Universidade do Algarve reforça-se no Barlavento. “O nosso objetivo é a oferta associada às empresas”

Alexandra Teodósio cumpre dois meses como reitora da Universidade do Algarve. Na primeira entrevista, traça o futuro a oeste, onde há muito de novo no investimento em instalações e oferta formativa.

Com a dupla valência de sistemas politécnico e universitário, a Universidade do Algarve deverá ver aprovado ainda este ano o projeto para construção das novas instalações em Portimão, inseridas numa estratégia alargada para o Barlavento algarvio. Alexandra Teodósio, primeira mulher a liderar a Universidade do Algarve, quer envolver neste seu projeto todas as autarquias do Barlavento, de Lagoa e Silves a Monchique e Aljezur. Na sua primeira entrevista desde que tomou posse a 17 de dezembro, a reitora diz ao ECO que se a oferta em Portimão se ficar apenas pelo subsistema Politécnico vai enfrentar dificuldades. Ali, haverá foco nos cursos técnicos superiores profissionais, articulados com a “procura das empresas por formação técnica”.

A Universidade do Algarve comporta, tal como a do Minho, uma região, mas se no Norte há polos fortes em Braga e Guimarães, aqui só Faro tem dimensão. É neste seu primeiro mandato que vai ganhar forma o campus de Portimão?

Não quero que se chame campus de Portimão. Vai chamar-se campus de Barlavento. Tenho estado a preparar tudo nesse sentido.

E o que podemos esperar do campus do Barlavento?

Apesar do projeto, que está aprovado e com parte do financiamento, ter a estrutura do edifício localizada em Portimão, o nosso objetivo é ter a oferta letiva não só concentrada em Portimão. O foco da oferta em Portimão está associado aos cursos técnicos superiores profissionais, e esses são para desenvolver em função da procura das empresas por formação técnica. O que estamos a fazer no momento é reunir com as câmaras e com as empresas do Barlavento que nos identifiquem as suas necessidades de formação. Estes cursos obrigam a ter uma parte associada a uma instituição de ensino superior, e normalmente até estão mais associados ao ensino Politécnico – a Universidade do Algarve tem os dois sistemas. Posteriormente, depois de termos feito este levantamento com as câmaras – Vila do Bispo, Silves, Lagos, Portimão, Lagoa, Monchique e Aljezur –, vamos falar com todas.

O polo das Gambelas, junto ao aeroporto de Faro, é o grande centro da Universidade do Algarve. Já para o Verão é esperado um novo passo no caminho para Barlavento, onde atualmente existe apenas um pequeno edifício da instituição em Portimão.

Pretende, então, mobilizar autarquias e empresas para ali. Como?

Está associado ao plano estratégico do meu mandato, que vai entrar agora em consulta pública. Vamos ouvir os intervenientes para a parte do campus de Portimão, que é onde vamos desenvolver mais oferta letiva. A transição dos estudantes do secundário para a Universidade do Algarve é muito mais reduzida na área de Barlavento do que no Sotavento, por isso vem esta necessidade de mais oferta letiva a Barlavento, para se conseguir reter mais estudantes pela proximidade de casa, porque a ligação de Faro às outras cidades de Barlavento não é muito fácil. O impacto associado às empresas locais, ou às associações, beneficia da proximidade. Estes cursos precisam de um tempo bastante alargado de permanência nas empresas, as competências não são adquiridas em sala de aula ou em laboratório, mas hands on, as mãos na massa, ou a aprendizagem em contexto mais prático.

A transição dos estudantes do secundário para a Universidade do Algarve é muito mais reduzida na área de Barlavento do que no Sotavento, por isso vem esta necessidade de mais oferta letiva a Barlavento, para se conseguir reter mais estudantes pela proximidade de casa, porque a ligação Faro às outras cidades de Barlavento não é muito fácil.

Que outros espaços terão a Barlavento, para lá de Portimão?

Já temos em Vila do Bispo a estação marinha e também já está previsto que, no próximo ano letivo, o mestrado profissional de biodiversidade, pescas e conservação marinha vai funcionar nesta zona de Vila do Bispo, na estação marinha de Sagres. O próprio polo de Portimão existe e tem cursos de gestão e de turismo a funcionar.

Estamos à procura de outros interesses que se possam desenvolver nesta parceria, mas serão sobretudo em áreas mais digitais, tecnológica, associada à agrotech ou à construção naval ou ao próprio autódromo – já existem lá algumas empresas de testes. O nosso objetivo é a oferta formativa associada às empresas e, sobretudo, numa base mais tecnológica, associada à digitalização de processos. É um tipo de técnico intermédio, não superior, porque não é uma licenciatura, com cursos superiores de dois anos, de que existem semelhantes noutros países da Europa. Na Alemanha são os chamados bacharelatos duais, com este perfil ainda mais rígido, de metade do tempo na empresa, metade do tempo na instituição de ensino.

Quando será implementado?

Este ano será definida a oferta formativa, em associação com as empresas e as necessidades da região. Na área da saúde na zona de Barlavento também podemos identificar áreas importantes de oferta que não existem. Pode haver formação de alguns técnicos especialistas, até associadas à emergência médica. Depois, desde eletricistas navais a técnicos para revestimentos de compósitos mais leves necessários para a indústria automóvel e a indústria da construção naval, é preciso dar formação especializada. Normalmente, as empresas necessitam de recorrer a técnicos deste nível intermédio do Brasil e de Espanha, porque nós não os estamos ainda a formar. Sobretudo aqui no Sul. O desenvolvimento destes cursos superiores técnicos no Norte do país está mais avançado. Aqui, temos tido alguns no ISE, o nosso Instituto Superior de Engenharia, alguns na área da gestão, mas não com tecnologia, que é o caminho que temos que seguir.

As instalações de Portimão são para manter? Ou vão mudar de local?

Vão ser devolvidas à Câmara. É um antigo matadouro, tem as condições que tem… [A nova localização] será na zona do Barranco do Rodrigo. Vai ter uma zona de edifício com as salas de aulas e laboratórios e também já está identificada uma zona para residência.

Dentro da cidade de Faro, próximo ao hospital, o polo da Penha é o segundo maior campus da instituição. Após a fundação, em 1979, de uma universidade e de um politécnico em Faro, uma fusão posterior conjugou as duas valências, coexistindo na Universidade do Algarve as orgânicas de Ensino Superior Universitário e de Ensino Superior Politécnico

Atração de estudantes das Américas penalizada pelo alojamento

Também longe dos grandes polos nacionais de Lisboa, Coimbra e Porto, está, como aqui, a UTAD, que usa a habitação acessível como uma das suas vantagens. Neste particular, o Algarve não pode usar o mesmo argumento.

Pois não…

E como pretende debelar esse constrangimento?

De facto, é um constrangimento grande que temos vindo a sentir nos últimos anos, também para os estudantes internacionais, sobretudo os que vêm para fazer os graus completos – não os de mobilidade de Erasmus, que só ficam seis meses. Temos conseguido aumentar muito os níveis de recrutamento dos estudantes de grau completo, e esse estudante, quando vem, atravessa o Atlântico – seja do Brasil, da Colômbia, do Equador, os países que temos estado a aumentar mais recentemente -, e quando chega, quer um espaço que dê confiança. Uma residência é logo um estímulo à confiança para que se inscreva na própria instituição. As nossas residências estavam com alguma degradação, e o número de camas é muito inferior às nossas necessidades. As necessidades principais são para os estudantes da ação social, e tivemos alturas em que tínhamos de fazer acordos com o Instituto da Juventude e com outras instituições.

Que medidas vão tomar para aumentar o alojamento?

Para iniciarmos o edifício em Portimão, que vai ser uma peça do campus de Barlavento, já temos o financiamento aprovado. O protocolo tem um lote para o edifício. Já temos o protocolo com a Câmara. O que está a limitar o início é a alteração [do PDM]. A presidência da Câmara de Portimão diz que vai ser um aspeto relativamente célere. Assim o esperamos. Estamos a estudar a oferta formativa, já temos o espaço, temos o projeto também com o financiamento do Algarve 2030. Só temos financiamento de 60%, porque o Algarve deve estar classificado em phasing out, pelo PIB médio dos seus habitantes, mas que não traduz, de facto, o PIB de cada de cada um dos habitantes no Algarve.

Uma particularidade desta região, tal como a Madeira, com PIB per capita inflacionado por não residentes.

Está associado à atividade do turismo, mas é a realidade a que temos de dar resposta. Temos o financiamento através do Algarve 2030, que vem através da CCDR, e agora estamos a tentar com os municípios um contributo.

Qual a parcela que falta?

O custo é de 17 milhões, temos financiado 10,335 milhões, estamos a negociar o remanescente com os municípios e o Governo. Estou em negociações com as câmaras, e para que haja oferta letiva associada às empresas dos diferentes concelhos para criar, de facto, esta estrutura de Barlavento.

Estamos a negociar com o próprio Governo, para que seja o próprio Ministério num contrato-programa com a universidade a contribuir numa percentagem para o resto que nos falta. Estamos em situação de desvantagem relativamente à região do Centro, Norte e Alentejo, que recebem estes mesmos financiamentos a 85% e nós recebemos a 60%. Por isso, a proposta era que ficássemos, pelo menos, iguais às outras regiões.

Estamos a negociar com o próprio Governo, para que seja o próprio Ministério num contrato-programa com a universidade a contribuir numa percentagem para o resto que nos falta. Estamos em situação de desvantagem relativamente à região do Centro, Norte e Alentejo.

Estão equiparados a Lisboa e Porto?

Lisboa, Madeira e Algarve.

Madeira, a mesma razão…

Do turismo.

Uma das suas críticas vira-se precisamente para a “monocultura do turismo”. Não é uma área tradicionalmente com grande relevância universitária.

Por isso queremos apostar no campus de Portimão na formação de técnicos superiores profissionais associados a potenciais desenvolvimentos de empresas que pretendam diversificar a nossa economia. A universidade, formando, capacitando, em articulação com as empresas, pode contribuir para a diversificação económica, que não seja só turismo. Mas precisa da conjugação com as empresas já estabelecidas. E potenciá-las.

Temos planeado mestrados profissionais, para dar competências mais avançadas. Os mestrados profissionais são só seis meses de aulas e os outros seis meses na empresa, com orientação dos investigadores e dos docentes, e depois doutoramentos de interface. Se tiver um doutoramento de interface associado àquelas áreas, já seria excelente para a universidade, e em especial para o subsistema Politécnico, mas sempre em interação. Só o subsistema Politécnico terá mais dificuldade em desenvolver o campus de Portimão.

Já fizeram algum estudo do impacto do turismo?

Também tem impacto positivo, mas no geral, do cidadão aqui residente, não é igualmente distribuído, e isso é o principal problema. No nível de formação dos residentes, abandonam muito os estudos, e uma das causas poderá ser porque é mais fácil arranjar rapidamente emprego no turismo, mas é um emprego precário, sazonal, que paga mal. Se a nossa oferta de ensino e de investigação também for diversificada, acho que isso tudo contribui para que a própria região mude.

A universidade, formando, capacitando, em articulação com as empresas, pode contribuir para a diversificação económica, que não seja só turismo. Mas precisa da conjugação com as empresas já estabelecidas. E potenciá-las.

Falávamos de alojamento. Quantas camas existem nas residências?

Temos 558, todas renovadas no âmbito do PRR, e agora estão em construção edifícios que nos permitem ultrapassar as 900.

Para um total de quantos alunos aqui inscritos?

Pouco mais de dez mil estudantes. Para além das duas residências em Portimão que vão estar a terminar, temos um outro edifício que está na posse da universidade, que era anteriormente da Polícia Judiciária. Uma das intenções é tentar fazer uma permuta daquele edifício por outra residência, preferencialmente aqui no campus, mas também pode ser noutra zona.

Fala do edifício da Polícia Judiciária na Cidade Velha? Tem tudo para ser mais um alojamento turístico.

Provavelmente, vamos abrir ou uma consulta, ou fazer uma permuta. Já temos interessados. A própria Câmara está interessada, mas ainda não está delineado. O meu objetivo principal é usar aquele espaço em permuta ou em venda que nos permitisse construir mais camas. É crucial, quer para o estudante português, quer para atrair os estudantes internacionais, pelo menos quando chegam, que tenham o primeiro ano com uma oferta segura de habitação, e que não tenham que fazer contratos à distância. É um aspeto em que vamos pôr de certeza muito empenho em termos mais oferta de camas. Estamos com vontade de abrir uma consulta pública, e depois teríamos que escolher o que fosse mais adequado para a universidade.

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