“Só saberemos se a IA é uma bolha financeira quando estourar”

Bruno Moura Fernandes é responsável em Paris pelos economistas de Investigação Macroeconómica da seguradora de crédito Coface. Prevê riscos políticos, económicos e sociais em 200 países do mundo.

Apesar da turbulência todos os dias renovada na geopolítica mundial, os economistas da seguradora de crédito francesa Coface, que garante pagamentos em 200 países por todo o mundo, estão otimistas em relação ao desempenho económico mundial. Portugal não é preocupação. Bruno Moura Fernandes — francês que fala português e ainda visita Montalegre, origem da sua família — é Responsável pela Investigação Macroeconómica da Coface. À margem da conferência Risco País, organizada pela Coface, em Paris, foi entrevistado por ECOseguros.

Nas suas previsões, a Coface questiona se 2026 será o momento da verdade para a economia mundial…

Estamos a ver uma economia mundial que está a aguentar bastante bem, estamos com uma estabilização do crescimento económico, em 2025 foi 2,8% de crescimento mundial, como em 2024, e este ano estamos a prever 2,6%. A desaceleração resulta sobretudo da China, os outros vão estabilizar.

Estabilização apesar de riscos muito importantes? Vemos materialização de tensões comerciais, tensões geopolíticas…

O risco geopolítico, se calhar, ainda vai ser mais importante. Tensões comerciais podem acontecer porque Trump é imprevisível, mas para já há um impacto económico limitado.

Falou-se aqui que a IA e o investimento em defesa na Europa e nos Estados Unidos vai aumentar e será o motor de crescimento. Mas já colocam a hipótese de existir uma bolha como a da Internet e do subprime e que o risco financeiro aumente?

O problema é ser difícil saber se é uma bolha ou não. Em geral, só sabemos quando já explodiu. Estamos a ver uma dinâmica extraordinária da IA. O que alertamos é que há muito investimento, esses investimentos significam uma projeção de rentabilidade muito alta e, se não houver essa rentabilidade, vamos ter uma correção.

O problema é que IA não entregou…

Ainda não entregou! Está-se a investir cada vez mais, todos os anos as empresas estão a investir ainda mais do que tinham prometido, é a única vez no mundo em que estamos a ver as empresas dizerem vamos investir tanto e afinal investem ainda mais. Bem, temos uma dinâmica muito forte e, claro, sem rentabilidade para já.

Bruno Moura Fernandes: “as importações alemãs vão subir, sobretudo porque os investimentos vão ser feitos em infraestruturas e no gasto em despesas militares e de defesa e os alemães não vão conseguir produzir tudo”.

Não se concretizando a rentabilidade nessa escala poderá existir uma crise como a da Internet em 2000 e subprime em 2008?

Temos riscos mas a verdade é que os atores são diferentes, comparando com outras crises. Os investimentos agora são feitos por gigantes que têm muito dinheiro e não estão a pedir empréstimos para isso. Em 2000, os investimentos eram basicamente empréstimos para depois investir, e foi a razão do desencadear da crise.

Prevêem um bom ano para as matérias-primas?

Sim, porque as colheitas em geral de matérias-primas foram boas, nos cereais especialmente, o que leva a preços mais baixos. Do lado da energia, vemos claramente o mercado do petróleo, muito abastecimento, muita produção. Há mesmo um superavit de produção porque o Brasil, Guiana e Estados Unidos estão a produzir mais e a procura mundial não é tão dinâmica pela menor procura especialmente na China. Então temos uma procura ainda lenta e uma produção que está a crescer, por isso pensamos que os preços normalmente vão baixar para 60 dólares por barril, comparando com 68 no ano passado. No gás é igual, temos muitas capacidades que estão a entrar agora em operação. Na crise de 2022, todos investiram em novas capacidades, por isso vamos ter essa maior capacidade.

Há ameaça de conflito no Irão…

Sim, essa é a exceção à análise. Se temos uma guerra com o Irão, que bloqueie o estreito de Ormuz, onde passa 20% do consumo mundial de petróleo e de gás mundial, vamos ver os preços a subirem muito.

Cerca de dois anos depois das crises logísticas, durante a pandemia e no Suez, previa que podia haver um movimento de investir near shoring, trazer a produção ocidental para mais perto dos mercados. Confirma-se?

Sim, as cadeias de abastecimento e de produção a nível mundial estão a mudar, estamos a ver uma diversificação em alguns países, especialmente nos Estados Unidos, que já não importam tanto da China. Pelo menos diretamente, talvez através do resto da Ásia, como pelo Vietname, Malásia, Indonésia ou Tailândia. São produtos chineses que passam destes países. É uma pergunta, não temos as provas, mas quando vemos os fluxos é provável que a dependência da China continue. No entanto, vemos investimentos muito fortes na Índia, nos países do Golfo, Ásia, mas ainda assim as cadeias de produção dependem muito da China.

Entretanto, esperam 1% de crescimento para a Alemanha.

E um crescimento estável mas, se pensamos como crescia a Alemanha antes da pandemia, era muito mais forte, era o motor da Europa. Agora estamos a ver um crescimento de 1% e estamos contentes, pelo menos já não estão a estagnar, já não estão na recessão que tinham em 2023 e 2024. É uma boa notícia porque as importações alemãs vão subir, sobretudo porque os investimentos vão ser feitos em infraestruturas e no gasto em despesas militares e de defesa e os alemães não vão conseguir produzir tudo. Vamos ter normalmente mais importações alemãs de outros países. Mas, é verdade que agora as estimativas de crescimento potencial na Alemanha já são só 0,5% por ano. Esse estava a ser um crescimento muito baixo que não dá muita margem para a Europa crescer. É uma boa notícia, mas 1% ainda é um pouco lento para o que era a Alemanha.

Vemos em Portugal e Espanha um crescimento da população ativa e há muita imigração nesse crescimento. Então, sim, está a ajudar muito esses dois países no curto prazo. Também estamos a ver contributos dos fundos europeus e o turismo também continua a ser bastante dinâmico. Por isso, a curto prazo, as perspetivas da economia portuguesa são positivas. Não vemos razão para que tenhamos um abrandamento.

E Portugal e a Península Ibérica?

Muito bom, os dados de crescimento são muito sólidos, tivemos o quarto trimestre em Portugal muito sólido, 0,8% outra vez de crescimento trimestral, no ano crescemos 1,9%. Para 2026 as nossas previsões são de 2,4%, muito acima do que vimos com França, Itália e Alemanha. Espanha é igual, ainda estão a crescer mais – 2,9% no ano passado, 2,5% este ano. Por razões bastante parecidas, ou seja, a imigração, pois estamos a ver o consumo das famílias a subir muito, a ser muito dinâmico, ao contrário do que está a acontecer no resto da Europa.

A imigração é um fator positivo para a economia?

Vemos em Portugal e Espanha um crescimento da população ativa e há muita imigração nesse crescimento. Então, sim, está a ajudar muito esses dois países no curto prazo. Também estamos a ver contributos dos fundos europeus e o turismo também continua a ser bastante dinâmico. Por isso, a curto prazo, as perspetivas da economia portuguesa são positivas. Não vemos razão para que tenhamos um abrandamento.

A imigração tende a tornar-se opção política em Portugal.

De repente foram mais 700 mil pessoas a consumir, mas também faz pressão imobiliária, e sobre os serviços públicos. Mas o desemprego é tecnicamente quase zero. Espero que aturem os imigrantes e não lhes façam mal, não sejam demasiado repressivos.

Para além dos aspetos humanos, também pelo lado económico?

A taxa de fertilidade, de fecundidade em Portugal é muito baixa. É também o caso em Espanha, na Itália, em França. Cá não era, estávamos acima dos dois filhos por mulher, agora estamos em 1,6 o que é muito baixo. A demografia é inevitável sobretudo em sistemas como os nossos em que temos muita segurança social e são os que trabalham que têm que pagar para os reformados.

O Japão terá sido o primeiro país onde ficou à vista o problema da imigração. Como estão a resolver?

São 20 ou 30 anos de estagnação. Eles, para já, não estão a fazer a escolha da imigração, também porque é uma sociedade muito fechada no que diz respeito à imigração e uma cultura muito específica, não tem historial de imigração como tem a Europa ou Estados Unidos. Por isso votaram Sanae Takaichi para primeira-ministra. Ela não está a favor da imigração, para já. Para ela e para o partido dela, a solução para o problema demográfico é investir na IA, na inovação e na tecnologia. A aposta deles é não precisar de tanta gente para trabalhar, porque vão ser mais produtivos.

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