Vítor Bento, presidente do júri dos IRGAwards, mostra-se otimista quanto à adoção tecnológica pelas empresas mas pede que o nosso "espanto" pela IA não leve a abdicar do elemento humano.
Vítor Bento é o presidente do júri dos IRGAwards, prémio da Deloitte que, anualmente, distingue personalidades e empresas nacionais que se distinguiram no último exercício. A edição deste ano, a 38º, tem como mote “Transformation unlocking human potential”, cruzando o elemento da revolução tecnológica com o capital humano. Em entrevista ao ECO, Vítor Bento faz o ponto de situação desse processo, e revela um pouco de como é feita a escolha dos vencedores.
É presidente do júri dos IRGAwards já há bastantes anos. O lema desta edição é “Transformation Unlocking Human Potential”. De que forma é que este lema pode ser e está a ser eventualmente transposto para o mundo empresarial?
O talento humano é provavelmente o capital mais importante de que as instituições dispõem, as instituições em geral e as instituições empresariais em particular. E o que acontece muitas vezes é que o talento tem um potencial maior do que aquele que é utilizado e, portanto, o conseguir desbloquear ou conseguir extrair todo o potencial que o talento, o capital humano, é claramente uma das formas mais importantes de conseguir crescimento, de conseguir desenvolvimento e aumento de produtividade. Claramente, uma das principais fontes de capital produtivo é o capital humano. E nós vivemos nesta fase de, mais uma vez, de aceleração, de transformação tecnológica.
E há muito esta questão de se as pessoas vão ficar para trás ou vão dar o salto porque têm novas ferramentas. Nesta altura, isto é ainda mais importante.
Eu acho que sim. Nós estamos numa fase de transformação que, – falo por mim, mas admito que representarei uma opinião dominante,- nós não sabemos exatamente o que é que vai acontecer. Sabemos que a inteligência artificial tem um poder transformador muito grande, mas não sabemos até que ponto é que existe esse poder transformador. Eu, apesar de tudo, eu quero acreditar, e sublinho quero acreditar, porque isto basicamente ainda é uma questão de crença, que o potencial humano é maior que o potencial tecnológico e que o próprio potencial tecnológico é, passe o pleonasmo, potenciado pelo potencial humano. Portanto, aquilo que vai ser um desafio muito grande para as pessoas individualmente, e para as organizações, empresas e não só, é não deixar que o espanto e a capacidade de realização que a inteligência artificial traz vá estiolar a inteligência natural.
Se nós nos entregarmos demasiado à inteligência artificial, se nos acomodarmos ao potencial da inteligência artificial, nós estamos, no fundo, a fechar a nossa própria capacidade
Eu acho que este é um dos principais desafios que todos nós temos pela frente e eu penso nisso todos os dias. Eu sou um utilizador da inteligência artificial, procuro fazê-lo de forma inteligente, mas obviamente que tenho a noção de que se nós nos entregarmos demasiado à inteligência artificial, se nos acomodarmos ao potencial da inteligência artificial, nós estamos, no fundo, a fechar a nossa própria capacidade. Ainda há pouco ouvi um podcast que recordava que, quando começámos a utilizar o GPS, nós começámos a estiolar a nossa capacidade de perspetivar o espaço. No fundo, a nossa geografia mental do espaço começou a diminuir. Quando utilizámos o Google para tirar todas as dúvidas, nós estamos a estiolar a nossa capacidade de memória. Portanto, o grande desafio que nós temos, de facto, é não deixar abafar a inteligência natural pelo potencial surpreendente da inteligência artificial. E isso aplica-se ao potencial humano. Não enquistar o potencial humano, mas fazê-lo desabrochar.
E trabalhar em conjunto com a tecnologia, que é isso que se pretende e que me parece inevitável.
Exatamente. E, sobretudo, alavancar o potencial humano no potencial tecnológico e não o contrário.
Daquilo que conhece, o nosso tecido empresarial está a fazer o caminho ao ritmo certo? Isto pode ou não acentuar ainda mais o fosso entre as grandes empresas e o resto, que é grande parte do tecido empresarial português, as PME?
Não necessariamente. Isto é, no geral, em termos de grandes números, provavelmente acabará por acontecer assim, porque as grandes empresas obviamente também têm mais capacidade e maior poder de investimento para tirar partido dessa tecnologia. Mas, e essa é a parte positiva, é que isto é uma tecnologia democratizável. Isto é, qualquer um pode aceder a ela, enfim, com diferentes condições, mas cada um pode aceder a ela. E, portanto, isto também permite às pequenas empresas darem grandes saltos qualitativos recorrendo a um instrumento que está disponível para as grandes empresas e onde o diferencial de investimento provavelmente é menor do que é se tiver que ter equipamentos físicos muito pesados. Tem um potencial de democratização mais rápida e de maior significado do que têm outras tecnologias. Mas, em termos de média, provavelmente agravará o fosso.
Voltando aos prémios, o que é que o júri procura quando está a avaliar candidatos? Há aqui muitas categorias, aquela que chama mais a atenção é o CEO, naturalmente, mas há CFO, há Investor Relations, há Prémios de Transformação. O júri quando se reúne e quando olha está à procura de que valoriza o quê?
É verdade, valoriza várias coisas dependendo da própria natureza do prémio. Para já, convém recordar que a designação deste prémio é Investor Relations and Governance Awards. Inicialmente, premiava os relatórios e contas, no fundo como o revelador do desempenho das empresas. Depois foi afunilando, foi-se especializando e estava virado sobretudo para o mercado de capitais numa altura onde, por exemplo, o PSI 20 tinha pelo menos 20 empresas. Atualmente, isso não acontece. Aquilo que nós chamamos de mercado de capitais, pelo menos o formalizado, tem-se vindo a encolher e também foi necessário, portanto, ir procurando outras áreas e é aí que surgiram os prémios de transformação, o prémio de sustentabilidade, etc.
Mas basicamente tem várias vertentes. Nas vertentes dos prémios que estava a referir, que eram prémios pessoais, são prémios de desempenho, de alguma forma, aplicam-se ao desempenho daquele ano em particular. Portanto, não são um atestado universal sobre as pessoas, não é dizer este é o melhor do mundo, é dizer que durante este ano destacou-se, a sua performance destacou-se.
Depois há outros prémios, como é, por exemplo, o Lifetime Achievement, onde aí há o cuidado de julgar, digamos, um percurso longo, e aí tem que haver um cuidado maior, porque enquanto no primeiro enfim, o facto de o desempenho dos personagens poder variar de um ano para o outro não afeta, porque o julgamento era sobre aquele ano. No caso do prémio de Lifetime, o julgamento é sobre uma carreira e, portanto, aí, havendo um erro, esse erro tem um peso muito grande. E, portanto, nós procuramos, até pela própria extensão da idade, avaliar percursos onde a pessoa esteja praticamente no fim da carreira.
Com muita prova dada, muito caminho percorrido.
E já tenha pouco futuro ativo para poder vir a estragar a carreira. Para poder estragar o que já fez de bom (risos).
Depois, no caso da transformação e sustentabilidade, são prémios que dependem de candidaturas, que são as próprias empresas que apresentam, e, portanto, aí o júri procura, no fundo, avaliar o potencial e, sobretudo, a capacidade de realização. Nós procuramos julgar não apenas aquilo que é a promessa do projeto, mas já alguma realização do projeto, já alguma materialidade.
Mais uma vez, e eu assumo isto com toda a naturalidade, – sendo nós humanos é natural – que possa haver juízos diferentes sobre os desempenhos. O júri são 11 elementos. E, portanto, significa que esta dimensão tem um grande potencial de diluir as subjetividades e, portanto, tende a fazer funcionar a lei dos grandes números. Nós queremos acreditar que o juízo coletivo de 11 pessoas é melhor que o melhor juízo individual de cada um de nós. Creio que com isso limitamos, reduzimos muito a margem de erro que cada um de nós possa cometer. Mas, portanto, basicamente, esses são os critérios que nós usamos.
O Vítor está há quantos anos no júri dos IRGAwards?
Como presidente, salvo erro, este é o décimo ano.
É um número redondo, mas pergunto-lhe, tantos anos, tantos projetos que viu, tantas personalidades e prestações que avaliou, o que é que mais gostou de aprender? O que é que mais tem gostado deste outro lado da sua atividade?
Em primeiro lugar, a interação com os outros membros do júri, porque isso é sempre muito enriquecedor, é uma equipa e é uma equipa que funciona bem. Aliás, a equipa também tem mudado com o tempo, mas é uma equipa que funciona bem. Eu acho que nós hoje temos um grau de articulação que é muito eficaz e muito eficiente também. Não estamos sempre de acordo, mas conseguimos dirimir de forma saudável e racional as diferenças que temos e, portanto, dentro do espírito que expliquei no início, conseguimos convergir, provavelmente, para aquilo que serão as melhores soluções, confrontando as nossas diferenças.
Esse diálogo deve ser interessante, não é?
Sim, sim, isso em si é uma aprendizagem importante. Depois, por outro lado, ver que, apesar de tudo, vai havendo alguma transformação dentro da economia, ao nível das empresas. Falando do meu setor – e aqui tentando pôr-me um pouco de fora – quando eu comecei nesta função, para aí em 2016, os bancos estavam, enfim, vou exagerar na resposta, de rastos. Tinha um problema de balanço muito complicado, não conseguiam rendibilidade. Hoje os bancos têm um desempenho muito bom, os balanços estão reforçados, têm capital, têm mais capital do que grande parte dos outros bancos europeus, têm uma boa rendibilidade, têm uma boa liquidez. Vendo este caminho, de que no dia-a-dia podemos não nos aperceber, mas quando paramos assim para olhar é muito importante.
Depois, por outro lado, enfim, também não resisto a referir a Deloitte. Como sabe, este prémio é apoiado, é promovido pela Deloitte, faz parte do seu próprio processo, no fundo, de networking e de promoção. Mas tem sido também notável a ver a própria capacidade que a Deloitte tem tido de se superar anualmente na qualidade da organização que faz, sobretudo o evento, que é a gala. Cada ano conseguem superar o que foi o ano anterior. Há essa capacidade de realização que a Deloitte tem: sendo isto um prémio antigo, parece sempre novo.
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“Temos de alavancar o potencial humano no potencial tecnológico e não o contrário”
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