“Quase um mês sem operação provoca impacto. Temos de adaptar o porto” de Sines

O "fervilhar" dos investimentos em Sines, a aceleração do comboio de tempestades e os meses conturbados junto a Ormuz estão a ter distintos impactos no maior porto do país, explica o seu presidente.

“Sines está a fervilhar de investimento”, acentua o presidente do porto de Sines, destacando que os 24 mil milhões de euros na forja vão crescer com a gigafactory, que espera ver decidida neste Verão. Já do Inverno resta um balanço com paragem prolongada, uma mudança de paradigma pelo segundo ano, com cerca de 20 dias sem movimentação devido às tempestades, o que levou a Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS) a estudar já a construção de um novo molhe, revela Pedro do Ó Ramos.

Em entrevista ao ECO/Local Online, o presidente da APS explica que “toda a gente contava com seis ou sete dias” de paragem, mas “um mês sem operação ou com operação muito limitada, sobretudo aqui nos granéis líquidos, faz muita diferença e isto provoca impacto”. Considerando a grande profundidade até solo submarino firme, e a necessidade de fazer crescer os molhes a partir do fundo do mar, o atual molhe já tem 400 metros de “sapatas”, mas o estudo dos reforços para enfrentar a nova dinâmica climática impõe tornar ainda mais imponente o bloco de que o molhe é só a “ponta do icebergue”.

Já noutro tema da atualidade, a guerra no Irão, o porto de Sines está protegido, assegura o ex-secretário de Estado do Mar. “Fruto dos contratos que foram celebrados pelos nossos concessionários, quer a REN do ponto de vista gás natural, quer a Galp na questão do crude, não estamos nada expostos ao Médio Oriente”, explica o presidente da APS.

A nova dinâmica climática, patente nos últimos dois inícios de ano, obrigam a administração do Porto de Sines a estudar a construção de um novo molhe. “São mais de 50 metros de profundidade para construção do molhe, porque o molhe tem que vir lá debaixo. É uma loucura. Temos que estudar isso com muito rigor, alguma coisa que temos que fazer”, diz Pedro do Ó RamosHugo Amaral/ECO

Como se está a posicionar o porto de Sines perante os milhares de milhões de euros prometidos em investimentos aqui na região?

Sines está a fervilhar de investimento, e não é algo que esteja para acontecer, está a acontecer neste momento. Temos vários investimentos em curso, desde logo o da Galp, nomeadamente HVO e SAF, e depois também o hidrogénio e também a Repsol, com o projeto Alba – praticamente a duplicação da capacidade da petroquímica da Repsol. Da Galp são investimentos colossais e que vão tornar a refinaria cada vez mais competitiva e cada vez numa lógica muito mais de energias verdes e alternativas.

Para terem bem noção, estamos a falar de 24 mil milhões de euros de investimento, e pode acrescer um bocadinho mais com a candidatura que Portugal e Espanha fizeram relativamente à instalação de uma de uma Gigafactory aqui em Sines e em Barcelona. Estima-se – aliás, tivemos há muito pouco tempo com uma conversa com o Senhor Ministro da reforma do Estado e também o Ministro da Economia esteve aqui em Sines não há muito tempo – que haja uma resposta por parte da Comissão Europeia no Verão deste ano.

Só a Start Campus, nos seis edifícios que vai construir – um já está concluído, o segundo ainda agora acertou o negócio com a Nscale para poder fazer a construção desse segundo edifício -, estamos a falar de mais dez mil milhões de euros.

Além dos valores financeiros impressionantes, há também a escala de emprego a criar.

É, de facto, um volume tremendo de investimento, e isso faz com que, do ponto de vista de emprego, quer indireto, quer direto, mas sobretudo direto, que isso é mais fácil de quantificar, estamos a falar de 7000 pessoas que virão para Sines. Se vierem sozinhas, já cria uma pressão urbanística e nas infraestruturas tremenda, e sendo com a família, muito mais. Estamos a falar de facto de uma necessidade de planear esta região.

Quando cheguei, em Março do ano passado, identificámos logo este problema e, apesar de ser presidente do Conselho de Administração, evidentemente que tenho as minhas competências muito bem definidas, mas como queremos que o porto tenha cada vez mais integração na comunidade, faz todo o sentido que eu tenha essa preocupação sempre na linha da frente, e já reportei isso a vários membros do Governo. Quando tenho a visita de um membro do Governo falo sempre nesta necessidade de se planear e de articular, e digo isso sempre sem qualquer tipo de presunção. O grande projeto de Sines nasce ancorado no porto e acho que vai continuar a ser assim. E por isso sentimos esta responsabilidade, de integrar, de chamar a atenção. Muitos dos produtos que vão ser aqui produzidos, quer numa lógica de importação primeiro e depois de exportação, sairão por este porto. Neste sentido, queremos dar o exemplo.

O Porto de Sines espera que o aço verde da sueca Stegra possa ocupar o hiato deixado pelo carvão que a EDP deixou de consumir na central termoelétrica. A decisão sobre a vinda do projeto dos suecos deverá acontecer ainda este ano, diz Pedro do Ó Ramos, baseando-se em informação da AICEP Global Parques Hugo Amaral/ECO

De que modo o porto vai ser beneficiado com esta vaga de investimentos?

Grande parte dos investimentos, os que já estão em curso e os que vêm, a maturidade desses investimentos, estamos a falar provavelmente de 2030, 2031. Há projetos que estão neste momento em curso que não impactam muito com o porto. Tudo o que é data center é fundamental para o país, fundamental para a região, inquestionável, traz pessoas, traz dinâmica à região, mas não utiliza praticamente o porto. O aço verde [da empresa sueca Stegra] não é assim. É um projeto que neste momento já está em curso na Suécia, na cidade de Boden, que arrancou há muito pouco tempo, e o que nos disseram é que está a correr muitíssimo bem. O que nos é transmitido pela AICEP Global Parques, que faz a gestão de toda a Zona Industrial Logística de Sines – são duas empresas públicas que se entendem muito bem –, é que esperam que até ao final do ano haja uma decisão relativamente ao avançar ou não desse investimento. Se avançar, faz com que nós possamos substituir – nomeadamente num dos nossos terminais, que é o terminal de carga geral, terminal multipurposes – o carvão que perdemos com o fecho das centrais termoelétricas. Nós tínhamos quase seis milhões de toneladas de carvão movimentado para estas duas centrais, que perdemos, com o fecho da central, e esse projeto, por si só, vai preencher esse mesmo terminal.

O carvão que foi determinante para o ano recorde de 2016. Quando vão conseguir retomar valores de há dez anos?

Foi o melhor de todos, porque tínhamos o carvão. Entretanto, perdemos o carvão, mas aumentámos também nos granéis líquidos com o fecho da refinaria de Matosinhos. É sempre assim, há sempre oportunidades. Do ponto de vista de contentores, temos vindo a aumentar, e o melhor ano de sempre foi em 2024, com praticamente dois milhões de contentores TEU, contentores de 20 pés.

O ano passado foi um pouquinho pior, 1,7 milhões, porque tivemos aqui três fatores, que foram essenciais. Tivemos muito mau tempo, e isso é algo que nos preocupa porque tivemos 26 dias ou sem operação ou com operação muito condicionada, e isso impactou muito nos contentores e também aqui nos granéis líquidos. Tivemos a paragem da refinaria de Sines praticamente dois meses, uma paragem funda, que fez com que a atividade diminuísse claramente. E depois houve, de facto aqui alguns conflitos.

Tivemos muito mau tempo, e isso é algo que nos preocupa porque tivemos 26 dias ou sem operação ou com operação muito condicionada, e isso impactou muito nos contentores e também aqui nos granéis líquidos. Tivemos a paragem da refinaria de Sines praticamente dois meses, uma paragem funda, que fez com que a atividade diminuísse claramente. E depois houve, de facto aqui alguns conflitos.

Greves.

Greves também, nomeadamente no terminal de contentores. Felizmente que ficou resolvida, com a nossa mediação também, fundamental, e nisso fiquei muito satisfeito que conseguisse, de facto, aproximar as partes. Chegou-se a um acordo ali na PSA para quatro anos de paz social. Portanto, espero que estas nuvens negras que tivemos no final do ano passado tenham passado.

O comboio de tempestades no primeiro trimestre prejudicou o porto?

Não ajudou nada. O impacto é grande. Um mês normal, de cruzeiro, no porto, são quatro milhões de toneladas entre todos os terminais. Vai dar os 40 e tais milhões de toneladas que temos, regra geral, por ano. É o que tivemos agora em março e abril, e estimo que em maio também tenhamos.

Em janeiro, tivemos dois milhões de toneladas e em fevereiro não chegámos às três. Essencialmente, tivemos 19 dias [de paragem], sobretudo no terminal de granéis líquidos. Isso é uma tendência, e estamos a atuar relativamente a isso. Quando aqui cheguei em Março, quando vou apresentar-me, vou ao VTS [sistema de controlo de tráfego marítimo], e os pilotos dizem-me “um ano relativamente mau em Sines, do ponto de vista de mau tempo, significava sete, oito dias em que não tínhamos operação ou tínhamos operação muito limitada”. No ano passado tive 26, este ano já vão em 19, e ainda faltam novembro e dezembro, que vamos ter provavelmente dias também difíceis. Disseram-me o seguinte: o porto está muito protegido, sobretudo com as marés vindas de Noroeste, que é a tendência, conhecemos o nosso país, a nortada, sabemos que é assim, mas cada vez mais temos marés do Sul. Este terminal aqui ao nosso lado direito é o terminal que, aí, fica muito exposto.

Temos de fazer uma análise muito funda, com dados meteorológicos, com os dados de marés, de tudo o que puder ser, para perceber que tipo de investimento podemos fazer. Estamos a falar de muito dinheiro.

Em que medidas de mitigação vão apostar?

Decidimos reativar um fórum de simplificação portuária que existiu até ao COVID – depois deixou de ter atividade e não foi reativado – que junta toda a comunidade portuária e que tem grupos de trabalho específicos sobre determinados temas que achamos atuais.

Decidimos na última reunião, em março, criar um grupo de trabalho com representantes de todos os terminais, precisamente para estudar a forma de tornar o porto mais resiliente. Ou seja, temos de adaptar o porto, porque já são dois anos – aliás, 2024 já foi um nadinha superior ao que existia, mas nada de especial – agora 2025 e 26 já se percebe que é uma tendência. Portanto, temos de fazer uma análise muito funda, com dados meteorológicos, com os dados de marés, de tudo o que puder ser, para perceber que tipo de investimento podemos fazer. Estamos a falar de muito dinheiro, certamente, e esse não estava previsto no plano de investimentos, porque não era um tema em Sines. Toda a gente contava com seis ou sete dias que temos no universo de 365, o porto não para, está sempre aberto, portanto, não era propriamente tema. Agora, quase um mês sem operação ou com operação muito limitada, sobretudo aqui nos granéis líquidos, faz muita diferença e isto provoca impacto.

Pedro do Ó Ramos, presidente do Conselho de Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), em entrevista ao ECO/Local OnlineHugo Amaral/ECO

Vão construir novos molhes?

Provavelmente. Este molhe principal do porto de Sines, o molhe Oeste, [foi destruído] em dois anos consecutivos, logo no início, em duas tempestades do século, em 1978 e 79 – há fotografias incríveis das vagas tremendas. Só que ali somos um porto de águas profundas. E somos mais profundos precisamente nos granéis líquidos, onde temos 28 metros de calado. Encostado ali são mais de 50 metros de profundidade para construção do molhe, porque o molhe tem que vir lá debaixo. É uma loucura. Temos que estudar isso com muito rigor, alguma coisa temos que fazer. Temos que fazer uma análise custo-benefício e perceber efetivamente como podemos tornar o porto mais resiliente.

O porto recebe todos os navios, os maiores navios, quer nos contentores, quer nos petroleiros, porque é um porto de águas profundas e é mar aberto. Mas não tem barra. Os portos de barra estão mais protegidos quando há mau tempo. Este é muito exposto, não era um assunto, neste momento é um assunto, mas nós, como administração, estamos a preparar e já temos uma reunião marcada, agora em 26 de Maio. E dar uma nota que os nossos concessionários estão muito empenhados, nomeadamente a Galp, em ajudar a encontrar uma solução, com o porto de Sines, para tornar o porto cada vez mais resiliente e passarmos, em vez de estar 26 dias, a voltar o que era antigamente, ou não ter sequer dia nenhum de operação condicionada.

Os nossos concessionários estão muito empenhados, nomeadamente a Galp, em ajudar a encontrar uma solução, com o porto de Sines, para tornar o porto cada vez mais resiliente e passarmos, em vez de estar 26 dias, a voltar o que era antigamente, ou não ter sequer dia nenhum de operação condicionada.

Além das tempestades, o início do ano trouxe também a guerra no Irão e o fecho do Estreito de Ormuz. Faz lembrar o que deu origem ao projeto de Sines há mais de 50 anos, a Guerra dos Seis Dias e o encerramento do Canal do Suez, para aproveitar a nova rota dos navios.

Na rota do Cabo da Boa Esperança.

No caso da atual crise em Ormuz, qual está a ser o impacto para o porto de Sines?

Tem um impacto tremendo para o país, evidentemente, sobretudo por causa do aumento de preços, mas o porto, também fruto dos contratos que foram celebrados pelos nossos concessionários, quer a REN do ponto de vista gás natural, quer a Galp na questão do crude, não estamos nada expostos ao Médio Oriente. 96% das necessidades do país de gás natural são abastecidas através de Sines. O gasoduto que vinha da Argélia praticamente não tem expressão neste momento. As necessidades são praticamente todas assumidas por Sines. E na questão do crude também, a grande maioria do crude é recebida aqui no nosso porto de Sines.

“96% das necessidades do país de gás natural são abastecidas através de Sines” e “a grande maioria do crude é recebida aqui no porto de Sines”, diz o presidente da APS na sede da empresa, com vista para o gigante petroleiro atracado no porto de SinesHugo Amaral/ECO

Aliás, temos aqui um navio no posto dois, que é um dos maiores navios petroleiros, um navio em que recebemos o crude, e estamos a receber essencialmente do Atlântico. Salvo erro, há muito perto de 10 anos que não recebemos qualquer tipo de crude do Médio Oriente. Essencialmente, recebemos do Brasil. 85% das necessidades do país [de crude] são abastecidas através do Brasil. Ao nível de gás natural, não, vem dos Estados Unidos, Argélia e também Nigéria. A Nigéria também fornece crude. Portanto, não temos problema de abastecimento. Claro está, que como este é um mercado global, temos a questão dos preços.

Tenho estado em contacto com as duas entidades, quer a REN, quer a Galp, e dizem-me que não há problema neste momento, quer de abastecimento, quer ao nível dos contratos. A ministra do Ambiente também tem falado muitas vezes sobre esse tema e, portanto, parece-me, para já, não há problema nenhum e nós, de facto, não estamos nada expostos do ponto de vista de fornecimento destes dois combustíveis que são essenciais para o país.

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