O diretor-geral da SAP Portugal admite que vai existir um forte investimento na cloud soberana em Portugal e defende que o país pode ganhar relevância europeia na área da IA.
Nuno Saramago, diretor-geral da SAP Portugal, afirma que a tecnológica alemã vai fazer um “maior investimento” para reforçar a equipa de cloud soberana que trabalha em Portugal. Em entrevista ao ECO, o gestor admite que todos os novos clientes conquistados nos últimos quatro anos em Portugal “vieram diretamente para a cloud”.
Numa conversa em Madrid, durante o evento anual SAP Sapphire, Nuno Saramago fala sobre o impacto da inteligência artificial nas empresas, a adoção crescente de serviços cloud em Portugal e o potencial do país para ganhar relevância europeia em áreas como a cloud soberana e os centros de dados.
Ao longo da entrevista, o responsável da SAP Portugal defende que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de transformação do negócio e não apenas de produtividade, sublinhando que as empresas que conseguirem aplicar estas tecnologias nos seus processos centrais serão as que mais se irão distinguir nos próximos anos.
Neste momento, qual é a maior prioridade da SAP em Portugal?
A principal prioridade é, efetivamente, ajudar os clientes a transformar o seu negócio, no sentido de tirarem partido de todas as novas tecnologias que lhes permitam não só ser mais produtivos, mas também mais ágeis nessa transformação. Porque aquilo a que assistimos diariamente em Portugal, tal como em muitas outras partes do mundo, são contínuas disrupções nas cadeias de abastecimento, em termos de tarifas e de modelos de negócio, portanto, incerteza.
E, para navegar essa incerteza, é importante ter sistemas flexíveis e de suporte ao negócio que deem agilidade e, ao mesmo tempo, permitam aumentar constantemente a produtividade.
Na perspetiva da SAP, que setores da economia portuguesa estão a adotar mais rapidamente novas tecnologias?
Em Portugal, os setores que vemos com maior dinâmica são o da energia e recursos naturais e o do retalho. Depois, também muito relacionado com um dos grandes motores da nossa economia, o turismo, surgem setores como a hotelaria e os serviços. Portanto, diria que essas são as indústrias onde vemos uma maior necessidade de ferramentas de produtividade, ferramentas ágeis e que permitam às empresas diferenciarem-se em termos competitivos.
Como é que olha para Portugal no contexto europeu da inovação tecnológica? Estamos a conseguir acompanhar os maiores países da Europa?
Eu olho para isso com muito otimismo, porque, tipicamente, quando falamos, particularmente de inteligência artificial, pensamos muitas vezes nos países onde estão a ser desenvolvidos os large language models (LLM). Mas há um fator talvez tão ou mais importante, que é perceber quais são os países que estão efetivamente a adotar esses temas de IA nas empresas, onde acontece a criação de valor e a geração de negócio. E, quando olhamos para essa estatística, é interessante ver que os países com maior adoção de IA são os Emirados Árabes Unidos e Singapura, e depois temos, no top-5, apenas países europeus, nomeadamente Noruega, Irlanda e França.
Já em Portugal, se formos ver, a taxa de adoção da IA pela população em geral está à volta dos 38%, quando a média europeia é de 33%. Ou seja, o que quero dizer é que é muito gratificante vermos que, apesar de provavelmente não estarmos a desenvolver na Europa, os LLM, se calhar estamos a saber quer pela diversidade, pelo talento que temos, pela multiculturalidade e, em Portugal, em particular, pela apetência para adotar novas tecnologias, tirar muito mais partido dessas capacidades em termos de criação de valor.

Sabemos que a maioria do tecido empresarial português são PME. Será esse o motivo que leva as organizações a ter mais dificuldade em investir em novas tecnologias?
Esse é um tema interessante, porque, se dividirmos isto em termos de adoção pelas empresas, vemos que cerca de 48% das grandes empresas estão a adotar estas tecnologias. Depois temos as médias empresas, em Portugal, à volta dos 18%, e as pequenas empresas nos 9%.
Mas o que tem acontecido nos últimos anos é que a escala dos serviços na cloud permite, como nunca antes, às pequenas empresas tirar partido destas novas tecnologias. Porque o que acontecia há uns anos era que uma empresa que quisesse beneficiar destas tecnologias tinha de adquirir infraestrutura, hardware e serviços de base. Hoje em dia, pode contratar tudo isso como um serviço num ‘data center’ gerido por uma empresa como, por exemplo, a SAP, que pode assegurar toda essa infraestrutura e as aplicações e, portanto, beneficiar de uma escala muito maior para adotar e consumir essas tecnologias.
Portanto, acho que estamos num momento em que esta escala da cloud, em conjunto com a IA, cria grandes oportunidades para as pequenas empresas, que representam a maioria do nosso tecido empresarial. Em Portugal, 70% dos clientes da SAP são PME.
A SAP tem vindo a apostar fortemente, nos últimos anos, em serviços na cloud. As empresas portuguesas estão a aderir ou têm existido impedimentos à migração total?
Não tem havido, na verdade, grandes impedimentos. Todos os novos clientes que conquistámos nos últimos quatro anos, e com os quais começámos a trabalhar em Portugal, vieram diretamente para a cloud. Ou seja, voltando ao ponto da adoção e da propensão para novas tecnologias em Portugal, as empresas já têm essa apetência.
Existem também clientes em Portugal com grandes infraestruturas on-prem (modelo em que os servidores estão localizados na organização), que vão fazendo essa mudança de forma faseada. Mas, a SAP olhou para essa realidade e percebeu que a adoção de IA não pode esperar por esses projetos de transformação. Por muito reduzido que o tempo seja, face ao que acontecia há uns anos atrás, estamos a falar de projetos que podem demorar meses para migrar instalações para a cloud. E não podemos esperar pelo término desses processos para começar a adotar IA. Portanto, anunciámos várias possibilidades que permitem aos clientes começar a usar IA mesmo com infraestruturas híbridas, combinando cloud e on-prem.
Falou em empresas que têm “grandes infraestruturas”. De que organizações está a falar?
Numa EDP, Galp, Jerónimo Martins ou Sonae, que são todos nossos clientes de longa data e que estão a fazer este caminho de transformação e adoção de IA. Mas eu gosto também de falar dos novos clientes com quem temos tido a felicidade de trabalhar em Portugal, empresas como a Map Engenharia e a Symington, que são PME e que também estão a adotar cada vez mais tecnologias cloud e IA.
Qual é o sentimento dos clientes perante a introdução de IA nos vossos produtos?
Aquilo que os clientes nos questionam, acima de tudo é: qual é o valor que vou obter? É um ganho de produtividade? É uma nova característica que me distingue do meu concorrente? É uma poupança de custos? Portanto, existe esta preocupação com o valor que vão retirar. E aí há um ponto interessante, pelo menos no que toca às empresas, porque a discussão surge muitas vezes nesse contexto. Eu consigo disponibilizar ferramentas de IA generativa de grande consumo aos meus colaboradores e eles melhoram a sua produtividade pessoal — uma pessoa, uma tarefa; uma pessoa, várias tarefas. Mas a questão é que isso não escala.
E as conversas connosco são muitas vezes no sentido de perceber como é que se passa do ganho de produtividade individual para o ganho de produtividade da equipa e, depois, para o ganho de produtividade da empresa. É nesse ponto que temos uma grande vantagem pela abrangência funcional dos nossos sistemas, porque cobrem a logística, a produção, a área financeira, os recursos humanos e a gestão de relacionamento com o cliente. Portanto, isso dá escala para aplicarmos a IA nos processos de negócio e fazer com que os ganhos de produtividade e os resultados sejam visíveis para toda a empresa. Essa é uma das grandes questões e é aí que acho que os clientes têm reconhecido vantagem em fazê-lo com um parceiro como a SAP, que tem esta abrangência funcional e por indústria.
A IA permite acelerar processos e automatizar tarefas rotineiras. Sente que os clientes passam a esperar uma redução de custos nos vossos serviços, precisamente porque os projetos demoram menos tempo ou porque parte do trabalho passa a ser feito pela própria IA?
Os clientes, genuinamente, têm a expectativa de ter menos custos. Se vamos passar de um software que usamos para um software que produz per si, também existe uma expectativa de ganhos de produtividade e de poupança. E temos tido essas discussões, efetivamente. Se conseguirmos fazer um projeto de transição que antes demorava, se calhar, seis meses e passamos a fazê-lo em três, naturalmente ele terá menos custos. Portanto, sim, existe essa expectativa dos clientes e acho que é justificada. Faz todo o sentido.
De que forma a IA generativa está a transformar, na prática, os produtos e as funções da SAP?
Em primeiro lugar, pela perspetiva que adotámos de sermos o cliente zero. Nós, como cliente zero, já estamos, há dois anos, a utilizar internamente estas tecnologias e a transformar a forma como todos trabalhamos, quer no serviço ao cliente, quer na aceleração dos projetos de transformação, quer na capacitação dos colaboradores. Existe um mandato dentro da empresa para toda a gente questionar a forma como trabalha diariamente. Felizmente, na SAP, a uma escala global, foram disponibilizadas muitas dessas ferramentas internamente para fazermos este desafio constante.
Essa é a primeira parte da transformação, enquanto cliente zero. O que estamos a fazer hoje em dia com os nossos clientes, não é não só aplicar a IA num contexto de negócio, com precisão, segurança e confiança, mas também fazê-lo tirando partido dos mais de 50 anos de experiência que temos em cada setor de atividade. Ou seja, vamos fazer inteligência artificial por indústria e conseguir transformar a forma como empresas de energia, energias renováveis, empresas com sistemas de produção ou de logística vão operar o seu negócio no dia-a-dia.
As empresas que conseguirem aplicar IA nos seus processos centrais, em cada setor de atividade, e que tenham impacto direto nos resultados da empresa, são aquelas que se vão distinguir.
Existe risco das empresas adotarem IA rapidamente?
Há risco. E eu diria que o maior é a falta de foco. Ou seja, é uma tecnologia extremamente rica, que pode ser aplicada em inúmeras áreas, e aquilo que vai diferenciar as empresas que vão vencer nesta era da IA será a forma e as áreas em que a vão aplicar. As empresas que conseguirem aplicar IA nos seus processos centrais, em cada setor de atividade, e que tenham impacto direto nos resultados da empresa, são aquelas que se vão distinguir.
O perigo, muitas vezes, é vermos a IA apenas como uma ferramenta de produtividade ou de organização de informação. E não o é. Pode ser uma ferramenta de criação de novas funcionalidades e, inclusivamente, de criação de novo software, o que é muito interessante. Portanto, acho que a distinção entre as empresas será a capacidade de manter foco. E é por isso que este é um tema que deve ser discutido ao nível dos conselhos de administração e de quem lidera as empresas, para garantir que a tecnologia é aplicada em áreas onde terá impacto real no negócio.
A SAP Portugal sente a necessidade de vir a fazer algum tipo de requalificação dos profissionais para trabalharem com estas ferramentas?
Totalmente. Ou seja, este desafio de que eu falava, de cada pessoa ser desafiada, e essa é mesmo a palavra, a repensar as suas tarefas e a forma como executa o seu trabalho, é algo constante. Depois existem momentos específicos de formação em determinadas tecnologias, como lançámos agora o Joule Studio 2 (assistente de Gen IA da SAP), os vários domínios de agentes que vamos ter para logística, área financeira, recursos humanos, gestão de cliente e compras. Portanto, existe formação específica em cada uma dessas áreas e sobre como trabalhar com a empresa autónoma e com a Autonomous AI.
Mas depois há também uma requalificação constante. E aí, mais uma vez, Portugal é excecional, porque temos excelentes universidades, pessoas com talento, perfeitamente à vontade com línguas e com multiculturalidade. Para dar uma ideia, hoje em dia, na SAP Portugal, somos 950 pessoas. Não temos apenas talento nacional: temos 36 nacionalidades de pessoas que quiseram vir trabalhar para Portugal, porque existe aqui um ambiente de cultura e de crescimento. Isso gera também um ciclo virtuoso, em que as pessoas querem fazer ‘reskilling’ constante e reaprender a trabalhar, porque é disso que estamos a falar.
Sentem que os profissionais estão recetivos a esta mudança ou ainda existe alguma resistência?
Acho que a maior parte das pessoas está recetiva a esta mudança. Isto faz-me lembrar discussões que tínhamos no início dos anos 2000 e na década de 90, em que as pessoas eram muito ciumentas da sua informação. Acho que isso foi completamente ultrapassado. Hoje em dia, com as tecnologias, todos nós temos acesso à informação nos nossos dispositivos e nos nossos telemóveis. Acho que as pessoas veem atualmente a informação como algo que, quanto mais partilhado, mais rico se torna. Portanto, neste momento, não me parece que isso seja um tema.
Claro que cada empresa e cada setor têm as suas características. Mas, em geral, acho que as pessoas estão recetivas. E isso vê-se também nos nossos clientes. Estes novos clientes com quem temos vindo a trabalhar são empresas com muita ambição de crescimento e de internacionalização. Portanto, existe muita diversidade geracional, diversidade de culturas e, sinceramente, o tecido empresarial português hoje em dia tem uma dinâmica muito interessante.

Com a adoção da IA, já pensaram em algum momento reduzir a força de trabalho?
Não. E essa não tem sido a tendência. Porque, à medida que vamos transformando a empresa para fazer tudo isto de forma autónoma, também surgem novas necessidades de pessoas capazes de investigar e perceber onde aplicar a IA. Há muitas funções que vão deixando de ser necessárias, mas há muitas outras que estão a ser criadas. Pessoas que gerem a aplicação da IA nos vários domínios, pessoas que investigam, por exemplo, as melhores práticas de forecasting usando IA em vez dos modelos determinísticos do passado.
Portanto, vão-se criando novas funções. Agora, é verdade que, se nós enquanto sociedade não nos adaptarmos, existe o risco de as pessoas ficarem cristalizadas. Mas a verdade é que nós temos aumentado a nossa força de trabalho.
A Anthropic lançou o modelo de IA especializado em cibersegurança, Claude Mythos, descrito pela empresa como “o mais avançado”. Contudo, a Anthropic não vai, para já, disponibilizar o modelo na Europa. Acredita que a forte regulação europeia na área da IA vai atrasar o continente na evolução tecnológica?
Olhando para essa pergunta numa perspetiva mais empresarial, o que observo não é isso. Aliás, a perspetiva que nós temos é a de que o facto de termos legislação na área da IA também nos permite fazer uma adoção da tecnologia com mais confiança. E vimos isso com o anúncio que também fizemos de que os algoritmos vão suportar certificação ISO e vão ser totalmente auditáveis, porque, no contexto empresarial, temos de ter 100% de precisão e 100% de auditabilidade. Portanto, vemos a legislação do espaço europeu como um fator de confiança, e a confiança é essencial para sistemas empresariais.
Relativamente ao novo modelo, é claro que existe uma disrupção em muitos temas tecnológicos, principalmente no que diz respeito à cibersegurança. E aí estamos também a investir com grande veemência na Europa naquilo a que chamamos cloud soberana, que permite às empresas e instituições públicas ter um stack completamente soberano, capaz de tirar partido de modelos de IA, mas funcionando de forma totalmente autónoma de outras infraestruturas. E isso pode ser um ponto importante para responder a esse tipo de disrupções.
A IA deve ser a maior transformação que tivemos na história da SAP, não só ao nível da renovação interna, mas também do portfólio e da oferta para os clientes.
Falou em cloud soberana e o Governo aprovou, a 14 de maio, precisamente o Plano Nacional da Cloud Soberana. Qual é a sua opinião?
Penso que é um passo extremamente positivo. A Europa está neste momento também a fazer definições muito importantes nesta área e a definir como será um modelo de cloud soberana europeia. Portugal também tem feito anúncios importantes e está no radar de grande parte dos players mundiais em termos do estabelecimento de local zones e de data centers. Portanto, acho que isso é muito positivo para o nosso país e é positivo que tenhamos estes anúncios e que o Governo esteja a olhar para um plano.
Nós, em Portugal, já temos algumas pessoas a trabalhar nesta área e vamos ter um maior investimento por parte da SAP SE globalmente para aumentar o número de pessoas que temos a trabalhar em cloud soberana em Portugal, pela nossa localização. Queremos trazer mais diretores desta área para Portugal. É um país onde conseguimos ter um elevado escrutínio em termos de segurança, e temos neste momento a capacidade de fazer da SAP Portugal uma empresa muito maior do que apenas o mercado português.
E é isso que estamos a fazer. Portanto, queremos que a nossa equipa de cloud soberana em Portugal cresça consideravelmente numa primeira fase. Esse é um anúncio que podemos começar já a partilhar.
Considera que a candidatura ibérica a uma das cinco gigafábricas, que a Comissão Europeia vai atribuir, irá ser decisiva para posicionar Portugal como um dos maiores players na área da IA?
Julgo que sim. Efetivamente temos uma posição geográfica privilegiada, quer em termos geográficos, quer em termos de time zone. Temos competências e, juntamente com Espanha, temos uma escala interessante a nível europeu. E vejo a comunidade muito interessada não só na infraestrutura, mas também na forma como vamos utilizar e consumir essa infraestrutura. Porque é importantíssimo termos essa capacidade, mas depois tem de haver utilização prática que gere valor.
Sinto também a comunidade empresarial, em geral, os vários players — quer fornecedores de tecnologia, quer empresas dos vários setores da economia — preocupados e a apostar na modernização das empresas. Portanto, a IA deve ser a maior transformação que tivemos na história da SAP, não só ao nível da renovação interna, mas também do portfólio e da oferta para os clientes.
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“Temos a capacidade de fazer da SAP Portugal uma empresa maior do que o mercado português”
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