“Transfiguração brutal” do reporte ESG “prejudica todos”

Num ano inaugural para o reporte de ESG de acordo com a nova diretiva, que entra em campo já coxa, Madalena Perestrelo de Oliveira critica as alterações mas mostra esperança na pressão do mercado.

No final de fevereiro chegou uma última “machadada” às diretivas de sustentabilidade relativas ao reporte. O pacote Omnibus, que começou por adiar as obrigações para algumas empresas, dita agora que muitas das que estavam inicialmente abrangidas não terão mesmo de reportar segundo a CSRD.

A aplicação fica confinada a “enormes empresas, já nem podemos falar em grandes empresas”, aponta Madalena Perestrelo de Oliveira, consultora sénior na PLMJ, que acompanha de perto estas matérias. A mesma aponta “um retrocesso absolutamente monumental” e uma “transfiguração brutal” do pretendido, “que prejudica todos os intervenientes”.

Apesar disso, e de a diretiva ainda não ter sido transposta em Portugal, em 2025, que foi o primeiro ano no qual se previa que as grandes cotadas reportassem de acordo com a diretiva, estas fizeram-no “de forma completamente voluntária” e “bem”, avalia a consultora. Também as pequenas e médias empresas, apesar de ainda não abrangidas, pareciam estar a fazer “um grande investimento”, perceciona.

O reporte é um motor de ajustamento de comportamentos e aquilo que eu temo – espero que não se materialize – é que este ajustamento no âmbito de aplicação da CSRD venha também com um afrouxar do ajustamento do comportamento das empresas”, afirma Perestrelo de Oliveira.

Ainda assim, considera que não se deve voltar a rever a legislação. “Não podemos continuar com este vaivém”, defende, sugerindo que se perceba como o mercado reage e, se for necessária nova intervenção, que seja só no médio prazo.

A consultora frisa que este é um caminho que continua a valer a pena para a União Europeia, mesmo que os Estados Unidos pareçam estar a perder-se no percurso, e rejeita que insistir na regulação de sustentabilidade, sobretudo nos termos atuais, seja “um tiro no pé” no que toca a competitividade. “É um caminho que temos de continuar a traçar”, finaliza.

2025 foi um ano marcante, por ser o primeiro ano em que as grandes cotadas tiveram de reportar de acordo com a diretiva [de reporte de sustentabilidade, a CSRD]. Queria então perguntar-lhe por um balanço desta primeira vaga. Os reportes foram entregues já com alguma qualidade? Que tendências é que podemos discernir?

2025 foi um ano profundamente marcante. A CSRD determinou uma obrigação de relato de sustentabilidade com critérios mais apertados e mais rigorosos, e 2025 foi o primeiro ano em que algumas empresas, a chamada primeira vaga, teve de reportar de acordo com esse critério. Em Portugal, na verdade, não chegou a ser transposta a CSRD para o Ordenamento Jurídico Nacional.

Portanto, na verdade, não tínhamos ainda nenhuma empresa portuguesa que estivesse sujeita a reportar, de acordo com a CSRD e aquilo que são chamados os European Sustainability Reporting Standards (ESRS), os standards de reporte de sustentabilidade, dito de forma mais simples.

A larga maioria das grandes cotadas fez esse reporte de sustentabilidade de forma completamente voluntária, e fê-lo bem.

O primeiro grande dado que eu posso trazer para aqui é que, já no ano passado, por exemplo, a CMVM [Comissão do Mercado de Valores Mobiliários], na Diretiva Anual dos Emitentes, recomendou às empresas que deveriam estar sujeitas à CSRD e que, na verdade, não estavam porque a diretiva não chegou a ser transposta, que reportassem já de acordo com essa diretiva e com os ESRS e, de facto, aquilo que se verificou é que a larga maioria das grandes cotadas fez esse reporte de sustentabilidade de forma completamente voluntária, e fê-lo bem.

Foi um ano de aprendizagem, claramente, do prisma das empresas, mas foi um ganho muito significativo para o nosso mercado, em termos de informação.

Quando diz que as empresas fizeram-no “bem” é porque, de facto, os dados que era suposto estarem lá – de acordo com a diretiva não transposta – estão?

Sim, com algumas ressalvas. Há um estudo que analisou 600 e tal relatos. Aquilo que verificou é que quando se olha para os vários ESRS, ou seja, para os vários data points – são 10 principais, que depois se subdividem em vários pequenos data points –, na verdade há um conjunto que a maioria das empresas, portuguesas ou não portuguesas, não considerou relevantes.

Alterações climáticas, preocupação com os próprios trabalhadores, preocupação com os consumidores, governo societário, estes são os grandes pontos que foram explorados pela maioria das empresas que reportaram. Depois há outros, ramificações, que foram considerados muito pouco materiais: biodiversidade, temas relacionados com povos indígenas, relação com as comunidades.

Portanto, quando digo que é um balanço muito positivo, é sem dúvida e é um balanço que permitiu também perceber que, na perspetiva das empresas, nem toda a informação que se exige reportar de acordo com as ESRS é considerada material.

Material naquela ideia de dupla materialidade, porque são fatores que impactam o resultado financeiro da sociedade, uma perspetiva de fora para dentro, mas também uma perspetiva de dentro para fora, ou seja, como é que a própria empresa impacta vários vetores. São reportes muito completos mas que já fazem alguma triagem daquilo que é relevante e não é relevante.

Depois, aquilo que vemos em termos da dimensão, é que temos relatos de sustentabilidade muito extensos. A média destes 600 e tal relatos analisados está na casa das cento e tal páginas, mas há muita disparidade. Temos relatórios de sustentabilidade de 25 páginas e temos relatórios de 400 e tal páginas. Aquilo que se nota que está ainda a falhar é muita comparabilidade. Também era o primeiro ano, portanto, seria de esperar que alguns afinamentos venham com o tempo.

Aquilo que se nota que está ainda a falhar é muita comparabilidade.

Sobre esse juízo daquilo que é material ou que não é: existe alguma entidade independente que valide se essa triagem está a ser bem feita?

Não exatamente, ou seja, o juízo de materialidade é um juízo essencialmente da sociedade, muitas vezes assessorado por consultores de sustentabilidade. O que nós temos é duas linhas diferentes em termos de garantia da informação, que eu acho que são relevantes. O papel da auditoria, para já, é ainda muito limitado.

Aquilo que prevê a CSRD é a chamada garantia limitada, e previa-se uma evolução da auditoria do relato de sustentabilidade para uma auditoria mais severa, que com esta última versão do pacote do Omnibus sofreu também um recuo. A auditoria vai-se manter apenas nesta garantia limitada.

E há depois outro plano interessante. De acordo com a CSRD, tal como estava em vigor, era suposto que as empresas publicassem um plano de transição climática. Esse era um dos pontos mais sensíveis da CSRD. Mais de metade das empresas, que reportaram, publicaram um plano de transição climática.

E a maioria dessas empresas que reportaram, na casa dos 70%, tiveram uma validação externa de que aquele seu plano de transição climática era adequado para a empresa, adequado para os objetivos que se visava atingir. Eu sinto que se nota essa preocupação de fiabilidade, e de comunicação a quem analisa os reportes de sustentabilidade de que aquela informação é fidedigna e pode ser utilizada como critério.

Mas, com essa garantia limitada não temos, de facto, uma avaliação muito escrutinada daquilo que é a materialidade empresa a empresa?

Não temos. É um juízo de responsabilidade própria. Mas eu acho que se estamos a pecar de alguma maneira, eventualmente até é por excesso e não por defeito. Aliás, essa era uma das grandes preocupações agora com o pacote Omnibus, evitar aquele exercício de tick the box das empresas com medo da sua responsabilidade, e considerarem todos os data points dos ESRS como sendo materiais.

Portanto, não me parece que seja uma preocupação, para já, as empresas escaparem-se a fazer esse juízo de materialidade ou considerarem não materiais aspetos que deveriam, em boa verdade, considerar materiais. Talvez venha a ser uma preocupação daqui a uns anos, mas eu diria que para já não vejo como problemático.

O “pecar por excesso” foi uma acusação reiterada a esta diretiva. Houve, com o Omnibus, uma redução muito relevante dos dados requeridos às empresas. Queria a sua opinião sobre se considera que a quantidade de dados que agora é exigida melhora significativamente o conhecimento sobre a sustentabilidade efetiva das empresas e, portanto, responde à mudança pretendida.

Só para fazer um enquadramento mais geral, sobre o que é que neste momento temos agora em cima da mesa: na verdade, os dados que se requer, que resultam dos ESRS, ainda não foram totalmente revistos.

O que aconteceu foi que as empresas vieram muito publicamente explicar que alguns dados eram muito difíceis de recolher, especialmente nos prazos impostos pelas diretivas, e aquilo que se fez foi o chamado quick fix, a solução rápida, que foi um regulamento delegado que atrasou a divulgação de um conjunto de ESRS que eram considerados mais problemáticos. Por exemplo, a introdução da divulgação das emissões de scope 3 (âmbito 3, ao longo da cadeia de valor) foi adiada no tempo.

Aquilo que agora vai acontecer é, espera-se, no prazo de seis meses, que haja uma revisão mais substancial no sentido de diminuir os data points de uma forma mais definitiva. Portanto, não estamos já a falar de adiamentos, mas efetivamente de revisitar os dados.

O que é que me parece? Obviamente que a simplificação é muito bem-vinda se não prejudicar a informação. E parece-me que ela pode ser efetivamente feita sem prejudicar a informação que é prestada ao mercado, aliviando o encargo do lado das empresas, desde que isso não seja materialmente equivalente a uma desregulação total.

Obviamente que a simplificação é muito bem vinda se não prejudicar a informação.

Ia avançar, então, para as grandes empresas não cotadas, que poderiam estar a reportar agora pela primeira vez, mas o Omnibus veio propor o adiamento desse prazo por dois anos. Há dados que indiquem se estas empresas estão mesmo a preferir tirar proveito da margem que lhes foi dada, ou se muitas até já estão a avançar com relatórios?

Tivemos uma evolução legislativa europeia muitíssimo recente, agora do dia 24 de fevereiro, que acho que pode potencialmente mudar a forma como estas empresas estão a olhar para o relato de sustentabilidade.

Porque se há um ano atrás nós de facto estávamos a discutir um adiamento do reporte com a diretiva do Stop the Clock, desde 24 de fevereiro ficou claro que estas empresas não vão chegar a ter de reportar, porque com a nova versão da CSRD, só ficam vinculadas ao reporte as empresas com mais de mil trabalhadores e com o volume de negócios líquido superior a 450 milhões.

Portanto, estamos a falar de enormes empresas, eu acho que já nem podemos falar em grandes empresas. Estas PME que tinham determinados critérios e que iam chegar ao reporte, na verdade, pelo menos de forma obrigatória, nunca vão ficar vinculadas. Nunca, enfim, pelo menos não nos próximos tempos, não vão ficar obrigadas ao reporte.

A minha perceção é que já havia um grande investimento de algumas PME, especialmente PME cotadas. Com este recuo total, vamos ver qual é que vai ser a opção.

A minha perceção é que já havia um grande investimento de algumas PME, especialmente PME cotadas, no sentido de se ajustarem ao reporte. Com este recuo total, vamos ver qual é que vai ser a opção. Eu acho que mais do que uma pressão regulatória, vai haver aqui uma pressão geral de mercado, que leva as empresas num caminho de fazer algum relato, talvez não com a exigência que se adivinhava que viria à luz do dia com a CSRD.

Mas qual é a sua opinião sobre esse alargamento das empresas que acabam por não ser abrangidas?

Eu tenho sido muitíssimo crítica destes recuos. Fico genuinamente com muita pena que a CSRD recue tanto. Repare, em Portugal não se chegou a transpor a CSRD, portanto, nós estamos num ponto de relato de sustentabilidade muito atrás da CSRD. E temos no nosso Código de Sociedades Comerciais uma obrigação de relato de sustentabilidade que se aplica a empresas que tenham mais de 500 trabalhadores e um volume de negócios líquido superior a 50 milhões, ou um balanço superior a 25 milhões.

O que nós temos é que empresas portuguesas que hoje estão sujeitas a relatos de sustentabilidade nunca chegarão a estar sujeitas a um relato de sustentabilidade ao abrigo da CSRD. E isto é um retrocesso absolutamente monumental. Eu nem sei se nós podemos chamar isto um recuo, porque é uma transfiguração brutal daquilo que se pretendia ou aquilo que era a ideia do que seria o relato de sustentabilidade e que prejudica todos os intervenientes.

E depois ficamos aqui com um desfasamento inevitável, que é termos investidores, seja gestores de ativos, seja bancos, que pedem informação de sustentabilidade e que as empresas com as quais estão a relacionar-se já não estão vinculadas a prestar essa informação. Portanto, ficamos aqui com uma falha de informação brutal para estes intervenientes, para estes investidores profissionais, para todo o mercado, todo o retalho.

Há quem diga, “mas era importante fazer-se isso porque a burocracia era tremenda, tínhamos perda de competitividade”. Naturalmente que eu sou muito sensível a esses argumentos. Regras excessivamente burocráticas podem impactar o desenvolvimento do negócio.

Mas o ponto é que o reporte não vale por si só, isoladamente. O reporte é um motor de ajustamento de comportamentos e aquilo que eu temo – espero que não se materialize –, é que este ajustamento no âmbito de aplicação da CSRD venha também com um afrouxar do ajustamento do comportamento das empresas nesta linha. Embora me pareça que nós temos um comboio em andamento.

Não me parece que as empresas vão, de repente, parar tudo o que têm feito até agora, regressar para trás. O caminho está a ser feito, de uma forma mais lenta do que aconteceria se não houvesse esta revisão tão profunda.

O reporte é um motor de ajustamento de comportamentos e aquilo que eu temo – espero que não se materialize –, é que este ajustamento no âmbito de aplicação da CSRD venha também com um afrouxar do ajustamento do comportamento das empresas nesta linha.

Com esse motor desligado, que é o reporte, resta-nos o motor da cadeia de valor. E essa pressão das entidades financeiras que precisam dos dados. Isto será suficiente?

É um motor muito importante e, se calhar, até um motor mais significativo do que o reporte. Aquilo a que nós assistimos nos últimos tempos, apesar de tudo, é a sustentabilidade a ser integrada no negócio. Já temos muitos administradores com o pelouro da sustentabilidade que estão envolvidos no negócio, que são executivos.

Depois, o relacionamento com esses stakeholders, bancos, financiadores de todo o tipo, é absolutamente crucial para que este ajustamento do negócio continue a acontecer. Será um pouco esse o princípio subjacente a estas alterações, imagino.

E qual é a versão menos benigna?

A versão menos benigna é a narrativa mais fácil, que é: quando não existem requisitos impositivos de compliance estrito, é normal que as empresas desloquem a sua energia dos temas aos quais estão efetivamente vinculados e, portanto, haja aqui um desleixar de um conjunto de comportamentos.

Mesmo o SFDR, que é o regulamento que se aplica a um conjunto de investidores, nomeadamente aos fundos de investimento, também vai ser revisto, não se sabe exatamente ainda como, e portanto há aqui algum temor que possam também os próprios investidores ir por arrasto.

Quando não existem requisitos impositivos de compliance estrito, é normal que as empresas desloquem a sua energia dos temas aos quais estão efetivamente vinculados e, portanto, haja aqui um desleixar.

Sendo que as instituições financeiras ainda estão obrigadas a pedir um conjunto de dados muito relevante, e não beneficiaram de reduções na mesma medida que as empresas, isto coloca um peso injusto sobre estas instituições?

Nunca teremos um peso excessivo sobre essas instituições, porque eu acho que a pressão normal e natural e boa de mercado é que as empresas vão sempre ajustar aos dados que as instituições financeiras precisam e, portanto, parece-me que estes encargos se vão distribuir de forma equitativa entre os vários intervenientes do mercado.

Temos focado sobretudo na diretiva de reporte, por ser aquela que está mais perto temporalmente em termos das alterações e efetividade, mas também houve alterações à diretiva de due dilligence, a CSDDD. Como é que avalia as alterações que foram sendo anunciadas e o que é que considera mais positivo e mais negativo?

A CSDDD é verdadeiramente o diploma mais difícil de avaliar. Com esta alteração de 24 de fevereiro, diminuiu-se muito o seu âmbito de aplicação. Vai aplicar-se diretamente este diploma apenas a empresas com mais de 5 mil trabalhadores, com o volume de negócios líquidos superior a 1.500 milhões de euros.

Se na CSRD eu há pouco dizia que eram as enormes empresas, então na CSDDD temos um âmbito de aplicação muitíssimo limitado. Não era muito claro como é que as empresas iam fazer esta tarefa de diligência devida, de perceber quais é que eram os seus parceiros negociais, diretos e indiretos, que representavam o maior risco de impactos adversos no ambiente e nos direitos humanos.

Esta diretiva estava ainda rodeada de muita incerteza e muito medo sobre a sua aplicação concreta. Portanto, esta alteração foi vista com algum alívio por vários intervenientes do mercado.

Se na CSRD eu há pouco dizia que eram as enormes empresas, então na CSDDD temos um âmbito de aplicação muitíssimo limitado.

 

Agora, como não chegámos a ver propriamente uma transposição, nem para Portugal, nem para nenhum ordenamento jurídico, em boa verdade, é pouco claro que tipo de retrocesso é que estamos a fazer, para além de sabermos que este âmbito de aplicação fica imediatamente muito limitado.

Retornando ao Omnibus. Queria perceber consigo se o Omnibus transformou este tal “tsunami regulatório” numa onda que as empresas de facto podem surfar, ou se se reduziu tanto que a regulação de sustentabilidade já não é propriamente uma onda e, portanto, já não empurra a ação das empresas.

Acho que já não temos onda, de facto, para surfar. Ou que muito poucas empresas têm ondas para surfar. O ano passado tinha havido aqueles adiamentos todos, determinadas empresas com menor dimensão viram o seu reporte adiado uns anos… E agora, o que se viu em 2026 foi a confirmação absoluta de que a onda desapareceu, temos um âmbito de aplicação absolutamente limitado, quer na CSRD, quer na CS3D.

Este Omnibus foi positivo para as empresas e para a economia europeia ou tem um efeito perverso de reconfortar no curto prazo, mas não acautelar o médio e longo prazo?

Eu acho que essa segunda versão é a mais adequada, até porque tinha havido muitos pedidos no mercado para se retroceder ou para aligeirar estes pacotes legislativos, mas a verdade é que também houve muitos movimentos em sentido contrário.

Aliás, basta ver que houve inúmeras empresas que investiram imenso na recolha de dados, no ajustamento de políticas internas, de comportamentos internos, e que de repente viram completamente frustrado este caminho. A não ser, atenção, que o queiram continuar a fazer, e eu espero que o queiram continuar a fazer.

O Omnibus foi enquadrado sempre como um pacote de simplificação, e como pacote de simplificação seria um pacote extraordinário porque era claramente preciso afinar ali algumas coisas. Só que o que nós temos com estas modificações já não é propriamente uma simplificação, é uma desregulação. Quando nós dizemos que empresas que iam ter de reportar, afinal, não reportam, isto é, pura e simplesmente, desregulação.

O que nós temos com estas modificações já não é propriamente uma simplificação, é uma desregulação.

Mas tendo em conta que esse caminho foi de certa forma desvirtuado, o que é que lhe parece adequado que seja o caminho daqui para a frente, em termos da regulação de sustentabilidade na União Europeia? Voltar atrás com os riscos que isso acarreta, de volatilidade, ou continuar neste caminho com os riscos que isso também acarreta? Qual é o melhor cenário agora?

Acho que neste momento nós temos de lidar com o que temos em cima da mesa. Ou seja, não podemos estar a funcionar num cenário ideal. Sou muito crítica deste pacote Omnibus, mas ele foi aprovado, está publicado no jornal oficial, entrará em vigor e irá ser transposto. E temos de lidar com isso e de dar tranquilidade às empresas.

Se há coisa que as empresas precisam é de segurança, de saberem em que quadro legal e regulatório é que atuam, e nós não podemos continuar com este vaivém. Revisitar o tema ou voltar atrás no imediato não me parece que seja uma boa estratégia, não me parece que exista sequer contexto político para isso. Nem me parece que fosse benéfico do prisma das empresas estarem a passar por mais um processo deste tipo.

Eu acho que neste momento nós temos de lidar com o que temos em cima da mesa. Sou muito crítica deste pacote Omnibus, mas ele foi aprovado, está publicado no jornal oficial, entrará em vigor e irá ser transposto. Se há coisa que as empresas precisam é de segurança, de saberem em que quadro legal e regulatório é que atuam, e nós não podemos continuar com este vaivém.

Eu acho que neste momento nós temos de confiar que o mercado vai atuar, ver como é que o mercado se ajusta e daqui a uns anos, em função daquilo que tiver sido a evolução do mercado e dos vários agentes económicos, ver se faz sentido efetivamente revisitar o tema ou não, mas enfim, algo num horizonte temporal de médio prazo, portanto não nos próximos anos, sob pena de as empresas não descansarem e não saberem com o que contar.

A Europa sempre foi tida como estando na frente da regulação. Embora com muitas críticas ao peso, adiantou-se nestas matérias. Na sua opinião, ainda pode ser tida de alguma forma como referência neste momento?

Sim. Pode. Apesar de tudo, e mesmo com estes recuos, não deixa de ser uma referência. É uma referência mais ténue, mas apesar de tudo, este passo da CSDDD, mesmo com uma aplicação muito limitada, não deixa de ser importante, porque há um efeito de contágio.

Porque a verdade é que todos os parceiros negociais que se relacionem com estas empresas que estão sujeitas à CS3D, inevitavelmente vão ter de ajustar comportamentos ou assegurar determinados mínimos ambientais e sociais se querem continuar a ser parceiros contratuais destas enormes empresas que estão sujeitas à CS3D.

Portanto, este efeito de contágio foi diminuído, mas não desapareceu totalmente. Continuamos a ter um reporte de sustentabilidade, que é um caminho diferente, apesar de tudo, do recuo mais absoluto que tem sido feito ao nível dos Estados Unidos. Temos aqui uma liderança ainda não tão forte quanto se adivinhava que ia ser, mas, apesar de tudo, parece que ainda podemos falar em liderança da União Europeia.

Agora passando para o outro lado do oceano, olhando aos Estados Unidos, que têm ido também em contracorrente nestes assuntos. Temos assistido a algumas decisões relevantes. Foi revogada a conclusão científica que servia de base às regulações climáticas dos Estados Unidos, o Endangerment Finding, os Estados Unidos retiraram-se do Acordo de Paris e da Convenção Quadro das Nações Unidas que diz respeito ao clima. Quais são as consequências práticas destas ações e quão grave acaba por ser este cenário, na prática?

É tudo preocupante. Esta retirada do Acordo de Paris é preocupante. A retirada do Acordo de Quadro é particularmente preocupante porque funcionava aqui como a base sobre a qual eram negociados uma série de instrumentos, incluindo o próprio Acordo de Paris.

Nesse tema do endangerment rule, estamos a falar, no fundo, de uma regra que tinha sido construída junto do Supremo Tribunal americano, num caso que opunha o Estado de Massachusetts contra a Agência de Proteção Ambiental, em 2007, em que foi exigido que a Agência de Proteção Ambiental demonstrasse que os gases com efeitos de estufa eram considerados poluentes para efeitos do Clean Air Act.

E essa justificação, que foi feita junto do Supreme Court, foi absolutamente essencial, porque é a base em cima da qual se legisla e se controla uma série de emissões, por exemplo, de veículos.

É um movimento muito preocupante porque, parece-me a mim, vai haver aqui um contencioso crescente em torno de regulamentação climática já em vigor nos Estados Unidos.

Quando nós fazemos perigar este tipo de regras, há aqui um efeito, quase como um castelo de cartas. Retira-se a base, vem tudo por aqui abaixo. É um movimento muito preocupante porque, parece-me a mim, vai haver aqui um contencioso crescente em torno de regulamentação climática já em vigor nos Estados Unidos.

Há várias empresas, já se documenta, que têm recuado nas suas políticas. Estados americanos que são um bocadinho mais… ambiciosos na regulação climática, como é o caso da Califórnia, têm vindo a ver as suas leis contestadas, por exemplo pela Exxon, e portanto temos aqui uma tensão muito evidente e que depois obviamente se alastra aqui para a União Europeia, inevitavelmente.

Como é que estas tendências a que estamos a assistir nos Estados Unidos se acabam por repercutir na Europa e como é que a Europa pode lidar da melhor forma, escudar-se um pouco dessa influência?

O grande tema é que a União Europeia é vista cada vez mais como o sítio onde a competitividade morre. Porque temos uma regulação tão apertada, tão exigente, quando nos Estados Unidos o caminho é exatamente o oposto. Não sei se é muito linear associar perda de competitividade a este tipo de regra de sustentabilidade, mas a verdade é que essa é a perceção que existe.

Tudo depende da forma como a União Europeia olhe para este tema e pode escolher em vez de ser liderada, liderar nestes temas. Eu acho que foi feita agora uma opção clara, e volto à publicação de 24 de fevereiro destas últimas alterações da CSRD e da CSDDD: foi feita aqui uma opção clara que foi retroceder sem abandonar, um retrocesso significativo, mas apesar de tudo mantém-se aqui um conjunto de regras significativas em matéria de sustentabilidade. Vamos ver os próximos anos.

Na sua ótica, vale a pena insistir na regulamentação de sustentabilidade aqui na Europa quando a maior economia do mundo e também o segundo maior emissor se demite dessa responsabilidade? Ou corremos o risco de não ter os efeitos desejados em termos das alterações climáticas e, em acréscimo, estar a dar um bocadinho um tiro no pé em termos de competitividade?

Acho que temos de insistir neste caminho. O retrocesso que foi feito já foi significativo e não deve ser ampliado. Esse tiro no pé em matéria de competitividade, especialmente com estes ajustamentos das regras, acho que ainda está por demonstrar. Não me parece que seja tão claro.

Os estudos que foram feitos eram muito embrionários, especialmente porque se baseavam em reportes que ainda não tinham sido feitos, numa CSDDD que ainda não foi implementada. Parece-me que, especialmente com estes ajustamentos e com este aligeiramento, não é um tiro no pé, e é um caminho que nós temos de continuar a traçar.

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