“Ter competências financeiras adequadas contribui para relações laborais mais produtivas”

Portugal tem ainda um "caminho longo" para fazer ao nível da literacia financeira, sendo que as falhas sentido nesse âmbito afetam a vida de trabalho dos portugueses, bem como as suas pensões.

Os dados são relativos aos Estados Unidos, mas espelham bem de que modo a literacia financeira (ou a falta dela) pode afetar a relação das pessoas com o trabalho: um trabalhador “financeiramente mal preparado” gasta, em média, 11 horas do seu horário laboral semanal a resolver problemas financeiros, o que pode acabar por prejudicar a sua produtividade. O exemplo é realçado pela presidente da Fundação dr. António Cupertino Miranda.

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Em entrevista ao ECO, Maria Amélia Cupertino de Miranda sublinha que ter as competências financeiras adequadas ajuda a planear o futuro e a tomar as escolhas certas, “reduzindo a probabilidade de fragilidade financeira e aumentando a independência económica“.

Apesar dessas vantagens, Portugal tem ainda um caminho longo a percorrer, sendo que a literacia financeira é, por cá, ainda um desafio muito significativo, relata. Pior, tal cenário acaba por afetar os níveis de poupança e, consequentemente, a formação dos trabalhadores e até os anos passados na reforma.

Perante essa realidade, a fundação tem lançado várias iniciativas para promover a literacia financeira. O programa “Por tua conta”, por exemplo, visa preparar os alunos do ensino profissional, ao nível do conhecimento financeiro, para a transição para o mercado de trabalho, para que ganhem autonomia na gestão das finanças pessoais.

É evidente que a literacia financeira ainda é um desafio em Portugal. Um desafio que tem vindo a ser superado, é certo, mas a passos lentos.

Maria Amélia Cupertino de Miranda

Presidente da Fundação Dr. António Cupertino de Miranda

É celebrado esta terça-feira o Dia Mundial da Poupança. Que retrato faz, antes de mais, da literacia financeira dos portugueses? E como tem evoluído ao longo dos últimos anos?

Há vários estudos que comprovam os níveis baixos de literacia financeira que persistem entre os portugueses. Por exemplo, o Eurobarómetro sobre a literacia financeira realizado nos 27 países da União Europeia, publicado em julho de 2023, mostrou que apenas 11% dos portugueses têm um nível alto de literacia financeira. Esta é a percentagem mais baixa da União Europeia, a par com a Letónia. Já 19% tinham um nível baixo de literacia financeira, o que é uma percentagem muito considerável. É evidente que a literacia financeira ainda é um desafio em Portugal. Um desafio que tem vindo a ser superado, é certo, mas a passos lentos, num caminho que ainda é longo.

E de que modo é que a fraca literacia financeira afeta as vidas dos portugueses?

A literacia financeira tem um potencial transformador, enquanto fator altamente relevante para a tomada de decisões informadas. Da juventude à reforma, as competências financeiras ajudam a planear o futuro e a fazer melhores escolhas, reduzindo a probabilidade de fragilidade financeira, particularmente, na velhice, e aumentando a independência económica, sobretudo, dos grupos sociais mais frágeis. É, portanto, um agregador social muito relevante no combate à exclusão.

A fraca literacia financeira influencia de algum modo a relação dos portugueses com o trabalho? Em que sentido?

A literacia financeira está ligada às mais diversas esferas da nossa vida, incluindo, sem dúvida, a profissional. Conhecimentos e competências financeiras adequados contribuem também para relações laborais mais informadas e, portanto, mais produtivas. Não há estudos científicos em Portugal sobre este tema, mas, nos Estados Unidos da América, sabe-se que um trabalhador financeiramente mal preparado gasta em média 11 horas do seu horário laboral a resolver problemas financeiros.

Fundação promove iniciativa "Por tua conta", que visa preparar os alunos do ensino profissional, ao nível do conhecimento financeiro, para a transição para o mercado de trabalho.

E o nível de literacia financeira impacta a relação dos trabalhadores portugueses com a formação? Com menos literacia, podemos concluir que há menos poupança e, portanto, menos capacidade para ir investindo em formação ao longo da vida?

Sem dúvida. Sabemos que os níveis de poupança são, de forma global, baixos em Portugal e isso está ligado (entre muitos outros fatores) aos níveis de iliteracia. Por sua vez, as iliteracias – a financeira e também a digital – inibem a qualidade de vida de todos, afetam atitudes e comportamentos e a tomada de decisão fica seriamente prejudicada. É quase um ciclo entre baixa literacia financeira, baixos níveis de poupança e respetivas consequências na qualidade de vida – pessoal, laboral e social. A chave para interromper este ciclo está na capacitação.

No último ano e meio, os trabalhadores viram-se confrontados com um emagrecimento do salário real. O que mudou, então, no modo como os portugueses gerem o seu salário no dia a dia?

O que posso dizer é que o contexto económico que atravessamos só prova o quão essencial a literacia financeira é e vai continuar a ser. A capacidade de compreender a terminologia, os produtos financeiros e de acompanhar a sua evolução é mais essencial do que nunca, para que os portugueses possam ser capazes de gerir os seus rendimentos de forma consciente, informada e segura.

Já falamos de salários, mas não basta gerir o dia a dia. Com a sustentabilidade da Segurança Social sempre na ribalta, os portugueses têm poupado e planeado de forma prudente os rendimentos para a idade da reforma? Que retrato faz da forma como os trabalhadores preparam esse momento nas suas vidas?

Num panorama geral, estamos mal preparados para a reforma e para a longevidade – tanto a nível individual, como a nível nacional. É óbvio que o problema reside aqui: preparar a reforma é complexo, porque exige muito conhecimento financeiro e porque tem de se planear para um tempo incerto. Acredito que em Portugal poucos serão os que sabem que todo o processo de pensar a reforma tem implícita a necessidade de ter conhecimento financeiro, para depois saber planear e poupar, para investir. Há, pois, claras ligações entre a literacia para a longevidade e a literacia financeira. Falta fortalecer esta ligação. É isto que tentamos fazer com o “Eu e a Minha Reforma”, que tem por objetivo a formação financeira e a capacitação digital de adultos e das pessoas mais velhas, já que estas últimas são uma população particularmente vulnerável ao empobrecimento e à exclusão.

É urgente uma Estratégia Nacional para a Longevidade. A longevidade afetará tudo: a economia, as finanças, o sistema de segurança social, o mercado de trabalho… Tudo! Mas sabemos ainda pouco sobre este tema.

Maria Amélia Cupertino de Miranda

Presidente da Fundação Dr. António Cupertino de Miranda

E uma vez na reforma, os portugueses estão preparados para gerir bem as suas pensões, uma vez até que estas tendem a ser reduzidas?

Os baixos níveis de literacia financeira e de poupança em Portugal levam-nos a acreditar que a gestão de rendimentos, quando estes são reduzidos pela reforma, não é ainda fácil para os portugueses. Mas não pensemos que este é um trabalho isolado, de cada um. É urgente uma Estratégia Nacional para a Longevidade. A longevidade afetará tudo: a economia, as finanças, o sistema de Segurança Social, o mercado de trabalho… Tudo! Mas sabemos ainda pouco sobre este tema. Há uma enorme necessidade de produção científica que garanta dados estatísticos com a identificação dos impactos da longevidade. Este seria um bom ponto de partida.

Falemos da desigualdade entre géneros. Da vossa experiência, há um fosso entre eles e elas também no que diz respeito à literacia financeira? Como se explica?

Há vários estudos que apontam que, no que diz respeito à literacia financeira, ainda existem diferenças entre homens e mulheres. Creio, contudo, que já não se trata de um fosso entre géneros, como teríamos há umas décadas. Voltando à questão da longevidade e da preparação da reforma, gostava de partilhar o caso dos Estados Unidos da América. A investigação da professora Anna Maria Lussardi, da Universidade de Stanford, mostra que, nos Estados Unidos da América, os homens revelam ter maior literacia financeira do que as mulheres durante a vida ativa. No entanto, após a reforma, as mulheres são financeiramente mais letradas do que os homens, atribuindo-se o desnível ao facto de as mulheres serem gestoras domésticas e cuidadoras da família. Gostaria de saber o que se passa em Portugal, mas confesso não ser do meu conhecimento a existência de produção de dados científicos que me permitam tirar ilações.

Olhemos para o futuro. O que espera que mude daqui a cinco anos e daqui a dez anos na literacia financeira dos portugueses? O que deve ser feito para que esse retrato se torne mesmo realidade?

Para desenhar um futuro melhor, é preciso que algo mude na próxima década. Precisamos agora de políticas públicas que criem condições efetivas para que haja uma mudança sistémica na sociedade e também precisamos de apoio para programas credíveis que tragam qualificações financeiras e digitais às pessoas, para que mudem os seus comportamentos e atitudes em relação ao dinheiro. Se fizemos um caminho importante no estabelecimento de políticas educativas ligadas à literacia financeira para os mais novos (nas escolas), temos não só de dar-lhe continuidade, mas alargá-lo pensando na capacitação dos adultos na preparação financeira da longevidade. Sem debate consciente e informado, sem políticas públicas adequadas, jamais se removerão as barreiras que ainda se impõem à literacia financeira dos portugueses.

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