“Vou abrir uma garrafa de champanhe no dia em que ninguém me perguntar sobre a venda da Meo”

A execução é o foco da CEO da Meo, Ana Figueiredo: "Se criamos valor, criamos para o acionista presente e para o acionista futuro." Quanto vale a operadora? "Aquilo que alguém estiver disposto a dar."

A venda da Meo continua a ser a pergunta inevitável, e Ana Figueiredo não esconde algum cansaço com o tema: “Vou abrir uma garrafa de champanhe no dia em que ninguém me perguntar sobre a venda da Meo”, ironiza, antes de recentrar a conversa na gestão da empresa. A CEO insiste que “decisões acionistas competem ao acionista” e que a administração está focada em executar o plano estratégico, tornar a empresa “mais robusta” e garantir solidez operacional, competitiva e financeira.

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Mesmo num contexto em que Patrick Drahi, o acionista, retirou a Altice Portugal do alcance dos credores e acaba de concluir a venda da SFR em França, Ana Figueiredo rejeita que a possibilidade da venda da Meo condicione a administração. Diz que a empresa investiu 1,8 mil milhões de euros nos últimos quatro anos e que nunca se sentiu limitada na execução do plano. “Se criamos valor, criamos valor para o acionista presente e para o acionista futuro”, afirma. Sobre quanto vale a Meo, evita avançar números: vale “aquilo que alguém estiver disposto a dar por um ativo único em Portugal” — ou, citando Drahi, a “Torre de Belém portuguesa”.

A conversa alarga-se depois à consolidação do setor. Ana Figueiredo defende que o mercado europeu, e também o português, está demasiado fragmentado para garantir a atratividade do investimento. Mas, para que haja consolidação, é preciso haver enquadramento regulatório. É por isso que todo o setor insiste com Bruxelas: “Libertem-nos para poder consolidar internamente.”

Em 2024, o processo de venda da Meo não chegou a bom porto. Em dezembro, o seu acionista, Patrick Drahi, tirou a Altice Portugal do alcance dos credores. Este mês, concluiu o acordo de venda da SFR em França. A venda da Meo é o capítulo que se segue?

Acho que vou abrir uma garrafa de champanhe no dia em que ninguém me perguntar sobre a venda da Meo. [risos] Mas agora, fora de brincadeiras e endereçando a pergunta: esta gestão e eu estamos focados na execução do nosso plano estratégico. Sabemos o que temos que fazer, o que vamos fazer, e estamos focados em tornar esta empresa mais robusta do ponto de vista operacional, mais competitiva no mercado e assegurar a sua solidez financeira. Temas acionistas e decisões acionistas competem ao acionista e não me competem a mim, como CEO desta empresa, comentar.

Ana Figueiredo, CEO da MEO, em entrevista ao ECO Hugo Amaral/ECO

Mas condiciona o contexto, condiciona decisões. Um gestor gere em função do plano que tem e do mandato que tem para o plano estratégico anunciado. De que forma é que isso pode condicionar, limitar opções que são investimentos de longo prazo num plano estratégico?

Mais uma vez, o foco é a execução do plano estratégico. Se criamos valor, criamos valor para o acionista presente e para o acionista futuro. O nosso foco é executarmos de acordo com aquilo que são os fundamentais do negócio. Se formos bem-sucedidos na nossa estratégia e a robustecer a empresa naquilo que são os fundamentais do negócio, não sinto condicionamento. Nos últimos quatro anos, e provavelmente ao longo desses quatro anos, falou-se várias vezes de vendas…

Mas houve um momento, em 2024, em que esteve quase, quase a acontecer.

Falou-se de supostos movimentos e investimos 1,8 mil milhões de euros. Empresas como a nossa, com forte capital intensivo, estão permanentemente a olhar para os vários ativos que têm, a perceber qual é a rentabilidade desses ativos, para fazerem uma melhor alocação de capital naquilo que vai gerar mais valor. Portanto, os últimos quatro anos também foram muito focados em consolidar a nossa liderança, consolidar o crescimento, ou consolidar as apostas que fizemos na diferenciação para garantir o crescimento da Meo, na disciplina operacional e financeira. Em quatro anos, não deixámos de crescer — apesar da contração no último ano — EBITDA, receitas, geração de cash flow, a mais de dois dígitos, tudo numa lógica de garantir a libertação de recursos para continuar a investir.

Aquilo em que temos sido todos vocais, mesmo ao nível de todos os operadores em Bruxelas, é: libertem-nos para poder consolidar internamente.

Para que fique claro, o acionista, em nenhum momento nesta fase — não vou dizer nos últimos quatro anos, mas na fase mais recente —, nunca deu a indicação, apesar do plano estratégico, para conter o investimento?

Nunca me senti condicionada na execução do nosso plano estratégico e esta gestão nunca se considerou condicionada. O que não quer dizer que, ao longo do caminho, por vários contextos, até por contextos externos ao próprio acionista ou ao nosso mercado, não tenhamos que fazer adaptações. Ou seja, temos que ter uma estrela do Norte e depois vamos gerindo e adequando em função de circunstâncias que possam ocorrer. Mais uma vez, o nosso foco é tornar esta empresa resiliente, robusta, continuar a investir, continuar a inovar, continuar a modernizar, a diversificar e tornar esta empresa mais robusta e mais sólida. Será bom para o acionista atual ou para qualquer desenho societário que vier a desenvolver-se.

Ana Figueiredo é gestora desta empresa. Vamos fazer uma pergunta fácil, mas se calhar difícil de responder: quanto é que vale a Altice Portugal?

Vale aquilo que alguém estiver disposto a dar por um ativo único em Portugal. Parafraseando o Sr. Patrick Drahi, nós temos a Torre de Belém portuguesa. Quanto é que vale a Torre de Belém de Portugal? Portanto, é um ativo único…

Se estivesse cotada, saberíamos, o mercado dava-lhe um preço. Não estando cotada, olhamos para os múltiplos, olhamos para os resultados, podemos fazer comparações com outros. Mas, para a gestora deste ativo, que conhece os números e tem a visão, não quer balizar o valor da Meo?

A mim não me compete balizar através de um número. A mim compete-me que esse número seja sempre crescente e que amanhã seja maior do que hoje. Como sabem, muitas vezes a valorização da empresa hoje em dia não é como antigamente: é com base em promessas, às vezes, mais futuras do que capacidades de concretização. Acredito que este setor é um setor que vai permanecer relevante, a nossa empresa vai permanecer relevante. Operamos infraestruturas críticas, operamos infraestruturas únicas no país, que nos dão um posicionamento único. A conectividade, mesmo o nosso segmento mais core, mais core, não vai deixar de ser relevante. É óbvio. É por aí que estamos a operar. Portanto, não vou balizar com um número.

Então, deixe-me colocar outra questão. As operadoras, as principais operadoras, têm insistido há anos que vai haver consolidação. No último congresso da APDC ficou ainda mais evidente que não desistem da ideia: Há alguma movimentação de bastidores para que isso aconteça, do que conhece?

É óbvio que não vou responder a essa pergunta.

Eu tenho que a fazer…

Mas entendo que tenha que a fazer. O que discutimos e que tenho dito também, seja aqui em Portugal, seja em Bruxelas, e nas interações que temos com todos os outros grandes operadores europeus, é que o mercado fragmentado como está na Europa não subsiste. O mercado também fragmentado como está em Portugal — quatro operadores para dez milhões de habitantes naquilo que é o segmento core — também não subsiste do ponto de vista da atratividade de investimento e da captação de investimento para continuarmos, mais uma vez, até em benefício do próprio cliente.

Fui vocal na APDC. Não é saber se vai acontecer e quando vai acontecer; a discussão devia ser: para que é que queremos a consolidação? Uma discussão muito mais estratégica, porque criámos esta fragmentação com base em políticas regulatórias. Essas políticas regulatórias tiveram um propósito, serviram esse propósito. Serviram o propósito de aumentar a concorrência, uma orientação também de preço, de democratização do serviço para toda a população, e até possibilitaram o nível de digitalização que temos, tanto em Portugal como ao nível europeu.

Só que hoje precisamos de outro contrato regulatório. Precisamos de um contrato que nos permita continuar a investir, que trabalhe na soberania digital, que trabalhe na competitividade da economia portuguesa, que trabalhe naquilo que é uma ambição que este Governo tem, que o país tem, de ser um hub digital. E isso não se faz sem infraestrutura e sem estruturas modernas.

[As políticas regulatórias] serviram o propósito de aumentar a concorrência, uma orientação também de preço, de democratização do serviço para toda a população, e até possibilitaram o nível de digitalização que temos, tanto em Portugal como ao nível europeu. Só que hoje precisamos de outro contrato regulatório.

O Digital Networks Act não vai ao encontro desses objetivos?

Só para ir também ao ponto da fragmentação: a entrada dos novos operadores tem sido feita através de criar condições assimétricas de mercado. Têm sido sempre os operadores existentes, neste mercado e noutros mercados, que subsidiam a entrada. Não me parece que estejamos a criar a melhor forma de haver concorrência e até de promover a inovação. Quer dizer, quem entra também não tem um incentivo para ser inovador para além de uma única variável. Por outro lado, por que é que estamos a ser cada vez mais vocais, os operadores portugueses e europeus? É que todo o investimento recente em 5G foi feito através da venda de ativos. Todos venderam as suas torres, todos venderam stakes que tinham nas Fiber Co. Como é que vamos gerar investimento?

Já não há muito mais para vender, não é?

Não há muitos mais que tenham muitas coisas para vender. Portanto, como é que vamos gerar capacidade? Porque o investimento em 5G devia ser através de geração de margem, de libertação de margem. Não o foi. A vaga que aí vem, e em que nós queremos estar e queremos estar como país, como é que a vamos financiar? Por isso é tão importante discutir isto. Não defendemos que não haja proteção ao cliente. Queremos que se continue a proteger os interesses do cliente final. Só que não podemos ancorar a discussão, num setor tão essencial para o país, numa única variável, o preço.

Há aí um tema que também compete aos operadores. Os operadores pedem, no fundo, contexto regulatório para uma consolidação. E o exemplo da Vodafone mostrou que é difícil uma consolidação com uma empresa que tinha 1% ou 2% de mercado. Mas, no contexto europeu, o que é que os próprios operadores estão a fazer para a consolidação? Nada impede que uma empresa espanhola e uma empresa portuguesa façam uma consolidação.

Eu respondo à pergunta. Em termos do mercado português, já tivemos processos de consolidação e de fusão. Vejamos o caso da Optimus com, na altura, a TV Cabo, porque era preciso garantir um conjunto de escala e porque havia uma evolução do contexto da indústria para a convergência. Não sei, nem tenho de saber, as conversas que outros operadores europeus estão a fazer. Temos que distinguir dois tipos de consolidação: consolidação dentro do mercado e consolidação transfronteiriça, que provavelmente era onde estavas.

Na Europa é preciso mesmo a transfronteiriça, não é?

Primeiro, temos que cuidar da in-market, ou seja, da nacional. Porquê? Porque, ao contrário dos Estados Unidos ou da China, não temos uma única língua, não temos ainda uma única política, um mercado interno verdadeiro. Temos que fazer infraestrutura e há compromissos e obrigações diferentes de país para país. Portanto, a primeira consolidação, e aquilo em que temos sido todos vocais, mesmo ao nível de todos os operadores em Bruxelas, é: libertem-nos para poder consolidar internamente. Em Inglaterra, no UK, já está concretizada; em França está a haver; em Espanha houve consolidação. Mas vejam só o processo, o tempo que demorou o processo de consolidação da MásOrange: durou um ano e meio. E depois traz sempre remédios, que às vezes anulam as sinergias da consolidação.

Não estou a desculpar-nos, temos que fazer mais, por isso é que tenho andado em vários fóruns a discutir este tema com outros meus colegas, mas é uma circunstância. Por isso é que também me tenho batido para que tenhamos que mudar o quadro regulatório. Ainda sou do tempo em que normalmente se definia uma política económica e depois havia as várias derivações: as políticas de investimento públicas, as políticas regulatórias e assim sucessivamente. Acho que, à Europa, o que está a faltar, e não é por falta de relatórios nem de diagnósticos, é uma definição clara do que queremos fazer. E, para executar, temos provavelmente que quebrar algumas regras que seguimos até hoje.

Estamos agora na fase de implementação a sério da diretiva NIS2, que tem uma questão muito específica: a realização de uma nova avaliação de segurança como aquela que, em 2023, redundou na controversa decisão de excluir equipamentos da Huawei das redes 5G. Essa nova avaliação tem de ser realizada nos próximos meses. Acha que essa deliberação, que depois veio a ter esse impacto, deveria ser revista ou revertida nesta janela de oportunidade?

Foi uma avaliação de segurança da CAS, da Comissão de Avaliação de Segurança, que definiu que havia um conjunto de fabricantes que eram high-risk vendors. Nós, Meo, e eu própria, já manifestámos a nossa opinião sobre esse tema: não vemos, naquilo que foi a decisão da CAS e nas componentes que foram decisão da CAS, um risco de segurança. Sempre cumprimos, em termos de desenvolvimento das nossas redes, todos os parâmetros de segurança. Desenvolvemos a rede 5G e selecionámos os fornecedores que estávamos a utilizar para o desenvolvimento da rede em função também daquilo que eram requisitos de segurança à altura. Gostava também de clarificar que o nosso core da rede nunca foi de nenhum desses high-risk vendors identificados.

Discordando ou não da decisão, cumprimos a decisão, que era o swap das antenas móveis, que nós não consideramos que coloque em causa a segurança. A nossa grande preocupação é que temos que admitir que não há muitos fabricantes mundiais deste tipo de tecnologia. Neste momento temos três. Dois, efetivamente, são europeus [Nokia e Ericsson]. E com os dois trabalhamos também para outras componentes e outros layers da rede. Portanto, retira, mais uma vez, capacidade e liberdade aos próprios operadores também na componente de investimento.

Relativamente à decisão, foi nomeada uma nova CAS. Esta tem um prazo, efetivamente, como referiu, para rever a decisão tomada. Neste momento, já estamos a implementar aquilo que foi acordado com a própria CAS na altura e com o Governo português, e aguardaremos as decisões que vierem a ser tomadas.

Mas antecipa alguma mudança radical naquilo que foi decidido em 2023?

Estamos expectantes. Espero que não haja mudanças radicais àquilo que foi o nosso plano acordado. O que advogamos é que, face ao contexto, consideramos que deve haver uma prorrogação do prazo para fazer o swap, mas estamos a cumprir integralmente aquilo que é a primeira fase. A primeira fase que foi acordada e o plano que foi acordado estamos a cumprir e iremos cumprir. Existe uma segunda fase. Já tivemos algumas interações com a CAS anterior e manteremos o diálogo com esta CAS, mas aguardaremos a decisão. Na segunda fase, queremos enquadrar a substituição dos restantes equipamentos nas zonas que não foram consideradas relevantes com o ciclo de vida útil.

No final do dia, a questão é saber quem paga isto, daí o pedido de indemnização, não é?

Exato. Ou seja, isto é uma alteração de contexto, é uma alteração de uma regra. Como sabem, este investimento em 5G foi feito até numa assinatura formal, que creio que foi no Palácio de Queluz, entre o meu predecessor… Isto é uma alteração. E a alteração tem um custo de investimento. Mais uma vez, é um custo que é gerado e que eu poderia estar a investir em outros…

Mas pode detalhar de onde é que vêm estes 81 milhões de euros, quase 82, que exigem agora ao Estado? É substituição pura ou tem impactos de mercado, impactos comerciais?

Não, é substituição dos equipamentos e os custos associados a essa substituição.

No final, esta fatura, se a vossa pretensão for avante, acabará por recair sobre os contribuintes.

Não me compete a mim comentar. O que queria acrescentar é que acho importante, quando definimos políticas estratégicas de segurança, soberania — em que nós não estamos em desacordo —, encontrar os mecanismos adequados de transição. E esses mecanismos não devem ter um custo que deve ser repassado a um privado que está a investir e que investiu. E eu não devo estar a ser prejudicada face aos outros operadores e concorrentes nessa matéria. É só isso.

Relatório da auditoria interna pós-Operação Picoas “foi disponibilizado às autoridades competentes”

Após as primeiras buscas da Operação Picoas à sede da Altice, no verão de 2023, o grupo Altice lançou uma “auditoria interna” para averiguar as circunstâncias do alegado esquema que lesou a empresa e o Estado. A investigação criminal prossegue, mas o relatório com as conclusões dessa auditoria nunca foi tornado público.

Aliás, a Procuradoria-Geral da República confirmou, em março de 2025, ao Público, que esse documento “não se encontra junto ao processo”.

Questionada sobre esta diligência, Ana Figueiredo confirma que “foi produzido efetivamente um relatório com conclusões” que “foi disponibilizado às autoridades competentes”. O relatório foi solicitado “pelo acionista” e “ele próprio disponibilizou a informação”.

“Temos colaborado com as autoridades”, acrescenta a gestora, que recusa “divulgar” qualquer detalhe adicional sobre um “processo que está em segredo de Justiça”.

No entanto, a CEO da Meo não esconde a expectativa com o encerramento deste caso que marcou a história do grupo, incluindo a nível internacional, e que envolve a anterior administração: “Estamos expectantes para a conclusão do processo.”

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