“Para alguém com um ego muito grande como Trump, o Mundial é uma enorme oportunidade”

O Mundial 2026 é mais um palco global para o presidente americano "alimentar o seu ego", mas há o risco de ser vaiado se for aos estádios, diz Miguel Poiares Maduro.

O Mundial 2026 que arranca esta quinta-feira nos México, Canadá e Estados Unidos é uma grande oportunidade para o presidente americano, Donald Trump, “se tornar ainda mais uma personalidade global, associado a uma atividade que a maior parte das pessoas gostam”, diz Miguel Poiares Maduro.

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O atual Dean da Católica Global School of Law e ex-ministro, e que liderou o Comité de Governança da FIFA em 2016-2017, sublinha ao ECO que, para Trump, o Mundial permite “alargar a sua visibilidade, a sua exposição, muito para lá dos Estados Unidos da América”, um processo que já começou, por exemplo com encontros mediáticos com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi ou a presença em grandes eventos da FIFA ao lado do polémico presidente da organização, Gianni Infantino.

Alerta no entanto que a associação não existe sem riscos. “Se ele for aos estádios, eu estou convencido que isso pode acabar por jogar contra ele, porque acredito que muitas das pessoas que vão acabar por ir ver o jogo nos Estados Unidos da América podem vaiar Trump“, antecipa.

Este Mundial decorre no México, no Canadá e, principalmente nos Estados Unidos. Isto numa altura interessante, no segundo mandato de Donald Trump. O que é que este Mundial representa para Trump e o que é que representa para a FIFA isto ser nos Estados Unidos nesta altura?

Trump é – acho que ninguém vai discordar disso – uma pessoa com um ego muito grande, já para não dizer um narcisista. Naturalmente, para uma pessoa com esse ego, o Mundial é uma enorme oportunidade. Porquê? Porque permite-lhe alargar a sua visibilidade, a sua exposição, muito para lá dos Estados Unidos da América. Se há instrumento global, é o futebol. Portanto, esta associação ao futebol, por parte de Trump, é uma possibilidade de ele se tornar ainda mais uma personalidade global, e associado a uma atividade de que a maior parte das pessoas gostam.

E, nessa medida, é uma oportunidade política que ele, desde o início, tem procurado explorar, numa relação de grande cumplicidade com o Gianni Infantino, participando em grandes eventos. Repare que ele tem estado presente nos principais momentos de preparação e de organização deste Campeonato do Mundo, tem falado muito, recebeu o Cristiano Ronaldo, recebeu o Lionel Messi. Ele tem explorado isso, como explora todas as oportunidades que alimentem o seu ego e aumentem a sua exposição global, e ainda mais aquelas que o possam fazer associando a uma atividade de que as pessoas gostam.

Há aqui algum risco de correr mal, de ser vaiado, por exemplo, nos estádios?

Esse é o outro lado da questão. Seguramente que ele vai utilizar este Campeonato do Mundo para tentar ganhar capital político, para tentar ganhar essa visibilidade por via da associação ao futebol, ainda mais exposição e visibilidade no mundo. Mas, por outro lado, se ele for aos estádios, eu estou convencido que isso pode acabar por jogar contra ele, porque acredito que muitas das pessoas que vão acabar por ir ver o jogo nos Estados Unidos da América podem vaiar Trump.

Há ainda a questão da dificuldade de adeptos entrarem no país.

dois ou três países que têm problemas sérios e que estão no Mundial e que basicamente as pessoas não vão poder ir. Mas relativamente aos outros, os Estados Unidos da América não alteraram muito a sua política de entrada. Há um discurso público, mas eu acho que não vai ser muito difícil.

Trump tem interesse em que o Mundial corra bem, desse ponto de vista, lá está, para alimentar o seu ego. Ele seguramente vai dizer que vai ser the biggest, greatest World Cup of Ever, não é? Que por causa dele tivemos o maior, melhor, mais extraordinário, fabuloso Campeonato do Mundo.. Mas ele gostaria que os factos correspondessem o mais próximo possível a isso, portanto, acho que aí não tem incentivos em dificultar.

(nota: esta entrevista foi concedida antes de ser conhecida a recusa de entrada ao árbitro somali Omar Artan).

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