Sara Rodrigues (Marsh): Seguros são essenciais para os leilões solares

A especialista em energia da corretora multinacional fala dos fatores críticos da análise de risco e apólices de seguros a considerar no concurso que o governo lançou para as novas centrais solares.

Sara Rodrigues, especialista na área de construction-energy&power da Marsh Portugal: “Desde 2016, que encontramos uma maior exigência na qualidade dos riscos que as seguradoras subscrevem e restrições nas disponibilidades de aceitação dos mesmos, seja por via de contenção de algumas coberturas, seja por diminuição dos valores de exposição, o que leva a uma menor oferta e um consequente aumento dos preços”.

O Governo quer reforçar a produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis e lançou um concurso para atribuição de 12 lotes para parques solares no Alentejo e Algarve, cujas candidaturas terminam em 31 de julho próximo. A oportunidade para conquistar a capacidade de injetar na rede elétrica pública um total de 700 MVA (megavolt-ampere) que está a mover participantes de grandes dimensões. Para comparação, o total desta capacidade é maior que a da maior barragem portuguesa – Alto Lindoso, no rio Lima – que tem 630 MVA de potência instalada.

Sara Rodrigues está desde 2016 na área de Global Energy Practice da Marsh Portugal, multinacional de análise de riscos e corretora de seguros e assumiu há um ano a função de especialista na área de construction-energy&power. Em entrevista a ECOseguros explica como o setor segurador é fundamental neste negócio.

Diz que “soluções de transferência de riscos, nomeadamente para o mercado segurador, durante as várias fases, desde o projeto à operação deste tipo de centrais de energia e de negócio devem garantir eventuais danos diretos, paralisações, atrasos e prejuízos financeiros”. Como se desenham essas transferências?

As soluções de transferência de risco, através do mercado segurador, nomeadamente apólices de seguro, são essenciais. Estes projetos têm por base um modelo financeiro de viabilidade que considera certos critérios de funcionamento das centrais de produção. Caso, por motivos de força maior, os sistemas não estejam a produzir, o retorno financeiro deixa de existir e o modelo deixa de ser sustentável. Neste caso, quer os investidores, quer os financiadores sofrem prejuízos fortíssimos e mesmo os compromissos assumidos com os concedentes são quebrados, com implicações negativas fortes.

As interrupções na produção são o risco principal?

Os seguros que financiam as reparações ou substituições decorrentes de eventuais danos diretos aos equipamentos, ou os prejuízos decorrentes das paralisações, atrasos ou pedidos de indemnizações decorrentes desses prejuízos diretos ou de erros ou omissões, são cruciais para manter a sustentabilidade financeira dos modelos, já que são meios de financiamento extraordinários para impactos extraordinários.

Falando em riscos implícitos ao objeto dos Leilões solares, quais os principais aspetos críticos a analisar quanto segurança energética, rentabilidade e sustentabilidade ambiental?

Todos esses fatores, essenciais aos leilões solares, apresentam uma interdependência e correlação, indissociáveis. Especificamente a segurança energética, conceito anterior a este período de transição energética, inclui diversas componentes e riscos que deverão ser acautelados no âmbito destes leilões.

Quais componentes e riscos concretamente?

Para começar a proteção dos ativos como infraestruturas (produção e interligações), redes de conexão, sistemas de armazenamento ou sistemas tecnológicos. A graduação e a criticidade destes riscos poderá variar em função do tipo de ativos e da sua localização.

O fator rentabilidade é alcançado através de uma eficaz política de gestão de risco, desde a fase de projeto, passando pela fase de financiamento e de construção e culminando na fase de exploração

Há riscos em exigir especial atenção?

Pela potencial severidade os fenómenos da natureza e climáticos exigem muita atenção e, no território nacional, o risco sísmico em certas zonas. Há ainda que assegurar os impactos que determinado contexto geopolítico, possa causar. São impactos financeiros, devido às oscilações de mercados e operacionais, atendendo à globalização da cadeia de fornecimento e dependência de certos países fornecedores com elevado risco político.

Associa diretamente a rentabilidade destes projetos à gestão de risco…

O fator rentabilidade é alcançado através de uma eficaz política de gestão de risco, desde a fase de projeto, passando pela fase de financiamento e de construção e culminando na fase de exploração. Um modelo adequado de avaliação, mitigação e transferência de riscos operacionais, financeiros ou cibernéticos poderá ser fundamental para a sustentabilidade financeira de um projeto nesta área.

A componente ambiental é mais pacífica neste tipo de projeto?

Em termos de sustentabilidade ambiental um projeto de energias renováveis pode ser encarado como causa e como consequência dessa sustentabilidade. Como causa, porque a entrada em funcionamento de sistemas de produção de energia, recorrendo a fontes “limpas”, é um instrumento de concretização da transição energética definida internacionalmente. Também é uma consequência porque se reduzem ou eliminam impactos decorrentes da utilização de meios e equipamentos, menos sustentáveis, evitando-se, por exemplo, riscos ambientais associados à redução da quantidade de combustíveis fósseis em uso ou ao descomissionamento (encerramento) dos ativos.

fruto do contexto atual do mercado segurador e também pela tipologia da caução exigida, as alternativas quanto a seguros de caução ainda são escassas.

Relativamente às cauções a apresentar pelos concorrentes, as seguradoras estarão preparadas para assumir os riscos de um seguro?

Verificamos que existe maior maturidade dos mercados de caução para a aceitação do risco. No entanto, fruto do contexto atual do mercado segurador e também pela tipologia da caução exigida, as alternativas ainda são escassas.

Falando de tecnologias em rápida evolução, os custos de seguro serão sempre elevados?

As tecnologias empregues na produção de energia solar são fiáveis e bastante testadas. Naturalmente, que existem riscos mais complexos ou que poderão ser mais críticos nesta tecnologia de produção e que por isso terão que ser objeto de maior atenção. No entanto, cada tecnologia tem os seus riscos. A evolução tecnológica é grande, o que se reflete desde logo na forma como os concursos são lançados, surgindo, por exemplo, opções para novas formas de armazenamento de energia, até às novas formas de controlo, medição e de monitorização, baseadas em sistemas eletrónicos. Se esta evolução comporta riscos, também é um mitigador dos mesmos.

Os seguradores estão preparados para este tipo de riscos?

As garantias exigidas aos fabricantes e fornecedores existem nos termos habituais, no entanto, as que são exigidas a entidades externas, como sejam bancos e seguradores, são de facto de difícil acesso, pela novidade do tema e por não existir histórico estatisticamente relevante. Em termos de comportamento dos mercados seguradores e resseguradores podemos considerar dois factos relevantes: por um lado, encontramos uma oferta de nicho para o setor da energia que desenvolveu conhecimento e ofertas específicas à realidade do setor; Por outro, transversalidade a todas as áreas de risco. Desde 2016, que encontramos uma maior exigência na qualidade dos riscos que subscrevem e restrições nas disponibilidades de aceitação dos mesmos, seja por via de contenção de algumas coberturas, seja por diminuição dos valores de exposição, o que leva a uma menor oferta e um consequente aumento dos preços.

Qual o conselho aos concorrentes na relação com o setor segurador?

Investimento na qualidade do risco, desde a fase de projeto, de escolha dos equipamentos, instalação e operação, incluindo manutenção, bem como, a forma como se constroem os programas de seguro são fundamentais para efeitos de negociação e subscrição pelos mercados e obtenção da melhor relação qualidade da proteção versus preço.

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