Uma agência criativa de 14 pessoas com ligações ao PSD gere o motor informático das escolas. As falhas nos exames abriram a caixa negra de um sistema 'low cost' ainda sem explicações do Governo.
- A Blat - Creative Powerhouse, anteriormente conhecida como Antebellum, tornou-se o centro de uma controvérsia relacionada com falhas na plataforma de classificação de exames nacionais.
- O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) adjudicou 126 contratos no montante global de 11,35 milhões de euros a várias empresas na última década, mas a Blat apenas recebeu 49.455 euros em contratos públicos.
- A falta de transparência sobre os contratos e a responsabilidade pela plataforma levanta questões sobre a confiança no sistema de avaliação educativa em Portugal.
Antebellum descende do latim e é uma palavra que descreve o período que antecede um conflito, o tempo de tensão acumulada antes de a guerra rebentar. Foi esse o nome escolhido, em 2020, para uma pequena agência de comunicação lisboeta: Antebellum – Outsourcing Creativity. Seis anos depois, já rebatizada de Blat – Creative Powerhouse, essa mesma empresa tornou-se protagonista involuntária de uma tempestade bem real com epicentro na plataforma que classifica os exames nacionais.
O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) adjudicou, na última década, 11,35 milhões de euros a um conjunto de empresas através de 126 contratos registados no portal BASE, um valor que cobre desde consultoria pedagógica a equipamento informático, passando por segurança de redes e serviços de computação em nuvem, e apenas uma fração corresponde à tecnologia que hoje sustenta a Plataforma de Classificação e Supervisão, entretanto no centro de uma polémica nacional depois de falhas terem obrigado a adiar notas e a segunda fase de exames do secundário.
O problema mais sensível concentra-se numa pequena parcela desse montante, longe dos milhões que dominaram o debate público nas últimas semanas. A Blat, empresa apontada como responsável pela plataforma de classificação, regista apenas dois contratos públicos com o IAVE, cujo valor total se fica pelos 49.455 euros, tendo o último sido contratualizado a 13 de abril de 2023, com um prazo de duração de 153 dias.
As contas mais recentes da Blat revelam uma empresa com uma faturação abaixo dos 580 mil euros e um lucro de apenas 4,95 mil euros em 2024 (depois de ter registado prejuízo no ano anterior), onde trabalham apenas 14 funcionários nos seus quadros.
A questão adensa-se com o vazio contratual dos últimos três anos. Sem novos registos oficiais, fica por explicar como é que uma agência com pouco mais deu ma dezena de trabalhadores garante a manutenção e o funcionamento de um sistema informático complexo, capaz de processar as notas de centenas de milhares de alunos a cada ano.
Essa opacidade ficou ainda mais evidente quando, numa visita ao centro de digitalização de exames, Fernando Alexandre admitiu que havia “duas plataformas distintas” em causa — uma do EduQA, responsável pelo processamento e distribuição de respostas, e outra da Blat, associada à correção e classificação — sem, porém, clarificar de forma completa o histórico contratual e técnico de cada uma dessas peças do sistema.
- Plataforma de Processamento e Tratamento, desenvolvida internamente pelo EduQA (o “chapéu” institucional que passou a integrar o IAVE), é responsável pela receção dos ficheiros digitalizados, pelo seu processamento e pela distribuição das respostas pelos professores classificadores. Foi aqui que ocorreram as principais falhas: além de erros de programação na distribuição das respostas, incluindo folhas de continuação cortadas e distribuição incorreta de itens, a Deloitte, chamada de urgência para apoiar o processo, identificou também uma falha de segurança que obrigou à suspensão temporária da plataforma.
- Plataforma de Distribuição e Classificação é o sistema onde os professores acedem para corrigir os exames, disponível em “pcs.iave.pt”. Esta segunda plataforma, conhecida internamente como PCS (Plataforma de Classificação e Supervisão), incorpora o SCOI (Sistema de Classificação Online do IAVE). É da responsabilidade da Blat – Creative Powerhouse.
O ministro afirmou ainda que a colaboração para esta operação remontava a 2018, uma data que os próprios contratos desmentem: a empresa que assinou o contrato original nesse ano foi a Blatstudio – MAF – Serviços, com sede e número de identificação fiscal diferentes dos da atual Blat – Creative Powerhouse, que só foi constituída em 2020 e apenas assumiu esse nome em 2022. A confusão, longe de ser um pormenor semântico, alimentou as dúvidas sobre a forma como o Governo apresentou o histórico contratual de uma empresa cuja relação com o Estado carece de documentação pública proporcional à responsabilidade que lhe foi confiada.
Confrontada pelo Expresso com as acusações de responsabilidade pelo caos na classificação, a Blat rejeitou qualquer culpa nos problemas centrais do processo. “A Blat não é responsável pela digitalização das provas, controlo de qualidade, submissão de ficheiros, gestão de utilizadores, definição de que provas são classificadas, quando o são ou por quem, nem por quaisquer outros procedimentos operacionais do processo de classificação”, respondeu a empresa. Segundo a Blat, a plataforma “limita-se a disponibilizar aos classificadores os ficheiros tal como os recebe dos sistemas externos” e a exibir as provas “quando a entidade competente assim o entender”.
A empresa confirma ter “desenvolvido a plataforma de classificação para o IAVE/EduQA, sendo responsável pelo seu desenho e desenvolvimento, de acordo com as especificações definidas pelo IAVE/EduQA, intervindo mediante solicitação deste”, e revela ainda um dado que reescreve parte da cronologia oficial: o SCOI foi criado internamente pelo próprio IAVE em 2016, dois anos antes do primeiro contrato conhecido com a Blatstudio – MAF, e a empresa foi chamada a desenvolvê-lo apenas nos anos seguintes, tendo produzido quatro versões sucessivas da plataforma, inicialmente pensada para a avaliação de provas totalmente digitais.
A atual polémica surge porque esse sistema, desenhado para um universo mais restrito, passou a ser usado também para mais de 300 mil exames originalmente feitos em papel, digitalizados e depois carregados na plataforma para distribuição aos professores classificadores, um salto de escala que a arquitetura original nunca foi pensada para suportar.
O Ministério da Educação ainda não esclareceu publicamente que contratos e valores pagou à Blat fora dos dois registos visíveis no portal BASE. Este silêncio reforça precisamente o ponto central desta investigação: o hiato contratual permanece sem explicação oficial.
O que compram os milhões que o IAVE distribuiu pelas empresas de tecnologia
Antes de perceber o que falta explicar sobre a Blat, importa esclarecer o que o dinheiro do IAVE efetivamente financia. Dos 126 contratos analisados pelo ECO desde 2016, a maior fatia isolada pertence à Axianseu II Digital Consulting, marca que opera sob a bandeira Axians e integra a Vinci Energies Portugal, subsidiária da francesa Vinci.
Com quase quatro décadas de história, os últimos números públicos revelam que a Axianseu II Digital Consulting — que já foi Octal – Engenharia de Sistemas e depois Novabase Digital — faturou quase 45 milhões de euros em 2024, teve um lucro de 3,35 milhões de euros (quase 40% acima dos números do ano anterior) e emprega 448 pessoas.
- De acordo com o portal BASE, a empresa do grupo Vinci, assinou com o IAVE, em julho de 2025, um contrato de cerca de 1,5 milhões de euros para desenvolver uma nova plataforma de classificação, a mesma que o ministro Fernando Alexandre reconheceu estar em construção para substituir os sistemas atuais. Porém, a Axians tem-se distanciado da controvérsia, revelando ao Público que a empresa “não desenvolveu a plataforma atualmente em uso para a correção e classificação das provas, que tem sido objeto das mais recentes notícias”, esclarecendo ainda que o projeto GAEBS que lhe foi adjudicado pelo IAVE — a plataforma de gestão de inscrições e divulgação de resultados — “não corresponde, por isso, à plataforma que tem sido referida”.
- Outra parte significativa do bolo de contratos adjudicados pelo IAVE ao longo da última década destina-se a segurança informática. A Bravantic Evolving Technology, antiga Informantem, rebatizada em 2022 e detida a 100% pela holding Nextinforman – Investimentos Empresariais, faturou 67 milhões de euros em 2024, contando com 86 colaboradores e várias certificações de qualidade. Segundo o portal BASE, esta empresa recebeu do IAVE cerca de 736 mil euros para fornecer soluções de rede e proteção ao ambiente digital dos exames, ainda que enfrente um processo judicial movido pela Cipher – Consultoria em Segurança de Informação, no valor de 117,3 mil euros.
- Destaque ainda para o serviço de computação em nuvem (cloud), que tem sido adjudicado à Magic Beans, uma empresa detida pela Precog Ventures de Vítor Manuel Ferreira Martins Rodrigues, certificada pela Amazon Web Services, que faturou 3,6 milhões de euros em 2026 e recebeu 500 mil euros do IAVE para infraestrutura cloud das plataformas de provas de 2025 e 2026.
Há ainda contratos mais discretos, como os celebrados com CPITI, que forneceu equipamento informático e digitalizadoras para os júris regionais, a Intuitivo, que desenvolveu a aplicação que os alunos instalam nos seus computadores para realizar provas digitais, e a Pearson Education, multinacional britânica, que prestou consultoria técnico-pedagógica na transição para exames baseados na Teoria de Resposta ao Item.
Porém, nenhuma destas empresas, note-se, é apontada como responsável pelas falhas que motivaram a atual polémica. Essa responsabilidade recai, segundo as informações disponíveis, sobre a plataforma gerida pela Blat.
O passado de Antebellum e o ‘mistério’ de uma plataforma paga a preço de saldo
A Blat – Creative Powerhouse nem sempre teve este nome. Constituída a 17 de janeiro de 2020, nasceu como Antebellum – Outsourcing Creativity, Lda, e só adotou a designação atual em novembro de 2022 — coincidência temporal com a revelação, nessa altura, de que uma das suas sócias acumulava funções no gabinete do presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Sediada na Avenida Infante Dom Henrique, em Lisboa, com o domínio blatstudio.com como cartão de visita, a empresa dedica-se a design, gestão de redes sociais, desenvolvimento tecnológico e produção audiovisual — um perfil de agência criativa, distante do que seria esperado de uma fornecedora de infraestrutura crítica do Estado.
Financeiramente, a Blat é uma microempresa. As contas de 2024 revelam uma faturação abaixo dos 580 mil euros, um lucro de apenas 4,95 mil euros (depois de ter registado prejuízo no ano anterior) e apenas 14 funcionários nos seus quadros. O capital social, de pouco mais de 11 mil euros reparte-se entre André Valente Carmona Fernandes (53,99%), Eduardo Assunção Passos (35,99%) e duas sócias com 5% cada: Inês Valente Fernandes e Inês Filipa Ramalhete Catarino. É precisamente esta última sócia que estabelece a ponte entre a Blat e o PSD.
Entre 2018 e 2023, e entre 2023 e 2026, não existe qualquer contrato publicado que documente manutenção, suporte técnico ou desenvolvimento contínuo da plataforma de classificação de exames.
Em novembro de 2022, o Observador revelou que Inês Catarino, então gestora de redes sociais da empresa, era também assessora de Carlos Moedas na Câmara de Lisboa, auferindo 4.615 euros mensais — um valor acima do vencimento do próprio presidente –, com histórico de participação em campanhas sociais-democratas.
Um despacho do Boletim Municipal de Lisboa, publicado em julho do ano passado e assinado pelo próprio Carlos Moedas, formalizou o fim dessa colaboração com um louvor público ao “inexcedível empenho, competência, rigor e disponibilidade” da assessora.
A esta ligação política soma-se um episódio de segurança digital nunca oficialmente confirmado. Em maio de 2026, terá circulado na dark web informação de um alegado ciberataque à Blat, que exporia mais de cem registos detalhados de deputados do PSD (nomes, moradas, contactos e perfis de redes sociais), além de contas de correio eletrónico de associações académicas e mais de 1 milhão de linhas de comunicações internas da empresa com os seus clientes, incluindo corpos das mensagens, timestamps, identificadores de utilizador, anexos e histórico de conversas
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O ataque nunca foi confirmado pela Blat, pelo PSD ou por qualquer entidade pública nacional. Não há notícias de que a empresa tenha notificado a Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), como exige o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) em caso de violação de dados pessoais.
Mas a circunstância de um ataque a uma agência criativa de comunicação ter exposto dados pessoais de 127 deputados do PSD sugere que a Blat Studio mantém ou mantinha uma relação de trabalho com o PSD, presumivelmente na gestão de redes sociais, comunicação digital ou outro serviço de marketing político, que é consistente com o objeto social declarado da empresa.
Esse silêncio ganha ainda mais peso quando se olha para os números que sustentam o relacionamento da Blat com o Estado. No portal BASE, os únicos dois registos públicos que ligam a marca Blat ao IAVE somam exatamente 49.455 euros, mas são, a rigor, contratos assinados por duas entidades juridicamente distintas.
- O primeiro, de 2018, foi celebrado com a Blatstudio – MAF – Serviços, Lda (NIF: 506197956), com sede na Rua Dr. Pereira Bernardes, n.º 9 B, em Lisboa, pelo valor de 30.375 euros, para construir o núcleo original do sistema então chamado SCOI, incluindo o mecanismo de dupla classificação de respostas com redistribuição aleatória entre corretores, sendo o prazo definido de execução de 60 dias.
- O segundo, de 2023, foi assinado pela Blat – Creative Powerhouse, Lda (NIF: 515822426), com sede na Avenida Infante Dom Henrique, n.º 332, pelo valor de 19.080 euros, para atualizar esse mesmo sistema. O prazo de execução deste contrato apontava para 153 dias.
As duas empresas partilham a marca blatstudio.com e uma linha de continuidade nos fundadores, mas têm números de identificação fiscal, moradas e representantes legais diferentes. São, para todos os efeitos legais, pessoas coletivas distintas, o que torna ainda mais opaca a afirmação do ministro de que a mesma entidade presta serviço ao IAVE desde 2018.
Entre 2018 e 2023, e entre 2023 e 2026, não existe qualquer contrato publicado que documente manutenção, suporte técnico ou desenvolvimento contínuo da plataforma de exames. Trata-se de um hiato de anos que contradiz a natureza de um sistema em uso permanente, responsável por processar as respostas de centenas de milhares de alunos em cada edição dos exames nacionais.
A classificação dos exames nacionais depende de um mosaico de pequenas empresas, contratos avulsos e plataformas sobrepostas, sem que exista um quadro claro de responsabilidades.
É este vazio documental, mais do que o valor propriamente dito, que sustenta o pedido do Bloco de Esquerda para a criação de uma comissão parlamentar de inquérito, cujo deputado Fabian Figueiredo resumiu numa pergunta que continua sem resposta: “Quem fez e quem mantém a plataforma, com que contratos e com que dinheiro do PRR, quando não se conhece um único contrato no portal da contratação pública?”.
A pergunta ganhou ainda mais peso depois de o próprio Ministério da Educação não ter respondido, quando confrontado sobre a existência de contratos adicionais com a Blat fora do portal BASE. Mais do que a disputa técnica sobre quem programou o quê, o que fica à vista é um problema de transparência institucional.
A classificação dos exames nacionais depende de um mosaico de pequenas empresas, contratos avulsos e plataformas sobrepostas, sem que exista um quadro claro de responsabilidades nem um registo público completo que permita perceber quem responde pelo quê quando algo corre mal. É neste contexto que o Presidente da República pede uma resolução rápida dos problemas e insiste que a confiança entre alunos, famílias e sistema de avaliação “fique intacta”, sublinhando que ninguém pode sair prejudicado pelo falhanço de uma infraestrutura que deveria ser sólida.
Uma empresa que nasceu com o nome do período que precede a guerra tornou-se, sem que ninguém o tivesse planeado, o símbolo do momento que antecedeu a atual crise de confiança no sistema de avaliação educativa português.
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A microempresa por trás do caos nos exames nacionais que abriu uma crise de confiança no sistema
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