José Neves, presidente do AED Cluster, defende que o atual momento de forte investimento em defesa é oportunidade para as empresas portuguesas do setor. Arranca esta quarta-feira os AED Days.
O motor da indústria de defesa europeu até pode estar a ter um arranque mais lento, mas José Neves acredita na capacidade do setor para responder às necessidades de defesa da região. E, para o presidente do AED Cluster, há aqui uma “grande oportunidade” para a indústria portuguesa, de defesa e espaço, se posicionar, criando “cadeias de fornecimento que sejam geridas e lideradas por empresas portuguesas”, para que “o centro de decisão seja em Portugal e não seja noutra cidade qualquer no mundo”.
Atualmente, a Europa tem avançado com grandes investimentos — os 150 mil milhões do SAFE, dos quais Portugal garantiu uma fatia de 5,8 mil milhões, é apenas um dos exemplos —, mas findo estes fluxos de capital a indústria terá estrutura para se sustentar?
“Os países europeus vão ter que investir em defesa porque o cenário que aconteceu na Ucrânia hoje pode acontecer noutro país nos próximos 5, 10 anos”, acredita o presidente do AED Cluster, entidade que reúne cerca de 190 empresas do setor, em Portugal. “Há uma necessidade de defesa na Europa e uma necessidade de produção industrial na Europa que neste momento ainda não atingiu o seu limite. Mesmo que acabe rapidamente a guerra da Ucrânia, termine amanhã, a Europa não vai poder ficar dependente como esteve até agora dos Estados Unidos”, aponta.
Esta quarta-feira arrancam os AED Days, reunindo, até dia 29, mais de 500 participantes de empresas do setor de defesa, espaço e aeronáutica, no Estoril.
Com estes investimentos avultados a serem feitos no setor de defesa a nível europeu, Portugal garantiu 5,8 mil milhões de euros via SAFE, o que é que Portugal e a indústria poderão beneficiar?
Temos aqui uma oportunidade histórica. Não só oportunidade histórica pelos maiores investimentos na área da defesa, mas acima de tudo, é importante sublinhar esse aspeto, Portugal hoje tem condições que não tinha há 10 anos. Temos empresas a exportar drones, comunicações, software crítico, a desenvolver nova tecnologia, como, por exemplo, uma nova aeronave em Portugal, novos satélites.
Há elementos e equipamentos que há 5-10 anos nem sonhávamos que seríamos capazes de produzir e exportar. Temos hoje uma capacidade que não tínhamos para conseguir realmente nos posicionarmos como players relevantes neste novo cenário de defesa.
Se estivéssemos a falar há 10 anos, se calhar Portugal podia só pensar em fazer parte da cadeia de fornecimento de algum grande fornecedor internacional, um OEM (Original Equipment Manufacturer/Fabricante de Equipamento Original).
Neste momento, além de termos essa capacidade de recebermos parte dessa cadeia de fornecimento — e temos empresas, grandes players internacionais em Portugal, que nos incluem como fornecedores, como a Airbus, a Embraer, a Lauak, a Aernnova —, também temos a capacidade de as empresas portuguesas realmente se projetarem para o mundo com produtos feitos e desenvolvidos em Portugal.
O que nos leva também a uma maior responsabilidade quando estivermos a fazer esse tipo de aquisições. Não podemos pensar que vamos desenvolver em Portugal um caça 5.ª geração, ou 6.ª geração, ou 4.ª +, ou veículos blindados de rodas. O programa SAFE olha muito para a questão da compra Estado a Estado, ou seja, tem que haver pelo menos dois Estados com interesse. Portanto, não só o que nós compramos a nível europeu, mas também o que podemos projetar a nível europeu das empresas portuguesas para fora.
Temos aqui esta oportunidade de quando Portugal estiver nas negociações — e o Ministério da Defesa está neste processo negocial com os grandes fornecedores internacionais — considerar que em Portugal já não temos uma indústria incipiente, mas uma indústria extremamente robusta, qualificada a mais alto nível, não só a nível de capacidade de engenharia, mas também de fornecedor NATO, tem escala — pode escalar ainda mais —, e tem uma engenharia e talento absolutamente únicos. Com o add-on de que temos custos de engenharia tipicamente inferiores ao europeu.
Temos que olhar para o SAFE como, tipicamente, compras de produtos, porque o prazo de entrega é para 2030. Aí temos que olhar mais para a cadeia de fornecimento, mas podemos ampliar mais o SAFE no cenário em que Portugal poderá exportar produtos em compras Estado a Estado, como estamos a fazer na compra das fragatas ou na dos veículos blindados de rodas.
Nessas compras já está a ser pensada exatamente a exigência de ser feito algo a nível nacional. Nos veículos blindados, por exemplo, de existir em Portugal uma fábrica que possa integrar uma cadeia de fornecimento nacional. A mesma coisa nos satélites, em que para além da compra de satélites vai haver uma plataforma em Alverca para a produção.
Como já temos uma indústria altamente qualificada, abre a oportunidade de este tipo de investimento, este tipo de projetos, ser um primeiro passo de algo maior.
O fecho dos contratos SAFE português já teve várias datas, começou por abril, passou para maio, já se empurra para junho ou julho… Como olha para este resvalar dos prazos? Sinal de que está a haver negociações para incluir mais a indústria portuguesa? Ou apenas um atraso na chegada do investimento à indústria?
Garantidamente o primeiro. Se bem que o SAFE tem aqui um desafio enorme. O SAFE impõe que os fornecedores entreguem os seus equipamentos em 2030. E uma aeronave, neste caso não estamos a comprar, demora 12 meses a ser feita. Um veículo blindado de rodas demora 18 meses a ser produzido. São desafios para quem produz.
Mas, claramente, para mim, o primeiro cenário: termos o máximo de detalhe nas negociações, porque, como gosto de sublinhar, é importante negociar antes de o contrato estar assinado.
Essas negociações e o melhor posicionamento é algo que o Ministério da Defesa está a fazer, e bem, a tentar posicionar ao máximo as empresas portuguesas para que os projetos e o investimento que vai ser feito pelo contribuinte português tenha o máximo impacto na indústria nacional, que galvanize ao máximo a nossa economia e, de certa forma, posicione Portugal noutra escala na produção de equipamentos de defesa.
A falta de visibilidade sobre as negociações tem sido um lamento da indústria. Já existe? Publicamente sabemos qual o valor do empréstimo, o montante do primeiro cheque e que foi criada uma comissão de acompanhamento do investimento, mas detalhes do que está a ser negociado…
A AED não está diretamente envolvida, mas temos trabalhado com a idD [Portugal Defence, entidade que gere as participações do Estado nas empresas de defesa em Portugal] no sentido de dar o máximo de informação sobre as capacidades da indústria nacional, e a iDd também as conhece, e também temos posicionado para as empresas o máximo de informação.
Já agora uma nota, o próprio AED Days, que começa esta quarta-feira e vai até sexta-feira, tem uma área de exposição, é uma boa montra do que Portugal está a fazer, do que é que as empresas portuguesas estão a fazer neste momento, para além de um PowerPoint, verem quais as capacidades existentes em Portugal.
Neste momento, temos mais de 500 inscritos, para percebermos realmente o interesse e a galvanização nacional de produzir e estar mais envolvida no setor da defesa.
Um dossiê que tem suscitado muita atenção da indústria é a renovação dos caças da Força Aérea, os F-16. O processo ainda não saiu da pista, mas há empresas a posicionar-se: a Lockheed Martin, a Saab e o consórcio Eurofighter. Portugal já tem alguma capacidade instalada no setor da aeronáutica, o percentual de inclusão da indústria portuguesa poderá ser maior ou não é assim tão linear?
Não consigo medir o percentual de envolvimento, porque não conheço os outros [dossiês]. Mas, claramente, na aeronáutica, um processo que temos acompanhado muito mais de perto junto dos fornecedores que mencionou — Airbus, Saab e Lockheed Martin — há claramente uma visão desses fornecedores que têm que mobilizar o ecossistema.
Já fizemos vários Industry Days com esses fornecedores, exatamente para não só conhecerem a capacidade nacional, muito importante… Aliás, o grande desafio do SAFE é exatamente esse. O SAFE foi, de certa forma, aprovado a nível nacional em julho e, no final de novembro, o Governo tinha que dar uma resposta. Foi muito pouco tempo para trabalharmos nestes processos de cooperação internacional.
Este processo de cooperação internacional, com a Lockheed Martin, começou há mais tempo, em 2022, com a Airbus e Saab, começou no ano passado.
A Airbus conhece bem o ecossistema nacional, porque tem duas mil pessoas a trabalhar já neste momento em Portugal, mas houve um empenho máximo dessas empresas em conhecer a granularidade do nosso ecossistema, as capacidades a nível de sistemas embarcados, terrestres, de comunicações, estruturas aeronáuticas, para, de certa forma, quando for o processo negocial conseguirem apresentar ao Governo — aí é uma questão que já vai para lá da AED — as condições, o melhor pacote de cooperação internacional.
Os três fornecedores — os quatro, porque a própria Dassault também tem interesse — estarão presentes no AED Days exatamente para apresentarem as suas capacidades, a disponibilidade para trabalhar com a indústria portuguesa.
Estive na semana passada em Washington, numa conferência de cooperação internacional, onde tanto a Inglaterra, como a Holanda, como a Estónia sublinhavam exatamente como estes investimentos avultados poderão ter retorno para a economia. E cada país tem a sua fórmula. Por exemplo, na Holanda, um investimento em defesa acima de 5 milhões de euros tem que ser assinado pelo Ministro da Economia antes de ser assinado pelo Ministro da Defesa, para exatamente medir o impacto económico e industrial que esse projeto terá na economia.
O peso da indústria de defesa portuguesa nas exportações nacionais é residual, é cerca de 1%, embora esteja a crescer. O que antecipa que possa vir a representar? As pessoas até podem perceber a necessidade de se investir em defesa, mas querem saber no que isso se traduz na economia, em postos de trabalho criados…
Tem sido sublinhado pelo Sr. Primeiro-Ministro, é investimento e não é despesa: Para haver investimento e não despesa tem que haver um impacto na economia nacional, claramente, que é algo que está a ser feito em Portugal, como na Holanda, em Inglaterra, na Estónia.
Estive na semana passada em Washington, numa conferência de cooperação internacional, onde tanto a Inglaterra, como a Holanda, como a Estónia sublinhavam exatamente como estes investimentos avultados poderão ter retorno para a economia. E cada país tem a sua fórmula.
Por exemplo, na Holanda, um investimento em defesa acima de 5 milhões de euros tem que ser assinado pelo Ministro da Economia antes de ser assinado pelo Ministro da Defesa, para exatamente medir o impacto económico e industrial que esse projeto terá na economia.
Só uma nota, em relação a 2014, as exportações, seriam 0,1%. A AED foi criada em 2016 e eram menos de 60 associados. Neste momento são 190, portanto o impacto é bastante maior.
Em 2014, tínhamos muito poucos produtos associados, tínhamos a componente de MRO, de manutenção de aeronaves muito forte, hoje ainda muito mais; alguma produção nacional das fábricas de Embraer, e provavelmente uma empresa a exportar defesa, a EID, na área de comunicações.
Hoje é um cenário muito diferente. Temos empresas como, por exemplo, a Tekever, a Beyond Vision, a exportarem drones diariamente. Temos um unicórnio na área de defesa, algo impensável em 2014.
Portugal não é um país reconhecido por indústria de defesa, ao termos estes casos de sucesso as empresas estrangeiras olham para Portugal realmente de uma forma diferente. Temos um unicórnio, uma empresa valorizada acima de um bi [mil milhões] na área de defesa, a produzir drones, a ganhar concursos em Inglaterra e noutros países, é uma empresa com um valor enorme e com um DNA português que sedimenta muito que Portugal poderá ser um fornecedor qualificado nesta área, e já o é.
Respondendo à questão de como é que isto poderá ter impacto, garantidamente todas essas empresas… Vou pegar o caso da OGMA, que iria triplicar a sua faturação e iria aumentar a sua força laboral quase em três vezes; a Tekever, provavelmente eram 200 pessoas em 2020, hoje em dia são 1.000 pessoas; a Critical Software são acima de 2.000 pessoas; a Beyond Vision está a duplicar as instalações.
Todas essas empresas estão a dar emprego qualificado, com salários superiores à média nacional, garantidamente, porque se não for, as pessoas vão trabalhar para fora.
Por outro lado, temos aqui outro fenómeno, muito interessante, que é a atratividade de Portugal em ir buscar não só estrangeiros, mas portugueses que trabalham no estrangeiro, para estes projetos que são desafios. Fazer uma aeronave como o Lus 222, desenvolver novos satélites como os que têm sido lançados pelo LusoSpace, pelo NEO ou pela Força Aérea, em Portugal era algo que não era possível no passado.
São desafios que, muito mais para além do salário, não só retém, como atraem pessoas em emprego qualificado para vir para Portugal.
Vai ser claramente uma revolução na forma como usamos os drones no nosso dia a dia. Os números demonstram que está a ser uma aposta ganha por Portugal nessas áreas.
Temos sempre a ideia do ‘campeão nacional’ que leva o resto da equipa. Os drones são já esse ‘campeão nacional’? Esse mercado tem alta competição, todos os dias surgem novas empresas de drones, a Alemanha é fortíssima nessa área… Como é que Portugal consegue ganhar asas?
Basta ‘Googlar’ notícias. Ainda na semana passada ouvi uma notícia, que até apresentei em Washington, em que a Tekever tinha ganho um contrato em Inglaterra para fornecimento de drones para o Ministério da Defesa inglês. Temos empresas que estão a exportar neste momento para o Médio Oriente.
Se estão a exportar, quer dizer só uma coisa, é que estão a competir ao mais alto nível, porque nenhuma dessas empresas, tipicamente, vende muito em Portugal, elas vendem muito fora. O que quer dizer que têm um nível de qualificação acima da média, porque senão não conseguiriam exportar.
O desafio é continuar a crescer. É neste mercado, não só na defesa, mas como no dual use — vigilância de florestas, vigilância marítima, suporte a comunicações —, há um mundo enorme de novas necessidades que os drones estão a captar e que fazem com que essas empresas tenham não só o mercado que já existe hoje, mas um muito maior que vai acontecer nos próximos 10 anos.
Vai ser claramente uma revolução na forma como usamos os drones no nosso dia-a-dia. Os números demonstram que está a ser uma aposta ganha por Portugal nessas áreas.
A grande oportunidade, tanto no espaço como na aeronáutica, [é de] de criarmos cadeias de fornecimento que sejam geridas e lideradas por empresas portuguesas e, de certa forma, que o centro de decisão seja em Portugal e não seja noutra cidade qualquer no mundo.
O SAFE prevê compra de satélites, há uma fábrica em Alverca e, segundo a Força Aérea, os primeiros a serem produzidos serão os satélites SAFE. Portugal tem feito um caminho no Espaço, como é que se dá o salto num momento em que Espaço e Defesa ganham maior proximidade?
Uma ligação muito forte. O espaço 1.0 vai de 2000 a 2015, diria, em que Portugal começou a ganhar algum conhecimento e a participar em atividades pequeninas na supply chain. A criação da PT Space [Agência Espacial Portuguesa] é um novo mindset, porque começamos a ter uma estratégia para o espaço a nível nacional, com uma visão de futuro. É um game changer.
Começámos a fazer processos com maior relevo a nível da cadeia de fornecimento, e claramente, estamos num cenário 3.0, em que Portugal exporta soluções integrais de espaço, ou seja, satélites, lançadores no futuro. Claramente, neste momento temos uma cadeia de fornecimento que já é nacional, envolvendo várias empresas.
O próprio projeto Agenda New Space do PRR, no desenvolvimento de satélites envolve um conjunto de empresas nessa cadeia de fornecimento e não só uma empresa.
Acho que isso é a grande oportunidade, tanto no espaço como na aeronáutica, de criarmos cadeias de fornecimento que sejam geridas e lideradas por empresas portuguesas e, de certa forma, que o centro de decisão seja em Portugal e não seja noutra cidade qualquer no mundo.
O que temos visto é, realmente, Portugal lançar satélites. Empresas como a LusoSpace, em janeiro do ano passado, e mais recentemente, agora em março deste ano, lançar vários satélites para o espaço, já de um ponto de vista de mercado. A LusoSpace vai ter um serviço de satélite AIS, de seguimento de navios, a funcionar.
A Constelação Atlântico também lançou satélites.
De Observação da Terra. Portugal vai começar não só a operar satélites, como a fornecer serviços a partir desses satélites, uma oportunidade única a nível da cadeia de valor do setor espacial. Isso tem uma oportunidade ainda mais interessante, que é o dual use.
A Observação da Terra poderá ser usada não só na área de vigilância marítima ou de florestas, mas também na de vigilância de fronteiras, tanto do ponto de vista de security, como do ponto de vista militar. E, claramente, a Observação da terra, como temos visto no cenário da Ucrânia, é um fator muito diferenciador na capacidade de um país se preparar para atacar, como para se defender.
Von der Leyen referiu a Constelação Atlântico no seu discurso da Nação, o comissário de Defesa Kubilius foi muito elogioso no contributo que poderia ter no ganho de soberania europeia no Espaço. Meras ‘palmadinhas nas costas’ ou…
Garantidamente não. Os meios de Espaço são essenciais, tanto na área de safety, como de security, como na área militar. Estes projetos, nomeadamente a Constelação do Atlântico, têm uma participação muito forte da própria Força Aérea Portuguesa. Desde o seu início têm requisitos e necessidades operacionais muito reais. Ou seja, não estamos a fazer investigação e desenvolvimento, estamos a desenvolver um produto de acordo com as necessidades que o mercado precisa.
Já temos, pelo menos, uma empresa, a Geosat, a operar num cenário de venda de imagens de satélite, de Observação da Terra, e que compete, por exemplo, com uma Airbus, portanto, ao mais alto nível, que tem dois satélites e poderá usar esta capacidade de satélites como uma plataforma maior ainda, de uma oferta mais integrada.
Temos uma entidade, o CTI, Aeroespacial, uma parceria da Força Aérea com a Geosat, a Omnidea e o CEiiA, que realmente coloca em Portugal uma visão muito comercial destes produtos e não numa visão de desenvolver tecnologia por tecnologia. Não, é ‘vamos desenvolver a tecnologia porque existe uma necessidade de mercado e temos que dar o retorno ao acionista dos investimentos que estão a ser feitos’.
Os países europeus vão ter que investir em defesa porque o cenário que aconteceu na Ucrânia hoje pode acontecer noutro país nos próximos 5, 10 anos. Quando olhamos para os investimentos NATO, olhamos para um cenário 2035 em que o investimento em defesa pode chegar aos 3,5% versus 5% em defesa.
Há uma necessidade de defesa na Europa e uma necessidade de produção industrial na Europa que neste momento ainda não atingiu o seu limite. Mesmo que acabe rapidamente a guerra da Ucrânia, termine amanhã, a Europa não vai poder ficar dependente como esteve até agora dos Estados Unidos.
Falou no retorno ao acionista. Pelas circunstâncias do mundo e da Europa, com a guerra na Ucrânia, tem havido grandes fluxos de investimento, terminando, a indústria tem os pilares para um crescimento sustentável? Ou vamos ficar no aproveitamento dos subsídios que chegam da Europa sem grande consequência produtiva?
É uma pergunta recorrentemente. Em primeiro lugar, temos toda a capacidade de dual-use destas tecnologias. O mesmo satélite pode ser usado para a vigilância de uma fronteira, para monitorizar eventos pós-Kristin, como tivemos em Portugal; as comunicações é a mesma coisa, podem ser usadas em vários âmbitos; os próprios drones podem ser usados em cenários de guerra, como em âmbitos pós-Kristin, e até de prevenção.
Grande parte destas tecnologias vai ter dual-use. Uma das mais em voga é a inteligência artificial usada na área da defesa, mas claramente tem uma utilização enorme, ainda maior, na civil.
Vou a outro ponto, para mim muito mais importante. A Europa “subcontratou” a defesa aos Estados Unidos durante várias décadas e essa “subcontratação” começou a acabar porque os Estados Unidos, claramente, desde 2014, desde a famosa cimeira da NATO, em que se olhou para os 2% [do peso do investimento da Defesa no PIB], disseram à Europa que o foco iria ser no cenário Pacífico e indo-pacífico e não tanto europeu.
Passaram a mensagem que a Europa teria que, de certa forma, adquirir a sua própria soberania militar. Os europeus tiveram outras prioridades e foi necessário o fenómeno guerra da Ucrânia, com o fenómeno de Donald Trump, para começarmos a perceber que realmente os Estados Unidos estavam sérios quando, em 2014, disseram que a Europa tinha que se capacitar para defender-se mais sozinha.
Os países europeus vão ter que investir em defesa porque o cenário que aconteceu na Ucrânia hoje pode acontecer noutro país nos próximos 5, 10 anos.
Há uma necessidade de defesa na Europa e uma necessidade de produção industrial na Europa que neste momento ainda não atingiu o seu limite. Mesmo que acabe rapidamente a guerra da Ucrânia, termine amanhã, a Europa não vai poder ficar dependente como esteve até agora dos Estados Unidos.
Portugal tem uma oportunidade de ouro, que é ser capaz de integrar as grandes cadeias de fornecimento europeias e de cimentar a sua posição em algum fornecimento de produtos. Para mim, temos que olhar um cenário 2035 em que os investimentos em defesa vão perdurar e vão manter-se.
A Europa não tinha capacidade de produção há três anos e a capacidade de produção não se monta, as fábricas não se criam de um dia para o outro, não se transfere tecnologia de um lado para o outro, demora o seu tempo. Mesmo que houvesse esse tempo rápido, temos que mobilizar pessoas para trabalhar no setor. E não é de um dia para o outro que as pessoas num setor transitam para o setor da defesa.
E ainda temos outros fatores. A contratação europeia é lenta. Se tivermos um concurso público europeu, demora dois, três anos. Muitas vezes, quando o concurso é realizado, a tecnologia entregue já está obsoleta.
Sobre essa capacidade de resposta da indústria europeia, a comissária Kaja Kallas mostrou-se desapontada face aos investimentos já feitos. É uma avaliação justa? O que está a bloquear essa capacidade de resposta? É o SAFE que não chega a horas?
A resposta não é fácil porque senão ela não tinha essa questão. Quando o comissário europeu [Kubillius] veio a Lisboa, uma das frases que disse é que temos que produzir em escala. A Europa não tinha capacidade de produção há três anos e a capacidade de produção não se monta, as fábricas não se criam de um dia para o outro, não se transfere tecnologia de um lado para o outro, demora o seu tempo.
Mesmo que houvesse esse tempo rápido, temos que mobilizar pessoas para trabalhar no setor. E não é de um dia para o outro que as pessoas num setor transitam para o setor da defesa. E ainda temos outros fatores. A contratação europeia é lenta. Se tivermos um concurso público europeu, demora dois, três anos. Muitas vezes, quando o concurso é realizado, a tecnologia entregue já está obsoleta.
A forma como os procurements internacionais são feitos… O artigo 2009/81, de compras europeias na área de defesa, tem que ser remodelado, porque foi criado num cenário antes da guerra da Ucrânia e desta necessidade de acelerar compras em defesa ou de num cenário de compras conjuntas, como o SAFE.
Outro ponto que acho muito importante considerar é o artigo 346, que levanta a questão de quando compramos em defesa poderá haver uma abertura das cláusulas para o setor, de que a defesa deve ser olhada de uma forma diferente do cenário normal de mercado.
Tipicamente só temos um cliente, o Estado, e temos que olhar para questões de produção, manutenção nacional, resiliência na defesa, autonomia estratégica, elementos que não estão considerados nas compras de defesa. É outro elemento que é muito importante considerar e que, no passado, não era avaliado e começa a ser.
Se calhar, em 2030, realmente teremos uma capacidade plena de desenvolvermos defesa e termos indústrias de defesa capazes de dar resposta às necessidades imediatas. Neste momento ainda é algo a ser criado.
Mas 2030 é a data para a execução dos contratos SAFE, das entregas.
Exatamente. Portanto, que em 2030 temos não só os nossos equipamentos, mas que a Europa já tenha capacidade de produção às necessidades que surgem no dia a dia.
Europa também tem que começar a pensar — que é o que tem de ser feito nos Estados Unidos — de haver um Estado que compra com a indústria e não compra da indústria. O que é quero dizer com isto? Que os requisitos sejam desenvolvidos em parceria entre o Estado, as Forças Armadas e a indústria.
Está convicto dessa capacidade? É só uma questão de um motor de difícil arranque, é isso?
Exatamente. Havia aqui um primeiro ponto que era muito importante para a indústria e para as empresas, que era contratos de longa duração, que só agora começaram a ser executados. A indústria não pode fazer investimentos de milhões numa fábrica quando tem contratos a seis meses a um ano.
A Alemanha olhou para isso com contratos para a Rheinmetall a 10 anos, porque só assim é que conseguem fazer investimentos em converter uma fábrica automóvel numa fábrica de produção de blindados.
Europa também tem que começar a pensar — que é o que tem de ser feito nos Estados Unidos — de haver um Estado que compra com a indústria e não compra da indústria. O que é quero dizer com isto? Que os requisitos sejam desenvolvidos em parceria entre o Estado, as Forças Armadas e a indústria.
Que é o que começa a acontecer agora, e que Portugal também começa a olhar para isso, de certa forma, com participação muito ampla das Forças Armadas com as empresas, envolvimento no cluster, o próprio OPEX, a ser desenvolvido pelo Exército, ou o RepMUS, desenvolvido pela Marinha Portuguesa, a integração da indústria com as Forças Armadas para, antecipadamente, saber quais são as necessidades, não de agora, mas dos próximos cinco e 10 anos.
Assista aqui à entrevista:
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“Para haver investimento – e não despesa – na Defesa tem de haver um impacto na economia”
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