“Se os seguros multirriscos fossem obrigatórios seriam mais baratos para todos”

Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, explica como os riscos em Portugal estão a mudar. Do clima às reformas, a abordagem tem de ser outra.

Riscos novos e emergentes estão a tomar forma, e os velhos conhecidos em metamorfose tornando-se em novas incógnitas que analistas de riscos das seguradoras enfrentam. Em entrevista a ECOseguros, a atuária Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, explica como pensa neste novo mundo de incerteza. Fala também sobre as vantagens de adquirir produtos de seguro para poupança de longo prazo, o renovado papel da prevenção de riscos, e deixa a sua opinião acerca da obrigatoriedade do seguro multirriscos para construir um Fundo de Catástrofes.

As seguradoras querem acompanhar as pessoas ao longo da vida – através de seguros de saúde, apoio na reforma e apoio domiciliário nas fases finais. Considera que o risco de saúde e o risco de vida vão convergir no futuro?

Não. Apesar de existirem algumas coberturas partilhadas, iremos provavelmente atribuir maior importância a determinadas coberturas de risco Vida, nomeadamente as que protegem a incapacidade para trabalhar, dado que a longevidade tem vindo a aumentar. Nesse contexto, os seguros de vida terão um peso muito maior. Anteriormente, a perspetiva dominante era a da morte: “e se eu morrer, o que acontece?” Atualmente, a preocupação centra-se em viver mais anos sem as mesmas condições financeiras nem a mesma capacidade. O seguro de vida é encarado muito mais como uma proteção financeira do que o seguro de saúde, que responde a outro tipo de necessidades.

Então como vai funcionar o seguro de saúde?

O seguro de saúde deve funcionar como complemento ao Serviço Nacional de Saúde. As coisas têm mudado, sobretudo porque o Sistema Nacional de Saúde se tem degradado ao longo dos anos, o que tem levado a uma utilização crescente dos seguros de saúde e a que as pessoas recorram diretamente ao setor privado, algo que há alguns anos não acontecia.

São então seguros completamente diferentes?

São seguros complementares. Uma das questões que discutimos internamente – no âmbito de um programa dedicado à velhice e à longevidade – é precisamente como nos adaptar e como articular os dois mundos de forma conjunta. Poderão surgir algumas coberturas complementares de saúde no universo Vida, mas serão sempre domínios distintos, porque a prioridade das pessoas deve ser a proteção: “se eu não estiver cá, tenho de proteger a minha família”. Esse mindset ainda não está suficientemente enraizado. Quando as pessoas fazem um seguro de vida, fazem-no sobretudo por obrigação – associado a um crédito à habitação ou a um crédito pessoal -, e não tanto por consciência de que, na sua ausência, a família precisa de ver o seu rendimento garantido. Esta é a visão do seguro de Vida tradicional.

E quanto aos seguros de Vida financeiros?

No que respeita aos seguros de Vida financeiros, estamos perante outra realidade: é um seguro de poupança, uma poupança de médio ou longo prazo que deve ser constituída ao longo da vida ativa para compensar aquilo que a segurança social não assegurará, uma vez que a pensão de reforma será significativamente inferior ao salário atual. Nesse sentido, quanto mais cedo se iniciarem as poupanças e os PPR, melhor. Existe a perceção de que “o dinheiro fica preso”, mas é fundamental planear o futuro e garantir um equilíbrio entre poupança de curto prazo – com liquidez, através de produtos bancários – e a poupança acumulada para a reforma através de seguros.

Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, em entrevista ao ECO Seguros. “As empresas podem fomentar a poupança para a reforma através de modelos colaborativos com contribuição partilhada”.José Carlos Carvalho/ECO

Porquê comprar produtos de vida, quando existem produtos bancários, fundos de investimento, ETFs, etc.?

Os objetivos são distintos. O seguro tem um propósito de longo prazo – acumulação de poupança para a reforma -, com alguns benefícios fiscais associados. Os produtos bancários são, por natureza, produtos de curto prazo, orientados para a liquidez. Ambos devem coexistir: poupanças de curto prazo para necessidades imediatas e poupança de longo prazo para a reforma, iniciada o mais cedo possível, de forma a garantir o mesmo nível de vida face a uma pensão inferior ao salário atual.

Acredita que isso é suficiente para estimular a poupança?

Há muito a fazer. Não basta o papel das seguradoras – são também necessários mais incentivos. Sabe-se que quando os incentivos fiscais nos PPR eram mais elevados há uns anos, que eles eram mais vendidos. Há capacidade para investir mais, e as próprias empresas têm aqui um papel importante: o segundo pilar, o autoenrolment, é fundamental. As empresas podem fomentar a poupança para a reforma através de modelos colaborativos com contribuição partilhada. É um trabalho em curso, mas verificamos com satisfação que está na agenda da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Para que resulte, é necessário que os clientes percecionem maior rentabilidade no longo prazo nos produtos seguradores, em comparação com produtos de curto prazo dos bancos.

O que retém o cliente? O comodismo ou a perceção de que a rentabilidade final será superior?

É uma combinação de fatores, incluindo a confiança na solidez da seguradora. Mas creio que é sobretudo receio, porque os produtos mais rentáveis são também os de maior risco. Quando se investe a longo prazo, dever-se-ia investir mais em ações para obter maior rentabilidade. O problema é que, perante a volatilidade dos mercados – agravada pelos atuais contextos geopolíticos -, as pessoas tendem a desinvestir quando veem o valor do seu fundo diminuir, em vez de aguardarem a recuperação, que acaba por acontecer. Esta é, mais uma vez, uma questão de literacia financeira e também de cultura: os portugueses têm uma grande aversão ao risco.

Em relação à distribuição – bancos, mediadores e corretores -, existe a perceção de que quem comercializa estes produtos de longo prazo ainda prefere a venda de produtos mais simples?

A situação tem vindo a mudar. Comparando com há 20 ou 30 anos, houve uma evolução muito significativa nas redes de distribuição, com maiores exigências regulamentares em matéria de formação. O profissionalismo aumentou consideravelmente. Se a questão é se chegámos ao ponto certo? Não, há muito trabalho a fazer, até porque este é um domínio em permanente evolução. A formação dos distribuidores é um dos pilares da proposta de valor que oferecemos aos nossos agentes. Sem formação, não é possível esclarecer e orientar adequadamente os clientes. Há, contudo, abordagens distintas: a rede private, por exemplo, assenta numa lógica de venda consultiva, que visa identificar as necessidades do cliente e propor soluções adequadas. E aí vemos que efetivamente até o ramo de Vida tem uma grande expressão.

Os agentes têm perfis de venda diferentes?

Os agentes exclusivos, os agentes multimarca e a rede private têm perfis diferenciados. A rede private consegue identificar as necessidades dos clientes e transmitir-lhes o valor do investimento e do seguro de Vida. Mas o caminho é esse: é dar as ferramentas e permitir que os nossos agentes também consigam evoluir. Ou seja, não é uma questão de estar a vender por vender, mas vender aquilo que as pessoas efetivamente precisam.

As variáveis alteraram-se muito e é necessário uma adaptação constante. Os modelos têm de capturar continuamente as novas variáveis e considerar os múltiplos cenários possíveis. A gestão de risco assenta precisamente nisso: colocar vários cenários em cima da mesa e ir ajustando à medida que as coisas evoluem e surgem novas situações

Surpreende que não existam mais produtos, por exemplo, procurando uma poupança de cerca de dez euros por mês, dirigidos a jovens de 20 ou 30 anos com filhos, que assegurem um fundo mínimo em caso de morte acidental. Esse tipo de produtos não são promovidos e as pessoas não têm consciência deles…?

Precisamente, as pessoas não têm consciência. É a mesma lógica do “depois logo se vê”: as pessoas não tendem a antecipar o pior, assumindo que não lhes acontecerá. É um dos grandes problemas.

Em relação aos seguros de saúde, foram inicialmente concebidos para internamentos e cirurgias, e não para o ambulatório, consultas ou exames. O mundo mudou, e para quem calcula risco, as variáveis alteraram-se substancialmente?

As variáveis alteraram-se muito e é necessário uma adaptação constante. Os modelos têm de capturar continuamente as novas variáveis e considerar os múltiplos cenários possíveis. A gestão de risco assenta precisamente nisso: colocar vários cenários em cima da mesa e ir ajustando à medida que as coisas evoluem e surgem novas situações. O mundo está a mudar muito rapidamente, por isso é necessário estar atento não apenas aos riscos atuais, mas também aos riscos emergentes, sem histórico disponível, o que exige uma abordagem por cenários. A gestão de risco já não é apenas estatística. Há uma componente subjetiva e uma componente de construção de cenários, centrada na identificação do cenário mais provável.

Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, em entrevista ao ECO Seguros José Carlos Carvalho/ECO

Quais considera serem os cenários mais plausíveis em relação à segurabilidade dos riscos? São todos de natureza dramática?

De modo algum. Existe a obrigação de criar soluções que garantam a continuação da segurabilidade dos riscos. Ou seja, para que os clientes possam continuar a adquirir seguros. Para isso, é necessário reinventar os produtos. Um dos pilares essenciais é o da proteção, porque a única forma de garantir a sustentabilidade é trabalhar mais intensamente na prevenção e oferecer aos clientes as funcionalidades e assistências necessárias para que se preparem e evitem o sinistro. Isso é vantajoso para a seguradora e para o cliente: o seguro mantém-se segurável e a pessoa continua a poder pagá-lo.

Então o papel da prevenção é essencial?

As seguradoras têm uma responsabilidade nesse domínio. Na Ageas Portugal, já prestamos esse serviço às empresas: uma análise e avaliação de risco com definição de planos de ação para mitigação. Mas as seguradoras terão de assumir cada vez mais este papel educativo, incluindo a monitorização das manutenções realizadas, de forma a garantir que os riscos continuem seguráveis e que as pessoas consigam continuar a pagá-los.

A prevenção deve então ser premiada?

O princípio dos seguros assenta na mutualização dos riscos. Tal como acontece hoje, em que quem regista sinistros beneficia de quem não os regista, porque o prémio é calculado de forma global, incentivar a prevenção beneficia o conjunto. Pode existir algum tipo de benefício individual, à semelhança do bónus no seguro automóvel, mas o benefício é, acima de tudo, coletivo. De outro modo, a essência do seguro deixaria de existir.

Até porque pagar pela prevenção e ver o vizinho segurador a colher os benefícios no ano seguinte seria problemático…

Essa é a realidade. É como o fundo de catástrofes: haverá quem pague sem o utilizar diretamente, mas todos acabam por beneficiar.

A ideia de risco não segurável e de seguro inacessível é crescente?

Está muito relacionada com a forma como se faz a mitigação do risco. Observamos, e o recente ciclo de tempestades é um exemplo disso, que, de um prejuízo global estimado em quatro mil milhões de euros, menos de 20% estará coberto por seguros. Isso revela um protection gap muito significativo. Se esta tendência se mantiver, haverá cada vez menos riscos cobertos e os prémios começarão a aumentar. O grande objetivo é trazer mais pessoas para esta pool de mutualização. Em caso de sismo, a situação é idêntica: a maioria das habitações não tem seguro sísmico — ou não tem seguro de todo, ou não inclui a cobertura sísmica. A segurabilidade só se mantém com uma participação mais alargada.

O seguro multirrisco é muito abrangente e eu defendo que se deve analisar quais as coberturas efetivamente valorizadas pelos clientes – eliminando algumas e acrescentando outras.

 

Esta ideia de massa crítica remete para o fundo de catástrofes. Qual é a sua posição sobre a obrigatoriedade do seguro multirrisco?

Seria uma solução muito positiva.

Sendo obrigatório, o prémio acabaria por ser mais baixo?

Naturalmente. Com exceção do seguro de saúde – que as pessoas sentem cada vez mais necessidade de ter -, a maioria dos outros seguros é contratada por obrigação. O seguro de multirrisco habitação não é exceção: para além da componente obrigatória de incêndio, é frequentemente exigido no âmbito do crédito à habitação, e muitos bancos já requerem mesmo a cobertura sísmica. A obrigatoriedade é, por isso, a única forma eficaz de alcançar massa crítica. Beneficiaria toda a gente: as pessoas ficariam protegidas, o prémio seria mais acessível devido à maior mutualização dos riscos, e mais pessoas contribuiriam para o fundo de catástrofes. É o cenário ideal, ainda que existam vários fatores em discussão.

Com a obrigatoriedade do seguro multirrisco, seria também pertinente rever as coberturas disponíveis?

Diria que um alargamento das coberturas atuais, eventualmente. O seguro multirrisco é muito abrangente e eu defendo que se deve analisar quais as coberturas efetivamente valorizadas pelos clientes – eliminando algumas e acrescentando outras. Atualmente, o seguro multirrisco é, à semelhança do seguro automóvel, uma commodity, pelo que as pessoas tendem a valorizar mais o preço do que as coberturas. Caso o seguro se tornasse obrigatório, seria fundamental uma reflexão aprofundada para tornar o produto verdadeiramente adequado às necessidades.

E quanto aos capitais seguros? Por vezes o preço parece mais apelativo porque os capitais seguros são irrealistas.

É um dos temas críticos, e impõe um reforço significativo da literacia de seguros. É necessário explicar aos clientes que, por exemplo, um seguro associado ao crédito à habitação sem atualização do capital segurado pode revelar-se insuficiente em caso de catástrofe. As seguradoras têm um papel importante nesta área: na formação, na educação e na literacia dos clientes, em articulação com os distribuidores.

Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, em entrevista ao ECO SegurosJosé Carlos Carvalho/ECO

Passando para o risco automóvel: as grandes companhias começaram a confrontar-se com os veículos elétricos e, até há pouco tempo, tratavam-nos como veículos convencionais, apesar de os custos de reparação serem mais elevados. Está na altura de fazer essa distinção?

Já existe uma tarifa específica para veículos elétricos na Seguro Direto, suportada por dados disponíveis. É, contudo, um risco em constante evolução, acompanhando o ritmo da evolução tecnológica. Se por um lado a reparação dos veículos elétricos é mais cara, por outro a frequência de sinistros é menor, dado que estes veículos dispõem de sistemas de assistência à condução que contribuem para a prevenção de acidentes. A distinção de preço não é, por isso, tão evidente, dadas estas duas componentes e o efeito da mutualização.

E quanto aos riscos cibernéticos? Foi referido que as resseguradoras estariam este ano mais disponíveis para aceitar estes riscos.

No nosso caso trabalhamos com riscos cibernéticos, mas eles não têm grande expressão no mercado. Não é um risco que as empresas, nomeadamente as pequenas e médias, percecionem como prioritário. A nossa estratégia tem sido a de trabalhar com parceiros internacionais e posicionar o seguro não apenas como proteção, mas sobretudo como prevenção: um serviço de assistência que analisa os mecanismos de segurança implementados na empresa e recomenda medidas para reforçar a proteção. A questão não é se o risco vai concretizar-se, mas quando, dada a crescente exposição num mundo cada vez mais tecnológico. É um tema que carece de trabalho formativo e de literacia. No que respeita à posição dos resseguradores, não tenho conhecimento de alterações significativas na forma como estão a abordar este tema.

Os seguros são também uma questão de perceção: “não é essencial, depois logo se vê, não é prioritário.” É semelhante ao fundo de catástrofes – durante os anos em que trabalhei na ASF, e já lá vão mais de dez anos desde que saí, já se discutia o tema, na altura designado fundo sísmico, sem que nunca tivesse avançado. Espero sinceramente que agora avance.

A que atribui esta falta de tração? À falta de literacia ou a um desfasamento entre a perceção do cliente e a oferta disponível?

Não é uma questão da oferta. É mais uma questão de perceção: “não é essencial, depois logo se vê, não é prioritário.” É semelhante ao fundo de catástrofes – durante os anos em que trabalhei na ASF, e já lá vão mais de dez anos desde que saí, já se discutia o tema, na altura designado fundo sísmico, sem que nunca tivesse avançado. Espero sinceramente que agora avance.

Quanto à presença do grupo Ageas na Europa Central, na Ásia e noutras regiões, o histórico acumulado ajuda? Existem comportamentos em Portugal muito diferentes dos da Bélgica ou do Reino Unido, por exemplo?

Relativamente à Europa, não existem grandes diferenças. Os comportamentos são semelhantes e é possível seguir abordagens comuns. Relativamente à Ásia, trata-se de um mundo completamente diferente, mas que se revela útil, nomeadamente em termos de gestão de risco, principalmente quando falamos em termos de continuidade de negócio, porque têm experiência de terramotos. E, para fazermos um plano de continuidade e nos prepararmos para um eventual terremoto, os inputs e as vivências da Ásia são extremamente importantes. Mas, de resto, existe muito mais interação e partilha de boas práticas entre Bélgica, Reino Unido e Portugal.

E a Inteligência artificial, quais os riscos que apresenta?

A inteligência artificial é identificada como um risco, mas, curiosamente, não por má utilização. O risco identificado é o de não acompanharmos o ritmo do mercado na sua adoção. Num contexto em que as pessoas exigem respostas imediatas – quem comunica um sinistro quer uma resposta no próprio dia; quem submete uma despesa de saúde quer receber o reembolso no dia seguinte -, a inteligência artificial é essencial para acelerar os processos e melhorar a capacidade de resposta. É aí que reside o seu grande valor, para além dos ganhos de produtividade individual.

E na previsão de riscos e análise exaustiva de dados?

Sem dúvida. Já utilizamos modelos de inteligência artificial – em deteção de fraude, modelos preditivos e pricing. Não é uma novidade. Quanto à confiança nos resultados, é necessário testar continuamente. Uma das preocupações, que já existia com a automação, é a tendência para assumir que, uma vez automatizado um processo, não é necessário continuar a supervisioná-lo. Há sempre necessidade de controlo e o princípio do human in the loop deve ser sempre aplicado. Não é possível confiar cegamente: é necessário testar regularmente e questionar os resultados apresentados.

E quanto às suas preocupações relativamente à imprevisibilidade do risco no futuro?

O que mais preocupa são sempre os fatores externos que não é possível controlar. O ritmo acelerado das mudanças obriga a uma atenção constante, à construção de cenários e à capacidade de tomar decisões rápidas. O que é válido hoje pode deixar de o ser dentro de um mês. A grande preocupação é garantir que existem os mecanismos necessários para acompanhar e controlar essa evolução e, sempre que possível, transformá-la em oportunidades. Os riscos estão muito interligados, a pandemia demonstrou-o: a perturbação das cadeias de abastecimento, a inflação, o aumento dos custos em saúde e nos componentes automóveis foram tudo consequências disso.

Sente que a sua profissão também mudou? Já não passa o tempo fechada num gabinete a fazer cálculos?

Não. E, por vezes, tenho saudade disso. A profissão tornou-se também mais comercial, embora tudo dependa do contexto – não é uma questão de preto ou branco. Gostava de ter tirado o curso hoje porque sinto que há muito mais ferramentas do que quando tirei o curso. Na altura nem sequer existia o Excel. As ferramentas disponíveis atualmente são muito mais poderosas, o que o tornaria ainda mais estimulante. Mas a exigência também é crescente, as fontes de dados são imensas e surgem novos condicionalismos, como a proteção de dados, que limita o acesso a determinada informação. O mundo mudou, mas a essência do atuariado permanece.

Vanda Antunes, membro da Comissão Executiva e Chief Risk Officer do Grupo Ageas Portugal, em entrevista ao ECO SegurosJosé Carlos Carvalho/ECO

Quanto ao “direito ao esquecimento”, quais são os principais obstáculos?

O que falta é regulamentação, nomeadamente uma lista definida de doenças abrangidas. Sem essa lista, a interpretação da lei é muito difícil. É necessária uma regulamentação prática que esclareça que tipo de doenças se enquadram no “direito ao esquecimento”. O cancro é o caso mais evidente, mas há outros. E o que constitui um risco de saúde mitigado? A ambiguidade na interpretação da lei é o principal problema.

Há uma comissão encarregada de construir essa tabela, e a própria APS apresentou uma proposta de regulamentação…

Mas estes processos demoram o seu tempo. Não sei quando haverá novidades. O problema imediato é que, se um cliente invocar o “direito ao esquecimento”, não é possível recusar. Aceitamos, mas o problema coloca-se no momento do sinistro: em caso de morte, ao recolher informação mais tarde pode concluir-se que a situação não era efetivamente abrangida pela lei. Isso pode ser interpretado como falsas declarações e, depois, os beneficiários têm um susto na altura. Neste momento, ainda não existem casos de sinistro ao abrigo do “direito ao esquecimento”, mas é um tema que nos preocupa para o futuro. É fundamental delimitar quais as situações abrangidas, para que as pessoas saibam quando podem ou não invocar este direito.

Considera possível alcançar clareza nessa regulamentação?

Com uma lista de doenças definida, sim. Existe essa expectativa e é fundamental que se concretize.

  • Carolina Neves Carvalho

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