Tiago Pardal, CEO da Omnidea, revela qual vai ser a estratégia para dar seguimento ao objetivo de desenvolver um lançador europeu. E para isso, deverá ir ao mercado angariar capital.
A portuguesa Omnidea comprou os ativos de produção e a propriedade intelectual da britânica Orbex, empresa que liderava um dos cinco consórcios selecionados pela Agência Espacial Europeia (ESA) para desenvolver um lançador europeu.
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A Orbex, entretanto, entrou em insolvência, e a Omnidea que era seu parceiro no programa European Launcher Challenge (ELC), avançou para a compra dos seus ativos: um centro para o fabrico do lançador e um polo para eletrónica de sistema de voo e de solo na Escócia, bem como a propriedade intelectual da empresa. De fora fica o porto espacial.
Com esta aquisição, cujo valor não foi divulgado, a Omnidea, que atua há mais de duas décadas no setor do espaço — com vários projetos para a ESA, com a Agência de Defesa Europeia (estão envolvidos num projeto liderado pela Airbus para um satélite de very low Earth orbit), por exemplo) — adiciona a valência de lançador ao seu portefólio de capacidades.
Tiago Pardal, fundador e CEO da Omnidea, não arrisca uma data exata para a empresa já ter o lançador pronto. “As datas previstas no European Launcher Challenge seria ter uma captação de lançamento orbital em 2028, não é de todo viável. Era o meu desígnio no ano passado avançar antes do fim da década. Um desejo muito ambicioso e apertado. Se for em 2035, provavelmente já começa a acertar mais”, diz.
Mas há um sentido de urgência que se impõe. “Não sei como é que evolui o mundo, como vai crescer a atividade espacial, quantos mais lançadores terão oportunidade de singrar, mas percebemos que há ali uma janela entre 2030 e 2035 em que, efetivamente, tem que acontecer“, atira o responsável da Omnidea.
Para ‘lançar’ o foguetão rumo ao Espaço, Tiago Pardal admite que terá de ir ao mercado levantar capital. “Na escala que vamos entrar vai ser necessário muito mais capital do que aquele que está dentro das nossas capacidades. O formato pelo qual vamos levantar, estamos a analisar. Emissão de obrigações, capital de risco. Já falámos com vários”, adianta ao ECO/eRadar, embora sem mais detalhes, apontando 2028 como o ano em que isso deverá acontecer.
O CEO da empresa, que também é acionista da Geosat, operadora de satélites ligada à Constelação do Atlântico, não esconde um misto de desejo e ambição. “Os próximos satélites da Constelação do Atlântico já não poderão ser lançados pelo SpaceX, provavelmente. Faria sentido que nós tivéssemos a capacidade de lançar os nossos próprios satélites”, atira.
Compraram a lançadora espacial britânica Orbex. O que motiva esta aquisição e quais são os planos?
Não vamos comprar a empresa, vamos comprar os ativos: os equipamentos de produção, a propriedade intelectual da empresa, o que eles tinham no Reino Unido e na Dinamarca, porque a empresa tinha sede no Reino Unido, mas também uma empresa na Dinamarca. E vai haver transferência do pessoal que ainda lá está. Não vamos adquirir a empresa nem as liabilities ou as dívidas associadas.
A Orbex entrou em processo de insolvência este ano. Dai pergunto, o que vos levou a dar este passo?
A empresa tinha no ano passado, sido um dos cinco selecionados pela Agência Especial Europeia para o European Launcher Challenge (ELC), o concurso europeu para a nova geração de lançadores orbitais. Nós estávamos no consórcio como os fornecedores de um estágio completo do lançador. O lançador vai largando os estágios ao longo do lançamento e nós estávamos no último. Apesar de a Omnidea já ter, no passado, crescido por aquisição — podemos considerar que esta é a terceira vez que estamos envolvidos num processo de crescimento por aquisição de ativos de empresas insolventes — esta foi a primeira vez que nos afetou, que teve um impacto direto nos nossos planos.
A Orbex estava a desenvolver um lançador que tinha muitas similaridades com o que estávamos a desenvolver em Portugal, um lançador para lançar satélites com até 200 kg de carga útil. E havia ali muitas sinergias com o que eles estavam a fazer e o que nós estávamos com o projeto Viriato. Além do Viriato, tivemos contratos com a Agência Espacial Europeia (ESA), fechamos contrato para definir o projeto preliminar do Portuguese Micro Launching System. Em Portugal ficámos, portanto, essencialmente a focar no sistema de propulsão porque pensámos que era o problema tecnológico maior a ser resolvido e até podermos ter um lançador.
A Orbex na Escócia tinha todo o sistema de ambiente e controle, o Flight Termination System (FTS), o sistema de segurança para terminar o voo caso haja algo fora dos parâmetros, e estavam a desenvolver todas as estruturas dos lançadores. Estavam a fazer o foguetão, toda a eletrónica e as comunicações relacionadas com o lançamento. Por isso, o que existe na Escócia é complementar a tudo o que estamos a fazer, até porque está mesmo na escala que a gente vai começar.
A Orbex liderava um dos cincos consórcios para o ELC. A Isar, entretanto, já fez o seu lançamento, referido, inclusivamente, por Von der Leyen no Estado da União. A situação de insolvência impacta o envolvimento no projeto ou é possível retomar, agora com outra liderança?
O European Launcher Challenge seguiu os seus trâmites e os prazos não foram cumpridos por parte da Orbex. Não estamos a adquirir a Orbex, mas ativos. Agora temos que reanalisar a situação e, dentro do mal de toda esta situação, dos postos de trabalho que se perderam [a Orbex quando declarou insolvência tinha 150 trabalhadores], vamos tentar aproveitar o máximo e conseguir que haja um benefício sobre tudo o que foi lá investido e tentar, no máximo possível, voltar a recuperar os postos de trabalho.
Nós temos o nosso caminho a seguir. Vamos agora analisar o que é que existe efetivamente na Orbex, como é que se casa com o que estamos a fazer, construir um novo plano de desenvolvimento tecnológico, um novo roadmap e analisar e avaliar as possibilidades de financiar esse desenvolvimento. Poderá envolver a Agência Espacial Europeia, poderá ser o ELC, poderá ser outro programa, poderá ser outras opções, capital privado.
Não há então hipótese desse projeto ser retomado em fases seguintes.
Esse contrato em si, não. Mas os planos para desenvolver um micro lançador não têm que ficar apenas conexos com esse contrato. Aliás, o próprio European Launcher Challenge não está concluído. Vai haver uma reanálise da situação daqui a três anos.
Vão aguardar por essa fase, é isso?
Nós temos o nosso caminho a seguir. Vamos agora analisar o que é que existe efetivamente na Orbex, como é que se casa com o que estamos a fazer, construir um novo plano de desenvolvimento tecnológico, um novo roadmap e analisar e avaliar as possibilidades de financiar esse desenvolvimento. Poderá envolver a Agência Espacial Europeia, poderá ser o ELC, poderá ser outro programa, poderá ser outras opções, capital privado.
A Orbex chegou a avançar com um porto espacial.
Criaram uma empresa, a Sutherland SpaceCorp Limited para desenvolver o SpaceCorp, onde iria lançar o seu primeiro lançador, o Prime. Essa empresa, que era uma entidade própria, não estava insolvente, mas tinha uma dívida dentro da própria empresa [esse ativo não vem com a compra, foi adquirido pela Highlands and Islands Enterprise].
No nosso entender spaceports [portos espaciais] é um negócio em si. É algo que devemos olhar no futuro como atividade, como negócio, mas que não está propriamente ligado à produção de lançadores. Da forma como estamos a entender isto, vamos desenvolver um lançador e seremos um fornecedor de lançadores. Nesta perspetiva, somos um Boeing, uma Airbus.
Mas querem entrar nesse negócio? Portugal tem ambições de se posicionar nesse campo a partir de Santa Maria.
Uma coisa é atividade de lançadores, outra a de tornar lucrativo a atividade de gerir um spaceport. Nós vamos olhar para perceber se temos que fazer parte dele ou se queremos simplesmente ser um… Neste momento não é todo claro o que é que o governo da Escócia quer fazer com o spaceport de Sutherland. Também ainda não está muito claro como vai ser em Santa Maria. Pode-se lançar nos dois locais. Têm características diferentes. Neste momento, estamos preocupados com algo mais difícil, que é como ter um lançador. Não vale a pena termos spaceports se não tivermos um lançador.
Tendo em conta o trabalho que a Omnidea já vinha a desenvolver, o trabalho da Orbex nesse campo, quando calcula que poderá ter o vosso lançador?
Essa é uma pergunta difícil. Não está tudo apenas dependente do nosso controlo. Neste momento, falta-nos realmente analisar a Orbex, perceber a maturidade da tecnologia, saber exatamente a distância a que estamos e como aquilo vai casar exatamente com o que queremos. Depois, no passado, já houve compromissos políticos de ir numa direção que depois foram revertidos. E o acesso ao espaço é difícil que seja feito apenas ao nosso nível, sem ter um apoio das agências espaciais e de todos os stakeholders envolvidos. Mas também temos perfeita noção de que não podemos demorar muito, senão chegamos lá tarde demais. Entretanto, perde-se a posição do mercado.
Neste momento, começa a haver falta de lançamentos, porque a SpaceX, com o que tem [de encomendas] com o governo americano e com a nova versão do Starlink, com as suas próprias constelações, deixou de ter slots disponíveis, nos próximos dois, três anos, e isso vai libertar uma falta significativa de mercado.
De pouco adianta se não houver lançadores e portos espaciais…
A única empresa no mercado que tem um lançador da dimensão do que nós estamos a desenvolver, do que a Orbex está a desenvolver, é a Rocket Lab. A Rocket Lab faturou no ano passado 600 milhões, teve um EBITDA negativo entre 130 e 180 milhões, tendo uma valorização bolsista à volta a 50 mil milhões. Chegou a quase 70 mil milhões. Ou seja, há uma perceção de que o espaço vai ser muito mais do que o mercado atual.
Neste momento, começa a haver falta de lançamentos, porque a SpaceX, com o que tem [de encomendas] com o governo americano e com a nova versão do Starlink, com as suas próprias constelações, deixou de ter slots disponíveis, nos próximos dois, três anos, e isso vai libertar uma falta significativa de mercado.
E é essa fatia que querem apanhar com esta operação.
Vai haver um mercado que vai ser disponibilizado pelo caminho que a SpaceX está a seguir. Estão outros lançadores a emergir. O mercado, há uma perceção que vai ser muito maior do que aquilo que conhecemos. O próprio caso da SpaceX é uma demonstração disto. O mundo está a mudar muito rapidamente e não conseguimos fazer previsões de muito longo prazo. Sabemos que o lançador que estamos a desenvolver tem todas as tecnologias críticas e há uma necessidade para ele. Mesmo para nós próprios. Uma das empresas do grupo Omnidea é a Geosat, que opera e tem a Constelação do Atlântico. Os próximos satélites da Constelação do Atlântico já não poderão ser lançados pelo SpaceX, provavelmente. Faria sentido que nós tivéssemos a capacidade de lançar os nossos próprios satélites. Nós não temos a mínima hipótese de estar a contribuir para o lançamento dos satélites da Constelação Atlântico que estão a ser lançados agora, mas os da próxima geração, sim.
E serão lançados a partir de onde? Disse à pouco que ainda não se percebe muito bem como será feito o lançamento a partir de Santa Maria.
Como será a organização dos spaceports, como serão as concessões…
Fala-se de dois projetos, Malbusca e um porto espacial da Força Aérea, que obteve investimento de 15 milhões do Plano de Recuperação e Resiliência.
Estou certo que vai haver um spaceport em Santa Maria. Provavelmente, quando tivermos um lançador, também estará em operação. Queremos lançar rápido qualquer coisa para começar a testar todos os sistemas de tempo, mas não será um lançador.
As datas que estavam previstas no European Launcher Challenge seriam ter uma captação de lançamento orbital em 2028, não é de todo viável. Era o meu desígnio no ano passado a avançar antes do fim da década. Um desejo muito ambicioso e apertado. Se for em 2035, provavelmente já começa a acertar mais. Não sei como é que evolui o mundo, como vai crescer a atividade espacial, quantos mais lançadores terão oportunidade de singrar, mas percebemos que há ali uma janela entre 2030 e 2035 em que, efetivamente, tem que acontecer.
Disse que não é possível fazer isso sozinhos, que há quer uma estrutura por trás, falou das agências espaciais. Aqui em Portugal, o que seria necessário acontecer para que conseguissem acelerar esse processo do lançamento?
Não podemos lançar de Santa Maria se não houver uma vontade pública que exista um spaceport. Não conseguimos desenvolver, em parceria com a Agência Espacial Europeia, o lançador, se não tivermos o apoio da Agência Espacial Portuguesa, e essa vontade tem que existir também. Mas, dentro das capacidades nacionais, também tenho que reconhecer que o apoio tem existido, efetivamente. Quando foi o Conselho de Ministerial da ESA no ano passado, Portugal colocou lá um compromisso para o ELC, para nos permitir estar dentro do consórcio.
Já fizemos aquisições e investimentos na Alemanha, na Espanha, com a aquisição dos satélites que agora são da Geosat. Na escala que vamos entrar vai ser necessário muito mais capital do que aquele que está dentro das nossas capacidades. O formato pelo qual vamos levantar, estamos a analisar. Emissão de obrigações, capital de risco. Já falámos com vários.
E esse tema não poderá ser retomado? Certamente a ESA não se vai ficar pelo ELC.
Como disse, o próprio European Challenge vai ter uma análise do estado como evoluiu no Conselho Ministerial que vai haver em 2028, mas vai ter muitos programas, uma atividade abrangente sobre o acesso comercial ao espaço.
Como podemos agir, usando a expressão de Von der Leyen, como “uma só Europa” no espaço, para ganhar soberania? É isso que está a impedir um desenvolvimento maior? Estamos todos muito virados para as nossas ‘quintinhas’ e não olhamos para os projetos como um projeto europeu?
É difícil de responder. Tem que ser analisado caso a caso. A Isar é alemã, e foi lançado na Noruega, a RFA One é alemã, foi lançar na Escócia. Nós agora vamos entrar numa fase em que sermos o lançador, terá, pelo menos, de ter a participação de Portugal e da Alemanha.
E já estão à procura desses apoios? Pensam ir ao mercado levantar capital para dar seguimento ao projeto?
Sim. Será difícil sem esses [apoios]. Nesta fase da aquisição da Orbex, conseguimos fazer [a operação] com os nossos próprios meios. No passado, temos estado na posição de investidor. Já fizemos aquisições e investimentos na Alemanha, na Espanha, com a aquisição dos satélites que agora são da Geosat. Na escala em que vamos entrar vai ser necessário muito mais capital do que aquele que está dentro das nossas capacidades. O formato pelo qual vamos levantar, estamos a analisar. Emissão de obrigações, capital de risco. Já falámos com vários.
E há mais disponibilidade do capital de risco em investir?
Vamos perceber em breve. A verdade é que a SpaceX conseguiu levantar o capital.
Foi o maior IPO de sempre.
A Rocket Lab também conseguiu numa certa escala. Depois todos, quando entram na Bolsa ficam com outra magnitude e a capacidade de levantar o capital é maior. Essa fase, para nós também só faria sentido, uma vez tendo um produto lançado. Primeiro terá que ser capital de risco, obrigações da banca ou mesmo investidores.
E que capital estima que seja necessário levantar? E quando?
Temos uma ideia, mas, neste momento é prematuro. No próximo ano, certamente, temos que começar a trabalhar nesse sentido. Neste momento, a realidade vai ser nós próprios sabermos o que temos e recuperar a atividade. Estaremos então numa posição completamente diferente para falar depois com os futuros parceiros e investidores.
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Omnidea compra britânica Orbex. “Faz sentido lançarmos os nossos satélites”
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