinergias e rentabilizar a nova antena que vai ser colocada aqui no terreno. Ou seja, este sistema, este investimento vai acabar por estar a servir em múltiplos projetos e não só num projeto.

É aqui que entra a sinergia. Esta antena está integrada em toda uma infraestrutura, que não se vê, mas é uma infraestrutura de backbone onde o investimento já está feito, em sistemas de energia, segurança, comunicações… É necessário fazer um alargamento da infraestrutura, mas não é um investimento para montar uma coisa de raiz. É uma parcela desse investimento. E depois a parte das operações. O fato de nós já termos operações do Teleporto, significa que não é necessário dar formação, treinar novos recursos por completo, fazer o setup de uma equipa completamente nova, mobilizar pessoas. Claro que a equipa vai ter que crescer, mas cresce sobre uma coisa que já existe, tem a experiência de outras missões, conhecimento adquirido e não é criada de raiz. Há uma sinergia financeira também com o fato de se utilizar o Teleporto como uma operação para estas missões.

 

E que ligação poderão ter com o Porto Espacial de Malbusca?

Nós não temos conexão com o Porto Espacial da Malbusca, agora, novamente, como entramos neste projeto? Como fornecedor de serviços de comunicação. Eles vão precisar de fazer o rastreamento do lançador, de comunicar, de receber a telemetria do lançador. Têm duas opções. Ou investem numa infraestrutura nova, instalam antenas novas com segurança, com energia, com tudo isso. Ou então vão a um operador que já existe, neste caso nós, que já temos todas estas infraestruturas, uma antena preparada para fazer o serviço. É uma questão de ir a uma aplicação marcar um slot para definir em que horas querem a comunicação [e uso da antena].

É algo já fechado, em fase de negociações? O Space Rider tem datas concretas.

Com o Porto Espacial há conversas, mas nem sequer lhe chamaria negociações, apenas o início de uma abordagem. Em relação ao Space Rider, já foi adjudicada a parte da antena, em que nós, como Teleporto, vamos estar a dar o apoio técnico local para a instalação. Em termos de infraestrutura, ainda não foi lançado um concurso. No entanto, como a infraestrutura vai integrar com o Teleporto operado pela Thales, o nosso objetivo e expectativa é ficarmos responsáveis pela manutenção e operações da nova infraestrutura, que será utilizada para lançamentos da Ariane, como era a infraestrutura antiga, e terá sinergias com o Space Rider.

A Força Aérea quer ter uma plataforma de lançamento de foguetões, em instalações próximas do aeroporto.

Não temos clientes dessa área [de Defesa].

Mas querem explorar essa possibilidade?

Tem que haver aqui uma diferenciação. O facto de a Força Aérea estar ou ir construir uma plataforma de lançamentos não quer dizer que esta plataforma de lançamentos seja para uso militar. Não conheço o projeto, mas diria que para o rentabilizar, não vão poder meter aquilo apenas para uso militar. Vão ter que abrir a uso privado, vão abrir muito provavelmente o spaceport para lançadores não da Força Aérea. Esses lançadores não são militares, são empresas privadas que simplesmente usam a plataforma deles como uma TAP ou uma Ryanair usa o aeroporto. Nesse sentido, estaríamos aqui a fornecer um serviço a uma empresa privada, se estão ou não a usar uma infraestrutura militar…

Não é algo que ativamente procurem, clientes do setor de defesa, é isso?

Neste momento não há qualquer comunicação que eu esteja a par com este projeto em específico.

Portugal aumentou 51% o seu contributo para a Agência Espacial Europeia, para mais de 200 milhões. O que gostaria que esse investimento tivesse de retorno para o setor espacial português, em que áreas seria fundamental o país apostar?

Há várias vertentes no setor espacial português a ser desenvolvidas, na Thales temos interesse que haja um retorno em projetos como o Space Rider, a exploração em que estamos diretamente envolvidos, não somos só nós, há outras empresas envolvidas. E temos interesse também numa componente de New Space, que não é aqui em Santa Maria, mas em Lisboa, onde estamos no processo de criar um centro de desenvolvimento de CubeSats.

Recentemente fomos líderes de um consórcio que criou o segundo satélite científico português, o AEROS (MH-1) — [projeto de 2,78 milhões de euros, financiado em 1,88 milhões pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do COMPETE 2020/2030, tendo o nanosatélite sido lançado em março de 2024, 30 anos após o PoSat-1 ] —, utilizámos agora o conhecimento adquirido e estamos no processo de iniciar a criação de uma plataforma, a CubeSats.

O objetivo a curto-médio prazo é ter satélites CubeSats, nanoSats, satélites pequenos, a serem produzidos e construídos em Portugal.

Ou seja, é como se fosse um template, onde depois o cliente pode escolher o tipo de CubeSat que quer — de observação da Terra, comunicações, seja radar, ótico, o que for — e tem ali uma plataforma, como uma caixa, que lhe dá energia, as comunicações, tudo o que precisa para operar o seu processador, o seu payload.

Essa plataforma vai ter uma estrutura física, é algo apenas online?

Estamos a falar de uma estrutura física. O objetivo a curto-médio prazo é ter satélites CubeSats, nanoSats, satélites pequenos, a serem produzidos e construídos em Portugal.

Uma fábrica de satélites?

Neste momento ainda é o satélite em si, a plataforma, os painéis solares, as baterias, o sistema de direcionamento, localização, com o objetivo de evoluir para um produto satélite, em que um cliente diz que quer um satélite para estas aplicações e nós construímos o satélite para aquela finalidade.

E qual é o prazo para isso acontecer?

O timing atual para a plataforma está em 2028, o primeiro protótipo construído, testado. Por isso, não querendo ser muito ambicioso, provavelmente, 2030 esperamos estar em produção.

O projeto vai exigir quantas pessoas?

Vai ser preciso bastantes pessoas. Neste momento estamos a trabalhar nisto em consórcio com uma empresa portuguesa que tem a parte toda de produção em hardware, um projeto liderado pela Agência Espacial Portuguesa para a Agência Espacial Europeia.

Que investimento este projeto vai implicar?

Nesta fase não posso revelar esse valor.

Miguel Boavida junto da antena de 15 metros localizada no Teleporto da Thales em Santa Maria. Empresa quer colocar a antena numa rede privada para participar em missões cis-lunares. DR: Thales

Há mais projetos em mãos, neste momento?

Na Thales temos três verticais na área de espaço. Temos o ground segment, o Teleporto, o mais visível, a bandeira, física e palpável. Temos a parte de New Space, onde temos este projeto que estou a mencionar, temos outros, mas este é aquele que gostaríamos de investir mesmo e de carregar para a frente. E depois temos a parte do Earth Observation, mas aqui o objetivo é começar a cobrir uma área muito maior do que a área de Santa Maria e sair da alçada das instituições, passar para uma alçada do privado. Não só de New Space, mas de empresas que possam recorrer a fotografias do espaço, imagens óticas ou até de radar, para monitorizar as suas infraestruturas críticas em zonas remotas onde não é tão fácil de ir.

Um exemplo é a monitorização offshore de plataformas. Neste momento é feito através de pessoas que vão lá de barco ver como tudo está, e isto pode ser substituído simplesmente por uma imagem de alta resolução tirada por um satélite e, se aparecer alguma coisa estranha na imagem, envia-se às pessoas.

Neste momento o nosso foco está nestas áreas, todas têm um grande potencial de crescimento e todas consomem muitos recursos, tanto humanos, como financeiros.

Neste momento [a antena de 15 metros] está a fazer Earth Observation para trazer negócio, mas foi preparada para fazer missões à Lua. O objetivo é colocar esta antena, e estamos nesse processo de negociação, numa rede privada de medium e deep space, a fazer missões de transmissão e receção de dados com a Gateway da Lua.

A componente de observação da Terra é feita também neste momento através da antena de 15 metros. Mas há planos para expandir a sua utilização a outro tipo de serviços, tirando partido da sua capacidade.

Foi necessário fazer o upgrade de todos os sistemas, ainda foram uns milhões, de receção e transmissão da antena, para a poder preparar para aquilo que é a nossa visão de uso para esta antena. Neste momento está a fazer Earth Observation para trazer negócio, mas foi preparada para fazer missões à Lua. O objetivo é colocar esta antena, e estamos nesse processo de negociação, numa rede privada de medium e deep space, a fazer missões de transmissão e receção de dados com a Gateway da Lua.

A base orbital da NASA? Mas a NASA pausou esse projeto…

Há uma reestruturação do processo, das vontades, mas a Gateway ainda continua a ser uma vontade. Esses projetos estão sempre a evoluir. O keynote aqui é que seja base lunar, seja em órbita, o nosso objetivo é colocar Portugal e esta antena para dar comunicações para a Lua. Se é em órbita ou se é na Lua, para nós é indiferente.

Qual é a expectativa para a conclusão dessa negociação?

Espero conseguir este ano. Não tenho datas. Mas não é só Santa Maria, estou a tentar colocar duas antenas que existem em Portugal [nessa rede], mas a única que está no imediato disponível para isso é em Santa Maria. A outra antena é de um parceiro nosso, mas ainda requer muito trabalho.

*O ECO/eRadar viajou a Santa Maria, nos Açores, a convite da Thales Portugal

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