“Portugal tem uma excelente indústria de defesa”

Há empresas nacionais já a contribuir para a construção dos caças Gripen, mas a Saab não quer ficar por aqui, admite Daniel Boestad, vice-presidente da unidade de negócio dos caças Gripen da Saab.

Começaram por fornecer caças à Suécia, mas hoje os Gripen da Saab já fazem parte da Força Aérea de países como África do Sul, Hungria, Tailândia, Brasil e, desde o ano passado, Colômbia. E a Saab quer juntar a Força Aérea Portuguesa às bandeiras que hoje são exibidas na sua unidade de produção em Linköping, na Suécia.

Nos vários Gripen que estavam em fase de assemblagem final na unidade fabril, possivelmente algumas das peças já contam com componentes de fornecedores portugueses. A parceria com empresas nacionais para a sua possível entrada na cadeia de fornecedores dos caças tem sido uma estratégia encetada pelos vários fabricantes na corrida para a substituição dos F-16 em fim de vida, como é o caso da Lockheed Martin ou do consórcio Eurofighter. E a Saab não foi exceção.

A sueca começou por fechar memorandos de entendimento (MoU) com a Critical Software e com a OGMA, detida a 65% pela Embraer, parceira da Saab no Brasil, mercado onde instalaram uma unidade de produção, em 2014, depois do país ter fechado um contrato para a compra de 36 Gripen E/F, dos quais 15 produzidos no Brasil, para a Força Aérea brasileira.

Daniel Boestad, vice-presidente da unidade de negócio dos caças Gripen da Saab, admite estar a negociar com a OGMA uma possível colaboração e, nesta fase, está tudo em cima da mesa. “Como em qualquer cooperação, precisamos de começar por algum lado. Estamos a fazer isto em parceria, portanto, a parceria precisa desenvolver-se”, diz em conversa com o ECO/eRadar, à margem de um encontro com jornalistas portugueses em Linköping, na Suécia, onde a empresa tem uma unidade fabril.

Com a Critical Software a Saab já está a trabalhar num simulador powered by IA que vai ajudar no treino dos pilotos dos Gripen. Mas há mais empresas nacionais já a integrar a cadeia de fornecimento dos Gripen. O Thyssenkrupp em Portugal, a Vangest — grupo da Marinha Grande que atua em soluções de plástico para vários setores, incluindo o aeroespacial — e a Kristaltek — fornecedor de serviços de mecânica de precisão, metalomecânica, metalurgia — são três outras empresas com as quais a Saab já está a trabalhar para os caças ou prestes a fechar contrato. E, diz Daniel Boestad, não quer ficar por aqui.

Portugal já está a participar na construção dos caças Gripen com várias empresas a contribuir com componentes. Esgota-se aqui o contributo português? Procuram ainda mais empresas para a vossa cadeia de fornecimento?

Estamos sempre à procura de bons parceiros e novos parceiros. Já disse isto, mas digo novamente, penso que Portugal tem uma excelente indústria de defesa. Pode não ser a maior indústria de defesa do mundo, mas a que existe é realmente muito boa. Neste momento temos um MoU com a Critical Software, com a OGMA e com a AED [Cluster] e iremos continuar a explorar essas parcerias e continuar a olhar para outros parceiros. Já hoje temos empresas em Portugal a fazer parte da cadeia de fornecimento dos caças Gripen. Já existem partes ou materiais do Gripen a vir de Portugal.

A Critical Software está a trabalhar num simulador de voo para treinar os pilotos do Gripen. Quais são os planos com a OGMA?

Acho que [a OGMA] é uma combinação muito interessante para nós. Eles são realmente capazes. Obviamente, também fazem parte da Embraer, um dos nossos outros parceiros. Por isso, em muitos aspetos é uma boa combinação para nós. Vimos um crescente interesse pelo Gripen no mundo e na Europa e vamos continuar a aumentar as nossas capacidades de produção. E, nesse campo, a OGMA encaixa perfeitamente. Têm um grande potencial. Por isso, vamos insistir nesse tema e manter essa relação.

Estamos sempre à procura de bons parceiros e novos parceiros. Já disse isto, mas digo novamente, penso que Portugal tem uma excelente indústria de defesa. Pode não ser a maior indústria de defesa do mundo, mas a que existe é realmente muito boa.

Quando diz ver na OGMA “um grande potencial”, significa que já existe algum acordo com a OGMA para fazer sub-assemblagem ou algum outro tipo de colaboração ou essa é uma negociação ainda a decorrer?

Todas essas coisas levam o seu tempo, são complexas, mas estamos em negociações, com certeza.

Mas neste momento, a negociação é para a OGMA fazer a sub-assemblagem dos Gripen?

Isso é uma das coisas que está em cima da mesa, mas também iremos abordar outros assuntos.

Fazer também a assemblagem final dos caças, então?

Temos que sempre fazer isso por etapas. Quero dizer, a sub-assemblagem é uma parte muito grande, complexa e avançada que está a ser discutida. Como em qualquer cooperação, precisamos de começar por algum lado. Estamos a fazer isto em parceria, portanto, a parceria precisa desenvolver-se.

Fazer a assemblagem final dos Gripen acontecerá apenas se Portugal fechar compra dos caças, é isso?

Como já disse, estamos a falar com a OGMA não apenas por causa de Portugal, mas porque há uma necessidade [de Gripen], e essa necessidade é maior do que apenas Portugal, é importante sublinhar isso.

Daniel Boestad, vice-presidente do negócio Gripen na Saab.Happy Wilder

Hoje a Força Aérea tem F-16, caças americanos. Na hora de escolher os futuros caças, pensa que a atual situação geopolítica irá jogar a vosso favor, no sentido em que há na Europa esta mensagem de comprar equipamento produzido na região e a relação com os EUA e a Europa já viveu dias melhores?

Não sei. Sobre isso tenho duas coisas a dizer. Gostaríamos de ajudar a construir uma indústria de defesa europeia forte e uma defesa europeia robusta. Isso é algo que continuaremos a trabalhar. Isso é muito, muito importante.

Os Gripen têm interoperabilidade com os sistemas NATO. Dado que, recentemente, se tem falado muito de uma ‘NATO mais europeia’ isso pode vos favorecer?

Somos interoperáveis [com sistemas NATO] e temos sido há muito tempo com praticamente todo mundo. É importante que sejamos interoperáveis. Não sei se isso vai mudar [alguma coisa], sendo franco.

Além dos Gripen, há também a ideia de trabalhar com Portugal ao nível de sistema de armamento, vender mísseis para as fragatas da Marinha Portuguesa. Pode adiantar algo mais sobre isto?

É um tema que não me cabe a mim comentar, mas os RBS15 são uma excelente plataforma de mísseis para os Gripen, mas também para terra e para a Marinha.

*A jornalista viajou à Suécia a convite da Saab

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