Bancos vão pagar valor recorde de 3,5 mil milhões de euros em dividendos, quase 70% do lucro obtido no ano passado. É o setor mais generoso com os acionistas à frente de retalho ou energia.
Depois de um novo ano de resultados históricos em 2025, os bancos vão ser bondosos com os seus acionistas e preparam-se para distribuir um recorde de 3,5 mil milhões de euros em dividendos. Para os bolsos dos acionistas irão 6,6 euros por cada dez euros de lucro que os bancos registaram no ano passado, de acordo com os cálculos do ECO.
Os seis maiores bancos nacionais — Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, Santander Portugal, BPI, Novobanco e Banco Montepio — reportaram resultados líquidos de 5,3 mil milhões de euros no ano passado, o que representou uma subida de 6% em relação ao ano anterior.
Os lucros resistiram ao aperto da margem financeira por conta da descida das taxas de juro. E agora 66% serão repartidos pelos acionistas – o chamado payout, que mostra a generosidade na partilha dos resultados por parte das empresas.
Em comparação com os setores da bolsa, e depois de uma década devastadora, a banca é agora mais generosa no que toca a dividendos, à frente do retalho, energia, indústria, logística e telecomunicações e construção. Quem vai dar mais?
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Caixa com dividendo para a história
Grosso destes dividendos irá para o bolso dos contribuintes por via da Caixa. De um resultado recorde de quase dois mil milhões de euros, o banco público liderado por Paulo Macedo vai entregar 1,25 mil milhões ao Estado, correspondendo a um payout de 66%.
Será um dividendo histórico porque será o maior de sempre na banca portuguesa, mas também especial para a Caixa, porque, com esse pagamento, salda toda a ajuda que recebeu no processo de recapitalização de 2017.
Facto que foi recentemente reconhecido pelo primeiro-ministro na celebração dos 150 anos da Caixa: “É um elemento assinalável da gestão do banco e das finanças públicas” e “dá credibilidade ao sistema financeiro e performance financeira do Estado”, declarou Luís Montenegro, defendendo a existência do banco público.
“Termos um banco com capitais exclusivamente públicos é fundamental para a estabilidade do sistema financeiro. É bom para servir melhor as pessoas e as empresas e é bom para estabilizar o sistema financeiro”, salientou.
‘Espanhóis’ mais generosos
Um montante da mesma magnitude vai a caminho de Espanha (1,24 mil milhões), com o Santander Portugal e o BPI a transferirem 813 milhões e 428 milhões às suas casas-mãe.
Com tem sido hábito, os dois bancos ‘espanhóis’ são mesmo os mais generosos da praça portuguesa, com ambas as instituições a distribuírem 84% dos resultados obtidos no ano passado.
No caso do antigo Totta, já havia transferido 280 milhões para Madrid em 2025 em jeito de dividendo antecipado e agora vai dar mais 530 milhões.
BCP dá 500 milhões para ter “acionistas satisfeitos”
Depois de lucros acima de mil milhões de euros, o BCP avançou com um reforço da sua política de distribuição de resultados com um payout que pode ir até aos 90%.
Mas apenas 50% dos resultados vão ser distribuídos sob a forma de dividendo, cerca de 509 milhões de euros. Os restantes 40% serão canalizados para os acionistas através de recompras de ações, programa que sai reforçado face à anterior política (que previa um plano de shares buyback de 25%).
Os dividendos vão assumir um lugar de maior relevância na estratégia do BCP que está em vias de profundas mudanças na sua estrutura acionista. A Fosun está a avaliar a possibilidade de sair do banco português e a explorar opções para a sua participação de 20%.
Não é um tema novo e também há rumores em relação à saída da Sonangol, o outro acionista de referência. Quando questionado sobre a possibilidade de ver os dois grandes acionistas deixarem o BCP, o CEO, Miguel Maya – que vai continuar para um novo mandato até 2029 –, considerou ser um processo normal dada a situação mais sólida do banco. E até referiu que a banca europeia tem praticamente mais de 90% do seu capital disperso em bolsa.
Nesse caminho de normalização da sua base acionista, Miguel Maya acena com dividendos para ter acionistas e investidores felizes com o investimento no banco.

Franceses espreitam outros 500 milhões no Novobanco
Em relação ao Novobanco, está prestes a mudar para mãos francesas. E se o BPCE quiser já ‘amortizar’ parte do investimento de 6,4 mil milhões de euros na compra do banco português, pode já tirar um dividendo de cerca de 500 milhões de euros.
Embora o Novobanco ainda seja detido pela Lone Star e pelo Estado português até final deste mês, os lucros do ano passado ‘pertencem’ ao grupo francês. O banco liderado por Mark Bourke obteve um resultado de 828 milhões de euros em 2025, acelerando 11% em termos homólogos. E faz parte da política do banco repartir 60% do lucro pelos donos.
Tem a palavra o novo dono gaulês.
Mutualista queria o dobro, Leitão dá 36 milhões
No Banco Montepio, de onde Pedro Leitão está de saída, haverá lugar a um dividendo de 36 milhões de euros — representando 35% do resultado do ano passado. A Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG) detém mais de 99% do banco e vai ‘engolir’ praticamente todo o dividendo. O cheque sobe 20% para um valor histórico pelo segundo ano seguido, ainda assim, o acionista acha que deveria ser o dobro. Pelo menos é o que acha o presidente da mutualista, Virgílio Lima, que considera que o banco tem potencial para dar mais resultados do que tem dado nos últimos anos.
Pedro Leitão, que levou a cabo um duro processo de reestruturação do banco desde que chegou em 2020, tem uma visão mais prudente sobre a política de dividendos. “Dividendos são questão de responsabilidade, não de vontade”, considerou em entrevista ao Jornal de Negócios em resposta a Virgílio Lima.
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Banca é a mais generosa: quase sete em dez euros de lucro vão para os acionistas
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