Jean-François Fallacher, CEO da Eutelsat, esteve em Portugal para anunciar um acordo com a Meo para a oferta de serviços de conectividade através da constelação OneWeb.
Portugal não é um território novo para a francesa Eutelsat. Quinze das antenas apontadas aos céus no teleporto de Alfouvar (Sintra) são da empresa francesa, uma das parceiras do consórcio SpaceRise, responsável pelo desenvolvimento da constelação IRIS 2, um projeto onde a Europa está a injetar mais de 15 mil milhões para ganhar soberania espacial.
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É um projeto onde a Meo, juntamente com a Thales em Portugal, avançou com uma candidatura para fornecer serviço de gateway ao consórcio SpaceRise a partir dos teleportos de Alfouvar, perto de Sintra, e em Santa Maria, nos Açores.
“Temos aqui, em Sintra, 15 antenas da OneWeb instaladas [no teleporto de Alfouvar]. Por isso, conhecemos muito bem a Meo, que assegura a operação destas antenas. Por isso, sim, têm todas as condições para conseguir obter sucesso” na proposta, admite Jean-François Fallacher, CEO da Eutelsat, em entrevista ao ECO/eRadar.
“A escolha será uma decisão importante que envolverá a Comissão Europeia, a ESA e nós próprios porque, afinal, não podemos esquecer que o IRIS 2 é financiado por fundos públicos. Temos, naturalmente, uma palavra a dizer, mas não somos os únicos responsáveis pela decisão”, ressalva o gestor durante a sua vinda a Portugal, precisamente para assinar um acordo que permite à Meo comercializar serviços de conectividade tendo por base constelação de mais de 600 satélites de órbita baixa (LEO) OneWeb da empresa.
Com o negócio do espaço a acelerar, há que colocar mais satélites em órbita. “Somos, na realidade, agnósticos quanto ao local onde os nossos satélites são lançados. O que procuramos são lançadores com capacidade suficiente“, começa por dizer Jean-François Fallacher quando questionado sobre se equacionava os Açores como potencial local para lançar satélites para a sua constelação. “Precisamos de mais lançadores e, consequentemente, de mais portos espaciais. Por isso, teríamos todo o gosto em lançar a partir de Portugal”, refere.
Há uma longa relação entre a Eutelsat e Portugal. Qual é o novo passo com o recente acordo com a Meo?
Temos uma relação de longa data com Portugal, tal como acontece em vários países europeus, porque somos um operador de satélites há mais de 45 anos. Originalmente, operávamos satélites geoestacionários, ainda em funcionamento a difundir vídeo. Por isso, historicamente, temos muitas empresas de comunicação social como clientes, para levar o sinal de televisão a qualquer parte, basicamente. Esse é um negócio legacy, sobretudo na Europa, onde cada vez mais pessoas consomem vídeo através do telemóvel ou da fibra. Por isso, o passo seguinte é, na realidade, o desenvolvimento do nosso negócio de conectividade através da nossa constelação de órbita baixa (LEO), a OneWeb.
Temos um ativo único. Uma proposta europeia única. Atualmente, existem apenas duas constelações deste tipo no mundo que estão operacionais: a nossa e a Starlink.
Decidimos focar em grandes empresas, governos e instituições para vender os nossos serviços. Isto porque, por conceção, a nossa constelação foi desenvolvida para este fim e oferece funcionalidades específicas para estes serviços de comunicações, que são mais apelativas para este tipo de clientes.
Estamos a registar um crescimento bastante significativo. Este negócio, o OneWeb, representa um quarto das receitas da Eutelsat, mais de 300 milhões de euros de receitas, tendo crescido 70% no ano passado face ao ano anterior.
Temos uma estrutura de governação tradicional, como muitas empresas na Europa. Temos um conselho de administração. Eu não tomo as decisões sozinho. Não posso acordar de manhã e decidir que vou cortar o acesso a determinada região geográfica só porque estou de mau humor ou porque estou chateado.
Por isso, estamos naturalmente a alargar a nossa parceria com a Meo, para que possa revender soluções de conectividade por satélite à sua base de clientes empresariais, complementando aquilo que já faz muito bem, ou seja, vender conectividade às empresas através de fibra e de redes móveis. Assim, basicamente, passam a ter mais uma rede, mais uma solução de conectividade, que ajuda a reforçar a resiliência, algo que é cada vez mais essencial para as empresas.
E com uma especificidade que temos, que é a soberania europeia: o facto de sermos, atualmente, uma empresa sediada na Europa e com uma governação europeia. Esta é, hoje, uma diferença muito significativa. Estamos a começar, mas há uma nova constelação a caminho, que será também uma constelação norte-americana.
Refere-se à Amazon LEO, a constelação de Jeff Bezos?
Sim, e haverá também outra constelação chinesa, que deverá entrar em funcionamento, não sei exatamente quando, talvez em 2029, provavelmente em 2030. Mas uma coisa é certa: somos europeus. Continuamos a ser europeus e seremos a única constelação soberana europeia.
Há ainda uma questão que também refiro aos nossos clientes: temos uma estrutura de governação tradicional, como muitas empresas na Europa. Temos um conselho de administração. Eu não tomo as decisões sozinho. Não posso acordar de manhã e decidir que vou cortar o acesso a determinada região geográfica só porque estou de mau humor ou porque estou chateado. Não é assim que funciona. É também, diria, uma forma de proteção para os clientes.
E é isso que esta parceria com a Meo representa e aquilo que queremos realmente desenvolver. Acreditamos que podemos fazer muito mais em Portugal. Em Portugal, têm também grandes empresas que operam não apenas no mercado nacional, mas em diferentes regiões do mundo. Somos, por natureza, uma constelação de órbita baixa, os nossos satélites orbitam em todo o planeta. Prestamos serviços em mais de 180 países. Por isso, é também uma solução que pode ser utilizada pelo Governo português ou por empresas portuguesas fora de Portugal.
Dado o atual momento geopolítico, o ‘cartão europeu’ dá-vos uma vantagem?
Só para deixar isto claro: a dimensão europeia é uma vantagem adicional. Mas, acima de tudo, estamos a prestar um serviço que funciona, que está efetivamente operacional. Nesta fase, são muito poucos os fornecedores capazes de oferecer um serviço deste género. Atualmente, existem apenas dois no mundo.
Mas há a Starlink que é gigante e na Europa também pesa.
Nós gostamos da concorrência. Há concorrência em todo o lado. Se olharmos para Portugal, a Meo não é a única operadora de telecomunicações. Tem concorrência. Por isso, sim, existe concorrência.
Em primeiro lugar, obviamente, prestamos um serviço com boas características e que funciona. Isso é evidente. Depois, temos esta especificidade, que está relacionada com o facto de sermos europeus. E é verdade que, no atual contexto geopolítico, esse fator também tem peso no processo de decisão, o que é algo novo.
Na Cimeira do Espaço em Paris foram feitos vários anúncios em torno da IRIS 2. São um dos parceiros do consórcio SpaceRise.
Não somos apenas parte do SpaceRise, somos o maior investidor no consórcio. A IRIS 2 é, na realidade, a futura constelação europeia — aquilo a que chamo a segunda geração da OneWeb. Será aquilo a que chamamos uma constelação multi-órbita. Terá uma componente em órbita baixa e, dentro do consórcio SpaceRise, somos responsáveis pela construção dessa componente de órbita baixa do IRIS 2. É por isso que vamos investir mais de 3 mil milhões de euros neste projeto, para construir aquilo que será, na realidade, a segunda geração da OneWeb. Serão satélites mais potentes, com ligações entre satélites através de lasers. Será, novamente, uma constelação multi-órbita.
Haverá também aquilo a que se chama uma órbita MEO, ou órbita terrestre média. É uma órbita situada entre os satélites geoestacionários, a 36.000 quilómetros, e os satélites LEO, a cerca de 1.200 quilómetros. No caso da MEO, estaremos a falar de algo em torno dos 8.000 quilómetros. Haverá uma outra constelação. Esse é o papel da SES no consórcio, que ficará responsável pela sua construção. As duas camadas da constelação também poderão comunicar entre si, tornando o sistema, no seu conjunto, mais resiliente e mais potente.
O investimento total previsto para o projeto é de 15,9 mil milhões de euros. Estamos, por isso, muito satisfeitos e orgulhosos por termos alcançado este marco durante o verão, quando chegámos a acordo para avançar com estes investimentos. Na Europa também. Já adjudicámos os contratos às empresas que fabricam os satélites para começarem a construir estas constelações, estes satélites. Do nosso lado, os contratos foram atribuídos à Airbus Defence and Space, à Thales Alenia Space e à Aerospace Lab, que ficarão responsáveis pela construção dos satélites.
A SES está responsável pela construção da camada MEO, em conjunto com a OHB, um fabricante alemão. A Hispasat, por sua vez, ficará responsável pelo segmento terrestre. É precisamente por isso que falámos esta manhã das propostas da Meo para que Portugal possa acolher também uma componente do segmento terrestre.
Os primeiros satélites desta constelação serão lançados em 2030. Será uma constelação de dupla utilização, com uma componente dedicada aos serviços governamentais e militares, por um lado, e uma componente comercial, por outro. Para nós, na Eutelsat, é uma excelente oportunidade para termos a segunda geração da nossa constelação, através de um investimento muito significativo, de 3 mil milhões de euros, mas que conseguimos suportar. Se tivéssemos de construir, sozinhos, uma constelação completamente nova, o investimento seria muito superior ao que vamos realizar no âmbito do IRIS 2.
A grande vantagem do IRIS 2 está precisamente nas sinergias que serão criadas entre um sistema que será soberano e a possibilidade de colocarmos os nossos próprios payloads comerciais nesta constelação. Isto permitirá dar continuidade à OneWeb a partir de 2032, altura em que planeamos fazer uma transição gradual dos nossos clientes da OneWeb para o IRIS 2.
A grande vantagem do IRIS 2 está precisamente nas sinergias que serão criadas entre um sistema que será soberano e a possibilidade de colocarmos os nossos próprios payloads comerciais nesta constelação. Isto permitirá dar continuidade à OneWeb a partir de 2032, altura em que planeamos fazer uma transição gradual dos nossos clientes da OneWeb para o IRIS 2.
Este é um momento muito importante para nós, porque nos dá continuidade e, sobretudo, um roteiro estratégico claro até 2040. Estamos a falar de um horizonte temporal bastante longo, mas é assim que funciona o setor dos satélites. Os investimentos são muito elevados e é preciso tempo para construir a constelação e os satélites, lançá-los, colocá-los em órbita e garantir que todo o sistema fica operacional. É um processo que leva vários anos — normalmente, entre três e cinco anos. Por isso, este verão representou um marco muito importante para nós e, diria, também para a Europa.
A Meo e a Thales em Portugal avançaram com uma proposta para fornecer o consórcio SpaceRise serviços de gateway. Como olha para esta proposta, tendo em conta que já conhece os serviços que são prestados a partir de Portugal?
Conhecemos muito bem este serviço, até porque temos em Portugal uma das poucas estações europeias de antenas, que, no nosso jargão, designamos por SMP. Temos aqui, em Sintra, 15 antenas da OneWeb instaladas [no teleporto de Alfouvar]. Por isso, conhecemos muito bem a Meo, que assegura a operação destas antenas. Por isso, sim, têm todas as condições para conseguir.
A escolha será uma decisão importante que envolverá a Comissão Europeia, a ESA e nós próprios, porque, afinal, não podemos esquecer que o IRIS 2 é financiado por fundos públicos. Temos, naturalmente, uma palavra a dizer, mas não somos os únicos responsáveis pela decisão.
Dos 15,9 mil milhões de euros do projeto IRIS 2, nós, enquanto setor privado, vamos investir 4,5 mil milhões. É uma contribuição importante, mas o restante financiamento é público, assegurado pela ESA e pela Comissão Europeia. Por razões óbvias, todos estes processos de aquisição decorrem de forma muito controlada e transparente.
Dado os prazos para esta constelação para quando estima uma decisão?
Penso que este tipo de decisão deverá ser tomada, provavelmente, antes do final do primeiro semestre do próximo ano.
Com a IRIS 2 a Europa vai ter as ferramentas para efetivamente atingir a soberania espacial ou é apenas um primeiro passo?
A verdade é que os Estados Unidos são uma grande potência espacial, isso é evidente. Mas, quando olhamos para a Europa, temos hoje vários dos elementos necessários para sermos uma potência espacial.
Começamos pelos lançadores. Temos o Ariane, que tem realizado lançamentos com bastante sucesso desde que retomou as operações e está a aumentar progressivamente a sua capacidade de lançamento. Temos também várias empresas de pequenos lançadores. Só para dar alguns exemplos, a MaiaSpace, com a qual temos um contrato, é uma startup francesa que está a desenvolver um lançador reutilizável. Temos a Isar Aerospace, que lançou com sucesso o seu primeiro foguete há poucas semanas — um acontecimento que considero muito importante para a Europa. Temos ainda a PLD Space, em Espanha, entre várias outras empresas. Por isso, do lado dos lançadores, somos uma região com acesso ao espaço.
A Europa tem muitos ativos no setor espacial. Precisamos simplesmente de continuar a desenvolvê-los e de garantir que nos mantemos na corrida. Porque a grande diferença entre os Estados Unidos e a Europa está na quantidade de capital que é investido no setor espacial, para que fique claro.
Depois, do lado do fabrico, temos empresas de grande dimensão. Refiro-me, por exemplo, à Airbus, à Thales Alenia Space e à Leonardo. E temos também várias empresas mais recentes e muito promissoras, que estão, diria, a crescer rapidamente. Uma delas é a Aerospace Lab, com a qual temos um contrato no âmbito do IRIS 2. Há muitas empresas do chamado New Space muito dinâmicas, que estão a crescer rapidamente na Europa.
Temos a OneWeb, a segunda grande constelação, e já existe. Quando fui nomeado CEO, há cerca de um ano, procurei perceber quanto tinha sido investido na OneWeb desde o início do projeto. A resposta foi 7 mil milhões de dólares. Ou seja, estamos hoje a operar uma infraestrutura no espaço cujo custo total ascendeu a 7 mil milhões de dólares, só para dar uma ideia da dimensão do ativo que temos em operação. Esta infraestrutura já existe, está disponível e presta serviços — e isso é muito importante quando falamos de serviços de comunicações.
Na área da observação da Terra, temos não só os tradicionais satélites governamentais de observação e de comunicações, como também empresas do New Space muito interessantes. É o caso da ICEYE.
Que abriu uma operação em Portugal.
E tem uma constelação dedicada à observação da Terra. Nós próprios anunciámos, durante a Cimeira do Espaço, um acordo com uma startup alemã que já tem entre 10 e 20 satélites em órbita, a realizar observação por infravermelhos. Vamos colocar os payloads, ou as missões deles, a bordo de 48 dos nossos satélites OneWeb. É uma situação vantajosa para ambas as partes. Ajudamo-los a chegar ao espaço. Obviamente, não é gratuito: eles pagam-nos por esse serviço. E, ao mesmo tempo, permite-nos gerar mais receitas com a nossa constelação. Além disso, ter uma constelação europeia de deteção por infravermelhos é muito positivo, porque o principal objetivo é a deteção precoce de incêndios. E quando vemos o que aconteceu este verão em Portugal, em Espanha, em França e, de forma mais geral, um pouco por toda a Europa, percebemos que isto é absolutamente essencial.
E por que razão estou a dizer isto? Penso que a Europa tem muitos ativos no setor espacial. Precisamos simplesmente de continuar a desenvolvê-los e de garantir que nos mantemos na corrida. Porque a grande diferença entre os Estados Unidos e a Europa está na quantidade de capital que é investido no setor espacial, para que fique claro.
É uma enorme diferença.
É uma diferença significativa. Ainda assim, temos excelentes ideias, grandes engenheiros e também startups muito promissoras. Temos um setor de New Space muito dinâmico.
Precisamos de mais lançadores e, consequentemente, de mais portos espaciais. Por isso, teríamos todo o gosto em lançar a partir de Portugal.
Portugal está a posicionar-se como porta de acesso ao espaço na Europa, a partir dos Açores. Têm muitos satélites para lançar… Seria uma possibilidade?
O que procuramos, neste momento, são lançadores. Normalmente, são as empresas de lançamento e os próprios operadores dos lançadores que escolhem os portos espaciais a partir dos quais vão operar.
Somos, na realidade, agnósticos quanto ao local de onde os nossos satélites são lançados. O que procuramos são, diria, lançadores com capacidade suficiente. Os nossos satélites pesam cerca de 150 quilogramas, pelo que sabemos que precisamos de lançadores com capacidade para transportar mais de uma tonelada. Isto porque também utilizamos um dispenser, que permite colocar os satélites em órbita.
Além disso, como os nossos satélites são colocados em órbitas polares — e não em órbitas geoestacionárias — precisamos de foguetões capazes de executar aquilo a que se chama uma manobra dogleg, ou seja, uma espécie de mudança de direção de 90 graus, para colocar os satélites nessas órbitas polares.
Mas, mais uma vez, o nosso foco está em contratar empresas de lançamento com capacidade para colocar os nossos satélites em órbita. Depois, dependendo do lançador escolhido, existem diferentes locais de lançamento. Se fizermos um acordo com a Isar Aerospace, por exemplo, os lançamentos serão feitos a partir do norte da Suécia ou, eventualmente, do norte da Escócia. Se recorrermos a lançadores norte-americanos, os lançamentos serão, naturalmente, feitos a partir dos Estados Unidos. Mas, pelo que percebo, essas empresas estão também a desenvolver novos portos espaciais, porque vamos precisar de aumentar a cadência de lançamentos. Precisamos de mais lançadores e, consequentemente, de mais portos espaciais. Por isso, teríamos todo o gosto em lançar a partir de Portugal.
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