“Se Portugal tivesse sido crítico de Infantino, nunca teria oportunidade de organizar o Mundial”

Miguel Poiares Maduro, ex-presidente do Comité de Govenança da FIFA acredita que há pessoas na FPF que acreditam que a FIFA poderia ser gerida de outra forma, mas não o podem dizer publicamente.

O ex-ministro e atual dean da Católica Global School of Law, Miguel Poiares Maduro, acredita que a FIFA funciona numa “lógica transacional“, ou seja, oferece benefícios como dinheiro ou o direito de organizar eventos em troco de votos e lealdade que mantêm os líderes da organização no poder. “Não há alternativa”, diz ao ECO no dia em quem que começa o Mundial 2026.

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Portugal faz que não tem alternativa a fazer como fazem todas as outras federações“, diz Poiares Maduro, que liderou o Comité de Governança da FIFA em 2016-17 antes de ser afastado, em conflito com o presidente Gianni Infantino, que acusa de tentar gerir a organização de forma pouco (ou nada) democrática, como “um cartel político”.

Se Portugal tivesse sido crítico de Infantino, nunca teríamos a oportunidade de organizar o Campeonato do Mundo, afirma sobre o evento que o país vai acolher em 2030 em conjunto com Espanha e Marrocos. Poiares Maduro diz que tem boa impressão até do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, e acredita que os responsáveis portugueses estão entre os que, “não podendo fazer nada, pelo menos têm perceção dos problemas e acolheriam bem reformas vindas do exterior que obrigassem à correção desses problemas”.

Portugal tem alinhado com o mandato de Infantino. O país tem mediatismo no futebol, naturalmente por causa do Cristiano Ronaldo, mas também com a própria seleção que é uma do top 10 no mundo e com jogadores muito valiosos. Como é que vê a política da Federação em relação à FIFA?

Portugal faz que não tem alternativa a fazer como fazem todas as outras federações. Tenho uma boa impressão até do presidente da nossa federação. Acho que há vários responsáveis do futebol, a nível global, e de várias federações, incluindo na Europa, embora não todos, mas há alguns, que gostariam que as coisas fossem diferentes. Mas sabem que elas não podem ser diferentes. Na verdade, são pessoas que gostariam… Alguns deles já me disseram que gostariam que houvesse alguma intervenção pública, porque sabem que de outra forma não vão acontecer mudanças.

Atenção que esta intervenção pública, para mim, não é uma intervenção de os governos ou a União Europeia começarem a governar e a regular o futebol. Não, é apenas garantir um conjunto de condições que promovam a boa governação dentro dessas organizações desportivas internacionais.

O que seria essa intervenção, então?

Por exemplo, primeiro, uma separação clara, pelo menos dentro destas federações, entre o seu papel como regulador e o seu papel como operador económico e comercial. Em segundo lugar, impor condições de alteração do processo eleitoral para que ele seja mais representativo, mais aberto, quebrar o cartel político que neste momento domina a FIFA, e seja íntegro, e desde logo, por exemplo, também não discriminatório das mulheres. Em terceiro lugar, garantir que os órgãos supostamente independentes, como era o caso do meu, são verdadeiramente independentes e não aquilo que acontece hoje, que estão na dependência política, e portanto não têm verdadeira independência.

Essas três alterações, a imposição de condições sistémicas na governação, não apenas da FIFA, o Comité Olímpico Internacional também tem sérios problemas, essas alterações seriam, do meu ponto de vista, muito importantes e fundamentais. E eu acho que muitas pessoas no mundo do futebol, quero acreditar também na Federação Portuguesa de Futebol, estariam de acordo com isso. Não o podem é dizer. Se Portugal tivesse sido crítico de Infantino, nunca teríamos a oportunidade de organizar o Campeonato do Mundo. Sejamos claros, nunca nos teria sido atribuído o Campeonato do Mundo.

Infantino decidiu por ele a criação de um prémio da paz, decidiu quem é que o ia receber e atribuiu, em nome de todo o mundo do futebol. Isto é típico de um autocrata num caso extremo, não é? E nada lhe aconteceu, claro.

Há sempre transações.

É uma lógica transacional, é como funciona. Não há alternativa. Eu quero é acreditar que os responsáveis portugueses estão entre aqueles que, não podendo fazer nada, têm perceção dos problemas e acolheriam bem reformas vindas do exterior que obrigassem à correção desses problemas. É isso que eu gostaria de acreditar.

É interessante que classifique o cenário como cartel político. É um oligopólio que controla de forma muito poderosa o universo do futebol?

A FIFA e o mundo do futebol invocam uma legitimidade de baixo para cima. Dizem, nós somos representantes de todo o mundo do futebol. Na realidade, aquilo funciona de cima para baixo. Pelo menos no Comité Olímpico Internacional isso é mais transparente, porque a regra de seleção para o Comité Olímpico Internacional é puramente endogâmica. Eles próprios escolhem quem os serve. Que é uma coisa extraordinária. E dizem representar o mundo todo de desporto, mas pronto, é o que é.

Miguel Poiares Maduro, Dean na Católica Global School of Law, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

Na própria condução da presidência de Infantino, também já li a crítica que é muito top end. Não só a FIFA é dominada por poucos países, mas também lá dentro Infantino manda em tudo.

Manda em tudo. Pela tal razão que eu disse. O único momento em que não aconteceu assim foi quando a estrutura de poder implodiu em 2015. Mas quem é que estava disponível para tomar o poder nessa altura? Pessoas, não da mesma importância dos anteriores, mas que partilhavam da mesma cultura. Portanto, eles rapidamente reconstruíram a mesma forma de poder. E é uma forma de poder, como já disse um famoso ex-vice-presidente do Comité Olímpico Internacional, quase monárquica e absolutista, em que o modelo das instituições tradicionais é um modelo de poder absoluto do presidente.

Aliás, veja-se, Infantino decidiu por ele a criação de um prémio da paz, decidiu quem é que o ia receber e atribuiu, em nome de todo o mundo do futebol. Isto é típico de um autocrata num caso extremo, não é? E nada lhe aconteceu, claro. Repare, há um comité de ética que, em princípio, lá está. Deveria, mas não controla nada. Houve queixas, nunca saberemos o resultado dessas queixas. Isso ficará para sempre para lá enterrado na FIFA e nunca saberemos nada.

Última pergunta. Acha que vamos ver Cristiano Ronaldo, Infantino e Trump no mesmo palco de vitória no dia 19 de julho?

Eu ontem [segunda-feira] participava num painel organizado pela Organização dos Jornalistas Estrangeiros nos Estados Unidos da América com o Simon Kuper do Financial Times e com uma outra especialista de governação canadiana que também esteve na FIFA durante um período curto e viveu uma experiência semelhante à minha. E ela dizia que a verdade é que nós fazemos esta avaliação de organização, mas depois quando chegam os jogos vibramos com essa paixão do futebol e vai ser o mesmo comigo e portanto se isso acontecer eu estarei aos saltos já em frente à televisão ou um painel num sítio qualquer aí a gritar pelo Ronaldo e por Portugal enquanto recebemos a taça. E gostaria muito que assim fosse.

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