Matt Hancock é secretário de Estado da Inovação do Reino Unido. Em entrevista ao ECO, falou do Brexit, de Londres e da forma como Lisboa pode crescer.
É o primeiro membro do Governo britânico a ter ganho uma corrida de cavalos no Newmarket July Course, em agosto de 2012. Matt Hancock é o secretário de Estado britânico com a pasta da Inovação e do Digital. Em Lisboa, a participar no Web Summit, veio testemunhar a maior participação de startups estrangeiras no evento: num ano em que a atualidade britânica dificilmente foge do ‘tema’ Brexit, o ecossistema do Reino Unido está representado por 191 startups britânicas.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
O que lhe parece Lisboa?
Adoro a energia da cidade. E este é, provavelmente, o maior encontro de tecnologia e digital da Europa, e então acabam de me dizer que o maior fluxo de pessoas aqui vem do Reino Unido. É incrivelmente importante que tenhamos muitos empreendedores tecnológicos, porque aprendemos com todas as pessoas que conhecemos.
António Costa disse isso na abertura do Web Summit, sabia?
Que aprendemos com todos os que conhecemos? Mas é verdade. Incluindo pessoas com quem nunca falei, pessoas com quem não estou há muito tempo, etc.
Quais são as principais diferenças entre os ecossistemas de Lisboa e do Reino Unido?
O ecossistema empreendedor do Reino Unido é mais maduro, está a ser construído há mais tempo. Mas a minha atitude essencial nisto tudo é que acredito profundamente que uma Lisboa mais forte vai significar uma Londres mais forte. Isto não é um jogo de competição, todos beneficiamos com o sucesso de todos. Temos de comunicar mensagens de que o Reino Unido está aberto para negócios, a indústria tecnológica britânica tem crescido muito rápido nos últimos tempos, acompanhando o crescimento da Europa e do resto do mundo. Apesar das muitas incertezas, assistimos a uma dinâmica real. De cooperação e de colaboração.
"Apesar das muitas incertezas, assistimos a um real momentum. De cooperação e de colaboração.”
O que pode Portugal aprender com a experiência britânica?
Podemos aproveitar uma característica a que chamo ‘curadoria do ecossistema’. Isto significa fornecer uma boa plataforma para os negócios poderem crescer, expandir-se. Não se trata só de leis e de regulação. É também sobre fazer com que as pessoas queiram trabalhar aqui e tornar essa decisão aprazível. Que haja um mix de talento que torne as coisas apetecíveis. Tentámos fazer isso em Londres e acho que Portugal também tem tido resultados nesse sentido.
Com mais sol?
Também (risos). Uma das coisas que mais admiro em Portugal é a arte de combinar o melhor do antigo com o melhor do novo. Também tentámos fazer isso no Reino Unido — são ambos países com uma longa história. E nada melhor ilustra essa ideia do que uma cidade como Lisboa acolher uma conferência deste tipo.

Qual poderá ser o impacto do Brexit no ecossistema empreendedor do Reino Unido e, também, na Europa?
Estamos determinados em assegurar que conseguimos manter uma profunda e forte relação com as startups. Estamos a trabalhar de perto com o Governo português e com outros para conseguirmos manter relações bilaterais fortes. Claro que manter o fluxo destas empresas depois do Brexit é muito importante para toda a economia da União Europeia e, isso é uma parte importante das discussões. É importante que consigamos reter e ter acesso ao melhor talento.
Desde o Brexit, tivemos o melhor primeiro semestre do ano da história do investimento tech.
Mas a natureza da revolução tecnológica e da inovação é transcender fronteiras. E, de facto, a revolução tecnológica é a única coisa no Reino Unido que é maior do que o Brexit. Existem sondagens que atestam que há mais startups agora do que antes da decisão do Brexit, grandes investimentos. A Google, Apple, IBM e o Facebook, por exemplo, anunciaram investimentos depois do anúncio. E, desde o Brexit, tivemos o melhor primeiro semestre do ano da história do investimento tech. O cenário tech está a crescer mais do que nunca. Acho que a colaboração e a cooperação que vão contaminar. A revolução digital é maior do que o Brexit. E há enormes oportunidades que vêm com ela.

Quais serão os próximos passos para impedir que mais empresas anunciem saídas e para atrair novo investimento para o Reino Unido?
Temos tomado alguma decisões: por exemplo, tornar mais fácil a contratação de pessoas, incentivos fiscais para investidores. Começámos também o British Business Bank, um capital de risco detido pelo Estado. Estamos a expandir o valor disponível mas tem sido um enorme sucesso. E, dependendo do capital que está disponível para os investidores e para as startups, acontece muito as pessoas terem exits, que depois investem noutras startups. E isso demora uma geração para construir uma profunda disponibilidade de capital.
Planeiam criar algum tipo de parceria para aproximar os ecossistemas do Reino Unido e de Portugal?
Gostaríamos muito. Já temos boas sinergias entre Portugal e o Reino Unido porque há fortes ecossistemas em ambos os casos, a crescer, estamos no mesmo fuso horário, temos muitas complementaridades.
Então, o que podemos fazer juntos?
Gostava de falar mais com o Governo português nesse sentido. Trata-se de fazer a curadoria do ecossistema. Venho do setor da tecnologia: trabalhei no negócio da minha família — que foi uma startup quando eu era pequeno — e o meu primeiro trabalho foi resolver nessa área. Sei que o nosso papel é tornar o ecossistema mais forte enquanto o Governo aparece com as respostas. A questão é juntar as pessoas, gerar as conexões que levam a novas ideias. E depois, coisas incríveis acontecem. E são feitas pelos outros.
Se pensarmos na quantidade de diferentes ligações entre empresas e investidores, portugueses a trabalhar no Reino Unido e britânicos aqui, startup hubs nos dois países — o caso do Second Home –, por exemplo, são estas ligações que tentamos potenciar e apoiar. Não tanto financeiramente mas, sobretudo, de maneira entusiasta e de apoio quando há barreiras. Tentamos juntar-nos e construir pontes.
Quais são as maiores tendências de tech hoje?
Tal como disse na última pergunta, podia responder que não me cabe a mim dizer isso. Mas é um pouco evidente que as técnicas de big data, assim como a Inteligência Artificial, e a realidade aumentada são algumas das grandes tendências. Dois anos atrás, diria que tecnologias como o blockchain não estariam totalmente desenvolvidas. Do ponto de vista do Governo, as tecnologias geraram e requerem um enquadramento específico, legal, no qual podemos trabalhar. Mas também queremos estar abertos a novas tendências. Quando entrei no Governo, aquilo que mais me espantou foi perceber o pouco que eu sabia, e tentar construir um ambiente onde as pessoas podem inovar e tentar encontrar as respostas.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Secretário de Estado britânico: “Lisboa mais forte vai significar uma Londres mais forte”
{{ noCommentsLabel }}