“Universidade do Algarve irá acompanhar toda a preparação e todo o projeto do hospital central”

Ligação ao novo hospital é crucial para os cursos e para a investigação, diz a nova reitora da instituição. Em entrevista, Alexandra Teodósio expressa a expectativa de reter mais médicos no Algarve.

“O hospital central será uma forma de atrair profissionais de saúde que queiram ficar na universidade e também no hospital”, defende Alexandra Teodósio, a primeira mulher a chegar a reitora da Universidade do Algarve. Há dois meses à frente dos destinos da instituição, e depois de anos como vice-reitora nos dois mandatos do antecessor, poderá ser ela a inaugurar o campus da saúde no novo hospital central, cujo concurso público para construção e gestão em PPP já foi lançado. Na primeira grande entrevista após ser empossada a 17 de dezembro, a ex-aluna da instituição perspetiva o crescimento desta no campo da saúde.

Foi lançado o concurso público para construção do novo Hospital Central do Algarve. Em que vai consistir o campus da saúde sob responsabilidade da Universidade?

A formação e investigação na área da saúde é um aspeto central da universidade, não só neste plano estratégico que começa agora, mas que já vinha dos anos anteriores, com o reitor Paulo Águas. A dificuldade que existe neste campus é de colocar os profissionais que formamos ou estão em formação nos estabelecimentos de saúde. É preciso garantir acordos que recebam os nossos estudantes para a formação ser a mais adequada. O Algarve, como sabemos, tem limitação a nível de estabelecimentos de saúde, o que para a universidade constitui uma limitação importante. Se conseguirmos, com o desenvolvimento do hospital central, ter um espaço, já pré-acordado entre os dois municípios que gerem o Parque das Cidades, para a Universidade do Algarve será o ideal, para o desenvolvimento dos nossos cursos e da capacidade de fazermos investigação clínica associada diretamente ao hospital central. Esta será uma escola em conjunto com a Universidade do Algarve.

Alexandra Teodósio guia-nos, durante a entrevista, até ao futuro campus da saúde: “temos o estádio do Algarve, depois está o lote que será para a Universidade do Algarve, depois há uma rotunda e a seguir é o espaço do hospital central”.Hugo Amaral/ECO

Qual o papel da universidade neste projeto?

Fizemos um protocolo, na presença da senhora ministra da Saúde, em que estabelecemos que a Universidade do Algarve irá acompanhar toda a preparação e todo o projeto do hospital central, associado também ao nosso conhecimento, quer da investigação, quer do ensino da medicina e também da nossa Escola Superior de Saúde, que tem para além da enfermagem, muitos outros cursos associados à saúde, fisioterapia e outras áreas.

Esta ligação é crucial para o desenvolvimento dos próprios cursos e da investigação. Neste acordo, para além de se acompanhar o projeto do hospital, pretende-se também estabelecer protocolos que permitam fazer doutoramentos em ambiente de interface, neste caso com a saúde, que os internos do hospital possam ser simultaneamente nossos doutorandos nos nossos programas de doutoramento.

Neste acordo, para além de se acompanhar o projeto do hospital, pretende-se também estabelecer protocolos que permitam fazer doutoramentos em ambiente de interface, neste caso com a saúde, que os internos do hospital possam ser simultaneamente nossos doutorandos nos nossos programas de doutoramento.

Não temos tido oportunidade de o fazer, porque as condições não o permitem, mas com uma estrutura central moderna, desenvolvida com todas as questões da sustentabilidade ambiental e da saúde, será uma excelente oportunidade, tanto para o hospital como para a universidade.

Considerando as instalações envelhecidas dois dois grandes hospitais do Algarve, e a escassa oferta no privado, como têm desenvolvido investigação em saúde?

Temos estabelecido parcerias com instituições privadas de saúde no Algarve e em alguns anos precisamos de recorrer a outras instituições de saúde a outros hospitais noutras localizações, mas nem sempre tem sido possível arranjar estágios. Temos feito com Setúbal e Almada.

Que constrangimentos se vivem nesta área?

Um dos grandes objetivos do curso de medicina, e dos outros da área da saúde, é o de reter estes talentos no Algarve. Se se oferece estes estágios noutras regiões, esta estratégia fica um pouco comprometida.

O feedback que temos tido é que há um número importante de profissionais de saúde, em especial médicos, que ficam no Algarve, especialmente médicos de saúde familiar, os médicos dos centros de saúde.

A Universidade do Algarve vai conseguir impor-se a nível nacional com o novo hospital, previsto para 2031?

Para se dar formação, sobretudo a médica e todas as que precisam da prática assegurada nos estabelecimentos de saúde, um dos aspetos que limitam o crescimento é a capacidade de estabelecimentos que recebam os nossos estudantes para a aquisição das competências práticas.

O nosso curso, em especial o de medicina, foi inovador no país. Acho que continua a ser o único, porque mesmo o Minho é uma formação de licenciatura e de mestrado. O nosso é apenas mestrado, mas recebe já estudantes que tenham um percurso prévio na área da saúde ou da biologia. Os médicos que se formam aqui já começam o curso com um desenvolvimento profissional na área da saúde, já com algumas competências. O método de ensino é muito baseado no problem-based learning, que exige grupos pequenos. Este aumento do número de estudantes da Universidade do Algarve está limitado por estas circunstâncias.

“Os médicos que se formam aqui já começam o curso com um desenvolvimento profissional na área da saúde, já com algumas competências. O método de ensino é muito baseado no problem-based learning, que exige grupos pequenos”, explica a nova reitora da Universidade do Algarve

Adicionalmente, não temos um corpo docente que permita dar aulas a cursos a grupos tão pequenos, porque são preciso muito mais docentes para esta conjugação. Mesmo assim, temos tido um percurso bastante positivo. Começámos com cerca de 40 vagas e agora já estamos nas 92. Isso deveu-se a um esforço da faculdade de medicina e também à abertura de mais concursos para recebermos mais docentes nesta área. Nestes concursos, por vezes temos dificuldade em recrutar os professores para o Algarve. A parte da investigação também tem tido impacto bastante grande, associado a todo este ecossistema do ABC, do Algarve Biomedical Center, que tem unidade de investigação, centro clínico e laboratório colaborativo, associado a empresas. Todo este ecossistema ABC também começou a ser mais reconhecido nacional e internacionalmente e acho que contribui para a atração de talentos e de professores e investigadores que queiram ficar aqui.

Médicos à imagem dos pilotos da Força Aérea. “Não sou a favor”

Que visão tem do argumento que defende um período obrigatório de dedicação dos novos médicos ao SNS, à imagem do que sucede com os pilotos formados na Força Aérea?

Não sou a favor dessas normas muito rígidas. O que se tem de fazer é criar condições para que as pessoas gostem de ficar aqui, e o hospital central será uma forma de atrair profissionais de saúde que queiram ficar na universidade e também no hospital. É esta mistura e conjugação que permitirá, pelo menos para o Algarve, aumentar a sua capacidade de retenção de talento. As pessoas precisam de estar felizes e satisfeitas no seu lugar de trabalho.

Aqui, a Faculdade de Medicina tem crescido bastante e temos um centro de simulação médica, que já começa a ser limitado. Duplicámos o número de estudantes, também se tem conseguido atrair investigadores de grande qualidade, mas já se começa a necessitar de mais espaço. Por isso, esta conjugação da proximidade do hospital central é muito importante para o desenvolvimento da universidade, especialmente da área da saúde.

Duplicámos o número de estudantes, também se tem conseguido atrair investigadores de grande qualidade, mas já se começa a necessitar de mais espaço. Por isso, esta conjugação da proximidade do hospital central é muito importante para o desenvolvimento da universidade.

Já fecharam as negociações com o Governo?

O que temos atualmente em negociação não é diretamente com o Ministério, antes com a ULS Algarve, que é quem vai ficar a gerir o hospital, e com as duas câmaras, de Faro e de Loulé, que têm a gestão partilhada do Parque das Cidades. Estivemos a negociar um protocolo, não com cada um em separado, mas com a associação de municípios de Faro e Loulé. Já está identificado o lote que poderá ser para a universidade, mas não está concretizado o acordo. É um lote muito próximo.

Vai haver, finalmente, uma área de oncologia e investigação nesta área?

Ainda não está estabelecido com esse nível de detalhe. Tudo dependerá de como se vão organizar as especialidades no hospital central, e a nossa resposta estará alinhada. Estou convencida de que este protocolo para acompanharmos o desenvolvimento do projeto do hospital central facilitará as nossas próprias decisões nessa área.

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