“Somos a ‘boca do funil’. Se estivesse do lado da Sport TV, teria comprado patrocínio na LiveMode”

João Mesquita, general manager da LiveMode TV, aponta as oportunidades, ambições e modelo de negócio do canal que está a desafiar a lógica tradicional de transmissão do Mundial.

A LiveModeTV chegou a Portugal com transmissões gratuitas do Mundial de Futebol, uma linguagem assente em creators e uma audiência que já ultrapassará as expectativas apresentadas aos anunciantes. A ambição do canal vai além da competição organizada pela FIFA. Em entrevista ao +M, João Mesquita, general manager da operação em Portugal, garante que o projeto foi pensado para o longo prazo e que o país é o primeiro passo de uma estratégia de expansão internacional.

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Assumindo-se como um “produto nativo digital” e recusando a classificação de broadcaster, a LiveMode defende um modelo assente na transmissão gratuita de eventos desportivos financiada através de patrocínios e integração de marcas.

Como nos identificamos como um produto nativo digital, realmente não temos a limitação de horários [na publicidade a bebidas alcoólicas e bets]. Fazemos um esforço para tentar, de alguma forma, seguir um mínimo de bom senso, mas não estamos limitados pelo horário”, reconhece o responsável.

Embora admita que possam existir períodos sem qualquer emissão após o Mundial, o responsável assegura que a operação portuguesa não termina com a competição. “Estamos aqui para continuar, é um projeto de longo prazo“, afirma, revelando que decorrem negociações para novos direitos e admitindo mesmo a possibilidade de expandir a oferta para além do futebol.

Num mercado onde os direitos desportivos estão concentrados em operadores como Sport TV ou DAZN, a LiveMode rejeita a ideia de concorrência direta. Pelo contrário, João Mesquita defende que os dois modelos podem coexistir e até se complementam.

Nós somos claramente um complemento, não um substituto“, afirma, sustentando que a plataforma funciona como uma “boca do funil” capaz de atrair novos públicos para o consumo de desporto, que depois poderão migrar para ofertas pagas e mais abrangentes.

O que é que a LiveMode viu no mercado português que a fez vir para cá? Qual o espaço que em vosso entender estava por ocupar e ao qual os legacy media, se quisermos, não dão resposta?

Vamos ver, a empresa nasce no Brasil e tem um case de grande sucesso que começou com o Qatar, em 2022, que se prolongou por vários eventos e agora se repete com o Mundial de 2026.

A CazéTV.

Ao longo destes anos, a empresa percebeu que a fórmula do sucesso não estava exclusivamente, ou sequer unicamente, baseada na figura do Casimiro [Miguel], no Brasil. Percebeu que há uma fórmula que pode funcionar além-fronteiras e a intenção de expandir pelo resto do mundo está na agenda da operação desde o início.

Quando começámos a olhar além-fronteiras, olhámos para a Europa em particular, onde a paixão pelo futebol é gigantesca, e olhámos para Portugal, muito especificamente, por várias razões.

Obviamente, há uma proximidade cultural maior, é sempre mais fácil começar por aqui.

João Mesquita, general manager da LiveMode, e Carla Borges Ferreira (+M/ECO)José Carlos Carvalho/ECO

Também é um mercado pequeno, nomeadamente em termos de publicidade.

Não é dos maiores mercados europeus, mas é grande o suficiente para poder fazer um teste real. Não é um mercado como o de Inglaterra, França ou Espanha, que pudesse trazer algum problema se as coisas não corressem tão bem.

Mas, talvez mais importante do que a dimensão, é o facto de conhecermos profundamente o mercado local – tivemos oportunidade de o estudar – e entender que há uma paixão pelo futebol absolutamente gigante, que não é menor do que em nenhum outro país.

Há uma juventude que é muito engajada com as redes sociais e não havia nenhuma oferta de transmissão de desporto, nomeadamente futebol, que falasse a linguagem dessa juventude. Portanto, havia aqui um ecossistema que nos parecia ideal para testar, experimentar e dar o primeiro passo daquilo que queremos que seja uma operação de expansão pelo resto do mundo.

Havia aqui um ecossistema que nos parecia ideal para testar, experimentar e dar o primeiro passo daquilo que queremos que seja uma operação de expansão pelo resto do mundo.

O vosso target são assumidamente os jovens?

Gostamos de dizer que é o “jovem de espírito”. Então, qualquer um de nós se pode incluir aí. Não é o jovem apenas, não é o teenager. Tanto que os nossos números — o nosso foco, até para o mercado publicitário —, é dos 18 aos 44 anos.

Temos todas as discussões sociológicas sobre se isso é juventude ou não, mas falamos muito da juventude de espírito e da forma de consumir media. Portanto, sim, não há dúvida de que há um grupo etário, na generalidade mais jovem do que aquele que os incumbentes, os media mais tradicionais, atingem. E é isso que nos faz ser capazes de trazer gente de volta para este universo, em vez de apenas tentar “roubar” gente aos outros.

Como é que se definem? São ou devem ser considerados um broadcaster?

Não, de maneira nenhuma. Somos um produto nativo digital. Aliás, argumentamos com frequência: não temos praticamente nenhuma característica de um broadcaster. Não temos grelha, não temos horários fixos.

Não é de 24 horas por dia, mas têm grelha.

Na verdade, nós transmitimos eventos. E os eventos têm determinados horários. Em função desses horários, temos comentários, brincadeiras e jogos antes e depois, e a narração durante.

E estão assim organizados. Ou seja, consigo ver o que vão transmitir, por slots horários.

Sim, mas dou-lhe um ótimo exemplo. Há uns dias, após o sucesso do primeiro jogo com Cabo Verde, achámos por bem pedir ao nosso público que escolhesse, no dia do segundo jogo, o que preferiam ver, o jogo da Espanha, que dava às 17h00, ou o jogo de Cabo Verde, à 01h00. E o público, obviamente, votou pelo jogo de Cabo Verde.

Tínhamos o acordo com a FIFA – os nossos direitos comprados – para o jogo da Espanha, mas conseguimos renegociar e reorganizar para transmitir o jogo de Cabo Verde. Imediatamente, aquilo que seria a nossa exibição das 17h00 às 22h00 passou a ser das 20h00 às 04h00.

Na verdade, nós transmitimos eventos live, como qualquer creator ou empresa digital, e depois apenas ‘populamos’ à volta – em função daquilo que queremos para construir toda a dinâmica que oferecemos ao cliente final –, com uma série de extensões de live para o antes e para o depois. O que é completamente diferente do papel tradicional de um broadcaster. Não temos componente jornalística, não tem uma transmissão diária…

Somos talvez mais que um creator porque juntamos vários num grupo único, numa atividade única, numa live, mas não deixam de ser lives colocadas pontualmente à medida que temos eventos.

O broadcaster pode não ter componente jornalística.

Mas, quando junta todas as características de um broadcaster, estamos muito longe. Definitivamente. Até porque transmitimos através de terceiros — transmitimos através do YouTube, de uma plataforma que não é nossa –, não somos donos dos algoritmos que nos recomendam, há uma longa lista de elementos que fazem de nós apenas mais um creator, talvez um bocadinho mais organizado.

Somos talvez mais que um creator porque juntamos vários num grupo único, numa atividade única, numa live, mas não deixam de ser lives colocadas pontualmente à medida que temos eventos.

Naturalmente, no final do Mundial, pelo menos naquilo que é público até agora, se não tivermos nenhum evento a seguir, não temos nenhuma emissão a seguir.

Essa é uma das questões. Mas, vão descontinuar a emissão?

É cedo para falar. Estamos completamente focados no Mundial. Se acreditarmos que Portugal vai ser campeão, ainda há muito para suar até ao final do Mundial. Temos, naturalmente, negociações e conversas com outros direitos, mas o que é normal — e aquilo que se pode ver na experiência real que já aconteceu — é que haverá períodos em que não teremos nenhuma atividade de lives no YouTube.

De novo, volto ao tal ponto, apenas colocamos conteúdo quando temos um evento que faz sentido apresentar ao nosso cliente final.

Referiu que conseguiram renegociar o jogo de Cabo Verde com a FIFA. Quanto é que investiram na compra dos direitos dos jogos para Portugal?

Peço imensa desculpa, mas o número não é público. Posso dizer-lhe que pagámos bem. Como deve calcular, a FIFA não vende nada barato. Mas comprámos bem e estamos, obviamente, a fazer um esforço para que a operação seja equilibrada financeiramente.

Posso dizer-lhe que pagámos bem [pelo Mundial]. A FIFA não vende nada barato. Mas comprámos bem e estamos, obviamente, a fazer um esforço para que a operação seja equilibrada financeiramente.

E vão conseguir que seja, já nesta primeira experiência em Portugal?

Muito provavelmente sim. O nosso foco é realmente experimentar, e ver o resultado prático, e até que ponto conseguimos construir esta comunidade, esta lógica da “conversa de amigos” — que é uma extensão que se pode ver no ecrã —, muito mais do que procurar ter um P&L zero. Mas, enfim, nada como ter boas contas para se desfazer os sócios.

Qual é o vosso modelo de negócio?

O modelo de negócio passa por entregar a transmissão de um evento desportivo de forma gratuita, sem qualquer tipo de assinatura para o público. E, portanto, a forma de o pagar – porque, obviamente, os direitos têm custos – é através de patrocínios.

Gosto muito de deixar claro que, mais do que simplesmente o termo “publicidade”, estamos a falar de parcerias. Porque o modelo não é simplesmente integrar spots de 30 segundos ou trabalhar através do revenue share típico com o YouTube. É a integração de marcas naquilo que fazemos. E é isso que traz a riqueza e o valor para aqueles que apostam em nós e participam nos nossos eventos.

Como é que o público sabe que o que está a ver é patrocinado?

Temos indicação de publicidade e há um conjunto de atividades que deixam claro que estamos a integrar a marca. Como não é um spot tradicional, não tem necessariamente todos os “plim-plim” de abertura e fecho, mas a forma como a marca é integrada é bastante clara.

Como nos identificamos como um produto nativo digital, realmente não temos a limitação de horários [na publicidade a bebidas alcoólicas e bets]. Fazemos um esforço para tentar, de alguma forma, seguir um mínimo de bom senso, mas não estamos limitados pelo horário.

Pergunto, para que se possa perceber. No marketing de influência é preciso assinalar que se trata de conteúdo pago.

Nós temos uma série de indicações que tentam exatamente cumprir essa obrigação — mais visíveis ou menos visíveis —, mas cumprimos de forma correta, para ter a certeza que as pessoas sabem que as marcas estão bem evidentes na frente delas.

O facto de não serem um órgão de comunicação social tem também vantagens em termos de limitações publicitárias. Por exemplo no caso de bebidas alcoólicas ou bets.

Mas são questões diferentes. A Lei da Publicidade é a Lei da Publicidade e ser ou não um órgão de comunicação social é outra questão. Até podem coincidir as conclusões, mas realmente uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Em televisão, por exemplo, não pode haver publicidade a bebidas alcoólicas ou casas de apostas antes das 22h00. No YouTube pode.

No YouTube pode e nos media digitais pode, e nós vimo-nos como tal. Mas volto a referir, porque acho que a interpretação de que não somos um broadcaster ou uma entidade de comunicação social não tem nada a ver com a publicidade, é realmente da génese do projeto.

Paralelamente, existe um conjunto de regras, a Lei da Publicidade, e existe todo um conjunto de regulamentos. Como nos identificamos como um produto nativo digital, realmente não temos a limitação de horários. Fazemos um esforço para tentar, de alguma forma, seguir um mínimo de bom senso, mas não estamos limitados pelo horário, e facto.

Mas fazem esse esforço?

Fazemos algum esforço e, também, uma boa parte dos nossos jogos são à noite, até pela diferença horária. Então, há aqui uma questão de bom senso. Não lhe vou dizer que temos tudo exibido depois das 22h30 — não é verdade —, mas uma boa parte das entregas é feita no horário posterior e temos realmente uma quantidade muito menor nos horários anteriores.

Têm como parceiros o BPI, a Coca-Cola, Laboratórios Vichy, EDP, Bwin, Betclic, Sagres e McDonald’s. Como é que surgiram essas marcas logo de início? É um leque robusto, logo no início.

Não posso pôr o crédito em mim porque cheguei muito tarde, não fui eu que fiz esse esforço. Cheguei em abril, e uma boa parte desse trabalho comercial foi feito desde outubro/novembro do ano passado. Foram feitas muitas apresentações, muitas reuniões com clientes e agências. Temos um modelo de muito diálogo e muita abertura. Falamos com agências criativas, agências de meios e clientes.

É um modelo difícil de explicar, precisa de alguma contextualização, não é uma coisa que possamos vender da noite para o dia e precisou de muitos meses para chegar onde chegamos agora e ter tantas marcas credíveis e sérias a apostar em nós.

Foi trabalhado a partir de Portugal? Já com a equipa local?

Sempre Portugal. Temos equipa aqui, tivemos obviamente ajuda no início de toda a nossa estrutura que está no Brasil, mas temos uma equipa local a trabalhar plenamente, quer na venda, quer na construção das soluções criativas. Temos uma equipa muito robusta.

São quantas pessoas, em Portugal?

Somos cerca de 50 pessoas. O Mundial é um evento grande, com muitos jogos e muita atividade, muitos parceiros, muitas ideias para implementar, muita coisa para fazer.

Dessas 50, quantas fazem parte da empresa?

Temos um pouco de tudo. Não fujo do número propositadamente, mas diria que temos pelo menos uns 30 funcionários e depois pessoas contratadas para este projeto específico, durante o Mundial — que é um projeto mais curto e exige muito mais mão de obra do que vamos ter depois.

Mas 30 funcionários já é um número interessante.

É. Para a realidade da economia portuguesa é um número bom.

Tenho muitas conversas a decorrer, mas não posso falar ainda sobre o que teremos à frente. Mas estamos aqui para continuar, é um projeto de longo prazo.

Já com 30 pessoas, a seguir ao Mundial, o que vai acontecer?

Adorava falar, sou uma pessoa que guarda segredos com muita dificuldade, mas tenho de me controlar. Há muitas conversas a decorrer, mas não posso falar ainda sobre o que teremos à frente. Mas estamos aqui para continuar, é um projeto de longo prazo. Óbvio que o Mundial tem uma dimensão que é única.

Eu diria que, num país como Portugal, o Mundial se destaca claramente de diversos eventos, como os Jogos Olímpicos. O Mundial é, talvez, realmente o maior evento desportivo que acontece. O que vier a seguir, naturalmente, não terá a dimensão e a intensidade do Mundial. Mas vamos ter atividade e não ficaremos necessariamente focados exclusivamente no futebol.

Não?

Não. O futebol é o desporto-rei em muitos países do mundo e em Portugal não é exceção. Mas há espaço. E eu, particularmente, acredito que a nossa capacidade de interagir com um público mais jovem pode, inclusive, ajudar algumas modalidades que hoje já têm alguma dimensão a ganhar um espaço e um tempo de antena que não têm tido.

Pensa em algumas em particular?

Já cheguei ao limite do que posso dizer.

Vamos voltar ao futebol. Há centralização dos direitos a partir de 2028. Vão estar na corrida?

É importante destrinçar o que quer dizer “estar na corrida”. É óbvio que os direitos da primeira divisão de futebol em Portugal são interessantíssimos. Nós nunca estaremos a concorrer – se entrarmos na corrida – para roubar ou comprar os direitos todos que hoje estão na mão de outros parceiros.

Eu sempre lembro que o nosso modelo, exatamente porque é uma “boca de funil”, funciona sempre com um pedaço e não com o todo. O caso do Mundial é um ótimo exemplo, temos 34 jogos.

Diria que nos vejo, no futuro, a trabalhar em conjunto com outros parceiros e players que possam querer comprar a maioria dos direitos, e entrarmos como alguém que contribui nesse negócio com uma parte menor dos direitos. E, depois, até ter comunicação cruzada.

Para o Brasil compraram todos.

É uma longa história, não nos vamos alongar, mas é preciso lembrar que a Globo não quis comprar todos, é uma história completamente diferente. O nosso modelo natural não é esse, o nosso modelo natural é ter um pedaço, até porque não seria rentável de outra forma e, em Portugal, definitivamente, não seria.

Portanto, eu até diria que nos vejo, no futuro, a trabalhar em conjunto com outros parceiros e players que possam querer comprar a maioria dos direitos, e entrarmos como alguém que contribui nesse negócio com uma parte menor dos direitos e, depois, até ter comunicação cruzada.

Reconhecemos que estamos a trazer gente para o sistema do desporto. Mas essas pessoas, se se tornarem hard consumers, vão ter de ver o resto noutro lugar.

Como? Com um canal em sinal aberto? Com a SportTV?

Com a Sport TV, a DAZN, quem quiser, não temos qualquer problema. Abertamente, dizemos sempre onde estão os outros jogos todos. Falamos dos canais onde eles estão, não temos problema nenhum, porque reconhecemos que estamos a trazer gente para o sistema do desporto.

Mas essas pessoas, se se tornarem hard consumers, vão ter de ver o resto noutro lugar, que não nós. E, portanto, estamos sempre abertos a uma parceria, seja com canais abertos, fechados ou com quem tenha todos os direitos e queira dividir.

E há conversas nesse sentido?

Tenho conversas abertas em todo o lado. Se elas já chegaram a algum lugar ou não, é outra conversa. Mas, de uma forma muito proativa, procuramos todos os parceiros para nos disponibilizarmos a trabalhar em conjunto.

Procuraram?

Procurámos toda a gente.

O custo dos direitos em Portugal, e na maior parte dos mercados, não permitiria que apenas um dos modelos vivesse sozinho. É a minha visão. Até poderia viver o mundo pago exclusivamente, mas o nosso ADN não é o mundo pago, portanto, tenho de pensar no mundo grátis.

É factual que entraram no mercado de uma forma disruptiva. O que sobra para a Sport TV, por exemplo, que tem uma subscrição, exatamente o contrário do vosso modelo de oferta dos jogos. Como é que estes dois ecossistemas podem conviver? O segundo não pode anular o primeiro?

De maneira nenhuma. O custo dos direitos em Portugal, e na maior parte dos mercados, não permitiria que apenas um dos modelos vivesse sozinho. É a minha visão. Até poderia viver o mundo pago exclusivamente, mas o nosso ADN não é o mundo pago, portanto, tenho de pensar no mundo grátis.

E o mundo grátis – a palavra “grátis” é sempre dúbia, porque alguém paga, neste caso, os nossos parceiros que investem connosco – nunca seria sustentável para ter a totalidade dos direitos pela dimensão do mercado publicitário português. Portanto, independentemente do nosso approach, isso nunca seria economicamente viável.

Tenho dito a vários amigos que, se estivesse do lado da Sport TV, teria comprado uma quota de patrocínio na Livemode TV, porque nós somos a “boca do funil”.

Nós temos um jogo por dia, mas a maior parte dos dias tem quatro jogos. Teria comprado uma quota de patrocínio porque somos o melhor lugar onde um segmento novo de clientes – que tem estado afastado do mundo da TV paga e até da TV aberta, que tem uma linguagem própria, gosta de desporto, mas não tinha encontrado o lugar ideal para recomeçar a assistir – pode ser encontrado.

Então, pessoalmente, veria com bons olhos, se estivesse do outro lado: “Espera aí, vamos trabalhar em conjunto? Deixa-me anunciar no teu serviço”. Nós não satisfazemos a necessidade de quem seja um hard consumer e queira ver o Mundial todo. Nós damos um jogo por dia. Pode ser o jogo mais forte, nós escolhemos, mas há tantos jogos bons.

Nós somos claramente um complemento, não um substituto. E eu acho que o mercado, a pouco e pouco, ao longo do Mundial, vai entender isso. Mesmo quem tem alguma dúvida, vai perceber que seremos sempre um complemento.

E chegaram a falar sobre essa hipótese?

Temos as portas abertas, não se desenvolveu. Mas nós somos claramente um complemento, não um substituto. E eu acho que o mercado, a pouco e pouco, ao longo do Mundial, vai entender isso. Mesmo quem tem alguma dúvida, vai perceber que seremos sempre um complemento.

A vossa chegada não pode fazer inflacionar os direitos das transmissões?

Um player novo vai sempre trazer um pouco essa perceção. Sendo super-honesto e até humilde no meu comentário — não me interpretem mal —, mas o mercado de direitos desportivos em Portugal já está altamente inflacionado, por razões que não me cabe a mim discorrer muito.

Não somos nós que estamos a inflacionar, ele já foi inflacionado há um bom tempo. Acho que o nosso impacto é completamente marginal. O mercado português está, na minha visão, demasiado inflacionado para aquilo que é a capacidade de absorção de um país de 11,4 milhões de habitantes.

Vindo para um mercado inflacionado, como diz e é provável que outros operadores até concordem, dificulta o vosso papel, não?

Há muitos players no mercado, nós somos apenas mais um. E mais um que até traz um pouco mais de audiência incremental, o que vem ajudar todo o ecossistema. O nosso impacto é realmente marginal – já usei a palavra, estou a repeti-la –, mas não vejo que esse seja o problema mais estrutural dos custos dos direitos em Portugal.

Definitivamente não tem a ver com a LiveMode. É um problema que eu acompanhei durante muitos anos, já discutido na media muito antes da LiveMode existir ou chegar a Portugal.

Qual é o problema estrutural, em sua opinião?

Acabei de chegar, não posso ter opiniões ainda muito formadas, não vivia sequer aqui. Mas que ele está inflacionado é a conclusão de tudo e todos. Então, não somos nós, LiveMode, que vamos ter esse impacto.

E jogos, ainda antes da centralização dos direitos. Estão a equacionar comprar?

Peço desculpa por ser tão pouco objetivo, já tentou por vários lados chegar ao resultado final, mas todas as conversas são válidas.

Não temos pressa, queremos negócios que façam sentido para nós, para o público e para o mercado como um todo. O que lhe posso dizer é que não daremos nenhum passo desesperado, até porque nós não temos qualquer necessidade de estar no ar o tempo todo, não somos um broadcaster. Somos um conjunto de criadores no YouTube e, portanto, hoje temos uma live, amanhã não temos.

O mercado português está, na minha visão, demasiado inflacionado para aquilo que é a capacidade de absorção de um país de 11,4 milhões de habitantes.

 

Qual é a ambição para o canal? Até onde é que podem crescer?

Não temos uma meta definitiva. Existem sete milhões de portugueses, se não me engano, que consomem YouTube, com frequência ou pontualmente, por mês. Eu quero chegar aos sete milhões. Mas acho que a dimensão que temos já faz de nós, claramente, um dos maiores canais no YouTube, e não vejo com grande dificuldade que, em algum tempo, cheguemos ao primeiro milhão.

Qual é o teto a partir do qual a operação poderá ser mais rentável?

Depende de evento para evento. O que lhe posso dizer é que prometemos aos nossos parceiros uma audiência média dos nossos conteúdos de 150 mil devices conectados. Neste momento, ainda sem completar o segundo jogo de todos os grupos, já temos uma audiência média acima do que prometemos. Portanto, estamos num ótimo caminho para chegar onde queremos.

Já têm parceiros para depois do Mundial?

Não temos parceiros fechados para depois do Mundial, porque também não anunciámos nenhum evento específico.

Têm como sócio Cristiano Ronaldo. A participação consiste essencialmente em quê?

É um sócio de referência, é isso que é conhecido de todos nós. É um investidor que obviamente acreditou no projeto. Não tive ainda o prazer de poder falar com ele, portanto, o que digo é a minha visão sobre o tema – hoje ele está preocupado com o futebol, com o Mundial, certamente vai marcar algum golo, é o que importa [entrevista gravada no dia do segundo jogo de Portugal].

Mas é um sócio de referência que nos agrega um elemento muito importante, poucas pessoas entenderão melhor a dimensão global de medias sociais e a forma de falar de desporto, e com jovens, como o nosso sócio consegue fazer.

Eu, pessoalmente, adoraria ver uma participação maior, até no longo prazo, no próprio desenvolvimento do negócio. Há um valor agregado que ele e a sua equipa podem trazer no desenvolvimento do nosso negócio pela Europa, por exemplo.

Estamos a investir no longo prazo. O plano é de crescimento, desenvolvimento e aprofundamento. Tem investimento sério e sólido em Portugal e para além de Portugal.

Falando em Europa, quais são, em termos de ambições de internacionalização, os próximos países para os quais estão a olhar?

Portugal é uma experiência que está a correr maravilhosamente bem e, portanto, naturalmente, valida a nossa vontade de acelerar a entrada noutros mercados. Não podemos entrar de um dia para o outro em todos, portanto estamos a avaliar quais nos oferecem melhores condições. O que lhe posso dizer é que estamos ativamente a olhar para outros mercados, particularmente na Europa.

Como imagina a Live Mode TV em dois, três anos? Em Portugal e no mundo?

Acho que em dois ou três anos teremos uma presença em vários mercados, não tenho a menor dúvida. Estaremos em alguns de uma forma mais madura, noutros numa fase inicial. Acho que a experiência de Portugal se vai solidificar. Encontraremos o caminho certo e temos tempo para encontrar modalidades e direitos que façam sentido, sem precisar de correr ou de ter qualquer decisão desesperada.

O nosso ADN é esta fórmula de live streaming, creators, sem custo para o público final. Continuaremos a ser um canal privilegiado para atingir públicos mais jovens, públicos que não se reveem na publicidade tradicional. Seremos, sim, um player-chave, quer para trazer o desporto a esta gente, quer para ajudar marcas que hoje têm muita dificuldade em chegar a este público.

Quanto estão dispostos a investir em Portugal?

Nenhum número é público. O que posso dizer é que estamos a investir no longo prazo. O que lhe posso dizer é: estamos a investir no longo prazo, não estamos preocupados com uma rentabilidade imediata no curto. Óbvio que as contas têm que ser feitas e prestadas aos sócios, mas o plano é de crescimento e desenvolvimento e aprofundamento. Tem investimento sério e sólido em Portugal e para além de Portugal.

Pode assistir à entrevista completa, com estes e outros temas, aqui:

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