Angélica Salvador, a primeira mulher brasileira a conquistar uma estrela Michelin fora do Brasil

Chegou a Portugal em 2005 e nessa altura só conhecia as cozinhas de casa. Hoje lidera um restaurante no Porto e tem no currículo um das mais importantes distinções gastronómicas que um chef pode ter.

  • Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal

Este ano, no dia 28 de agosto, cumprem-se 21 anos desde que Angélica Salvador chegou ao Algarve e já vive há mais tempo em Portugal do que aquele que passou no Brasil. 2026 é também o ano em que a chef do restaurante portuense In Diferente se tornou a primeira mulher brasileira a conquistar uma estrela Michelin fora do Brasil, e a apenas a quarta mulher em Portugal a consegui-lo. “Voltava a fazer tudo igual”, diz ao ECO. “A minha aventura calhou-me superbem”.

Verão de 2005. Desafiada por uma amiga que tinha familiares a viver no Algarve, a paranaense Angélica Salvador, que tinha sido jogadora de andebol, põe de lado o plano de fazer o vestibular para estudar Desporto, tira o passaporte, compra um bilhete de avião e uma mala e muda-se para Albufeira, um sítio que nem sabia apontar no mapa. Deixa um trabalho que hoje soa a arqueologia – uma ‘locadora de vídeo’ – e cinco dias depois, 2 de setembro, começa a trabalhar como copeira no restaurante do hotel CS Salgados.

Nunca tinha trabalhado na restauração e só retrospetivamente se pode dizer que cozinhar era um prazer ou um interesse. “Sempre gostei de cozinhar com a minha mãe e a minha avó”, lembra. “Quando diziam, a mim e à minha irmã, ‘uma cozinha e a outra arruma’, eu preferia cozinhar. Gostava de estar na cozinha, fosse a fazer arroz, feijão ou churrasco, mas nada que me dissesse que ia ser cozinheira”.

O grupo hoteleiro CS extinguiu-se, mas este arranque mudou-lhe a vida: entrou numa cozinha profissional e conheceu Tiago Bonito, cozinheiro, hoje seu marido. “Ele ensinou-me e ajudou-me. Nunca me deixou desistir”, conta. Em março, também ele subiu ao palco da gala Michelin, no Funchal, pelo seu trabalho no Éon, do Palacete Severo, também no Porto. São primeiro casal a consegui-lo em Portugal.

“O meu currículo são as pessoas com quem trabalhei”

O percurso de Angélica Salvador fez-se em paralelo com o de Tiago Bonito. “Onde ele ia, eu ia”. Do Algarve seguiram para Coimbra, depois Setúbal, o único sítio onde trabalharam juntos (“sem ninguém perceber”), voltando novamente a sul. A chef passou pelo Sheraton e pelo Vila Vita Parc, “outra grande escola para mim”, e, então, aceitou um convite para ser subchefe no hotel Júpiter, em Lisboa. Finalmente, o casal rumou ao Porto. Tiago Bonito liderava a cozinha da Casa da Calçada e ganhou a sua primeira estrela Michelin, Angélica Salvador assumiu o Cafeína.

“Nunca pude fazer um curso de cozinha”, diz. “O meu currículo são as pessoas com quem trabalhei, as pessoas a quem pedi que me ajudassem. Tive muita sorte de trabalhar com grandes chefs. E, claro, Tiago Bonito o primeiro de todos. “Dizem que atrás de um grande homem há uma grande mulher, mas atrás de uma grande mulher também está um grande homem”. Foi com ele que abriu o In Diferente, na Foz do Douro, a 18 de outubro de 2018.

Contemporânea, brasileira e portuguesa

A cozinha de Angélica Salvador é “contemporânea portuguesa com um toque brasileiro”. Os seus menus incluem bacalhau, sim, mas também ingredientes do outro lado do Atlântico como milho, acerola, maracujá ou tucupi, um produto extraído da mandioca-brava da Amazónia, que a cozinheira chegou a trazer na mala de uma das suas viagens. Nas cartas do In Diferente já tiveram um snack de feijoada desconstruída, barriga fumada, pão de queijo e uma moqueca de camarão, que alguns clientes “ainda pedem”. Defende: “Fine dining é isso: inovação, mas nunca desvalorizar a base.”

As memórias jogam um papel importante nas suas criações, conta, tal como as opiniões de Tiago. Numa sobremesa inspirada nas festas juninas do Brasil, quis ter pipocas, paçoquinha e gelados de milho. “O Tiago perguntou por que não acrescentava algodão-doce. Ele pensa no sentido contrário e fazemos coisas mesmo fixes”, diz. Mesmo sem trabalharem na mesma cozinha, as ideias continuam a nascer a dois. “Se tenho uma dúvida, é a primeira pessoa a quem pergunto”, conta. Um cria, o outro procura o ângulo contrário. Angélica usa uma expressão brasileira feita à sua medida: “É a tampa da minha panela”.

“Começámos por servir almoços e jantares, agora só servimos almoço e jantar ao sábado”, diz. “São evoluções e riscos que temos de correr, fui fazendo devagarinho. Queremos evoluir mais, mas no tempo certo”. Em 2021, entraram na lista de Bib Gourmand do Guia Michelin, este ano seguiu as pisadas de Maria Alice Marto (1993), Marlene Vieira e Rita Magro (2025) e esteve no palco com Catarina Correia (2026). Conquistou a primeira estrela.

O que quero é preservar o que conquistámos: equipa, clientes e fornecedores. São as três bases. E aperfeiçoar ainda mais

Angélica Salvador, chef

A distinção trouxe visibilidade e, nesse aspeto, o seu restaurante e não é diferente de outros restaurantes. Aumenta o interesse e aumentam os preços. “Fizemos uma pequena alteração mas não tínhamos feito no ano anterior”, diz Angélica Salvador.

Mesmo com distinções no mais importante guia de gastronomia, não são imunes ao ciclo económico e à irregularidade das reservas que se sente no sector, diz a chef. “Na mesma semana, há uma noite em que podíamos rodar a sala duas vezes e outra em que se fica a meia casa”, diz Angélica. O objetivo é só um: manter o restaurante cheio de terça a sábado” e, frisa a chef, fidelizar é importante. “Todos precisamos de faturar, mas não quero que as pessoas que entram pela minha porta sejam apenas pessoas que entram pela porta”. Há clientes que regressam de propósito para cumprimentar a equipa e voltar a experienciar uma refeição e esses são, num restaurante de fine dining, onde a repetição é menos provável, clientes que valoriza.

Ainda não fala da segunda estrela. “O que quero é preservar o que conquistámos: equipa, clientes e fornecedores. São as três bases. E aperfeiçoar ainda mais”.

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