“Se não fossem os imigrantes, muitas empresas portuguesas não tinham capacidade de corresponder às solicitações que têm”

Grupo italiano Rekeep entrou recentemente em Portugal com a aquisição de 60% da nortenha Euromex. CEO deixa mensagem otimista aos trabalhadores: "Aproveitem para aprender".

A entrada de trabalhadores estrangeiros em Portugal tornou-se num dos temas mais quentes do debate público, com os partidos mais à direita a exigir (e implementar) um aperto nas regras. Em entrevista ao ECO, Ricardo Gonçalves Cerqueira, CEO da Rekeep Portugal avisa, porém, que, sem esses migrantes, muitas empresas portuguesas não teriam capacidade para dar resposta às solicitações que lhe chegam.

“Se não fossem os muitíssimos imigrantes que vieram para Portugal ajudar-nos com disponibilidade, com vontade de colaborar com as empresas portuguesas, havia muitos setores de atividade e muitas empresas portuguesas que não tinham capacidade de corresponder às solicitações que têm. O nosso caso é um desses casos. Temos vários colaboradores imigrantes, de várias nacionalidades”, frisa o responsável, que indica que, da sua experiência, esses trabalhadores são “extremamente disponíveis e dedicados”.

Ricardo Gonçalves Cerqueira foi CEO da nortenha Euromex até janeiro, altura em que o grupo italiano Rekeep adquiriu 60% dessa empresa nortenha (especializada em serviços de higiene e limpeza para edifícios de saúde). A Euromex passou, então, a Rekeep Portugal, mantendo o seu diretor executivo e acelerando a sua atividade, segundo conta o próprio.

O match com a Rekeep foi perfeito. A Rekeep tinha a intenção de entrar no mercado português; Nós tínhamos a intenção de encontrar alguém que nos desse dimensão, que nos desse o conhecimento técnico“, explica o responsável, que ao ECO diz que a intenção é crescer agora a equipa. Deixa ainda uma mensagem otimista aos cerca de três mil trabalhadores que tem sob a sua alçada: aproveitem para aprender agora que estão inseridos numa multinacional.

No final de janeiro foi anunciada a entrada em Portugal do grupo Rekeep com a aquisição de 60% da Euromex. O que motivou este grupo a entrar no mercado português?

A Rekeep é uma empresa que nasceu em Bolonha há cerca de 80 anos. Está muito consolidada no mercado italiano: é líder no mercado italiano das soft e hard facilities. Tem presença, através da subsidiária Rekeep World, em França, Turquia, Polónia e Médio Oriente.

Agora, entrou em Portugal, através da aquisição de 60% do capital da Euromex. Eu tinha 100% do capital. Vendi 60%, fiquei com 40% e mantenho-me como CEO da companhia e membro da administração. O que é que nós pretendemos? Consolidar o negócio que já vinha da Euromex, uma empresa com 34 anos de mercado português, e alargar a outras atividades.

Tais como?

Temos sido especialistas nos últimos 30 anos no setor da higienização e limpeza profissional. Queremos alargar para a manutenção integrada de edifícios, o que se chama hard facilities. Além disso, temos a intenção de entrar também no fornecimento de refeições. Dentro do ambiente hospitalar, queremos entrar também na questão da esterilização, e eventualmente na lavandaria.

A Rekeep tinha a intenção de entrar no mercado português; Nós tínhamos a intenção de encontrar alguém que nos desse dimensão, que nos desse o conhecimento técnico.

Portanto, este investimento de um grupo internacional vai, de certa forma, acelerar a atividade e o negócio que a Euromex já tinha em Portugal.

Sim. A Euromex foi constituída em 1991, e era uma empresa essencialmente de cariz familiar. Há três anos, pensei estrategicamente sobre o que poderia fazer relativamente à nossa concorrência e também sobre como alavancar o nosso crescimento. Desde essa altura que procurava, com o apoio de consultoria externa, um parceiro internacional, que nos garantisse, pelo menos, duas condições: solidez financeira e know-how aprofundado numa série de atividades que pretendíamos abarcar.

O match com a Rekeep foi perfeito. A Rekeep tinha a intenção de entrar no mercado português. Nós tínhamos a intenção de encontrar alguém que nos desse dimensão, que nos desse o conhecimento técnico. Foi uma relação que se foi construindo com o tempo, ao longo de cerca de dois anos.

Como têm corrido os primeiros meses de integração oficial neste grupo internacional?

Conto-lhe uma curiosidade. O negócio foi fechado no dia 24 de dezembro de 2025. Estes primeiros meses têm sido aquilo que tínhamos planeado. Primeiro, harmonizar as duas linguagens entre um contexto internacional e uma empresa portuguesa. Depois, trazer a equipa portuguesa para um contexto que é naturalmente diferente – é diferente trabalhar numa empresa de cariz familiar e passar a integrar um grupo internacional.

Enquanto Rekeep, temos um plano estratégico muito bem definido para aquilo que pretendemos para os próximos três anos. Somos uma empresa de base de setor público, mas temos também uma componente muito interessante no setor privado, por onde pretendemos crescer. O desafio inicial tem sido conjugar todos estes vértices e dar sustentabilidade de médio e longo prazo a esta visão de futuro.

Ricardo Gonçalves Cerqueira, CEO da Rekeep, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Em relação aos objetivos de negócio, esta entrada do grupo Rekeep vai mudar de alguma forma a vossa estratégia?

Não vai mudar a estratégia. Vai é dar-nos mais ferramentas, mais alicerces para podermos corresponder.

Disse que tinha um plano muito bem definido, pelo menos para os próximos três anos. Nestas áreas novas que referiu, qual é a prioridade para este ano?

A nossa prioridade no curto prazo – aliás, já estamos a fazer algum trabalho até – é crescer aqui por aquisição, na parte da manutenção integrada de edifícios. Em todas as questões de um funcionamento de uma infraestrutura, queremos entrar rapidamente.

Ainda este ano?

Ainda este ano, a muito breve prazo. Numa segunda fase, pretendemos entrar na área do fornecimento das refeições ao setor público e ao setor privado. Dentro da prestação de serviços na área da saúde, onde já temos bastante trajeto feito, queremos introduzir algumas nuances em termos técnicos, como a esterilização.

Pretendemos propor aos nossos clientes como um acrescento de atividades que podemos prestar. É um projeto que já está em andamento. Trabalhamos já em contexto hospitalar em vários hospitais de referência a nível nacional e aquilo que nos propomos é acoplar mais uma atividade dentro da prestação atual. Não requer muito investimento. Requer know-how.

A Euromex nasceu no Porto. Têm já, entretanto, presença noutras áreas do país. Esta entrada do Rekeep implica uma maior expansão no território nacional?

A nossa sede é no Porto. Temos uma operação também já em Lisboa, onde pretendemos crescer em termos de infraestruturas, de meios técnicos e de funcionários. A nossa visão de crescimento passa muito pela região da Grande Lisboa e pela zona sul do país, tanto na questão da limpeza, como nestas outras atividades de que falei anteriormente.

Naturalmente, todas as fases de crescimento e de expansão vão exigir know-how, recursos, investimento, e, por isso, está naturalmente no nosso plano de crescimento fazer algumas contratações.

E em termos de faturação, que objetivos têm definidos para os próximos três anos?

Fechamos o ano 2025 com cerca de 35 milhões de euros. Pretendemos rapidamente chegar aos 45 ou 50 milhões de euros por crescimento orgânico e por aquisição.

Faço-lhe a mesma pergunta relativamente aos recursos humanos. Julgo que, neste momento, têm cerca de três mil trabalhadores. Qual é que é o plano?

Os nossos trabalhadores da operação são cerca de três mil. Depois, temos toda uma equipa de suporte, que enquadra toda esta operação logística, de cerca de 40 pessoas, entre a sede no Porto e a delegação Lisboa.

Naturalmente, todas as fases de crescimento e de expansão vão exigir know-how, recursos, investimento, e, por isso, está naturalmente no nosso plano de crescimento fazer algumas contratações, no âmbito comercial e de gestão. Os quadros médios superiores da empresa terão que ser reforçados.

Tem um número para este ano?

Temos um número, mas não me quero comprometer com um número exatamente.

Os 3 mil trabalhadores que a Euromex já tinha mantiveram-se com a entrada da Rekeep ou se houve algum ajuste?

Não, os trabalhadores mantiveram-se. A base de trabalho da Rekeep foi beber à base da Euromex, em termos de clientes, em termos de funcionamento administrativo, e em termos dos operadores de diários de trabalho. Os cerca de três trabalhadores transitaram para a Rekeep Portugal. Está na nossa perspetiva reforçar e não diminuir.

Ricardo Gonçalves Cerqueira, CEO da Rekeep, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Dizia que é diferente estar num grupo familiar português do que estar num grupo internacional. Como tem sido gerida esta mudança de políticas de recursos humanos?

A entrada deste parceiro italiano não foi feita de uma forma abrupta. Temos feito uma aproximação muito soft. O facto de me manter como CEO facilita os contactos entre a equipa que já estava da Euromex com a equipa que agora está a chegar da Rekeep. Tenho a responsabilidade de fazer um bocadinho a ponte entre as duas estruturas. E a equipa que nos está a acompanhar da parte da ReKeep Internacional, já conhecia muito bem, porque foram as mesmas que estiveram no processo de aquisição.

A mensagem que transmito aos colaboradores que estão comigo é a de que aproveitem a oportunidade de estarmos integrados num grupo de outra dimensão, com outra escala, com outras valências, e com outros conhecimentos técnicos. Aproveitem para aprender.

Há oportunidades de mobilidade internacional dentro do grupo?

No imediato, não, mas sei que há uma política interna de facilitar a mobilidade, havendo vagas.

A entrada neste grupo internacional torna-vos um empregador mais atrativo em Portugal?

Julgo que sim, desde logo pelo desafio que é integrar uma estrutura multinacional com todas as valências e todos os desafios que essa realidade traz. Para um jovem licenciado, alguém que está a entrar no mercado de trabalho, ter oportunidade de contactar colegas italianos, polacos, franceses, de beber das experiências é um enriquecimento profissional grande.

Temos vários colaboradores imigrantes, de várias nacionalidades. A nossa experiência é que são pessoas extremamente válidas, extremamente disponíveis para trabalhar, extremamente dedicadas. São também pessoas agradecidas pela oportunidade que lhes é dada.

Enquanto ainda eram só Euromex, sentiam dificuldades no recrutamento?

Sentimos algumas dificuldades na dimensão dos operadores de terreno. Tivemos uma fase com muita dificuldade de recrutamento. É bom que fale desse tópico. Tantas vezes se fala sobre imigração. Se não fossem os muitíssimos imigrantes que vieram para Portugal ajudar-nos com disponibilidade, com vontade de colaborar com as empresas portuguesas, havia muitos setores de atividade e muitas empresas portuguesas que não tinham capacidade de corresponder às solicitações que têm.

O nosso caso é um desses casos. Temos vários colaboradores imigrantes, de várias nacionalidades. A nossa experiência é que são pessoas extremamente válidas, extremamente disponíveis para trabalhar, extremamente dedicadas. São também pessoas agradecidas pela oportunidade que lhes é dada. Às vezes, ouvimos algumas coisas no debate público sobre as dificuldades que o país eventualmente pode ter em acolher tanta imigração.

Defendo uma imigração regulada, acompanhada, mas é uma enormíssima mais-valia para o país poder contar com estas pessoas, com a sua disponibilidade e com a sua vontade de querer trabalhar no nosso contexto.

Sentem a menor disponibilidade de mãos de imigrantes, agora que o Governo tem apertado as políticas de imigração?

Não temos sentido. A nossa prioridade é identificar e dar oportunidade às pessoas que queiram trabalhar connosco. A porta está aberta, mas também temos de ser criteriosos na admissão das pessoas. O que é que pedimos em contrapartida? Responsabilidade, disponibilidade e compromisso com a função.

Não sentem que é mais desafiante integrar, ao nível dos recursos humanos, imigrantes do que nacionais?

É desafiante pela questão da língua e pela questão cultural. Mas também tenho de dizer que, das pessoas que trabalham connosco, há uma grande vontade em serem integradas.

Ricardo Gonçalves Cerqueira, CEO da Rekeep, em entrevista ao ECOHenrique Casinhas/ECO

Já disse que esta entrada no grupo tem sido feita de forma soft a nível dos recursos humanos. Daquilo que já conhece do grupo, o que é que acha que a antiga equipa da Euromex tem a aprender ao nível da gestão de pessoas com o grupo e vice-versa?

Tentávamos, enquanto Euromex, implementar sempre uma política de gestão de recursos humanos de grande proximidade. Julgo que a Rekeep está muito satisfeita em perceber que a nossa infraestrutura de suporte, em termos de supervisão e de acompanhamento dos trabalhadores no terreno, funciona e é ágil.

O que é que estamos a aprender com a Rekeep? O profissionalismo, muito rigor nos procedimentos internos e nas próprias metodologias de trabalho, uma alavancagem grande em termos de acesso a tecnologias de informação para recolha de dados, e análise de informação financeira, que é muito relevante para que se tomem boas decisões.

Os vossos três mil trabalhadores em Portugal estão a ter algum tipo de atualização de competências e de formação?

Temos um plano de formação anual, que é dado de forma contínua. O nosso setor era conhecido tradicionalmente por ser um setor manual, muito assente na mão de obra das pessoas, da prestação individual do trabalho.

Esta vertente não vai desaparecer, mas há aqui uma entrada em força da tecnologia na prestação de serviços, tanto no acompanhamento da operação, como na própria operação de limpeza das infraestruturas, dos hospitais, dos locais mais sensíveis. Estamos também a fazer um investimento grande nessa parte tecnológica.

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