“Se o Benfica continuar a perder 15 milhões por ano, está falido em quatro anos”

José Theotónio, futuro CFO da SAD do Benfica se Noronha Lopes vencer as eleições, promete dedicar-se a 100% ao Benfica, atingir 35 milhões de resultados operacionais e cortar 100 milhões no passivo.

As eleições do Benfica decorrem este sábado, 25 de outubro, num escrutínio que se anuncia como o mais concorrido dos 121 anos de história do clube encarnado com seis candidatos à cadeira do poder.

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À espera da nova administração estará, desde logo, um passivo superior a 500 milhões de euros e uma dívida líquida da SAD de quase 197 milhões euros para controlar e baixar, a bem da sustentabilidade financeira do Benfica. Ao ECO, José Theotónio, atual CEO do Grupo Pestana e candidato a vice-presidente financeiro do Benfica pela lista de João Noronha Lopes, assume esse compromisso e uma dedicação inequívoco com a gestão das águias. “No Benfica é a 100%, é a tempo inteiro.”

O gestor, que lidera o maior grupo hoteleiro português com operações em 16 países e uma faturação superior a 650 milhões de euros, revela que prepara-se para transitar para funções não executivas no Pestana e assumir em pleno funções no clube e também desempenhar as funções de CFO da SAD. “Se ganharmos, no dia 25, começarei a criar as condições para poder estar no Benfica em pleno”, garante.

No cardápio, José Theotónio leva um controlo rigoroso dos custos operacionais, particularmente nos Fornecimentos e Serviços Externos (FSE) que, segundo as suas contas, aumentaram 55% nos últimos quatro anos e já ultrapassam os 100 milhões de euros. É nesse sentido que se compromete com uma redução de pelo menos 15 milhões de euros nos custos anuais e a baixar o passivo em 100 milhões de euros nos próximos quatro anos.

Nas receitas, projeta valores acima dos 40 milhões de euros anuais nos direitos televisivos para as próximas duas temporadas, antes da centralização, montantes “ligeiramente superiores aos valores atuais” e resultados operacionais acima dos 35 milhões de euros logo no primeiro ano de funções, sem contar com as transações de atletas.

José Theotónio, CEO do grupo Pestana e candidato a vice-presidente financeiro da lista de Noronha Lopes à presidência do Benfica, em entrevista ao ECO Hugo Amaral/ECO

Candidata-se a vice-presidente do Benfica para a área financeira. Será também o CFO da Benfica SAD?

Sim. Já foi anunciado pelo João Noronha Lopes e está isso combinado desde o início. Desde o início, quando começámos a falar, e já falamos há muito tempo sobre este projeto. E desde o início que está afirmado exatamente isso.

Ou seja, vai assumir tanto a área financeira e a responsabilidade financeira do clube como da SAD. Neste momento, é CEO do grupo Pestana, o maior grupo hoteleiro português que fatura mais de 650 milhões de euros e está presente em 16 países. O Benfica também é uma grande empresa, mas é uma empresa que neste momento enfrenta um passivo superior a 500 milhões de euros, uma dívida de quase 200 milhões de euros da SAD. Tanto uma como outra estrutura exigem dedicação total. Como é que irá conjugar estas duas situações?

O que está combinado com o João [Noronha Lopes] é, se ganharmos, e assim que ganharmos, no dia 25, eu começarei a criar as condições para poder estar no Benfica em pleno.

Isso significa passar a funções não executivas no grupo Pestana e executivas no Benfica?

Por exemplo. É criar as condições para estar no Benfica em pleno. Pode passar por aí.

Poderá passar por outro modelo que não seja abdicar das funções executivas no grupo Pestana?

No Benfica é a 100%, é a tempo inteiro.

Esse processo será imediato? Já existe um plano definido para essa transição?

Se é esta a intenção, depois temos que a pôr em execução. As coisas demoram o seu tempo, até porque assumir a SAD não é no imediato. Primeiro são as eleições do clube, depois tem de haver a alteração da administração da SAD. Há aqui um passo de tempo e espaço, mas é esse o objetivo.

Há cerca de um ano, numa entrevista à Antena 1 e ao jornal de Negócios, disse que não se importava de ter funções menos executivas no grupo Pestana. É desde então que vem a estudar essa possibilidade?

Não queria falar muito do grupo Pestana porque estamos aqui para falar do Benfica. Mas o grupo Pestana tem uma equipa fantástica e fabulosa. Eu costumo dizer que hoje trabalho muito menos lá do que trabalhava no início, porque tenho uma equipa que é espetacular e que faz isso. Mas de qualquer maneira, isso que disse e é bem, funções menos executivas.

É muito importante sabermos como vamos priorizar aquilo que são os investimentos e onde é que podemos aplicar para ter sucesso desportivo, porque é isso que mais importa ao Benfica.

Falemos então do Benfica. Quais serão as três principais medidas no campo financeiro que conta colocar em marcha assim que iniciar funções?

Estão nas 10 medidas que foram apresentadas pelo João Noronha Lopes como as primeiras dos primeiros 100 dias. E nestas há três que são claramente da área financeira. Desde logo a primeira, que é a auditoria, que é uma medida de gestão que é normal quando entra uma nova direção e, portanto, o que se quer fazer é conhecer em que situação em que o clube se encontra, para depois, a partir daí, poder planear.

Essa auditoria envolverá os últimos 10 anos?

Sim, será os últimos 10 anos, como tem sido anunciado. Depois de sabermos como estamos e de conhecer o clube por dentro, há a questão de elaborar um plano de negócios a 10 anos. E não é um plano de negócios para o imediato, é um plano de negócios de médio e longo prazo, com muitas das ideias que temos vindo a discutir e que precisamos de saber como é que estamos para depois saber quais são aquelas que são mais indicadas e no tempo que serão indicadas ou que serão efetuadas. E a outra, que também tem muito a ver com a área financeira, é o portal da transparência.

Eu trabalhei no Estado, na altura era chefe de gabinete do secretário de Estado de Turismo. Enquanto trabalhei lá, havia uma grande consciência que estávamos a tomar decisões e tudo aquilo que acarretasse custos eram custos dos portugueses, porque eram os portugueses que pagavam os impostos e nós os que estávamos a executar.

Isto vai ser importante no Benfica, porque o dinheiro que está no Benfica é dos sócios do Benfica. É muito importante sabermos como vamos priorizar aquilo que são os investimentos e onde é que podemos aplicar para ter sucesso desportivo, porque é isso que mais importa ao Benfica.

Mas sem uma sustentabilidade financeira não há sucesso desportivo no Benfica?

É muito difícil sem sustentabilidade financeira. Quando grande parte das receitas depende da venda de jogadores e dos prémios da UEFA e do matchday — e o matchday depende de como é que a equipa está a jogar –, o sucesso desportivo é muito importante para a sustentabilidade financeira. Mas temos de também ter condições em termos financeiros que permitam manter os melhores jogadores, não ter de os vender à primeira e poder, no fundo, comprar menos do que se compra hoje, e comprar jogadores que depois possam fazer a diferença e possam completar aquilo que é a nossa equipa.

Dois dos indicadores chaves na gestão do Benfica são a gestão do passivo e da dívida. O passivo do clube é superior a 500 milhões de euros e o da SAD ronda os 475 milhões (cerca de 80% do ativo), enquanto a dívida líquida da SAD no final do último exercício era de quase 197 milhões de euros. Que meta tem para o passivo e para a dívida nos próximos quatro anos?

O Benfica tem vindo a perder em termos de receitas operacionais, em termos médios, cerca de 15 milhões de euros por ano. E ao perder 15 milhões de euros por ano, o passivo vai aumentando, porque é a única forma depois de o financiar. Mesmo na época 2024/2025, cujas contas fecharam em junho, em que o Benfica, pela venda do João Neves, conseguiu ter resultados positivos…

Mas os resultados operacionais sem venda dos jogadores tiveram um saldo positivo na ordem dos 3,9 milhões de euros. Foi a primeira vez em sete anos.

Sim, foi a primeira vez em sete anos porque o Benfica teve o Mundial de Clubes, que é uma coisa que só acontece de quatro em quatro anos. Mas o que temos de fazer é equilibrar os resultados operacionais.

Como?

Quando vimos que os FSE (Fornecimento e Serviços Externos), entre o clube e a SAD já são superiores a 100 milhões de euros e cresceram cerca de 55% nos últimos quatro anos, há aqui, com certeza, espaço para diminuir. Nós não estamos lá dentro, mas o nosso objetivo é reduzi-lo em cerca de 15 milhões.

Pretendem reduzir os FSE em 15 milhões de euros?

Os custos em geral. E se nós conseguimos reduzir esses 15 milhões, já equilibramos o resultado. E então aí sim, podemos começar com as medidas que temos e aumentar a receita.

Como chegaram a essa conclusão?

Comparámos e fizemos uma análise comparativa com muitos outros clubes. E não foi com os Manchesters, nem o Arsenal, nem o Real Madrid nem o Barcelona. Comparámo-nos com clubes como o Lyon e o Marselha de França, o Nápoles e o Atalanta de Itália, os escoceses Celtic e o Glasgow, o Galatasaray e o Besiktas da Turquia, o PSV, o Ajax e o Feyenoord dos Países Baixos. E aos compararmos com todos estes clubes, vemos que para o clube que somos e para o número de adeptos que temos, estamos abaixo numa série de métricas que são muito importantes.

Quais?

Estamos logo abaixo nas redes sociais. As redes sociais são aquilo que hoje muito potencia o merchandising.

Mas isso é do ponto de vista da receita.

Mas é ai que temos de crescer.

O nosso objetivo é chegar aos 35 milhões de euros de resultado operacional. O nosso objetivo é começar de imediato, porque não podemos estar à espera de quatro anos. Se o Benfica fica, novamente, a perder 15 milhões por ano, nos próximos quatro anos está falido.

A administração atual do clube também tem o objetivo de aumentar a receita consolidada do clube para 500 milhões de euros em cinco anos, e por isso gostava que se centrasse na parte do controle de custos porque, recentemente, disse numa entrevista ao jornal A Bola que há “muita margem” para reduzir os FSE, nomeadamente os custos não ligados ao futebol. Quais as rubricas concretas onde pretende cortar?​

Há muito pouca informação sobre aquilo que são os custos específicos de cada componente. Há apenas o valor global dos FSE. E hoje não é prestada informação sobre os valores específicos. Assim, o que temos de fazer quando chegarmos ao clube é analisar. A auditoria é uma das ferramentas que nos vai ajudar, assim como os profissionais que estão no Benfica que, com certeza são bons profissionais a trabalhar em termos das suas equipas.

Quando fala que há margem para cortar nos FSE, a sua análise tem a ver com o forte crescimento que têm visto nesta rubrica?

Exatamente. Quando em quatro anos subo 45 milhões, há qualquer coisa que está a acontecer. Os custos estão a subir muito acima da inflação. É que estamos a falar de FSE e não de custos de jogadores. É que se esse aumento dos custos implicasse depois uma redução do nosso plantel em termos de qualidade, eu perceberia. Mas não estamos a falar de custos que têm a ver com isso. Tem a ver com custos correntes, que são gastos todos os dias. Daí a importância de percebermos que aquele dinheiro é dinheiro dos benfiquistas. É muito importante fazermos uma análise detalhada.

Olhando para as contas do último ano da SAD, em que se verifica um aumento homólogo dos FSE na ordem dos 7%, parece-lhe um crescimento demasiado elevado face às contas?

No acumulado dos quatro anos houve um grande exagero.

Estamos a falar de um valor acumulado de quase 80 milhões de euros da Benfica SAD.

Exatamente. Os 80 milhões da SAD mais os 20 milhões e poucos que há no clube, dão os 100 milhões que temos.

José Theotónio, CEO do grupo Pestana e candidato a vice-presidente financeiro do clube e CFO da Benfica SAD pela lista de João Noronha Lopes à presidência do Benfica, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Na componente da dívida líquida, que no final do último exercício atingiu quase 200 milhões de euros, como é que podem garantir aos benfiquistas que vai haver um controlo desta dívida?

A redução da dívida só se consegue de duas maneiras: ou aumentando o capital, que não estou a ver os benfiquistas a fazê-lo, ou através do equilíbrio das contas, nomeadamente entre receitas correntes e custos correntes. O nosso objetivo é exatamente começar a reduzir a dívida a partir do equilíbrio do resultado corrente. E por isso é que é tão importante baixar os custos — a estimativa que temos são os tais 15 milhões. Mas é também importante aumentar a receita, nomeadamente aumentar a receita naquelas rubricas que analisámos e que, nos clubes comparáveis, eles fazem muito melhor do que nós. Se fizermos também melhor e se atuarmos melhor no mercado, temos a possibilidade de aumentar essas receitas.

Qual é o objetivo em termos de resultados operacionais sem transações de jogadores?

O nosso objetivo é chegar aos 35 milhões de euros de resultado operacional.

Em quanto tempo esperam atingir essa meta? Nos quatro anos do mandato?

O nosso objetivo é começar de imediato, porque não podemos estar à espera de quatro anos. Se o Benfica fica, novamente, a perder 15 milhões por ano, nos próximos quatro anos está falido. É esta situação que não se pode manter. Isto é para fazer de imediato.

Compromete-se então a passar para 35 milhões de resultados operacionais sem venda de jogadores já na próxima época, quando entrarem em funções, considerando que nos últimos sete anos a Benfica SAD teve resultados operacionais negativos e as contas do último exercício fecharam com resultados operacionais positivos de 3,9 milhões?

Dê-me uma folga, porque já passou uma metade do ano. Portanto, vamos fazer um ano líquido. Se nós assumirmos a gestão do clube em finais de outubro ou princípios de novembro, depois fazemos as contas ao outro novembro. E aí sim. Estará nessas métricas. Agora, quando só temos seis ou sete meses, não sei se conseguiremos.

Hoje, o Benfica paga, de custos financeiros, cerca de 20 milhões de euros. 20 milhões de euros é o valor total das quotas que o Benfica cobra aos associados. Todos nós que andamos a pagar as quotas, o nosso dinheiro é para pagar juros do passivo financeiro.

Uma das medidas que anunciaram com efeito nos rendimentos operacionais passa pelo congelamento dos preços dos Red Pass. Isso significa que os preços, por exemplo, do corporate e de todos os outros lugares vão aumentar?

Exatamente. Até hoje, os erros têm sido pagos através do aumento dos preços dos Red Pass, que é o aumento mais fácil, mas que são os benfiquistas que sofrem. O que queremos é manter — porque o aumento já foi enorme nestes últimos dois anos e temos de viver com isso –, mas aumentando, sim, as outras receitas. Mas mesmo que o aumento do Red Pass fosse de 5% ou 10% não tem um impacto assim tão grande. O que tem um impacto grande é se conseguirmos aumentar aquilo que são as outras receitas do dia de jogo, seja as receitas pela melhoria da experiência do benfiquista e também na parte dos lugares corporate e dos executive seats.

Nos últimos quatro anos, o capital próprio da Benfica SAD caiu para metade, representando uma redução de 80 milhões de euros. Embora tenha recuperado para 116,3 milhões em 2024/25, ainda está abaixo dos 143,7 milhões de 2020/21. Qual é o plano para fortalecer a estrutura patrimonial do clube a médio prazo?​

O fortalecimento passa muito pelo equilíbrio das contas do clube. Se conseguimos não só ter resultados, e com isso aumentar o capital do próprio clube, podemos ir reduzindo o passivo financeiro, que é o mais importante. Se conseguirmos reduzir o passivo em 35 milhões, isso terá um impacto muito maior nas contas do clube, porque hoje, o Benfica paga, de custos financeiros, cerca de 20 milhões de euros. 20 milhões de euros é o valor total das quotas que o Benfica cobra aos associados. Todos nós que andamos a pagar as quotas, o nosso dinheiro são para pagar juros do passivo financeiro. Se conseguirmos reduzir o passivo financeiro, a cada 35 milhões de euros, temos mais uma poupança de quase 8% a 10%, porque é este o custo financeiro que o Benfica tem em função do passivo.

Os principais rivais do Benfica têm realizado um conjunto de operações de financiamento em larga escala junto de investidores internacionais. Este ano, o FC Porto colocou 115 milhões de euros junto de investidores institucionais americanos a 25 anos e o Sporting estará a montar uma operação de 225 milhões de euros nos mesmos moldes. Está nos seus planos desenvolver uma operação do mesmo género com vista a promover uma reestruturação financeira do clube?

Espero que o Benfica não chegue à situação de ter de fazer essas operações, ao preço e com as condições em que os outros clubes tiveram de fazer. A nossa situação financeira é melhor do que a dos outros clubes. O Porto tem capitais próprios negativos e o Sporting só agora passou positivos, depois de ter feito a operação das VMOC. Mas, se conseguirmos equilibrar as contas e os resultados operacionais, poderemos ter a oportunidade de ir reduzindo o passivo e então sim, podemos fazer alguns financiamentos de médio e longo prazo, mas com taxas de juro bem mais simpáticas do que aquelas que estão a ser pagas pelos nossos concorrentes.

As emissões obrigacionistas que a Benfica SAD tem feito para o retalho têm apresentado taxas de juro aceitáveis?

As do Benfica têm sido menores, mas se nós conseguirmos reduzir a necessidade, conseguimos reduzir também a taxa. Se tivermos de aumentar aquilo que é o montante dos empréstimos obrigacionistas, provavelmente a taxa vai subir.

José Theotónio, CEO do grupo Pestana e candidato a vice-presidente financeiro da lista de Noronha Lopes à presidência do Benfica, em entrevista ao ECO Hugo Amaral/ECO

Na gestão das contas do clube existe o papel dos investidores. Há uns meses, a Benfica SAD teve a entrada no seu capital da Leonor Sports Partners através de uma participação de 5% que foi construída fundamentalmente com ações de Luís Filipe Vieira que estavam penhoradas. Qual é a sua posição sobre estes novos acionistas?

Não o conhecemos. Este investidor estrangeiro não é conhecido e, obviamente, quando assumirmos a gestão da SAD será alguém com quem temos de falar para nos entendermos naquilo que é o melhor para o Benfica.

Parece-lhe que sejam “investidores estratégicos”, como pretendem captar para o Benfica, segundo expressam no programa eleitoral

Não tenho conhecimento e, portanto, não tenho nenhuma opinião. Mas alguém que estava disponível para investir como investiu, obviamente tem um interesse em melhorar o clube. Não tem interesse em destruir o clube, porque foram investimentos relevantes que foram feitos por parte desse acionista.

A administração de Rui Costa anunciou em setembro um programa de recompra de ações de 10% com base na liquidez que o clube for gerando. Irá manter este plano ou irá desistir dele?

Vejo com bons aos olhos este tipo de operação ficar consagrada, quer a compra de obrigações quer a compra de ações.

Mas não faz mais sentido utilizar esse dinheiro, por exemplo, para abater a dívida?

Sim. Mas a forma de abater a dívida é também comprar obrigações.

Certo, mas considerando apenas o plano de recompra de ações?

As ações não.

Significa que, caso de vençam as eleições, o plano de recompra de ações não irá para a frente?

Vai depender muito do preço, da própria evolução das ações. Imagine que, por qualquer razão, as ações baixam para um preço demasiado baixo que se torna apelativo fazê-lo para o Benfica. É melhor ter essa possibilidade do que não ter. Nesse sentido, não vejo que isso tenha sido uma má decisão.

O clube tem de ser sempre maioritário [da Benfica SAD]. Há uma linha vermelha, que são os 51%, mas esse não é o valor que queremos ter. Queremos manter valores sempre acima dos 60%.

No princípio da ideia de reforçar o capital do Benfica, há um investidor de referência no capital da SAD, José António dos Santos, que detém 13,7% do capital, e que já admitiu por várias vezes estar disponível para vender as suas ações pelo preço certo. A vossa administração tem planos para recomprar as ações deste acionista?

Pelos valores que o nosso acionista tem dito, não.

Os 12 euros.

Os 12 euros que ele tem referido não, pelo menos nesta fase.

Qual seria o valor justo?

Se fizermos um bom ajuste [das contas], tivermos um plano desportivo de sucesso e que consiga, no fundo, potenciar tudo aquilo que é receita, se calhar os 12 euros podem ficar baratos. Agora, nesta fase, acho que não.

No vosso programa falam da intenção de aceitar investidores minoritários desde que sejam estratégicos. Estão a assumir que sejam investidores na SAD ou também no clube?

Na SAD. O clube não. O clube é dos sócios e o objetivo é chegar aos 500 mil.

Nunca abririam o capital do clube?

Não.

E qual seria a participação máxima que aceitariam abdicar na SAD, dado o clube deter atualmente mais de 63% do capital?

O clube tem de ser sempre maioritário. Há uma linha vermelha, que são os 51%, mas esse não é o valor que queremos ter. Queremos manter valores sempre acima dos 60%.

O Benfica requereu a nulidade judicial do leilão que resultou na venda das ações de Luís Filipe Vieira à empresa Lenore Sports Partners, porque não foi notificado do direito de preferência do clube. Caso haja a possibilidade do Benfica adquirir essas ações, pretendem fazê-lo?

Depende dos preços que estejam em questão. Como digo, não conheço este acionista e, portanto, não sei quais são as suas intenções, mas se no Benfica está interessado em que o clube melhore. Não estou a fazer nenhum juízo de valor sobre o acionista. Mas, se houver a possibilidade do tal acionista estratégico, aquele que nos pode potenciar as vendas internacionais, levar-nos a mercados onde é mais difícil chegarmos, mas onde existem benfiquistas, pode ser algo que podemos encarar, seja numa compra [de ações] feita pelo Benfica para depois vender, seja até numa negociação em que os dois acionistas se entendam.

Um ponto central também para o Benfica nos próximos anos, nomeadamente em termos de receita, tem a ver com os direitos televisivos. Nos próximos dois anos o Benfica tem a possibilidade de negociar individualmente. A administração atual revelou que já tem duas propostas prontas a assinar. Qual é a vossa estratégia para os próximos dois anos em termos de direitos televisivos?

Como tem sido referido pelo João Noronha Lopes, esta é uma das medidas tomadas pela atual direção com a qual concordamos. Estando tão próximo das eleições, é melhor deixar que seja a próxima direção a fazer a análise e a tomar a decisão. Assim, quando assumirmos a gestão do clube, o que temos de fazer é analisar as propostas, ver se elas satisfazem aquilo que é, no fundo, a vontade do Benfica também e os direitos que o Benfica tem.

Em relação aos anos seguintes, tal como tem também sido dito pelo João Noronha Lopes, é que vamos fazer a defesa intransigente daquilo que é o Benfica, envolvendo-se novamente no processo – que, entretanto, se distanciou – para o liderar, porque não pode haver para o futuro uma redução daquilo que é o peso do Benfica e os valores do Benfica.

Da vossa parte existe também a possibilidade de, tal como o Rui Costa afirmou, abandonar a centralização dos direitos televisivos?

A centralização está por lei e as leis são para cumprir. Só que existem também outras leis, nomeadamente as leis da concorrência. Portanto, temos de ver esta lei em conjunto com todo o enquadramento legal que existe no país. A lei do futebol ou a lei da centralização dos direitos televisivos não é uma lei que se possa sobrepor a todas as leis que existem no país e temos de equilibrar isso, temos de estudar e temos de atuar num processo sério para tomar as posições e defender aquilo que é o peso do Benfica em termos do campeonato português.

No início da entrevista disse que analisaram muitos clubes na Europa. Deduzo que também tenham analisado o valor do mercado português. Acredita que o Benfica, para as próximas duas épocas (antes da centralização dos direitos televisivos) conseguirá obter valores para os direitos televisivos mais elevados do que os alcançados no último contrato?

Acho que consegue nestes dois primeiros anos. Na centralização tal como ela está proposta, muito dificilmente. Mas não conseguirá nem o Benfica, nem o Sporting, nem o Porto, nem o Braga e provavelmente nem o Guimarães. Portanto, haverá, na forma como ela tem vindo a ser enquadrada, se bem que seja ainda de uma forma muito pouco exaustiva, ou detalhada, se quisermos, mas muito dificilmente, com 18 clubes, obter os valores falados (300 milhões de euros).

Com que valores de direitos televisivos para os próximos dois anos estão a trabalhar no vosso plano estratégico?

Vamos ver as propostas que estão feitas, mas sim, o valor que estamos a trabalhar é um valor que é ligeiramente superior aos valores atuais.

Acima de 40 milhões?

Sim.

Nos dois anos?

Nos dois anos, 40 milhões em cada um dos anos.

É o sucesso desportivo que vai comandar o sucesso financeiro. Não nos interessa ter umas contas completamente impecáveis, acabar com o passivo, acabar com a dívida financeira e o clube não ganhar nada.

Caso vençam as eleições este sábado e com isso assumam a administração do Benfica, qual é o número ou os números que sobre os quais poderá ser definido o sucesso ou o fracasso da gestão financeira no Benfica dentro de quatro anos, em 2029?

O grande sucesso era quatro campeonatos, quatro taças, quatro supertaças, isso era o grande sucesso.

Isso é do ponto de vista desportivo. E do ponto de vista financeiro?

É o sucesso desportivo que vai comandar o sucesso financeiro. Não nos interessa ter umas contas completamente impecáveis, acabar com o passivo, acabar com a dívida financeira e o clube não ganhar nada. Isso não nos interessa. O que eu considero é melhorar bastante aquilo que é o nosso sucesso desportivo face aos últimos oito anos e, com isso, conseguir ir equilibrando as nossas contas financeiras e entregá-las bem melhor do que elas estão hoje.

Mas o que é que isso significa na prática?

Ter uma redução substancial do passivo.

De quanto? 10% ao ano?

Não. Ter uma redução substancial ao longo do tempo. Temos falado nos tais 100 milhões. Acho que é uma boa métrica.

100 milhões ao final dos próximos quatro anos?

Ter reduzido, pelo menos, os tais 100 milhões. Ter a parte dos custos não associados à receita controlados, porque custos que depois trazem receita adicional, podemos continuar. Isso é praticamente investimento, não é uma despesa corrente de todos os anos. É algo que estamos a investir hoje para ter mais receita.

Do ponto de vista de equilíbrio das contas, qual seria um rácio de equilíbrio entre custos e receitas?

É conseguirmos ter um resultado operacional positivo, que apontamos de forma cuidadosa e conservadora para os 35 milhões de euros. Mas nada em termos de contas é positivo se não conseguirmos ter sucesso desportivo.

E para isso é que contamos com a energia do João Noronha Lopes, que tem tido uma energia fabulosa desde há muito tempo, há muitos meses que anda a trabalhar com isso, que me conseguiu contagiar e conseguiu, no fundo, abraçar este desafio e contagiar uma equipa fantástica.

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