“Somos um país que aproveita pouco as oportunidades que tem em cima da mesa”

Ana Figueiredo, CEO da Meo, é uma otimista sobre o país. "Não vejo um país da periferia, vejo um país com centralidade", diz. Mas admite que Portugal não está a aproveitar as oportunidades que tem.

Devíamos ambicionar ter grandes campeões, não à escala de Portugal, mas protegendo os interesses dos consumidores, garantindo que não há posições abusivas de mercado“, afirma Ana Figueiredo, CEO da Meo, em entrevista exclusiva ao ECO. A gestora, que está há quatro anos na liderança da companhia, rejeita a ideia de que esse caminho prejudica Portugal. “Acho que temos é que criar condições para que as empresas em Portugal possam ser maiores e possam expandir-se“, insiste. Otimista sobre o país, e isso explica porque é que regressou depois de anos fora, Ana Figueiredo admite que Portugal é “um país que aproveita pouco as oportunidades que tem em cima da mesa“.

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O quadro regulatório europeu, o Digital Networks Act, não serve para nada?

O Digital Networks Act e o Merger Guidelines que está a ser discutido são oportunidades únicas. O Digital Networks Act para a indústria de telecomunicações e o Merger Guidelines para as empresas europeias como um todo, porque temos de ter campeões europeus. Qualquer processo de consolidação ou fusão na Europa é um processo complexo, não só no mercado português, como a nível europeu. E as grandes empresas portuguesas são PMEs a nível mundial. Portanto, devíamos ambicionar ter grandes campeões, não à escala de Portugal, mas protegendo os interesses dos consumidores, garantindo que não há posições abusivas de mercado. O que temos é que promover grandes campeões, que depois arrastam todo o nosso ecossistema nacional.

Mas a lógica dos campeões europeus não prejudica países como Portugal? Não estaremos a caminhar necessariamente para criar um grupo francês ou um grupo alemão?

Nós temos alguns exemplos de campeões mundiais e de empresas que estão fora de portas. Por que é que temos que pensar que vamos ser uma subsidiária de outro grupo? Acho que temos é que criar condições para que as empresas em Portugal possam ser maiores e possam expandir-se. Se as restringirmos — e não estou a falar de ajudas —, no nosso caso e daquilo que é a minha experiência, é libertarem-nos de algumas amarras. Até porque isso restringe também a própria inovação, com a forma como podemos endereçar o mercado.

Acho que não devemos ter medo. Podemos aspirar, nós, portugueses, e as empresas portuguesas. Acho que devemos aspirar. Estamos na linha da ambição de termos campeões europeus, nomeadamente neste setor. Por que não? Por que é que não temos de aspirar? Temos alguns exemplos, poucos, mas podemos ter muito mais.

Acho que temos sempre aquela sensação em Portugal de que estamos na periferia da Europa e, portanto, não podemos ambicionar mais do que outros. Quantos países há do mesmo tamanho que Portugal em termos populacionais ou em termos de território e são grandes?

Ana Figueiredo, CEO da MEO, em entrevista ao ECO Hugo Amaral/ECO

Nós somos um país de média dimensão na União Europeia.

Vivi num país que é a Suíça, que tem talvez a mesma população que Portugal, não tem mar, como nós temos, e identificou quais seriam provavelmente os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. É um país que todos concordamos que tem robustez, solidez e um papel relevante em muitas indústrias. O que é que a Suíça fez? Escolheu muito bem as indústrias onde queria estar. E por que é que nós devemos ambicionar estar numa segunda divisão?

Vamos ao exemplo agora do Mundial, porque até somos patrocinadores do futebol. Somos um país pequeno, mas já temos o maior número de jogadores a jogar nos grandes clubes europeus, o maior número de selecionadores, e podemos e devemos ambicionar ser campeões europeus e campeões do mundo. Porque é que não afirmamos? Podemos falhar no objetivo, mas aprendi que temos que ter essa ambição. We aim for the moon and we land on the stars.

Temos essa capacidade de risco? Vê nas empresas portuguesas, neste setor em particular, capacidade de risco de fazer esse caminho?

Vejo em algumas empresas capacidade e vontade. Agora, é preciso também ter a coragem de desafiar um pouco o status quo, e às vezes temos alguma dificuldade em desafiar esse o nosso status. Às vezes somos nós próprios, portugueses, que nos restringimos. Tendo vivido fora de Portugal, a forma como vejo é que às vezes somos nós próprios que colocamos as barreiras. As mesmas barreiras que achamos que colocamos, os outros países também as têm. Nós é que, se calhar, colocamos a barreira mais alta do que ela verdadeiramente é.

Agora, não se faz nada sem trabalho, sem visão, sem ambição. Mas, se em vários setores conseguimos ter os melhores do mundo, vendo a origem de onde vieram, porque é que não algumas empresas portuguesas? Algumas empresas portuguesas são destaque a nível mundial, e ainda bem.

Falámos muito do setor, das telecomunicações, nas suas várias dimensões. E o país está bem hoje? Como é que o vê?

Sou uma otimista por natureza, porque senão não tinha regressado ao país. Acho que, quando lideramos empresas, temos que ser otimistas relativamente àquilo que podemos transformar nas empresas e ao sucesso que podemos ter com as nossas estratégias. Relativamente ao país, vamos olhar para um conjunto de indicadores macroeconómicos. O nosso país não está mal em alguns e apresenta indicadores sólidos do ponto de vista macroeconómico. Se observarmos também a evolução do nosso país, se calhar nas últimas duas décadas, fizemos um progresso fantástico do ponto de vista social, económico, de preparação das nossas pessoas. Do ponto de vista dos fundamentais daquilo que é a sustentabilidade da nossa economia, acho que ainda nos falta robustecer algumas bases.

Não vejo um país da periferia, vejo um país com centralidade, centralidade assente não só na nossa posição geográfica, mas também naquilo que temos do ponto de vista de relações globais com o mundo, com a nossa diáspora, que temos e não aproveitamos. Acho que somos um país que aproveita pouco as oportunidades que tem em cima da mesa.

Olhando para o país com os meus óculos de líder da empresa, acho que o que nos falta definir claramente é qual é a nossa ambição como país. O que é que queremos ser? Onde é que nos queremos posicionar? E, para lá chegar, onde é que temos o direito de competir, onde é que podemos competir e onde é que podemos ganhar alguns campeonatos. Não vamos ser bons a tudo, nem atacar tudo, mas aquilo que selecionarmos devemos ser bons e colocar as políticas económicas, as políticas regulatórias ao serviço desses objetivos.

Portanto, não os identifica hoje, não consegue perceber para onde é que o país quer ser. O que quer ser, se tem essa ambição, para onde é que quer ir. Da sua posição, a partir daqui, deste sítio tão privilegiado no centro de Lisboa, consegue perceber isso?

O que vejo é que assumimos algumas ambições, mas falta-nos depois a tecnoestrutura para suportar essa ambição.

Descobrimos agora que somos 11,4 milhões, não sabíamos. Os números não refletiam isso. Isso não é irrelevante apenas em número de pessoas, mas na avaliação do nível de vida de cada um de nós. Estamos basicamente com o mesmo nível de vida que estávamos em 2000, 78%, 76% da média comunitária. É um país falhado?

Não diria que é um país falhado. Acho que é um país que tem que ter claramente a coragem de atacar os pontos que são fundamentais. Por exemplo, fizemos uma aposta nos últimos 20 anos na qualificação da população e acho que fomos bem-sucedidos nisso. Temos quadros, temos profissionais, muito mais alunos no ensino superior. O nível de qualificação é comparavelmente maior. O que é que não conseguimos fazer? Não conseguimos corrigir do ponto de vista salarial. Portanto, ainda temos um gap salarial para a nossa vizinha Espanha e para outros países europeus.

E, pior, temos um nível de salário mínimo praticamente colado à mediana dos salários, 91% da mediana do salário.

Tivemos incrementos do salário mínimo que eram necessários fazer do ponto de vista da melhoria da qualidade de vida dos portugueses e das famílias, mas não foram acompanhados por incrementos de produtividade. Isto cria, como sabem, do ponto de vista económico, desequilíbrios que são difíceis de corrigir.

Olhando para o país com os meus óculos de líder da empresa, acho que o que nos falta definir claramente é qual é a nossa ambição como país. O que é que queremos ser? Onde é que nos queremos posicionar? E, para lá chegar, onde é que temos o direito de competir, onde é que podemos competir e onde é que podemos ganhar alguns campeonatos. Não vamos ser bons a tudo, nem atacar tudo, mas aquilo que selecionarmos devemos ser bons e colocar as políticas económicas, as políticas regulatórias ao serviço desses objetivos.

Portanto, às vezes temos políticas e somos bem-sucedidos em algumas iniciativas que tomamos, mas falta-nos depois a orquestração do todo, para que isto funcione como uma orquestra. Temos que apostar no crescimento das nossas exportações, mas temos que dar condições também a toda a nossa indústria exportadora. Temos e queremos estar no turismo, mas se calhar não temos que estar no turismo de massas, temos que estar no turismo de maior valor. Para estar no turismo de maior valor, temos que ter as infraestruturas necessárias. Se o turismo é primordial, então temos que ter um aeroporto que seja uma bem-vinda [aos visitantes] — e nada contra quem opera ou deixa de operar o aeroporto, acho que está para além deles.

Da mesma maneira, se queremos posicionar Portugal como um hub digital, temos que falar com todo o ecossistema e criar as condições para sermos um verdadeiro hub digital. E queremos ser hub digital em quê? Em competências? Em desenvolvimento de soluções? Queremos estar só com data centers?

…Se calhar não, pois não?

Se calhar não, mas vamos ter que ter alguns data centers. Falta-nos eventualmente ter quase um pacto de Estado de dizer: é por aqui que vamos caminhar e vamos alinhar por isto. É o que as empresas fazem, constroem uma visão, constroem um caminho, como é que eu vou chegar do ponto A ao ponto B, e tentam trabalhar nos vários componentes, na componente humana, na componente tecnológica, na componente regulatória, política, nos processos de simplificação. Se sabemos que temos um envelhecimento da população portuguesa, tenho que ter uma economia sólida, robusta. É esta economia que faz com que as pessoas fiquem em Portugal, é esta economia que faz com que eu não seja uma subsidiária de outro país europeu ou de outro país não europeu.

Mas, para ter essa economia sólida, robusta, preciso de pessoas. Preciso dos melhores quadros, dos melhores portugueses, das pessoas mais bem formadas e preciso de importar talento. Temos que ter políticas de imigração que incentivem esse talento. Mais uma vez, volto ao exemplo suíço. A Suíça fechava e abria em função das necessidades. Eu preciso de mais engenheiros, eu preciso de mais naquela área, eu preciso nisto, isto, aquilo.

O Canadá também tem mais ou menos isso…

E nós temos que deixar algumas amarras. Com uma população com uma média de 50 anos, quer dizer que 50% da população portuguesa tem mais de 50 anos. E temos provavelmente cerca de 20% abaixo dos 30 anos. Não é sustentável no médio e longo prazo, até para sustentar o modelo social que temos.

Quando me perguntam sobre Portugal, temos temas fulcrais, estruturais, que não estamos a endereçar e o tempo não corre a nosso favor. Agora, temos tantas oportunidades e acho que, quando vivemos fora de Portugal e olhamos para dentro de Portugal, temos condições ótimas que não devemos desperdiçar. Temos segurança, temos um país que é fácil de vender como destino para trabalhar, assim como vendemos como destino para passar férias e para viver. Temos um modelo educacional que forma bons quadros. Mas isto tudo pode desaparecer de um dia para o outro.

Da mesma maneira como vivi na Suíça, vivi num país [República Dominicana] que estava nas antípodas, em que se vê que sistema de segurança, saúde nacional, educação e segurança são as pedras basilares, pelo menos para mim, para aspirar a ser melhor, mas também não estamos nesse patamar, estamos noutro. Acho que nos falta definir um caminho. Mas, por outro lado, vejo muita vontade da sociedade civil, da sociedade empresarial, de construir esse caminho. Temos a nossa inércia natural. Temos os nossos velhos do Restelo. Eles cá estão. Mas temos que marchar, marchar.

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