• Especial por:
  • Diogo Almeida Alves

As 5 lições de Pocahontas para todas as idadespremium

Este filme de 1995 retrata uma história com factos reais passada no século XVII entre uma indígena ameríndia e um colono inglês, e que, curiosamente, tem algo a ver com Portugal.

Num mês de março que começou com o dia internacional contra a discriminação (dia 1), que contemplou o dia mundial da vida selvagem (3), o dia internacional da mulher (8), o dia do pai (19), da eliminação do racismo e dia internacional das florestas (21), dia mundial da água (22) e por fim, da luta contra o esclavagismo (25), não poderia escrever sobre outra história que não Pocahontas. Este filme de 1995 retrata factos reais passados no século XVII entre uma indígena ameríndia e um colono inglês, e que, curiosamente, tem algo a ver com Portugal.

1. O ouro, o medo do desconhecido e a importância do pensamento crítico

Segundo o Tratado de Tordesilhas, a América teria que ser dividida entre Portugal e Espanha, mas a rainha inglesa Elizabeth I ignorou esse acordo e enviou John Smith, capitão da marinha britânica para iniciar a colonização da parte norte do continente americano.

O filme começa com essa viagem rumo ao “Novo Mundo”, havendo uma latente ignorância e sentimento de superioridade por parte da tripulação, pensando que vão “construir coisas novas, ensinar o povo e melhorar a vida de muitos selvagens não civilizados". Quando lá chegam e começam a escavar a terra à procura de ouro, questionam-se vezes sem conta porque o estão a fazer, para quê, e para quem. Referem que estão a fazer “trabalho de escravo”, transmitindo uma inteligente dupla mensagem, e fazendo uma alusão clara ao impacto que a falta de clareza e de propósito nos objetivos a alcançar tem na motivação das pessoas e das equipas.

Há ainda uma expectativa irreal sobre o ouro amarelo que existe no “Novo Mundo” que, na verdade, é... milho. Nos dias que correm, a agricultura continua a ser um setor geoestratégico destacado em várias tensões geopolíticas nas últimas décadas. A analogia de Lester Brown de que “os alimentos são o novo petróleo, e a terra o novo ouro” não podia ser mais atual.

2. A emergência de lideranças distintas

O filme tem em três das suas personagens centrais, estilos de liderança completamente distintos.

O governador Radcliffe sabe que os membros da corte inglesa não gostam dele, e que a conquista do "Novo Mundo" é essencial para transformar a sua reputação. Como tal, está disposto a tudo para o conseguir, “liderando” através das ameaças e do medo. Radcliffe diz aos seus soldados que "só são homens se souberem disparar uma arma", fazendo referência ao eterno debate sobre a posse de armas nos EUA e a uma metáfora, não só de defesa pessoal como de “reforço da sua masculinidade”. Quando Radcliffe se apercebe que Smith é capturado, refere que “não teria planeado melhor”, aproveitando a insegurança e desnorte dos soldados para aumentar a sua raiva contra o povo indígena, sendo este um traço comum a muitos dos populistas atuais (lembremo-nos da recente invasão do Capitólio).

Ao contrário de Radcliffe, Smith é visto como um líder pelos seus pares, com grande sentido de equipa e espírito de sacrifício. Ao longo do filme, vai transmitindo que a sua luta é, antes de mais, interior. Nunca encontrou “um lugar onde quisesse ficar”, mas está disposto a mudar e a evoluir através da aprendizagem com Pocahontas e a avó Willow (a árvore que simboliza a mãe natureza), procurando sensibilizar Radcliffe para colaborar com os indígenas.

Talvez a cena mais representativa sobre este filme no nosso imaginário seja a cena em que Pocahontas está, de cabeça erguida, à frente de John Smith quando este lhe aponta uma arma. Apesar de apresentar dúvidas sobre qual o melhor caminho a tomar ao longo do filme, Pocahontas tem consciência da importância das decisões que tem pela frente. O equilíbrio e a ponderação são-lhe intrínsecos, associados a uma dose de aventura e de reconhecimento de que a tomada de risco é essencial para alcançar a felicidade.

3. Da tradição à evolução, da diferença à aceitação, da discriminação à colaboração

Enquanto a música de abertura do filme no navio dos ingleses apela à conquista e à procura de riqueza, a música seguinte invoca à tradição e ao respeito pela natureza e pelo seu ritmo.

A postura dos “conquistadores” é bastante diferente da dos “conquistados”: uns escavam e avançam pelas florestas dentro; os outros são aconselhados pelos espíritos a esperar e a observar primeiro, dado que nada sabem sobre o seu inimigo. Depois, envolvem também os povos vizinhos numa luta que é de todos. Esta é uma mímica tão atual e essencial, a da defesa de um bem comum, da proteção das florestas e da natureza, e por conseguinte, do planeta.

Já na relação entre Smith e Pocahontas vemos uma tónica bem distinta, que vai desde o destaque até à aproximação das diferenças, seja na língua, cor da pele ou forma de vestir, resultando numa lição de aceitação e colaboração, porque o “vento é composto por muitas cores”.

4. Uma lição de empoderamento jovem e feminino

A relação entre Pocahontas e o seu pai é também marcante. Ele deseja que Pocahontas lidere o povo no futuro, mas tenta forçar o seu casamento com Kocoum, um forte e leal indígena.

Pocahontas refere que os seus sonhos e o vento (que simboliza o espírito da sua mãe) estão a guiá-la noutra direção. Depois de conhecer John Smith, tenta convencer o pai a liderar através do diálogo, dizendo que é tão importante falar, como escutar.

Na cena final de guerra iminente entre os ingleses e os indígenas, Pocahontas diz ao seu pai para não escolher “o caminho do ódio” e que se ele matar Smith, terá de a matar também. Ela acaba por fazer o pai mudar de ideias e este reforça que Pocahontas tem uma “sabedoria maior do que a sua idade”, sendo uma metáfora importante para o nosso dia-a-dia pessoal e profissional, de escuta ativa, de compreensão e aprendizagem mútua, que devem ultrapassar todas as diferenças de idade e de experiência, num mundo cada vez mais veloz e digital.

5. Ouvir e respeitar a natureza

A afirmação de Smith de que o “Novo Mundo deve ser igual aos outros todos” é poderosa, refletindo uma ambição desmedida dos colonos, desvalorizando o impacto na natureza e nas pessoas. Esta é uma lição bastante atual se pensarmos no impacto que a crise climática tem nas comunidades locais, sobretudo em territórios do globo social e economicamente mais desfavorecidos.

Na ausência da sua mãe, Pocahontas procura o conselho da avó Willow, que lhe transmite que ela deve incorporar vários inputs importantes, como a água, o vento, as plantas e os animais, como o guaxinim Meeko (animal selvagem) e o cão Percy (animal doméstico), que ultrapassam algumas quezílias iniciais para no final se juntarem e darem a bússola de Smith a Pocahontas, simbolizando que ela encontrou o seu caminho.

“O vigor das raízes” da avó Willow e os seus “mais de 200 anos” representam a intemporalidade da natureza e o facto de, geração após geração, a termos de defender e proteger para que continue o seu curso. É também Willow que indica a Pocahontas e Smith que, tal como as correntes dos rios, a vida também tem muitas ondulações, e de que só juntos poderão impedir a batalha entre os seus povos.

*Diogo Almeida Alves é cofundador da TippingUp e partner na The Human Story.

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